A IDEIA LIVRE

terça-feira, 21 de março de 2017

Modas… (suite et fin)

Volvamos à política, de novo.
O ex-primeiro-ministro Sócrates Pinto de Sousa tem estado a fazer umas surtidas na vida política activa (no que causa embaraço ao partido e ao governo de António Costa), sem perceber que, independentemente do resultado final do processo judicial, ele não tem qualquer hipótese de desempenhar de novo um papel político no país, em boa parte porque uma fracção substancial da opinião pública já o condenou devido a todos os episódios rocambolescos da “operação Marquês”-GES-PT, etc. (e em que as histórias da Beira Interior, a licenciatura na Independente e o “caso Freeport” haviam sido já prelúdios). É claro que ele sabe isso perfeitamente mas insiste neste esforço de ressurgimento para: no mínimo, pôr de manifesto o que nesta “condenação sumária” exista de ilegal; no máximo, dar vazão aos sentimentos de vingança que o animarão contra todos aqueles que, antes e agora, se não puseram claramente a seu lado: a imprensa, os adversários políticos, os camaradas que promoveu ou ajudou, o próprio partido (hoje, na sua maioria, suponho), bref – quase o país todo.
De facto, Sócrates tem razão no plano estritamente formal de um funcionamento democrático exemplar, que só existe nos discursos dos ideólogos. Aí, ele consegue marcar pontos junto de figuras importantes do PS ou mesmo do regime constitucional saído da revolução de Abril, que engolem com dificuldade que um cidadão possa estar preso durante longos meses, investigado (com as permanente fugas de informação para a imprensa) durante mais de três anos pelo Ministério Público, sem que qualquer acusação seja formulada contra si. Porém, é provável que essas personalidades dormissem de consciência tranquila se os mesmos factos fossem vivenciados por um cidadão anónimo e sem recursos perante a razão burocrática do Estado.
É verdade que a imprensa (e em particular certos “tabloides”) tem feito uma campanha desatada de condenação na praça pública do ex-primeiro-ministro, que se queixa mesmo de “assassínio moral”; que o Correio da Manhã revela periodicamente dados da sua investigação que deveriam estar em segredo-de-justiça, nunca se conhecendo a existência de castigos sobre os autores de tais “indiscrições”. Mas também é certo que têm sido os mesmos “jornalistas de investigação” a denunciar e a levantar pistas que os procuradores exploram depois sobre determinadas personalidades dúbias ou factos suspeitos, nomeadamente de natureza financeira. Sozinha, a Justiça nunca iria tão longe.
Num quadro de liberdade de imprensa, multiplicada pelos meios de comunicação de massas e pelas “redes sociais”, é inevitável que estes atropelos aos formalismos democráticos aconteçam e haja riscos de injustiça nestes “sumaríssimos processos” de julgamento popular. Porém, é preciso ter em conta que só são deles potenciais vítimas o restrito número de pessoas que integram a elite dirigente nacional. Disso estão isentos todos os cidadãos comuns – e esta é a sua principal grande vantagem. Para o estatuto de poder a que aqueles ascendem (de decisão política, económica, de influenciação, etc.), o risco é talvez proporcionado. Tal como será equilibrado o trade off entre a exposição e exploração de certas intimidades a que estão sujeitos os dirigentes políticos e as vantagens pessoais que retiram essa notoriedade, durante e depois do exercício dos seus mandatos (e mesmo sem incluir aqui os casos de corrupção). Não têm, pois, que se queixar nem justificar com isso as altas remunerações a que se julgam com direito (embora estas possam ser banais em comparação com as dos altos quadros das grandes empresas e instituições financeiras ou dos intermediários dos grandes negócios).
É evidente que, tendo como objectivo este estatuto privilegiado, não faltarão os candidatos que, a partir das “Jotas” ou das autarquias, se disponibilizem para uma carreira política dentro das fileiras partidárias. E que os melhores e mais qualificados elementos das novas gerações desprezarão os cargos no Estado e na representação política se esses salários forem inferiores aos que lhes oferecem no privado. Talvez que uma “justa solução” para o caso dos deputados e ministros (e alguns outros cargos de nomeação governamental) pudesse ser a de, dentro de certos limites (mínimo e, sobretudo, máximo), serem pagos ao mesmo nível do que auferiam anteriormente. Mas não ao nível do “trato” passado entre o governo e os administradores da CGD: simplesmente porque o país continua “de tanga” e o que resta de moral social não o consente.
A actual possibilidade de acumulação da função de deputado à Assembleia da República com o exercício de actividades económicas privadas (de juristas, administradores, etc.) surge como aberrante para quem não se conformou já com outras formas de promiscuidade de interesses que se têm manifestado na nossa sociedade. Por outro lado, estimular, por diversas maneiras, carreiras políticas em exclusividade, decerto que eleva o nível de aptidões técnicas específicas dos agentes desses processos, mas favorece as “vias partidárias de realização profissional” e tende a constituir um grupo social com interesses próprios, distanciado das populações que os políticos são supostos servir e representar. Ao contrário dos sinceramente devotados ao bem público que ainda felizmente subsistem – para quem as responsabilidades e os sacrifícios superam de longe as benesses porventura usufruídas –, a satisfação dos apetites pessoais de grande parte dos agentes políticos actuais deve ser conseguida apenas pelo próprio facto de exercerem tais cargos, com a exibição mediática e a capacidade decisória que lhes estão associados, além do conhecimento prático e da notoriedade que adquirem e lhes serão úteis em outros desempenhos futuros.

José Saramago imaginou literariamente um mundo de cegos mas, mais provavelmente, iremos ter no futuro uma população de surdos, tal o chinfrim que provocam as composições musicais dominantes e a maneira como as pessoas as escutam nos seus auscultadores, enquanto não deixam de martelar freneticamente as teclas de tablets e smartphones, activando as “contas” que possuem nas várias “redes sociais”. Reparei há tempos que, com estes novos equipamentos portáteis que as pessoas “digitam”, até os polícias de vigilância na rua se entretêm nesse passa-tempo: dantes, fixavam-nos o olhar, intimidando o honesto cidadão (enquanto o meliante agia pela calada); agora, só quando o acidente ou o incidente rebenta à sua volta é que ele largará a rede comunicativa em que está embebido para soltar o grito de alerta ou agir repondo a “ordem pública”. 
De facto, estamos cada vez mais entrando numa “sociedade comunicativa” onde a diferenciação entre “emissores” e “receptores” perde relevância porque todas as pessoas são simultaneamente as duas coisas. O complexo escritor que foi Ernst Jünger punha as personagens intemporais do seu romance Eumeswil a comunicarem privilegiadamente por via de um aparelho (o “fonóforo”) que não é hoje outra coisa se não os nossos telemóveis, tablets e smartphones. Antecipou assim a época em que a intermediação técnica chegaria até ao plano das nossas trocas orais inter-individuais!
A propósito da expressão redes sociais, diga-se que ela surgiu há mais de vinte anos na teorização de alguns sociólogos, conscientes de que os consagrados conceitos de estratificação e de classes sociais – este de inspiração socialista e marxista mas ambos muito ligados à estrutura do sistema económico – davam cada vez menos conta dos processos de interacção social vigentes nas sociedades mais desenvolvidas, ao mesmo tempo que permitiu esclarecer melhor a natureza e os mecanismos actuantes em certos fenómenos pré-existentes, mesmo nas sociedades tradicionais, tais como os relacionamentos familiares, afinitários e de vizinhança, ou a organização das correntes migratórias.
As companhias de telecomunicações e informática apropriaram-se posteriormente da designação “redes sociais” para denominar os circuitos “em linha” que as novas micro-máquinas comunicativas permitiam graças a uma cobertura territorial cada vez mais extensa de antenas (e mesmo de satélites) e à existência e (sua) posse de poderosos servers e infinitas bases-de-dados. Estas “redes sociais” tecnológicas (Facebook, Twiter, etc.) tornaram-se notáveis em 2008 quando muito ajudaram a ascensão de Barack Obama à Casa Branca e já haviam contribuído para o despejo de Aznar em Madrid. A partir daí, quer nas disputas políticas quer como movimentos de opinião, as “redes sociais” conquistaram um lugar quase tão importante como a imprensa (escrita e falada ou televisionada) como expressões legítimas e consistentes da soit-disant opinião pública. Qualquer campanha eleitoral ou publicitária que se preze não dispensa hoje o uso destes instrumentos. E as pessoas cada vez menos se imaginam sem esses pequenos artefactos comunicativos ao seu alcance, a todo o momento. Graças à tecnologia, comunica-se hoje mais do que se reflecte ou, simplesmente, pensa. É também por isso que o silêncio, condição indispensável para a leitura e para os referidos exercícios (intrinsecamente individuais), é cada vez menos possível na sociedade contemporânea, face aos ruídos de fundo existentes, ao constante apelo musical estético-vibratório e ao ininterrupto fluxo comunicativo, seja ele interpessoal, “viral” ou “de massas”.
Por exemplo, a entrada em funções de Trump – triunfal e contestadíssima – tem desencadeado uma genuína reacção de movimentos espontâneos de repulsa mas também criado oportunidades para certos lobbies alcançarem projecção inusitada para as causas que defendem, algumas delas bem discutíveis. A este propósito – vindo de quem vem –, é bom e altamente significativo assinalar o texto publicado no Público de 7 de Fevereiro último por Esther Mucznik intitulado “O homem da melena amarela”, tal como muitas das posições ultimamente assumidas por Clara Ferreira Alves (apesar do toque petulante que lhe é próprio). E vale a pena referir o filme de Ada Ushpiz Vida Activa: O Espírito de Hannah Arendt, que nos mostra imagens conhecidas (ou menos) mas, sobretudo, que poderão ser abundante matéria de reflexão, ética e política, para quem goste e o possa fazer (pena é que as frases sejam tão fugidias, necessitando-se da sua suspensão sempre que a película seja usado para fins pedagógicos). Eis o tipo de filme que um Rui Simões poderia perfeitamente realizar, por exemplo sobre o itinerário de Jorge de Sena, se lhe dessem meios para isso.
Os jornais têm mudado imenso. Há um século, num país de iletrados como era então Portugal, publicavam-se dezenas de jornais diários e ainda mais semanais. Há meio-século, vários deles mantinham páginas literárias e espaço reservado para a publicação de artigos de história onde colaboravam alguns dos nossos melhores especialistas. Hoje, temos de “gramar” a esperteza-saloia de um rústico, Jorge Coelho, como comentador, ou as coscuvilhices de um Marques Mendes amplificadas à escala nacional. Os jornais limitam-se a reproduzir as pequenas informações já noticiadas na TV, rádio e on line, a algumas reportagens em que os jornalistas procuram sobretudo evidenciar as suas capacidades criativas e a espaços de comentário (ou propaganda?) reservados a uma elite de colaboradores (sempre os mesmos), de quem já conhecemos as manhas discursivas, os apetites e as preferências. Já não haverá espaço para jornais in, formativos? E, a propósito, porque anda o Público ultimamente tão pobre de bons artigos de opinião ou comentário, a despeito de algumas corajosas tomadas de posição de jornalistas como David Diniz ou Manuel Carvalho e tirando as estimulamtes crónicas de João Miguel Tavares? É louvável que queira renovar o stock dos seus colaboradores e manter a pluralidade informativa, mas parece-me que está com dificuldade em acertar num novo elenco sem passar pelos inefáveis Louçã ou Bagão Félix (tal como a televisão o está, com as jovens estrelas Adolfo Mesquita Nunes ou o super-convencido Ricardo Pais Mamede).  

