quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Um ano charneira

Tal como outros que deixaram marca na História, o ano de 2017 pode ter representado o início de uma viragem significativa na relação do Ocidente com o resto do mundo e no seu próprio modo de viver, a que nos habituámos nas últimas décadas.
Numa União Europeia desunida, bloqueada e incapaz de resolver os problemas económico-financeiros que a afligem, o resultado do referendo do “Brexit” foi o sinal de alerta de que algo de fundamental iria mudar nas instituições estatais (não excluindo até a independência democrática da Escócia ou da Catalunha) e nas suas relações com a Rússia e a Turquia. Do que não há dúvidas é que os nacionalismos renasceram na Europa e se está apagando a chama congregadora e federalista que tantas esperanças despertou depois das hecatombres guerreiras de século XX.
O segundo choque foi, como é sabido, a eleição do milionário Trump para presidente dos Estados Unidos. O seu discurso “fácil e popular” foi suficiente para vencer nas urnas os aparelhos partidários tradicionais, os mass media e a opinião pública mundial mais esclarecida e ilustrada. As suas suspeitas ligações com o autoritário Putin, que domina “à moda antiga” um país-continente e possui o segundo maior arsenal nuclear do mundo, são de molde a deixar inquietos os mais independentes dos observadores e também outros países de mão-de-obra barata que concorrenciam alguma da indústria transformadora norte-americana. E, noutro sentido, veremos até onde irá a retórica anti-chinesa e as medidas que poderá tomar contra o provocador líder norte-coreano. Em todo o caso, trata-se de uma personagem aberrante para as funções que lhe foram atribuídas e da qual se pode esperar sempre o pior, em especial quando ele termina as suas fases espetando o dedo e dizendo convicto “Believe me!”.
O reaccionarismo anti-posmoderno do “homem da melena amarela” é ainda coisa de somenos importância, em comparação com os disparates internacionais que podem provir da Casa Branca, mas há atitudes imperdoáveis, ao lado de outras mais entendíveis. Não falo agora da sua xenofobia estrutural, a que uma parte do povo americano já está a dar, nas ruas e nas instituições, a merecida resposta. Refiro-me antes à travagem que o Sr. Trump tenta impor face aos excessos “vanguardistas comportamentais” em que as esquerdas do Ocidente têm sido pródigas nos últimos 30 anos. Depois da justa luta pela igualdade posível entre homens e mulheres, pela liberdade de crença e os direitos humanos essenciais, a esquerda ficou sem causas a partir do momento em que o operariado se “aburguesou” e uma larga e diversificada “classe média” passou a ter papel decisivo nos pleitos eleitorais. Daí a “necessidade” de inventar “novas causas” – cada qual mais ousada do que a anterior – mesmo que a miséria material ainda continuasse a grassar na maior parte do planeta!
As derivas direitistas de muitos governos democráticos têm este como um dos seus principais factores explicativos. Sempre pensei que tal afã vanguardista (a partir do exercício do poder) viesse a suscitar um movimento retrógrado por parte das grandes massas asiáticas, africanas e sul-americanas, para quem as imagens das nossas riquezas não compensam completamente a integralidade dos seus antigos modos de vida, apesar de paupérrimos. Mas não imaginava que tal fissura viesse a acorrer no interior dos nossos próprios países de cultura ocidental. É claro que, com as ameaças terroristas e as migrações maciças de refugiados e outros migrantes desgraçados, não faltam ideólogos e militantes xenófobos ávidos de lançar gasolina na fogueira. Na Europa ocidental, não o esqueçamos, residem (números redondos) 5 milhões de muçulmanos na Alemanha (turcos na sua maioria), 7 milhões em França e largas centenas de milhar na Áustria, Bélgica, Reino Unido ou Holanda, muitos deles com dupla nacionaldade. No conjunto da Europa, são milhões os cidadãos que professam uma religião islâmica, o que poderia ser uma excelente aquisição civilizacional se não fosse o actual clima de confronto e intolerância, que não parece deixar de ganhar sempre novos adeptos.
