sexta-feira, 11 de março de 2011

Crítica do militantismo de causas

Por mais de uma vez, temos criticado a acção daqueles que agem, social ou politicamente, em favor de causas que, supostamente, são do interesse geral.
Gostaríamos de explicar melhor a nossa posição, sobretudo porque ela pode conter uma grave injustiça para muitos, provavelmente até para a maioria.
O que criticamos não é o militantismo, em si, ou as causas que ele tenta promover. Estas, por si próprias têm de ser apreciadas em cada caso, podendo merecer o nosso aplauso, a nossa oposição ou a nossa indiferença.
O que se critica é uma certa forma de activismo, que poderemos qualificar de fanático ou vanguardista, e que deve ser distinguido do militantismo abnegado, compreensivo e altruísta.
Se pensarmos na causa evangelizadora da fé cristã ou na acção expansionista da religião islâmica – dois formidáveis movimentos que, partindo de um foco regional, se estenderam ao mundo inteiro – não podemos nunca menosprezar todos aqueles missionários que, sem violência mas animados da sua própria crença, foram expatriar-se por entre os povos mais distantes, rudes e diversos, levando-lhes o curativo, a instrução e a ajuda solidária, partilhando com eles as dificuldades e os maus momentos e propondo-lhes – de maneira subtil, mais insidiosa ou ameaçadora, sem sempre sem coacção – unicamente em troca a adesão à sua convicção espiritual, e muitas vezes nem isso, de forma totalmente gratuita, como foi frequentemente o timbre das Misericórdias, hospícios e outras obras caritativas cristãs (por exemplo, lares para crianças abandonadas), e provavelmente também acontece em escolas corânicas ou obras assistenciais muçulmanas. Este é o militantismo que deve merecer o respeito mesmo de quem não partilha tais crenças religiosas e que tenderá sempre a inspirar sentimentos elevados de bondade e altruísmo, mais do que gestos de ira ou de violência.
Mas todos também sabemos o suficiente da história (e da actualidade) que nos mostra que essas mesmas causas também inspiraram cruzados e guerras santas (e hoje acções terroristas), com um rasto de sofrimentos sem fim, que não vale a pena aqui especificar. Esse é o militantismo fanático que criticamos.
Em termos mais contemporâneos, foram principalmente as ideologias e doutrinas sociais aquelas que, em grande medida, vieram tomar o lugar dos conflitos religiosos, sempre ao lado dos antagonismos entre povos ou nações (ideologias nacionalistas), por razões de domínio político ou económico (ou de resistência a eles). Ora, também aqui, embora com modos de acção mais civilizados e pacíficos (porque o contexto social assim o exigia), se observam os mesmos dois tipos de militantismo na defesa destas novas causas, quer sejam as ideias socialistas de igualdade que o movimento histórico dos trabalhadores assalariados veiculou, quer sejam os novos movimentos sociais que floresceram no Ocidente nas últimas décadas, ao abrigo da riqueza social e do bem-estar entretanto criado nessas regiões. Tanto na acção política (por exemplo, nas autarquias) como na acção social (ajuda aos excluídos, apoio ao desenvolvimento, atenção às minorias, etc.), todos nós conhecemos e podemos encontrar casos de dedicação e solidariedade exemplares. Mais: sem este militantismo associativo da sociedade civil, não haveria burocracia estatal, por rica que fosse, capaz de socorrer os necessitados com o grau de individualização e de conforto humano sequer comparável àquele que lhes proporcionam, gratuitamente, estes abnegados cidadãos. E o mesmo se poderá encontrar na esfera pública, em particular nos domínios da educação, da saúde e da acção social, ainda que num quadro de desempenho profissional, pela maneira voluntária e graciosa como tantos se envolvem nas suas respectivas missões.
Mas, igualmente podemos encontrar o tal outro militantismo veemente que, a despeito da coragem e dedicação sem limites que possam revelar os seus agentes e até de algumas importantes vitórias que possam conseguir para benefício da maioria, possivelmente arrastará consigo sempre mais inconvenientes do que benefícios. É, nomeadamente, o caso das concepções vanguardistas da acção colectiva (seja social, seja política, ou ainda cultural) em que um grupo de ‘eleitos” auto-designado se arroga o direito de deter uma “verdade” que quer impor a todos, porque está intimamente convencido de que “é para o seu bem”. O movimento socialista histórico conheceu vários vanguardismos mas foi o ‘leninismo’ aquele que mais longe levou esta concepção e mais sucesso teve em múltiplos países e domínios de acção. Actualmente, poucos sabem o que é o ‘leninismo’ mas mais numerosos são os que, com pouca reflexão e conhecimento, dele fazem uso instrumental e prática de acção para fazer vingar as suas causas – que hoje, em países como o nosso, são menos políticas do que sociais e culturais: das causas ambientais aos direitos humanos, das diversas “minorities” ao feminismo, dos movimentos juvenis às novas religiões.
Em todos os casos, apreciamos e valorizamos o militantismo solidário, pacífico e racional; mas criticamos e desconfiamos dos militantismos fanáticos e vanguardistas. Entre ambos, há também lugar para um militantismo de luta, mas esse pode ser analisado noutra oportunidade.
JF/12.Mar.2011

1 comentário:

  1. Uma questão, que sendo uma provocação espero não ser interpretada apenas nesse sentido: não será um exercício de vanguardismo a avaliação empírica de quais sejam os militantismos vanguardistas e os solidários? Não estará tal exercício sujeito a erros e, portanto, encobrir maior ou menor simpatia pela causa em causa?

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