Mas talvez esta seja uma visão ultrapassada, de quem está de saída (embora não aprecie que “nos empurrem”). Se assim for, como dizia o humorista, façam o favor de ser felizes!

JF / 21.Mar.2017


(PS. Recebi há pouco a triste notícia do felecimento do Manuel da Silva Pracana Martins, no último dia 10. Foi um dos meus principais amigos da adolescência mas não nos víamos talvez desde os 18 anos. Por iniciativa do seu também saudoso irmão Zé (que nos deixou mais sós pelo Natal), tivemos um Setembro último uma longa e interessantíssima conversa telefónica e, secretamente, planeava agora visitá-lo em S. Miguel, onde nasceu e vivia. Espero que as últimas horas de ambos tenham sido sem dor, tranquilas e em paz.)   

quinta-feira, 9 de março de 2017

Modas… (sem bordados)

Sic transit gloria mundi! Assim se consolavam os antigos perante a inevitável precariedade das glorificações humanas!... Hoje, o “transit” (ocidental-mundial) acelerou a sua rotação e alargou a base de recrutamento, para o melhor e para o pior.

Como indivíduos “modernos”, só podemos fazer um balanço finalmente positivo dos duzentos anos ultimamente percorridos pela Humanidade: abolimos a escravatura e a servidão; implantámos quase por toda a parte Estados-de-direito formalmente democráticos, em que a população elege os seus governantes; criámos regras jurídicas e mecanismos judiciais para controlar os comportamentos anti-sociais; a economia cresceu enormemente, tal como foram notáveis os progressos da ciência e das aplicações tecnológicas, da saúde pública e da educação popular; começamos a saber explorar o espaço sideral; desenvolvemos uma “classe média” relativamente culta e abonada, donde se recrutam as novas elites dirigentes; os “princípios revolucionários” de há dois séculos (a liberdade e a igualdade) encontraram formas de concretização parcial mas palpáveis; desencravou-se o operariado do ghetto social em que tinha caído e activou-se finalmente o processo da emancipação da mulher; e existem canais de comunicação fáceis entre os líderes nacionais para tentarem entendimentos que salvaguardem os interesses que representam.

Mas, no outro prato da balança, o passivo é também pesado: aumentou provavelmente a distância entre nações no que toca à distribuição da riqueza gerada (ou apropriada), o mesmo acontecendo entre as elites sociais e a multidão dos “deserdados”; as rivalidades “nacionais” e “de blocos”, ou ideológicas, levaram a numerosos confrontos armados, incluindo duas guerras mundiais devastadoras; e a industrialização e a exploração intensiva dos recursos naturais produziram danos fortíssimos sobre o meio ambiente.

Outros processos contêm tensões internas e efeitos mais contraditórios. Por exemplo: a colonização ocidental de parte dos povos da Ásia e de quase toda a África destruiu pela força as socioculturas e as economias locais impondo o seu domínio por largo tempo mas, simultaneamente, abriu-lhes caminhos para uma modernização social que de outro modo dificilmente alcançariam. Também: a economia de mercado capitalista (actualmente globalizada) produziu muitos estragos, mas criou e distribuiu riqueza por muito mais gente, sem qualquer comparação possível com os séculos anteriores. Igualmente: a actual “sociedade da comunicação” abriu estrondosamente as portas da informação e do conhecimento às pessoas e às mais largas massas populares, mas estarão estas culturalmente preparadas para esse salto-em-frente? (ou cairão como patinhos em todas as armadilhas que os mais “espertalhões” lhes proponham?) Ou ainda: a individualização e a secularização ocorridas nas sociedades modernas (com a laicização do Estado) constituíram um progresso civilizacional inestimável mas, levadas ao extremo (como parece estar a suceder), trazem consigo um confronto de egoísmos e, no fim, para os mais frágeis, o desespero do “Homem só” (de que se estão aproveitando os fanáticos religiosos de algumas confissões).        


Há questões em que a tolerância, o excesso de liberdade ou a indiferença acabam por agravar dificuldades de convivência ou integração social. Num plano menor (mas ainda assim significativo), temos entre nós as praxes académicas, sobretudo na humilhação que praticam sobre os caloiros e que, de ano para ano, não dão mostras de abrandar na reprodução clássica do processo praxado->praxista (=oprimido->opressor, em miniatura) apesar do escândalo de alguns casos mediatizados. Os professores (nós, em geral) olham para o lado, os reitores sentem-se incomodados mas impotentes, todos têm receio de “afrontar os jovens” e a cretinice juvenil vai-se reproduzindo, se não em escala, pelo menos em profundidade aumentada. Proibir legalmente também não adianta, pois facilitaria o conhecido encadeamento psicológico da provocação-repressão-vitimização-mobilização alargada. Uma resposta eficaz terá de vir do próprio seio da comunidade juvenil, mesmo porventura através de processos conflituais que venham a desencadear-se entre “tradicionalistas” (da capa preta) e “paisanos” (a “malta” mais liberta de preconceitos). Mas é importante que a academia e os mais altos responsáveis dêem também sinais encorajadores, como felizmente aconteceu no início do corrente ano lectivo com o ministro Manuel Heitor ou com a tomada de posição opinativa do professor Elísio Estanque, de Coimbra. 

Mais sério é o caso dos sem-abrigo e da mendicidade, que também podem entrar neste quadro. Bem sabemos como o Estado-repressor do tempo dos nossos avós deportava para as Áfricas os vadios, misturados com outros indesejados. E, há meio-século, como as pobres peixeiras sem licença fugiam a bom fugir dos polícias de turno. Mas tolerar a permanência de miseráveis, andrajosos e drogados (decerto, alguns doentes) a dormir pelas entradas dos prédios (alguns com cães, numa patética comunhão de desgraças), quando existem (ou seria fácil criar) dormitórios, balneários e refeitórios onde essa gente poderia ser regularmente assistida, não é levar longe demais a liberdade de circular ou permanecer, sem cuidar do ambiente de bem-estar colectivo a que os cidadãos deviam ter direito, ou até da saúde pública? O prestimoso serviço social de apoio que lhes prestam nas ruas diversas associações de solidariedade não tende também ao prolongamento destas situações, alijando por outro lado o Estado das suas responsabilidades? Na verdade, a hipocrisia dos responsáveis políticos revela-se neste pormenor: na zona que frequento em Lisboa, os sem-abrigo desapareceram das ruas durante a semana do Web Summit (e as composições do Metro foram duplicadas) mas, passado o “evento”, tudo voltou à primitiva forma. Valem mais os turistas estrangeiros do que os cidadãos?