Os resultados dos diversos processos eleitorais de 2017 não touxeram grandes novidades, com a prevista dinâmica populista de direita, talvez menos catastrófica do que se temia mas acentuando os efeitos sobre as políticas nacionalistas de grande parte dos países (sobretudo a leste) e a já há muito pressentida decadência da unidade europeia, sempre ameaçada por uma falência italiana e pelos riscos cisionistas em Espanha, nas ilhas britânicas e em outros lugares, sendo difícil antever de que forma o projecto de relançamento europeu do sr. Juncker poderia alcançar algum sucesso. Falta saber o que conseguirá realizar o presidente francês Macron, com um programa moderado mas arrojado e contundente em certos aspectos, com a urgência com que tem de ser aplicado. E na Alemanha, cuja trágica história recente ainda pesará na consciência dos seus cidadãos, a vitória da Srª Merkel e correspondente derrota do SPD mostrou o acerto da política de equilíbrio e sensatez da chanceler nos últimos anos, da sua inteligente aceitação dos refugiados do Próximo-Oriente, mais a sua demarcação do Brexit, da Turquia e do Sr. Trump, ficando agora a interrogação sobre que governo conseguirá formar e acerca da orientação financeira que poderá ser seguida, após tantos anos sob a direcção do irascível Sr. Schäuble e a tensão sempre existente com o Banco Central Europeu. Veremos também como avançará a tão esperada reforma financeira da UE, com o sorriso nervoso de Centeno à cabeça do “eurogrupo” e a renovação do tendem franco-alemão. Porque da Itália, com novas eleições em breve, não é difícil prever o prolongamento da sua quase-ingovernabilidade, dados os partidos e as regras existentes.  
No Médio-Oriente, extinguido o domínio terrotorial do Daesh, fixada a presença russa e prolongada a indeterminação sobre o futuro dos Curdos – acendem-se agora rivalidades político-religiosas entre estados soberanos até aqui menos evidentes. Sem menosprezar o peso do Egipto e da Turquia (e da Argélia na região do Magrebe e da África Ocidental), é certo que a Arábia Saudita e o Irão – apesar da aparente unidade na condenação de Israel, numa Palestina de novo em Intifada – são as duas potências regionais com maior influência financeira e ideológica que vêm agora mostrando interesses conflituantes entre si, hesitando o Ocidente sobre qual delas preferir ou esperando o seu desgaste mútuo para depois colher algum benefício. Um pouco a mesma postura é a da Rússia para uma região onde conseguiu meter uma cunha muito forte na Síria, numa altura em que se prepara para renovar o mandato autoritário de Putin, sempre com as rédeas do poder em mãos desde que entrámos no século XXI. Mas o radicalismo político islamita não acabou: além da Al-Kaeda, dos Taliban, do “Estado Islâmico”, do Al-Shabab, do Boko Haram, do Jamaa Islamiah, do Hezbolah, etc., há o Hamas e outros extremistas palestinianos. E é tão fácil explorar as fraquezas do Ocidente…
Da África negra vieram nos últimos tempos notícias algo surpreendentes, a quebrar o marasmo dos fumos de corrupção e abusos de poder de que sempre se ouve falar em Moçambique ou na África do Sul, para não citar outros casos muito mais graves. A sucessão e o desempenho inicial do novo presidente João Lourenço em Angola são uma novidade que levanta algumas expectativas, apesar das relações destas grandes ex-colónias com a antiga potência colonizadora (hoje pequena e in-potente) serem sempre delicadas, como também acontece com o Brasil. Mas sobretudo os episódios de fim-de-“mandato” de Mugabe no Zimbabuè abrem maiores interrogações sobre qual o encaminhamento futuro dessa antiga colónia inglesa, outrora economicamente próspera sob o punho da minoria branca (a certa altura capitaneada pelo “rebelde” Ian Smith) e onde a libertação pelos guerrilheiros independentistas, em vez de progresso e igualdade, abriu uma outra senda de violências e descalabros.
Em outros países das periferias mundiais encontramos perturbantes situações de descalabro social onde, além das antigas misérias, se acumulam negócios e corrupção, e tiques ou ensaios de novos exercícios ditatoriais, vide a Venezuela (“bolivariana”), o Perú (ex-“chino”), a Bolívia (índia), a Argentina (pampera) e o Brasil (da Odebrecht) na América Latina, ou as Filipinas no Sueste Asiático – curiosamente, todos países de anterior colonização ibero-católica – contrastando com o toque britânio deixado na Índia, no Ceilão, Singapura ou Hong-Kong.