Algo de parecido se poderia dizer da autêntica promoção pública que hoje é feita dos “comportamentos LGTB”, ao abrigo da lei e tentando sempre levá-la mais longe, sem cuidar da sensibilidade da maioria. Passou-se da terrível repressão (legal e social) que sobre os homossexuais se abatia para um pólo oposto, em que qualquer observação crítica para certos comportamentos ou normas a este respeito é logo tomada por “homofobia”, tal como o gosto da tauromaquia é tomado como manifestação de ultramontanismo cavernícola e a rejeição de certas práticas e concepções do islamismo tende a ser apostrofada de “islamofobia”.

Neste último caso, parece-nos que deveriam ser feitas várias distinções: a aceitação como residentes (de todos, mas em especial de pessoas de culturas muito diferentes, como a corânica ou a hindu, etc.), ter como contrapartida a verificação de certas condições, entre as quais um razoável domínio da língua e das leis e normas aqui vigentes; a prática daquelas religiões ser livre, mas não subsidiada; a escolarização das crianças ser obrigatória, como para as demais; a poligamia não ser legalmente reconhecida (eventualmente subsistindo no âmbito de outras uniões de facto); práticas de violência doméstica (como as excisões femininas) serem proibidas; em contraposição, o uso de indumentárias tradicionais de certas culturas ou religiões não deveria ser sancionado (para isso bastando a censura social que possam suscitar), salvo para identificação por razões de segurança pública. Apesar das evidentes dificuldades do dilema – simplificando: ignorar/tolerar ou proibir legalmente as burcas ou burquinis nos nossos países ocidentais – tendo a afastar-me das posições manifestadas pelo politólogo André Freire sobre estas matérias (nas edições do jornal Público de 6 e 28.Set.2016), e sobretudo no que toca à sua argumentação relativa a um confronto entre liberdade religiosa e igualdade de género, que endossa um “politicamente correcto” no qual não me reconheço. Neste ponto, vale a pena relembrar o que escreveu Franz Fanon nos anos 50 sobre o papel simbólico do retorno a estes comportamentos sociais arcaicos, em contexto de grande conflitualidade política/civilizacional.

Mas a questão da educação familiar é mais lata e complexa. Todos os espíritos livres e emancipados saudaram o fim legal da indissolubilidade do casamento imposta pela religião católica, que soou o toque de finados à manutenção de muitos lares infelizes e ao regime burguês do “amantizato”. Muito bem: o casal deve manter-se apenas enquanto a mulher e o homem nele livremente acreditarem! É certo que o direito civil procurou acautelar os interesses dos filhos menores e a responsabilidade parental pelo seu sustento e educação. Mas todos sabemos dos dramas que frequentemente se geram nestas situações de desavença, quase sempre em prejuízo dos filhos, e também das mulheres. Isto, para afirmar que não bastam regras de direito para criar e manter um ambiente societal que seja entendido como justo para todos – os casados e os descasados, os solteiros e os recasados – e sobretudo que seja formativo e equilibrante para os filhos pequenos dessas ligações. Ora, é essa “moral social” – premiadora dos exemplos bem-sucedidos e censuradora dos casos traumatizantes – que hoje está terrivelmente ausente na nossa sociedade pós-moderna onde todos os meios parecem lícitos para se atingir um qualquer “estrelato”, seja em Hollywood ou na Reboleira, no mundo do espectáculo ou nas páginas de abertura dos media. As rupturas estéticas ocorridas no século passado na pintura ou na música (ou mesmo na literatura) corresponderam aos traumatismos que abalaram a Humanidade nesses tempos, mas deixaram-nos heranças muitas vezes pindéricas: por exemplo, é muito compreensível que na estética do vestuário predomine agora geralmente o prático, mas o leque alargou-se e integra hoje o feio, o repelente e o desleixado.

Entre nós, fazendo honra ao “politicamente correcto” – de que constitui modelo insuperável a escrita culta e de qualidade da jornalista itinerante Alexandra Lucas Coelho –, as touradas vão rareando dos programas da TV, já aparece na televisão do Estado um repórter brasileiro com o melhor sotaque de Copacabana fazendo aqui o “serviço de rua” (e objectivamente trabalhando contra a língua portuguesa falada em Portugal) e só talvez os programas na rádio de David Ferreira nos recordem o extraordinário talento do saudoso Zé Pracana e se lembrem do dedilhar de António Portugal e da genuína voz nacional do Adriano cantando Trova do vento que passa, o imortal poema de Alegre (que escreveu outras coisas magníficas, mas apenas fez carreira de político de regime). Se, ao menos, este se dispusesse ainda a encabeçar, com outros nomes de ressonância pública, um movimento de opinião contra a avassaladora e estupidificante moda dos comentários futebolísticos nos canais televisivos “de informação”!... (Mas para responder às acusações de “só vermos o copo meio-vazio” que, com razão, nos podem ser dirigidas, saudamos aqui as medidas de política florestal anunciadas no Outono pelo governo em funções, que nos parecem ir no bom sentido e não visarem só a próxima temporada. A ver como se concretizam tais intenções…)

Também o desporto está tornando quase iguais e mais lisos os corpos das mulheres, sendo já poucas as que denotam seios salientes em modalidades de alta competição. A alimentação, o exercício físico, o adiamento da maternidade e aleitamento, e os estereótipos visuais devem estar contribuindo para tal.

Mas como na sociedade-do-efémero quase tudo se sujeita às leis da moda, é reconfortante manter a esperança de que também amanhã irá passar a actual moda corporal e vestimentária “do diferente e do bizarro”. Os industriais e vendedores hão-de inventar novos produtos de sucesso para continuar a alimentar as suas “máquinas de lucros” e a economia em geral. Talvez que então as mulheres desgostem das botifarras-à-tropa, dos pés mal cheirosos enfiados em chanatos com as unhas grosseiramente pintalgadas! Que os rapazes se libertem dos cortes de cabelo “à tijela” e da transpiração das sovaqueiras pouco lavadas, como se estivessem sempre a praticar desporto! E que proliferem os estaminés especializados em limpar tatuagens, antes que um Big Brother tenha montado um registo mundial dessas marcas identitárias pessoais!

Mas chega, por agora, de lamentações e maus presságios!


JF / 10.Mar.2017

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Uma ordem pública mantida sob coacção policial não dá quaisquer garantias de futuro. E quanto à ordem internacional…

Uma em cada três ou quatro semanas, surgem novidades capazes de nos surpreender ou obrigar a olhar para trás. Foi ainda há poucos dias e todos estaremos recordados da “inacção voluntária” dos elementos da Polícia Militar do estado do Espírito Santo, no Brasil, uma invulgar forma de luta reivindicativa em que as mulheres dos polícias bloquearam as saídas dos quartéis durante uma semana reclamando aumentos de 40% dos salários dos seus maridos para compensar o agravamento do custo de vida. Felizmente, já não estamos nos tempos em que a ordem pública chegava a ter de ser assegurada pelo exército que, quando necessário, espingardeava manifestações populares de protesto. Porém, devido a razões antigas e já de si significativas, as principais forças de polícia brasileiras funcionam sob regime militar, onde a greve é infracção criminal severamente punida, mas são pagas e dependem operacionalmente dos governos estaduais, uns mais ricos do que outros, uns com as contas equilibradas mas outros em quase-descalabro financeiro e com os salários dos funcionários em atraso. Resultado prático: a ausência de policiamento traduziu-se num aumento em flecha da criminalidade nas cidades de Espírito Santo, com mais de cem mortos numa semana. O conflito lá se resolveu por negociação informal mas o caso merece reflexão, se a ele juntarmos vários outros, como as práticas, habituais em muitos países africanos, de os polícias e outras autoridades menores do Estado usarem dessa qualidade (ou da arma que trazem à cintura) para extorquir dinheiro de quem lhes está ao alcance, ainda por cima à la tête du client.

No curto prazo, isto resultará do facto de grandes massas de funcionários, trabalhadores, camponeses e lúmpen-proletariado urbano terem acesso às imagens do mundo rico e poderem agora confrontá-las com a sua estagnada pobreza. Mas os processos são de longo prazo e superior complexidade, envolvendo as dinâmicas do desenvolvimento técnico-económico e social, a actual “globalização”, bem como o sistema de relações internacionais gerado após a segunda guerra mundial, a descolonização e a queda do “império soviético”. 

O “equilíbrio do terror” atómico e o cálculo racional dos líderes dos dois blocos evitou o colapso da humanidade e há setenta anos que praticamente não se fazem guerras entre estados nacionais. Mas os conflitos armados não diminuíram por isso, apenas tomaram outras formas: guerras subversivas, civis, religiosas, sectárias, civilizacionais, terrorismo, no ciber-espaço, etc. E, contra estas, o Conselho de Segurança da ONU tem tido pouca eficácia.

Um segundo dado de enorme relevância é o facto – também novo, no presente contexto de mundialização – de, nos territórios onde o Estado se dissolveu (geralmente após a queda de regimes ditatoriais) se ter entrado numa situação de descontrolo, de poderes-de-facto exercidos à força das armas, com toda a sorte de arbitrariedades, exploração dos mais desmunidos, tráficos ilegais, exílios forçados e bandos à solta de senhores-da-guerra: são os chamados “Estados falhados” (como a Somália, o Sudão, o Iémen, a Líbia ou a Síria). Aqui, nem as ajudas das instituições de socorro e solidariedade das Nações Unidas têm sido suficientes.