Finalmente, o resultado eleitoral na Catalunha do dia 21 p.p., com uma vitória dos partidos independentistas, frustrou a “jogada política” do Sr. Rajoy e voltou a pôr as coisas no ponto em que estavam antes do atribiliário referendo de 1 de Outubro. Com a diferença, perante o impasse, de se ter talvez aberto um espaço negocial entre Barcelona e Madrid (que leve à tão falada quanto difícil Constituição Federal), ainda que eventualmente à custa da queda do actual governo e do recurso a umas novas eleções gerais, de prognóstico completamente reservado. De uma coisa parece não haver dúvidas: ficam à vista as limitações implícitas neste modo de organização do poder político nacional e o desgaste dos mecanismos legais-institucionais que pode ter, a prazo, consequências insondáveis, apesar do apego da maioria aos métodos de consulta pacífica do parecer das populações.    
Quanto a Portugal, debaixo do olhar atento do condestável do regime e provedor do povo que assenta em Belém, e sobre a base do boom turístico, com juros em baixa e notações em alta, um crescimento económico surpreendente, um futebol-rei em que ninguém ousa tocar e uma oposição desnorteada, a aliança PS-PCP-BE ultrapassou a prova das eleições autárquicas, conseguiu a aprovação do seu terceiro orçamento e prepara-se para tentar cumprir a legislatura, coisa em que ninguém acreditava à partida. Mas o primeiro-ministro perdeu o sorriso e a sobranceria após o desastre incendiário de Pedrógão (a sua repetição em Outubro e, também, os “casos” que se sucederam) e está a transformar o estilo da sua governação. Em direcção a quê? A uma legislatura de maioria absoluta? A conseguir a impensável união das esquerdas? A satisfazer a ambição dos seus, garantindo um poder interno para poder bater-se na Europa? A lograr instalar definitivamente o país na pós-modernidade? (com o que de bom, de mau e, para nós, inevitável, isso significa.) Ou à espera de uma saída airosa para a alhada em que se (nos) meteu? E se o “populismo” de Santana Lopes levar a melhor sobre o rigorismo de Rui Rio, é de prever que a crispação entre esquerda e direita se mantenha em Portugal por mais uns anos, sob a ignorância e o desinteresse da maioria.

Tentemos algum tipo de conclusões:
1ª – Os grandes partidos democráticos tradicionais que, em boa medida, fizeram o mundo pós-segunda guerra mundial (sobretudo a social-democracia e a democracia-cristã), estão todos em acentuada crise; podem ainda reunir o maior número de votos, mas como “mal menor” e sem projecto mobilizador para o futuro. O enriquecimento já não satisfaz a classe média tornou-se irrealizável para todo o povo. No Ocidente, a sua governação parece irrremediavelmente afectada pelo mais básico pragmatismo, negocismo, intrigas, tacticismo politiqueiro e até corrupção. A outrora “superioridade ética” a que se arrogava face aos regimes totalitários e por fazer referência aos mais desprotegidos da sociedade, quase desapareceu. E algo de parecido se poderia dizer do bi-partidismo americano.
2ª – Consequência disto e da chamada “globalização” (que tornou todos os países mais interdependentes economicamente), surgem agora muitos mais agrupamentos partidários, cada qual defendendo a sua causa/ideia particular ou distinguindo-se pelas ideossincrasias das respectivas lideranças. Os governos de base parlamentar vão tornar-se mais difíceis de constituir e funcionar.
3ª – A “grande classe média” criada pela riqueza social disponível é muito (e cada vez mais) heterogénea e dificilmente representável por uma força política coerente.
4ª – Os indivíduos (a quem já é arriscado chamar cidadãos) estão agora mais entregues à sua individualidade, subjectividade e inclinações ideológicas aleatórias, não estruturadas, na exacta medida em que se alargou imenso o leque de informações a que têm acessso e que adquiriram a ilusão de poder escolher e decidir.