Mesmo noutros contextos, são muitas as situações relatadas em que a ausência de forças policiais instaura uma espécie de perigosa “lei da selva” e bem mais raros os exemplos de comunidades capazes de, nessas circunstâncias, assegurarem a sua auto-defesa de forma controlada, sem deixar que tal vazio seja ocupado por um qualquer gang de fanáticos ou traficantes.

Por outro lado ainda, as pressões económicas agigantaram a capacidade de as grandes potências e os impérios empresariais multinacionais coagirem os países mais fracos, aumentando a distância entre o nível de vida médio das suas populações. Isto, no exacto período em que a mobilidade dos factores (mercadorias, pessoas e capitais) mais se acentuava, o mesmo acontecendo com a informação e o conhecimento científico.  

Quem são os responsáveis deste estado de coisas? Para além da resposta óbvia e verdadeira mas largamente inconsequente – ou seja, “o sistema” –, se é preciso apontar o dedo a alguém, esses terão de ser os dirigentes políticos e os grandes empresários que tomam as decisões essenciais e se atribuem rendimentos milionários, bem acima das médias dos seus países.

Mas, ao contrário do que em tempos alguns pensaram, não basta – e será mesmo geralmente perigoso – desbancar do poder essas elites, sem que exista uma ideia-directriz alternativa ao modelo vigente de organização do Estado-nação e de correcção do funcionamento da economia mundializada que existe. E, com base nessa nova ideologia (que tem de ser plural, embora assente em alguns pilares firmes), se constitua um movimento político (igualmente plural) capaz de prosseguir duradouramente com estruturas organizativas e capacidade de acção para finalmente lograr os seus propósitos reformadores mais decisivos. Mas, desde já uma observação fundamental deve ser feita: apesar da extrema diversidade sociocultural do nosso mundo presente (que hoje está unificado pela economia e pela comunicação), é indispensável que tal ideologia e movimento integrem totalmente todos os povos e nações do mundo, e não sejam um novo produto feito à medida da intelligentsia dos países mais desenvolvidos. É também óbvio que deverão aproveitar da herança democrática o melhor que esta pôde oferecer à humanidade (liberdade, igualdade cidadã e civil, renovação do mandato dos governantes eleitos, observância de regras impessoais, decisão pela maioria com respeito pelas minorias, etc.), mas rejeitem sem tibiezas ou compromissos os aspectos mais nefastos que a sua longa prática proporcionou: partidos-gémeos irremediavelmente desavindos, oligarquização partidária, eleitoralismo, populismo, caudilhismo, compadrio e corrupção.       

Há trinta ou quarenta anos atrás, nós próprios partilhámos a convicção daqueles que achavam que, afastados os poderosos dos seus lugares de mando, o bom-senso, a nociva experiência vivida e a “sociabilidade natural” das gentes apoiariam maioritariamente uma nova organização do poder político e de auto-controlo da liberdade económica, sustentáveis e de qualidade humana bem superior ao antecedente. E que, na ordem externa, o banimento do militarismo e um esforço significativo de desarmamento – mesmo unilateral, capaz de desencorajar moralmente um potencial agressor – pudessem ser suficientes para inaugurar uma era de relações internacionais baseada na cooperação, em vez da competição agressiva ou da dominação. Os efeitos perversos da auspiciosa estratégia de acção não-violenta de Gandhi – com os conflitos intercomunitários, a partilha da “grande Índia”, a disputa do Pundjab, o seu próprio assassinato, o apetite da China sobre o Tibete, a escalada nuclear, o intratável Afeganistão, etc. – deviam logo ter-nos feito compreender que não bastava o alto valor moral daquele tipo de luta.

O lema “si vis pacem, para bellum” foi quase sempre usado para mascarar ânsias de poder nacionalista ou imperial e para alimentar os lucros dos negociantes de armamento, sejam empresas ou estados. Mas (embora possamos estar com uma visão perturbada por acontecimentos que oxalá possam vir a ser superados por negociações ponderadas e razoáveis) tudo nos leva a crer que a paz universal continuará a ser uma bela miragem – pela qual é bom que alguns se batam, para que não o esqueçamos – e que, entretanto, seja preciso que as armas existentes estejam em mãos confiáveis e sirvam para controlar a violência e manter a paz, civil e mundial, e não para o inverso. 

Hoje, parece evidente que – devendo ser afirmados os mesmos valores de liberdade e equidade social – actores políticos como os islamitas radicais, os senhores Putin e Trump, o governo chinês e o norte-coreano ou o neo-fascismo à espreita em alguns países europeus, embora muito diferentes entre si, exigem respostas mais ousadas e eficazes que, porém, nem a moderação liberal ou conservadora nem “as esquerdas” (em geral) estão em condições de protagonizar – pela razão simples de que também são co-responsáveis pela animação do sistema que nos governa. (Apesar de tudo, a leitura de uma biografia de Churchill como a escrita por Sebastian Haffner ajuda-nos a compreender melhor as subtilezas da relação que existe entre a política convencional e os grandes fenómenos da vida mundial. Em contrapartida, o Estaline de Sebag Montefiore só nos pode deixar emporcalhados pela criminosa orgia de sangue, álcool, mentira e loucura que ressaltam dos factos e pela técnica pessoalizada, humana até, da sua narração.)

Aos pensadores do futuro e aos homens e mulheres práticos das gerações actuais (libertos dos vícios da “política politiqueira”) cumpre, portanto, a ingente tarefa de reinventar um destino plausível e mais risonho que afugente as sérias ameaças que nos rodeiam.

JF / 24.Fev.2017

(Julgo que esta é a minha declaração política mais importante dos últimos anos, certamente fruto de frustração e pessimismo.)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

É você pobre, remediado ou rico?

Se quer entreter-se ou melhorar a sua auto-consciência sobre esta sua localização relativa ao mundo em que vive, pegue num pedaço de papel e faça este simples exercício de uma conta de somar.

Ganha actualmente menos de 600 Euros líquidos mensais em salário ou pensões? Marque 0. Se é superior mas não atinge os 4 mil Euros, marque 1. Se ganha mais do que isso, marque 2.

Se é proprietário de casas arrendadas, some mais 1. Se além disso também recebe rendas de terras agrícolas, pastagens ou pinhais, acrescente 2.

Se nos três últimos anos teve um ganho extraordinário proveniente de negócio, herança, ou lotaria superior a 3 mil Euros, adicione 1. Mas se valeu mais de 30 mil Euros, marque 2.

Se tem capitais empatados em empresas industriais ou comerciais, agrícolas ou piscatórias, some mais 1.

Se possui mais do que um automóvel, some 1. Mas se é dono de algum barco ou avião, acrescente 2.

Se possui bens ou propriedades fora do país, some mais 1.

Se você é mecenas de uma qualquer causa (e porque beneficia de desconto), marque 1.

Tem dinheiro amealhado em bancos superior a 10 mil Euros mas que não atinja os 100 mil? Marque 1. Se é superior a isso, marque 2. Se tem dinheiro em paraísos fiscais, marque 3.

Se no ano passado realizou lucros ilegítimos ou não declarados, some mais 1.

Se é sócio ou activista de qualquer associação cívica, cultural, recreativa ou desportiva, marque 0.

Se tem algum familiar ou amigo no governo, acrescente 1.

Se no ano anterior passou férias no estrangeiro, marque 1.

Finalmente: já foi alguma vez condenado em tribunal? Se sim, teve azar, mas some mais 1.

Faça agora a adição de todos estes pontos. Se ficou em 0 ou 1, pode considerar-se pobre (e tem de lutar para sair dessa posição). Se a sua pontuação ficou entre os 2 e os 5, dê-se por satisfeito pois está na “classe média”, daqueles que antigamente se designavam por “remediados”. Mas se atinge os 5 ou mais pontos, então parabéns, porque pertence ao mundo dos ricos. Mas seja prudente, não se meta com vigaristas. E olhe o Fisco! Ou cuide da sua alma, por causa do Juízo Final.


JF / 10.Fev.2017

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Doutrinas e realidades sócio-políticas

Vai fazer agora um século que se iniciou na Rússia um processo revolucionário que teve consequências duradouras para o mundo inteiro. O império czarista dos Romanov era um regime fortemente autoritário, retrógrado ainda em muitos aspectos sociais e religiosos mas com uma economia que pretendia entrar na modernização tecnológica já desenvolvida a Ocidente. Os insucessos militares na guerra contra o Japão e, depois, contra os alemães (em solo polaco) foram audaciosamente aproveitados pelos bolcheviks de Lénine e Trotsky para derrubar o governo e as instituições estatais em proveito de uma “ditadura do proletariado” que (ainda por cima face a uma guerra civil  com envolvimento de potências estrangeiras) em breve se revelou ser a ditadura do partido comunista sobre toda a sociedade, a começar pelas restantes forças revolucionárias da época (populistas, mencheviks, socialistas-de-esquerda, anarquistas, etc.) e, finalmente, da clique do “pai dos povos” Estáline sobre todos os próprios correligionários que pudessem fazer-lhe sombra. Este partido de tipo novo conceptualizou e passou a praticar em larga escala a “agit-prop”, muito mais inteligente do que a acção dos bandos armados de extrema-direita que então aterrorizavam as ruas de algumas importantes cidades europeias. Estava inventada a nova “religião laica” do século XX – contra a qual o nazi-fascismo justificou todas as barbaridades que praticou –, que organizou o mundo em duas metades em permanente tensão durante cinquenta anos e de cujas sequelas ainda hoje padecemos com uma China meio-capitalista/meio-comunista, uma Rússia-autoritária-capitalista e núcleos de nostálgicos da “foice-e-martelo” espalhados pelos quatro cantos do mundo. Milhares e milhões de pessoas aderiram a essa causa por sede de justiça mas, sem autonomia própria ou um mínimo de espírito crítico, deixaram-se conduzir como um rebanho para onde os seus “pastores” os quiseram levar. E estes últimos sempre foram movidos pelo apetite de poder, com a arrogância de quem se julga dono da História. Não se referiam a Deus, mas comportaram-se como o haviam feito desde há séculos diversíssimas seitas religiosas: sem sombra de piedade para com os dissidentes e apóstatas. E estes repetiam entre si tal atitude, com idêntica intolerância. De facto, o Partido Comunista existente actualmente em Portugal pode ser visto como um case study, porque é o último partido religioso que subsiste entre nós. (E é este atraso cultural que nos aproxima dos cubanos viúvos de Fidel mas felizmente ainda nos afasta dos fanatismos islamitas.) Além disto, apesar das revoluções modernas terem sido processos eminentemente colectivos e dinâmicos, sempre arranjaram maneira de instituir chefes supremos, adorados como deuses pelos seus servis seguidores: Lénine, Estáline, Mao, Ho Chi Min ou Fidel Castro, o último desta fileira de ditadores. E o modelo repetiu-se em ponto pequeno nas lideranças de partidos comunistas ou de forma trágico-cómica em chefes-de-estado de 3ª ordem.   
Face a estes extremismos autoritários, o constitucionalismo liberal e a social-democracia foram capazes de lhes sobreviver e de influenciar decisivamente o futuro político de grande parte dos países do planeta. Mas o rótulo de “democracia” não chega para caracterizar o tipo de poder que efectivamente existe em cada estado nem o grau de equidade e adequação da economia existente aos anseios da sua população. Por exemplo, Omar Bongo foi presidente eleito dos Camarões durante 42 anos (e hoje tem um filho no poder), Mugabe domina há décadas sem rivais o Zimbabué e José Eduardo dos Santos já vai nos 37 anos na presidência de Angola – sempre com métodos de designação e de exercício do cargo muito contestáveis. Em contrapartida, Isabel II sustenta a coroa do Reino Unido há mais de 6 décadas sem que alguém duvide que este regime funcione verdadeiramente como uma democracia parlamentar pluripartidária, orientada ao longe pela livre expressão dos seus eleitores. Se são poucas as monarquias sobreviventes do passado (no norte da Europa e em Espanha, em certos países do mundo islâmico, no Japão e pouco mais), já não é hoje a titularidade da chefia do Estado o critério que pode separar as autocracias dos regimes onde os cidadãos beneficiam de uma razoável liberdade, previsibilidade política e bem-estar material. Tão-pouco o será a existência de um “Estado-de-direito”, uma vez que não há clique ditatorial que se não dote do mais completo e bem elaborado conjunto de regras jurídicas para justificar a sua legitimidade, “no interesse do povo”.
Estamos numa época em que já nem as minorias ideológicas mais sinceramente desinteressadas do exercício do poder manifestam grande confiança em formas de democracia directa, como (entre outras) era suposto serem os referendos populares. Tirando o caso de uma população já bem experiente em tal mecanismo – como acontece na Suíça –, o mais usual nestes processos é as forças políticas predominantes, estejam no governo ou na oposição, terem uma “agenda própria escondida”, bem para além do Sim ou do Não com que os cidadãos respondem à questão colocada a sufrágio. Nas consultas aos escoceses e sobre o “Brexit”, era ainda assim bastante claro o que estava em jogo. Mas que pensar do referendo realizado na Hungria sobre os refugiados? E da recusa dos eleitores colombianos em aceitar a paz com a guerrilha das FARC? E da revisão constitucional proposta (e perdida) pelo governo italiano de Renzi, que deveria trazer maior racionalidade e clareza ao processo político? Os progressos universais alcançados no campo da escolarização e a explosão tecnológica das últimas décadas em matéria tele-informática e nas “redes sociais” estão a transformar o mundo e a fracção mais activa dos seus habitantes num “homo comunicativus” que nunca até agora existira. É como se o rumor e a intriga de bairro se tivessem estendido à “aldeia global”... É certo que este fenómeno só atinge os países desenvolvidos e as minorias das grandes nações pobres, mas é aí que estão a ocorrer as principais mudanças.

Desde há dois séculos, aproximadamente, que as discussões sobre o regime político constitucional mais desejável se imbricaram com a forma de funcionamento da economia, vista sobretudo pelo lado dos efeitos que esta produz sobre a distribuição da riqueza social e, portanto, sobre a própria composição da sociedade. A fixação dos direitos de posse e propriedade são, neste domínio, da maior importância, quer se trate de regras não-escritas mas profundamente gravadas nas tradições comunitárias, quer se trate de matéria de discussão ideológica e de opções políticas, mais ou menos alicerçadas em saberes teórico-científicos. Havemos um dia próximo de discutir com mais profundidade esta imbricação entre democracia e economia de mercado, que talvez não seja bem o que parece, mas, por agora, lembremos o que se sabe ao certo.  
As escolas de pensamento socialista do século XIX criticaram a economia liberal de mercado, capitalista, por esta supostamente reforçar a concentração da riqueza na classe social proprietária (sobretudo da indústria e do grande comércio) em detrimento das classes trabalhadoras. Mas as suas previsões não tiveram em conta várias outras dinâmicas e realidades que o século XX veio a evidenciar. Nomeadamente:
-os progressos da ciência e da técnica e os aperfeiçoamentos dos sistemas de organização do trabalho e de gestão das empresas, que fizeram aumentar prodigiosamente a capacidade produtiva;
-a pressão sindical e política em favor da melhoria das condições dos assalariados, que levou a que a expansão económica também os tornasse beneficiários desse crescimento mais ou menos contínuo (com o tandem produção-consumo interno a “bombear” adequadamente);
-a existência de imensas regiões e povos atrasados que permitiu a exploração a-bom-preço dos recursos aí existentes e a sua infra-estruturação, constituindo um excelente mercado externo, de que beneficiaram também os trabalhadores-consumidores dos países industrializados;
-os regimes autoritários nacionalistas (o Japão, a Itália, a Alemanha) que foram hábeis a criar “indústrias de guerra” eficazes mas conduziram sempre os seus países a catástrofes bélicas e à sua própria destruição, depois de viverem fugazes momentos de exaltação colectiva;
-as tragédias das grandes guerras mundiais que acabaram por provocar novos saltos tecnológicos e constituir oportunidades de reconstrução infra-estrutural dos países arrasados;
-a tentativa de criar uma economia administrativa (sem respeito pelas “leis do mercado”) nos estados de regime socialista que se traduziu em enormes fracassos e desastres sociais, apesar da propaganda dizer sempre o contrário e do facto de, em certos casos, poderem ter sido notáveis os progressos obtidos para as populações em matéria de ensino e de saúde;
-com o pragmatismo “confuciano” que lhe é próprio, o actual surto de desenvolvimento económico vivido na China, que resulta da experiência daquele fracasso e da plena utilização da “troca” capitalista (embora não esteja imune a uma derrapagem interna de ordem política que venha a pôr tudo em causa, incluindo o sistema económico global);
-a descolagem (dita “neoliberal”) da economia no espaço mundial acontecida nas últimas três décadas, com autonomização do capital financeiro e plena utilização das novas tecnologias tele-informáticas e de técnicas comerciais persuasivas pondo em evidência os novos players neste espaço alargado (somente os estados mais poderosos, empresas multinacionais, centros de inovação, algumas cidades/regiões, “hubs” comunicativos, detentores de recursos raros, energéticos, etc.);
-e, finalmente, a combinação de factores culturais e demográficos com o ressentimento histórico e a disponibilidade de fontes de energia e capitais em abundância, que tornou o nosso “modo materialista de vida ocidental expandido para o mundo” como um alvo apetecível para um confronto civilizacional por parte de certas forças do islamismo radical, de que a economia é um dos instrumentos ao seu alcance, mas não o único.
Falemos ainda das interrogações que se nos colocam por força da reorientação que vai agora sofrer a política dos Estados Unidos, sobretudo em matéria económica e internacional. Obama despediu-se com um saldo económico positivo, depois da situação com que se deparou quando chegou à Casa Branca em 2008. Em várias regiões do globo, degradou-se a segurança das populações, apesar dos persistentes esforços do secretário de Estado John Kerry (que em final de mandato fez uma bonita visita de reconcialiação ao Vietnam, onde se batera de armas na mão em 1969 com bravura). Mas não se concretizou o acordo comercial TTIP entre os Estados Unidos e a União Europeia, por receios do lado de cá. Desde finais do século XIX que a discussão entre proteccionismo e livre-cambismo suscitou grandes polémicas. Em geral, os países de economia poderosa defenderam esta última posição e os estados economicamente fracos procuraram sempre proteger-se por meio de barreiras aduaneiras. Hoje acontece o mesmo, embora de forma mais atenuada: apesar de terem feito o acordo CETA com o Canadá (menos temeroso do que o seu vizinho americano), os sectores mais fracos da Europa temem muito estas aberturas comerciais, tal como os do Mercosul temem a Europa, embora, à la longue, pareçam indiscutíveis as vantagens dos alargamentos dos mercados. A (maior) escala acaba sempre por ter razões economicamente irresistíveis, em particular na baixa dos preços. Porém, nem tudo são rosas e nestas negociações os mais fracos devem estar atentos aos prazos e etapas, por um lado, e às cláusulas sectoriais e processuais, por outro, para garantir o máximo possível de equidade, equilíbrio da concorrência e garantias ou salvaguardas para certos aspectos particulares que lhes possam ser essenciais – pois, como é sabido, o diabo esconde-se nos detalhes. E algo de semelhante se poderia dizer – em sentido inverso – quanto às modalidades de aplicação de um acordo internacional como o assinado há um ano em Paris sobre as alterações climáticas.
Com Trump, haverá mais proteccionismo económico e controlos dos movimentos populacionais – que estão já desencadeando uma onda de contestação interna e internacional. O “anti-Trumpismo” vai ser um óptimo argumento para o anti-americanismo ideológico. Para além da boçalidade da personagem, haveremos de ver se os efeitos da sua política acabarão por se traduzir numa globalização económico-financeira um pouco mais regulada ou, ao invés, se tais dinâmicas não desencadeiam uma guerra comercial entre as grandes potências de efeitos devastadores. E se será possível existirem fronteiras mais controladas para as pessoas (fora dos inaceitáveis “cortes cegos” nas entradas de estrangeiros segundo a nacionalidade ou religião) mas mantendo-se abertas para as mercadorias e as transferências monetárias – já que, quanto à circulação da informação, ela é hoje irreprimível. É também este o dilema que, politicamente, se coloca à saída dos ingleses da União Europeia. De resto, parece que só uma resposta mais positiva a estas diversas questões será capaz de desarmar a corrente populista de extrema-direita que grassa no velho continente e que a tantos (nos) assusta.
É verdade que também contam as razões não-económicas mas de crença ideológica (anti-capitalista, ou anti-americana) de minorias que tanto se podem encostar às direitas (por nacionalismo) como às esquerdas (por soberanismo ou anti-imperialismo). Mas, em sentido geral, a economia tornou-se o modo prevalecente de acção social no nosso mundo contemporâneo, superando os anteriores imperativos religiosos, da tradição, da ética, da criatividade artística e mesmo da intencionalidade política. É, de certo modo, o fim das últimas aristocracias e a libertação das massas de outras peias que não as ditadas pelo interesse e a diferenciação económica. Talvez seja uma nova “rebelião das massas” à escala mundial. Porém, isto não fez diminuir a luta implacável pelo poder, apenas ao alcance de alguns poucos. Dois pequenos exemplos: no jornal Público (de 22.Nov.2016) um professor catedrático do I. S. Técnico mostrou com meridiana clareza como as decisões governamentais de 2005-2011 sobre as “renováveis” criaram um «monstro eléctrico» em Portugal; o engenheiro não se questionou sobre os efeitos nefastos dos combustíveis fósseis mas adivinha-se como, com esta ou outra solução alternativa, as coisas se passam por relações directas (e mais ou menos discretas) entre governantes e grandes empresas (donde a oportunidade de corrupção ou outros negócios ilícitos). O outro exemplo é o do particularíssimo caso do futebol(-espectáculo-negócio), com a irresistível “sucção” de todos os talentos dos clubes pequenos pela dúzia-e-meia de gigantes financeiros que o dominam, que ilustra de modo simplificado mas evidente a permanente geração de desigualdade que anima esta economia, mas também o seu dinamismo insuperável. Será possível ainda a um qualquer poder político – desta vez benévolo e regenerado – contrariar esta tendência antes que ocorra um sempre possível colapso geral? 