5ª – No âmbito não-convencional (das bandas alternativas do ecologismo, do “movimento dos “99%”, do anarquismo ou de algum outro novo humanismo), não surgiu até hoje qualquer força agregadora capaz de galvanizar massas significativas de pessoas, com uma linha estratégica compreensiva, coerente e capaz de dar resposta aos problemas sociais, económicos, políticos e culturais do mundo actual – os quais (não o simplifiquemos!), são complexos.
6º – O “refúgio identitário” étnico ou religioso, o nacionalismo e a violência brutal e anónima que anima certas minorias têm sido as respostas encontradas para esta situação, num mundo que caminha inexoravelmente para uma maior integração sem ser capaz de conviver com as diferenças culturais profundas que identificam cada uma das suas comunidades e que, afinal, deveriam constituir a sua principal riqueza.
7º – Os chamados populismos estão explorando de diversos modos – uns democráticos, outros religiosos e outros mesmo agressivamente autoritários, militaristas ou assassinos – esta desorientação e nova “rebelião das massas”, cujo desenlace só pode ser a guerra ou outras catástrofes da mesma espécie. A própria “esquerda” – que em tempos procurava seguir caminhos de liberdade, justiça e progresso – não se dá conta de que também ela integra hoje esta mesma dinâmica suicidária.
8º - Num país como Portugal, os fenómenos urbanos (os bons e os maus) estruturam e condicionam hoje grande parte da nossa vida em sociedade, enquanto o espaço rural (“os campos”) ainda não encontrou forma de subsistir com a escassa população que lhe resta. É provável que, numa futura reorganização da administração pública, passe a haver um departamento “das cidades”, outro “do território”, outro da “defesa e segurança”, etc., em vez da actual divisão funcional estanque entre ministérios.                      
9º - Finalmente:
-Os sistemas políticos actuais – ideologias, partidos, práticas e instituições – estão longe de representarem cabalmente as grandes clivagens que atravessam as sociedades, sendo urgente a sua renovação.
-Os movimentos religiosos também estão sendo questionados por dilemas e inquietações que afectam a sua unidade interna e a sua credibilidade externa, a saber: a) a mais sustentada crise de religiosidade que o mundo alguma vez conheceu, afectando especialmente a Igreja Católica; b) os problemas que o feminismo moderno levanta, quer às suas bases teológicas, quer à sua ordem disciplinar; c) o perturbante e criminoso fenómeno do abuso sexual de menores e a tantas vezes hipócrita prática da castidade; d) o uso das convicções religiosas como arma política ao serviço de espíritos propensos ao fanatismo (e agora sobretudo usada contra os valores universalistas ocidentais); etc.
-Por outro lado, os efeitos da acção humana sobre os equilíbrios ambientais (indústria, urbanismo, turismo de massas, exploração de certos recursos ou poluição) é também um tema que divide profundamente as opiniões, embora seja patente tratar-se de uma quase-certeza.
-As empresas são outro dos fundamentais actores do nosso tempo, não apenas porque criam riqueza e sustentam o emprego da maioria da população, mas também porque alimentam um sistema económico descentralizado (o tão denegrido “mercado”) e fecharam finalmente o mundo num só. Isto é bom, com a condição de que seja devidamente regulado, se limite o leque de distribuição dos rendimentos, se impeçam os fenémenos de cartelização ou monopólio e se adoptem princípios de um “comércio justo”; mas pode ser péssimo, quando tal não acontece.
-Finalmente, a ciência – um dos principais factores de modernização das nossas sociedades – encontra-se numa encruzilhada complexa entre as fantásticas possibilidades tecnológicas por ela permitidas, os bons e maus usos práticos que a sociedade (e os seus dirigentes) delas estão desde já fazendo, e a (infelizmente escassa) reflexão ética sobre os caminhos que, aos Humanos, serão ou não lícitos percorrer em tais domínios.          
Os enormes desequilíbrios na distribuição da riqueza produzida entre os países existentes no mundo e no interior da maior parte deles, não sendo a única, serão a principal causa das correntes migratórias que afluem à América do Norte e à Europa, e dos campos para as cidades. O Ocidente investe pouco (e mal) no Sul – é sabido! –, depois de uma exploração secular que lhe ajudou a construir a predominância de que ainda hoje desfruta.  Mas lastimável é também que, salvo honrosas excepções, os representantes oficiais dessas populações deserdadas da sorte sejam pessoas de baixa estirpe, que sugam a maior parte dos recursos que àquelas deveriam ser destinados.    
Só uma inversão muito significativa do investimento produtivo em favor dos países pobres do Sul (onde o custo da mão-de-obra será sempre mais barato), forçando-o a um re-investimento local dos seus lucros, poderá travar, a prazo, o apetite desmesurado das massas por este “mundo ocidental” (mas que inclui as moderníssimas cidades do Golfo Pérsico, por exemplo) gerando maciças correntes migratórias de que beneficiam toda a sorte de traficantes e donde provém grande parte das desgraças dos mais frágeis. Além de socorrerem as situações de urgente necessidade, os países ricos têm de passar a destinar uma parte substancial dos seus surplus a projectos agrícolas, industriais e de serviços dos países pobres. Não sei como isso se poderá fazer, num mundo dividido em 200 entidades soberanas e baseado felizmente (apesar de certos entraves) na liberdade de circulação das pessoas, ideias, informações, mercadorias e valores monetários – estes, provavelmente, a terem de vir a ser sujeitos a regras de controlo e equidade mais apertadas.
Porém, no mundo actual, tudo tem o seu reverso. Apesar de Trump e da sua equipa de empresários e generais reformados serem simultaneamente liberais em economia interna e proteccionistas na externa, chauvinistas para com os onze mihões de estrangeiros ilegais que habitam o território mas quererem fazer alguma “política social” para o país profundo que os elegeu, desejarem baixar os impostos mas gastar mais em obras públicas e armamento, etc. – acreditamos que tudo isto acabará por chegar a um certo ponto de equilíbrio, de modo a não provocar rupturas insuportáveis. E que tenha finalmente efeitos benéficos sobre a globalização descontrolada a que temos assistido nos últimos anos. Talvez “os sete” ou “os vinte” venham ainda a ser ungidos por línguas-de-fogo, não das caídas dos céus (que vêm muitas vezes sob a forma de trovões) mas oriundas dos anseios mais profundos – pacíficos e cooperantes – dos povos de que se julgam representantes.
A História deveria ensinar-nos que existem duas espécies de Política. Uma, com “P grande”, que seria a combinação da arte, ciência, sensibilidade e sentido histórico da governação, com vista ao bem-comum das populações, participando e reconhecendo-se estas em tais valores e orientações. Outra, a política com “p pequeno”, que diz respeito à luta pelo exercício do poder sobre os povos no âmbito estatal (e às vezes contra terceiros no âmbio externo), luta dirimida entre cliques rivais, tão capazes de se digladiarem até à morte como de se aliarem para manterem as suas posições de privilégio, de empregarem para isso os meios mais vís e violentos ou de seduzirem a plebe com falsas promessas ou declarações capazes de excitarem os seus mais baixos instintos. Como governo da cidade, só a primeira deveria verdadeiramente interessar-nos. 


Aqui encerramos a nossa colaboração cronística regular desde 2008, primeiro no Blogue “A Ideia Libertária” criado por Claude Moreira em Londres, e em seguida em www.aideialivre.blogspot.com que nos disponibilizou amplamente o seu espaço durante nove anos.
Está em preparação a criação de um novo Site com intenções análogas. A quem interessar, sugerimos que consultem o endereço provisório:  https://aideiablog.wordpress.com/  
Boa continuação!

João Freire / 28.Dezembro.2017

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Memórias navais


Na bibliografia deixada por gente do mar distinguiram-se, mais perto de nós, as belíssimas obras de cronista de um Joaquim Pedro Celestino Soares com os seus Quadros Navais, ou João Braz d’Oliveira com as não menos famosas Narrativas Navais, que nos desenharam imagens e vivências muito características do século XIX português.
Depois, com a viração do século, outros “marujos” escreveram as suas memórias, de um tempo que foi desde a época dos navios à-vela-e-a-vapor até aos alvores do “Estado Novo”, muito espraiada pelos mares ultramarinos até ao Oriente pintado com arte por Wenceslau de Moraes ou Jaime do Inso. Lembramo-nos de Marinheiros de Portugal de Bernardo Mesquitela, de Escola de Mouzinho de Eduardo Lúpi, de No Mundo da Âncora de Travassos Valdez, de Histórias de Marinheiro de Óscar de Carvalho, de Navios e Marinheiros de Emílio da Silva ou ainda das Marinhescas e dos dois volumes de Marulho, de Joaquim Costa (que usava o pseudónimo De Macedo), todos um tanto tocados pelas nostalgias das juventudes já idas.