Elidido o sentido progressista da forma de governo republicana, é mister perceber hoje, caso a caso, o tecido organizacional em que se estrutura a relação entre as elites dirigentes e a larga (larguíssima) classe média que vota, feita de assalariados já donos de propriedades com algum valor económico (residência, viatura, bens duráveis, mas muitas vezes suspendidos pelo crédito ainda em dívida), bem como de empreendedores ou negociantes e de múltiplas combinações entre estas diversas figuras. À parte, vegeta e esgravata a subclasse dos que falharam a ascensão social, alguns desqualificados e a marabunta dos imigrados de paragens e culturas longínquas, que sofrem verdadeiramente ou exploram as oportunidades oferecidas pela “sociedade-da-abundância”. Para todos estes, a razão económica (os mercados de-oferta-e-procura), é um dado de facto, tal como o Estado (nacional) – que em tese poderia intervir e regular aqueles, e em relação ao qual a designação dos dirigentes cria a ilusão de estar ao alcance da vontade popular maioritária.
Apesar dos mais de 200 estados nacionais hoje reconhecidos, subsistem mais umas tantas comunidades nacionais sem tal estatuto, porque foram em tempos integradas à força em conglomerados estatais mais vastos ou lho têm negado os grandes areópagos internacionais, aferrados a uma ideia estática das divisões políticas existentes no mundo. Além disto, é cada vez mais nítida a diferenciação de problemas entre “vida urbana” (concentrando já a maior parte da população mundial) e o “espaço desertificado” que a rodeia, ao mesmo tempo que a tecnologia nos liga a todos cada vez mais fortemente. É talvez funcional mas ainda incerta e não isenta de antagonismos a actual carta geográfica das nações. Mas todos – grandes e pequenos – estão sujeitos às mesmas “leis económicas”, com o que isso implica de integração, interdependência e racionalidade objectiva (numérica, aparentemente inapelável), mas também de sujeição aos ditames da escala, da tendencial uniformização cultural e das variações aleatórias das percepções e do cálculo humano autocentrado. Qual oráculo, escreve António Vieira que «as esferas de poder que Montesquieu tinha delimitado perdem limites e competências e arrastam ao mesmo tempo a impotência da república e o desabar da democracia, da qual não subsiste mais que um espantalho» (Ensaio sobre o Termo da História, 2009: 112).
De facto, as mais das vezes, os partidos apropriam-se do poder de intermediação entre os cidadãos e o governo democrático, capturam o fluxo informativo (que confunde as massas) em seu favor, aliam-se e corrompem-se com as forças económicas mais importantes, seduzem boa parte dos criadores culturais, controlam o espaço de intervenção da justiça, alienam os verdadeiros independentes e, mesmo quando se apresentam em concorrência entre si, pouca margem deixam para organizar dinâmicas alternativas ao seu “reality show”.
O processo eleitoral, elemento-chave dos regimes democráticos, só subsiste por virtude da sua simplicidade – “por um voto se ganha, por um voto se perde” – e pela aparente racionalidade de se tratar uma opção maioritária. Porém, se pensarmos bem, nenhuma das grandes inovações, inventos e decisões estratégicas cruciais para as nações ou para a Humanidade proveio de averiguações acerca de uma opinião da maioria. Mas desde há dois séculos que também ficou claro para muitos que nenhuma decisão política fundamental se pode sustentar contra a convicção que norteia essa maioria.   
A razão económica prevalecente dessacralizou todas as anteriores formas de exercício do poder – e aí reside talvez uma das suas facetas mais positivas e progressistas – mas está ainda por inventar um modelo de organização política das sociedades (locais, urbanas, nacionais e mundial) que inclua a participação dos cidadãos, revele uma eficiência suficiente e indesmentível, e não dê aso a uma nova segmentação entre governantes e governados.
É o mesmo Vieira pessimista que estatui: «Os anarquistas tinham reunido argumentos para denunciar o Estado: ora, eis que o Estado não existe mais senão sob as espécies de uma negaça, engolido pela Absurdidade da qual forma o aparelho burocrático – e torna-se premente que os anarquistas descubram novos alvos, e sobretudo novos métodos» (Ibidem: 121). Mas onde o filósofo procura a iluminação, o historiador e o sociólogo tentam desconstruir os mitos e compreender as acções e os entendimentos dos humanos. Feliz ou infelizmente, os anarquistas são gente como os demais, alguns são ainda piores, outros melhores, mas a maior parte (dessa ínfima minoria) esgota-se a olhar certos episódios do passado, já mitificados. Na sua peugada e sob influência cultural surrealista, os “situacionistas” procuraram inovar nas formas de acção política, elevando a provocação e o “détournement du message” ao estatuto de método. Sem grande sucesso, para além do seu próprio contexto e geração. Hoje estão catalogados como peças de museu.
Neste quadro desanimador, o constitucionalismo liberal é ainda um refúgio institucional de sobrevivência para espíritos com alguma exigência crítica mas também com sentido das realidades históricas.   
A ciência e a técnica não são “neutras”, nem na orientação das suas pesquisas, nem nas suas aplicações. Mas a ética científica é um travão contra os abusos; e o saber, devidamente escrutinado, uma alavanca para projectar melhores avanços para a Humanidade. Nesta óptica, devemos esperar que, no futuro, as ciências sociais e políticas, mais libertas das insídias ideológicas e dos comandos de facção que ainda as perturbam, possam fornecer um contributo útil para melhorar os modos de vida dos humanos.       

JF / 4.Fev.2017

domingo, 29 de janeiro de 2017

Voltamos à política

Com o sr. Trump dono da Casa Branca, intensificaram-se as previsões e os cenários, quase todos marcados pela advertência de “elevada incerteza”. Entre o muito que vem sendo publicado chamou-me particularmente a atenção um texto divulgado no dia 23 de Janeiro na Internet por Miguel Mattos Chaves intitulado “O novo Presidente dos USA” (http://mattoschaves.blogspot.com). O autor (doutorado em estudos europeus e actual director d’O Diabo, um jornal com história singular que na altura do PREC foi dirigido pela aguerrida Vera Lagoa) considera que, analisando o seu Programa Político, «[…] e apesar de isso poder “prejudicar” a União Europeia, Donald Trump tem o meu respeito e apoio» e, «como Português», espera «que nos aproximemos novamente dos EUA e do Reino Unido», aproximação em que vê vantagens e pela qual «evitaremos ser dominados pela Alemanha [e] aliviaremos o domínio excessivo e esmagador da UE sobre o nosso país, que tenho vindo a denunciar».
Detalhando a sua apreciação sobre o referido programa, ele enfatiza a questão da segurança da fronteira sul e do controlo/expulsão dos imigrantes ilegais, a baixa de impostos e as novas obras públicas, o repatriamento de indústrias (como?), a revogação/reestruturação do Obamacare «que está a arruinar o orçamento dos EUA» (estará?), a redução das despesas com a NATO, o restabelecimento das negociações com a Rússia (aceitando a anexação da Crimeia e de parte da Ucrânia?), a anulação ou renegociação de vários tratados internacionais, a taxação dos produtos asiáticos em dumping e a nomeação de um novo juiz do Supremo com posições anti-aborto. Se fosse apenas um programa conservador, nenhum mal especial viria ao mundo (a não ser a exasperação de muitos “vanguardistas”). O pior é que se teme que, com a justificação de um maior equilíbrio no financiamento da NATO, exista, de facto, o desígnio de enfraquecer esta Aliança militar, “largar” a Europa (já tão desconjuntada) e estabelecer relações amistosas com a Rússia de Putin, para a afastar da China e concentrar nesta (e, por tabela, em outros países produtores emergentes) o essencial das pressões americanas de natureza económica, e também estratégico-militares – sem se perceber ainda bem como Washington irá lidar com o terrorismo internacional e o mundo islâmico. Isto seria um jogo de xadrez de alta política, se não se tratasse de uma personagem que não parece ter capacidades para mais do que para uma partida de poker
Pelo que escreve, Mattos Chaves compreende e defende o proteccionismo, o nacionalismo económico e político do novo presidente americano. Eu prevejo e aceito sem dificuldade que, em geral, o controlo das fronteiras deva ser aumentado nos próximos anos mas já apontei para este blogue, a sair em breve, que, com esta política americana, «[…] haveremos de ver se isso acabará por se traduzir numa globalização económico-financeira um pouco mais regulada ou, ao invés, se tais dinâmicas não desencadeiam uma guerra comercial entre as grandes potências de efeitos devastadores». Aquele autor diz esperar 1 a 2 anos para ver como se efectivará o programa de Trump. Talvez não seja necessário tanto tempo para constatar os seus efeitos na ordem internacional e nos assuntos domésticos. Eu aceito, naturalmente, que cada comunidade nacional (de história e de cultura) disponha das suas próprias instituições de representação e que elas velem pelo interesse geral dessa comunidade. Mas o nacionalismo é muito mais (e pior) do que isso: funda a identidade nacional na aversão (quando não no ódio) ao estrangeiro ou, mais particularmente, a uma nacionalidade rival.
O autor devia saber que o espírito nacionalista conduziu à maioria das guerras que ensanguentaram a Modernidade, as quais não foram genuinamente piores que as do passado, mas fizeram-no numa escala multiplicada. Julgo não estarmos com isso de volta (mesmo quando nos acenam com o “perigo alemão”). Mas uma “guerra económica” de proteccionismos e redução das trocas comerciais irá frenar brutalmente o crescimento económico mundial, com consequências de empobrecimento terríveis para muitos países, sobretudo os mais frágeis. Hoje, já não é possível falar estritamente em “políticas nacionais”. Tal como para os equilíbrios ambientais ou para a (in)segurança nuclear, a mundialização é um facto e todos os responsáveis (políticos, económicos, líderes espirituais ou pessoas de superior notoriedade cultural) têm de ter isso muito em conta. É certo que há fundamentalistas ecologistas e religiosos, de quem o bom senso já desconfia. Mas os políticos nacionalistas agressivos devem ser apontados como igualmente perigosos, ou provavelmente ainda mais. 
O autor carrega a sua crítica sobre os jornalistas, os comentadores encartados e os meios de comunicação social que, com Trump, deixarão «de ter o monopólio de “dominar” e influenciar as mentes dos cidadãos menos informados». É uma verdade conhecida que este “4º poder” age frequentemente como um verdadeiro actor político, pela forma como selecciona e redige as notícias, os comentadores que escolhe, etc. Mas, num ambiente de concorrência, tem de se contar com a credibilidade que a opinião pública concede a cada jornal ou TV, fruto da experiência vivida. E, por outro lado, existem regras deontológicas que balizam o exercício da profissão de jornalista, as quais, apesar de muito violadas, sempre constituem um quadro normativo de referência para o sector. Esta função de mediação ou interposição dos media pode deturpar a informação que chega ao público mas também constitui um filtro racionalizador do caos factual e da opinião sem qualquer rigor ou controlo, que se desbundaria na sua ausência. Veja-se o que, precisamente, está acontecendo no ciber-espaço com as chamadas “redes sociais”, onde não existe qualquer critério de verdade nem noção de responsabilidade, mas apenas o “escarrador” daquilo que vem à cabeça de qualquer um, sob anonimato.   
Por outro lado, repete o autor que «foi sobretudo através do Facebook, Twiter e Instagram que Donald Trump conseguiu fazer chegar às pessoas as suas mensagens e Programa Político». Mas quem, como ele, proclama mentiras, provocações ou incongruências em cada intervenção mediática, para excitar as massas apoiantes, é mais digno de crédito do que os “monopolizados” meios de comunicação social?
Idêntica crítica posso fazer a Mattos Chaves quando este afirma que «Trump é multimilionário, não precisa dos “lobbys” para nada, nem dos partidos políticos e prescindiu do seu ordenado de Presidente» como garantia da sua autenticidade. Quanto aos lobbies e à riqueza do homem, estamos conversados! Mas, de facto, eu também sou daqueles que vêm com o maior criticismo o autismo e a monopolização que os partidos instalados vêm fazendo da representação popular, nos regimes democráticos. E não ligo grande coisa às indignações anti-Trump de que o establishment dá mostras, sejam as formações tradicionais da esquerda, seja a inteligenstia bem-pensante que acede aos media ou outras figuras actuais da cultura pop. Porém, julgo saber que essa função de representação colectiva e institucional seja fundamental para que a desordem social não se instale (porventura com o caos e a guerra que alguns sempre tentarão aproveitar) ou prevenir que apareça um “multimilionário” (do dinheiro, como Trump; ou da palavra hipnotizante, como Hitler ou Mussolini) desses que tentam conduzir as gentes como um bando de carneiros, ao mesmo tempo que atiçam contra estes os lobos por si ordenados.
Tudo isto é perigoso, mas há mais. Com a sua figura grotesca, apalhaçada (como Beppe Grillo?); com os seus gestos, postura e modo de falar “à povo” – o senhor Trump desprestigia e desacredita em cada sua intervenção pública as instituições republicanas e, em geral, toda a esfera do “político”. Como querem que as pessoas vulgares velem mais pelo interesse de todos? Que dias chatos, estes que vivemos!

JF / 28.Jan.2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Lisboa futura

Quando as actuais crianças-de-escola forem adultos maduros, lá para meados do século, Lisboa deverá ter mudado enormemente. Imaginemo-la um pouco.

Desejando que nenhum abalo sísmico ou atentado possa vir perturbar a vida da cidade, é provável que os pólos de fervilhamento urbano e turístico de Belém e da Baixa pombalina continuem a afirmar-se, com a reabilitação dos edifícios antigos, novos centros de atracção e meios de transporte relativamente eficientes. Em contrapartida, os bairros tradicionais (Madragoa, Bica, Bairro Alto, Mouraria, Alfama, Castelo ou Graça) terão excluído os seus últimos habitantes populares para dar lugar à classe média, portuguesa e estrangeira. O cosmopolitismo da Baixa e do eixo da Almirantes Reis acentuou-se, este último cada vez mais orientalizado, com “muitas e desvairadas gentes”.