Na nossa geração, a veia literária de marinheiros tardou talvez mas, quiçá acossada pelo rolo esmagador das memórias e melancolias que são as novas tecnologias de comunicar, aí está agora uma corrente assinalável de gente-do-mar que não quer deixar a praça sem gravar alguma marca literária das suas vivências, sonhos e perplexidades. Como é compreensível, o cenário das últimas guerras coloniais está muitas vezes presente, tal como já acontecera com gente que palmilhou com as suas “botas cardadas” os trilhos e as picadas africanas, de Lobo Antunes a Vale Ferraz (ou àquelas que lhes sofriam os desalentos, como Lídia Jorge), sentimentos que também afloram entre os testemunhos de “cinzentos” que Barão da Cunha tem registado na sua colecção Fim do Império.  
Entre a nova vaga de talentos literários que narram estas aventuras “marujas” podem figurar O Quarto da Alva de Patrício Leitão, A Viagem da Corveta de Manuel Begonha, Era Só Eu e o Mar de Alvarenga Rua, Retalhos de Vidas de Marinheiros de Geraldo Lourenço ou Estórias do Arco da Vela de Roberto Robles. Mais escondidas no interior de relatos factuais, vislumbram-se também os estados-de-alma e sentimentos de diversos protagonistas que estão presentes em A Última História de Goa de Marques da Silva, no livro Bissau em Chamas de Reis Rodrigues e Silva Santos ou mesmo na colectânea Comandar no Mar, agora lançada. Mas, num país de aventureiros que nos legou Camões e Fernão Mendes Pinto e que dispõe agora de editores como Fernando Mão-de-Ferro (Colibri), a Âncora ou a Sextante (de João Rodrigues) dispostos a publicar coisas destas, não espantaria que o excelente e imaginativo ficcionista que é Jacinto Rego de Almeida (outro que não foi dos “insignes ficantes” a que se referia Jorge de Sena) viesse ainda a dedicar um livro a algumas das muitas e engraçadas “histórias da coberta”, que sempre foram sendo propaladas pela inesgotável “voz da abita” e às quais os Anais do Clube Militar Naval (vide Junça e companhia) deram acolhimento durante muito tempo.
Com maior afinação das suas cordas de sensibilidade (marinheira e humana), citaremos ainda os Pedaços da Minha Vida com que nos brindou o Comandante Oliveira Costa (Ó Costa para os amigos) e, numas divagações mais telúricas e continentais, a selecta póstuma de textos de Ferreira Júnior Terra-Mar-E-Guerra (Cogitações de um Marinheiro Alentejano) ou os volumes Caminhando… saboreando e o recente E não só… de António Oliveira Bento. Porém, verdadeiramente surpreendente é o livro Enquanto me lembro há um ano publicado por José Guerreiro – aliás Júlio José Guerreiro das Chagas Torre – o qual, além do mais, nos dá de borla uma lição de como se devia escrever em bom português.
Eis, pois, esta minha crónica de hoje, “mansa como um conto de Natal”, como já alguém escreveu dever ser.


JF / 12.Dez.2017

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Não falhar o alvo

Turgueniev, em Pais e Filhos, fala dos nihilistas russos da geração de 1860 e Dostoievksi desenhou literariamente em Os Possessos um quadro dos jovens do movimento revolucionário populista – os narodniki, os “amigos do povo”, historicamente analisados por Franco Venturi na sua obra Il Populismo Russo – que, nos anos seguintes, enveredaram pela estratégia do terrorismo, visando literalmente aterrorizar os principais vultos do Czarismo e os seus homens-de-mão por meio de atentados à bomba e à pistola. Também Kropótkine (militar, geógrafo e doutrinador do anarquismo, nascido com sangue real) refere largamente este ambiente do radicalismo eslavo nas suas Memórias de Um Revolucionário. Despotismo autoritário e violência justiceira parecem estar inscritos na alma russa.
Entre muitos outros casos, é em 1881, à sétima tentativa, que o Czar Alexandre II é mesmo abatido por um membro do grupo Narodnaia Volia (A Vontade do Povo), o qual morre também vítima da bomba. Para ter a certeza de não falhar, fizera-a detonar no curto espaço que mediava entre si o monarca, que deambulava já desnorteado por uma primeira explosão procurando socorrer os feridos.
A repressão é impiedosa e a Okrana (polícia política) conseguirá muitas vezes infiltrar estes grupos, instruir agents provocateurs, prender e fazer enforcar ou deportar muito dos seus membros, geralmente jovens (homens e mulheres) de famílias aristocráticas ou burguesas, revoltados com a extrema miséria em que vivia o povo russo camponês ou habitando os subúrbios das cidades. O desmantelamento do movimento populista não terminou, porém, com os atentados. A partir de 1902, os Socialistas-Revolucionários enveredaram também por esse caminho e mesmo o Partido Operário Social-Democrata Russo (marxista, onde viria a pontificar Lénine) não desdenhou por essa época financiar a sua propaganda dirigida aos operários com “expropriações” obtidas à mão armada e execuções de agentes-duplos ou dos informadores pagos pela polícia.
O desprezo pela vida (ou o fanatismo) de que deram mostras muitos destes revolucionários impressionou vivamente os grandes romancistas russos da ápoca. Não me lembro bem e não fui verificar, mas tenho ideia que algum desses reputados escritores compôs uma situação em que, no momento de accionar o seu engenho sobre o Czar (ou alguém da sua esfera), o bombista vê interpor-se uma criança e, num repente, lança-se ele próprio sobre a carga explosiva, ficando despedaçado mas poupando assim os circunstantes. De facto, relata Bernard Thomas em As Provocações Policiais que, numa primeira tentativa para matar o odiado grão-duque Sergei, tio do Czar e comandante militar de Moscovo, o revolucionário Kaliaev «não teve coragem para levar a sua àvante» pois «quando ia para lançar a sua bomba, o jovem estudante a quem chamavam ‘o poeta’ viu ao lado do grão-duque, sentada no carro, a sua mulher e os dois filhos». Porém, «a segunda operação, no dia 17 de Fevereiro de 1905, pelo contrário, teve êxito total. Kaliaev, impávido no cadafalso, será enforcado em 10 de Maio do mesmo ano» (tradução do original francês de 1972: p. 229).
A 28 de Fevereiro de 1908, os nossos republicanos Costa e Buiça não estiveram com meias medidas e mataram no mesmo momento o rei Carlos e o príncipe herdeiro, apenas falhando por pouco o infante cadete, sabendo que sucumbiriam logo a seguir sob as balas de polícias e “municipais”, como aconteceu. O facto dividiu ainda mais as opiniões, mas é certo que contribuiu efectivamente para abreviar a queda do regime. Porém, numa revista anarquista também se escreveu que: «Baqueiam os tiranos, morrem os poderosos, exterminam-se os grandes. Mas fica a Tirania, subsiste o Poder, continua a Grandeza. Homens: tendes que fazer obra mais grandiosa do que mudar regimes, criar leis, substituir indivíduos!» (Lopo Gil em Novos Horizontes, nº 13, 15.Abril.1908). Prevenção inútil, pois dez anos após, sob as balas de outros republicanos seus adversários, caía o presidente-rei Sidónio Pais – figura que Marcelo Rebelo de Sousa não se esquecerá de relembrar, de maneira inteligente mas significativa, no centenário de tais acontecimentos.
A pulsão-de-morte que animava estes tiranicidas era, a seus olhos, justificada pela ideia de acabar com a opressão e a miséria que impendia sobre o povo – o qual, aliás, muitas vezes não se sentia oprimido e aceitava a desgraça como uma prova divina. A racionalidade (vindicativa e justiceira) estava então do lado dos revolucionários e a crença fatalista do lado das massas. Hoje, no caso dos terroristas islamitas, é o fanatismo religioso que os anima, enquanto a racionalidade (securitária, instrumental e sequiosa de bem-estar) se encontra na larga classe média-baixa que compõe a maioria das nossas sociedades.  
É importante não falhar o alvo. Mas, ainda mais, não se enganar de adversário.

JF / 8.Dez.2017

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