Esta alteração do povoamento foi acompanhada de medidas adicionais de protecção e melhoria do espaço público, da segurança e da qualidade de vida, com interdição ou limitação rigorosa da circulação automóvel em perímetros alargados das “zonas históricas”: colinas da Graça, Santana, Príncipe Real, Campolide, Campo de Ourique: baixas e vales de Chelas, Arroios, S. Bento e Alcântara. Porém, a faixa ribeirinha foi submetida a intensa pressão de urbanização construtiva, salvaguardando o património edificado mais significativo, pondo à vista achados arqueológicos interessantes, mas levantando torres, escavando estacionamentos e adensando a densidade populacional (permanente e transitória) deste “casco urbano”. Com o atraso de algumas décadas em relação ao que se fez no estrangeiro, toda a antiga zona portuária é hoje um dos espaços mais belos e atractivos da capital.

As “grandes obras” foram retomadas, com capitais estrangeiros (europeus, americanos, africanos, indianos, japoneses e sempre chineses) sobretudo para resolver os problemas da circulação urbana: 1) prolongamentos do Metropolitano do Rato até Alcântara (com o grande “nó” aí previsto e renovação do comboio de Cascais, ligando-o finalmente à linha de cintura), de S. Sebastião até Campo de Ourique, de Telheiras à Pontinha e de Odivelas a Loures, com túnel de articulação à renovada linha ferroviária do Oeste (Contudo, o revolucionário projecto japonês do “Metro das Colinas”, saindo de Santa Apolónia, subindo à Graça e Sapadores para passar em viaduto à colina de Santana e desta, por modo idêntico, ao Príncipe Real, terminando na Estrela ou em Alcântara, estará ainda em vias de execução, devido a complicações técnicas e financeiras entretanto surgidas); 2) enterramento do comboio do Cais do Sodré até Algés; 3) eléctricos rápidos de Alcântara ao Jamor e do Terreiro do Paço ao Parque das Nações; 3) túnel rodoviário ligando a Av. 24 de Julho à Infante D. Henrique, para libertar a Praça do Comércio; 4) terceira ponte (rodo-ferroviária) sobre o Tejo, como estava programada desde o início do século; 5) e o novo aeroporto em Alcochete.

O esvaziamento do espaço aeroportuário da Portela de Sacavém (que todavia reteve um heliporto de boas dimensões) permitiu abrigar ali a nova Gare Ferroviária Central da capital e desenvolver ao máximo a urbanização na Alta de Lisboa onde, aproveitando a altitude do lugar, uma enorme torre-miradouro de telecomunicações permite agora aos turistas uma fabulosa vista de 360º, de Sintra a Cascais, a Palmela e a Santarém. Foi uma “quarta centralidade” de Lisboa que ali nasceu (depois da Baixa, Belém e Parque das Nações): onde antes eram quintarolas e depois foram barracas e “bairros sociais”, vive agora gente da classe média-alta em seguros condomínios fechados e existem alguns espaços e equipamentos colectivos de boa qualidade. Está mesmo projectada para ali a “nova ópera de Lisboa” (quando houver um mecenas que ajude o financiamento).

Entretanto, as populações segregadas para fora da Lisboa pós-moderna foram-se acumulando nos concelhos de Amadora, Sintra, Odivelas, Loures e Vila Franca (além, da margem sul), criando problemas que os respectivos autarcas têm dificuldade em resolver.

Mas a capital portuguesa já ombreia de novo com outras grandes urbes europeias!


JF /22.Jan.2017

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Mário Soares

Finou-se há sete dias uma das figuras cimeiras da vida portuguesa da nossa época. Já tudo foi dito e escrito sobre a personagem, quase sempre em termos elogiosos (sobretudo pela voz pública), como é de norma e neste caso também de justiça, se apaziguarmos as paixões.
Porém, alguns viram nele o político que vendeu o ultramar aos nacionalistas dos diversos territórios sem cuidar devidamente dos portugueses de raiz que lá viviam e dos naturais que queriam continuar a sê-lo, nem tentar uma transição que assegurasse a paz nos territórios e um mínimo de convivência democrática entre aqueles que ali aspiravam ao poder (mas é certo que os soldados já não queriam combater e os capitães-de-Abril estavam ideologicamente adquiridos à “justa luta” dos independentistas). Outros não lhe perdoaram ter então virado as costas à “união-das-esquerdas” em Portugal e, pelo contrário, ter encabeçado “a reacção” contra as dinâmicas revolucionárias ou aventureiras da extrema-esquerda.
De facto, contrastando com a flacidez da sua fisionomia e a argumentação superficial e inconsistente que era geralmente a sua, Mário Soares revelou-se então como o “leão” que se bate sem temor e arrisca tudo para alcançar o que a sua certeira intuição política lhe recomenda. Nessa altura, em que se jogava o destino do país, era: -garantir um quadro de liberdade democrática compatível com o modelo dominante no Ocidente; -travar os frescos entusiasmos da “esquerda militar” que pensava como se estivesse em África; -impedir um “retorno do pêndulo” que conduzisse a uma solução política restauracionista; -arriscar-se a ter como “companheiro de barricada” muito do que havia de conservador na sociedade portuguesa de então, que em seguida lhe haveria de pedir contas.
Nessa ocasião foi, à nossa pequena escala, o “Churchill português”, que corajosamente se empenhou e conseguiu ganhar uma batalha decisiva. O regime democrático deve-lhe muito.  
Estabilizado esse, Soares foi o político habilidoso que todos reconheceram, usando das mais variadas jogadas e estratagemas para aceder e ocupar o poder – como chefe do governo e Presidente da República –, ou para contestar e minar um governo de cor diferente da sua – como líder da oposição, também como Presidente da República e ainda como aposentado da função, desmentindo a promessa que fizera de, depois de Belém, não lhe fazer sentido voltar à política partidária. Nesta vertente, Mário Soares foi apenas um chefe-de-partido, de grande longevidade e notável capacidade de “influência”.
Recordar os tempos em que o jovem Soares era um militante empenhado do partido comunista é matéria que não tem hoje grande significado e deve ser deixada aos historiadores, tal como as razões porque dele se afastou, aproximando-se de gente mais próxima da família política de seu pai, republicanos de sensibilidade socialista como, por exemplo, António Sérgio.
Em contrapartida, não pode ser esquecido o seu prestígio e reputação internacional, mesmo numa época que deixou de ser a sua. Para além das relações pessoais que cultivava (Mitterrand, Felipe González, Helmutt Schmitt, Olof Palm, Bettino Craxi, Ximon Peres e até Yasser Arafat o apreciaram), foi também o país moderno pós-salazarista que, através dele, esteve presente nesses areópagos europeus. Para o que certamente também contou (superando o péssimo domínio de línguas estrangeiras) a sua simpatia e carisma pessoal, tanto como um certo domínio da história e à-vontade nos temas culturais. E a Fundação com o seu nome constitui hoje um património documental de valor inestimável.
Mas há ainda a faceta mais obscura do chefe-de-clã. Só os próximos saberão dessas coisas. Mas há suficientes relatos públicos para se perceber que a fidelidade pessoal traída ou a denúncia de certos segredos determinaria nele e nos seus próximos atitudes de rejeição e de “cordão sanitário” de que ninguém mais se poderia livrar, salvo passando-se para um campo adverso.
Intuitivo, com gosto pela escrita, sagaz, corajoso e com o sentido das oportunidades dos políticos de gema, Mário Soares é um dos homens públicos incontornáveis do século XX português. Há-de ser sempre recordado.    

JF / 14.Jan.2017

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Cinco minutos a sós com Deus

Como a maior parte dos jovens da época e do meu meio social, eu tive uma educação católica ma non troppo. A minha mãe ia à missa (e mandou-me à catequese) mas o meu pai apenas a acompanhava. O meu avô era maçon e só entrou em igrejas para alguma cerimónia de casamento, mas despedia-nos com um “Vai com Deus”. Só a minha irmã se tornou uma católica de verdade e coração, fazendo do apostolado uma das dimensões fortes da sua vida. Eu segui a esteira da minha época e, ao chegar à idade adulta, emancipei-me decididamente de qualquer crença religiosa. O meu pensamento crítico-racional nunca sentiu necessidade de questionar mais do que a realidade sensível, material ou social que me rodeava, com o auxílio daquilo que fui aprendendo da acumulação do conhecimento científico ao meu alcance. O que desconhecemos, desconhecemos, e talvez outros venham mais tarde a ser capazes de o explicar um pouco melhor. Os fenómenos sobre-naturais, os poderes extraordinários de certas pessoas, as coincidências perturbantes, os “milagres”, não constituíam para mim algo de essencialmente diferente do nosso ainda escasso conhecimento acerca do funcionamento celular ou sobre os “buracos negros” do universo. Questões metafísicas acerca da “alma” ou dos “espíritos”, nunca me perturbaram a consciência. Eram interrogações especulativas cuja amplitude ia, pouco a pouco, sendo reduzida devido ao labor de especialistas de conhecimento muito aprofundado. Nos termos filosóficos elementares aprendidos no liceu, julgo ter-me sentido sempre mais próximo do ateísmo do que propriamente do agnosticismo. Não do ateísmo positivista apostado em “negar a existência de Deus” – e talvez por isso nunca o tenha proclamado abertamente. Mas parecia-me que a posição do agnóstico pressupunha sempre a possibilidade da existência de Deus – só que fora do alcance do sujeito, e deixando-o portanto à merce de “um chamamento”, que o levasse “a acreditar” – o que nunca foi o meu caso, nem racional, nem emocionalmente considerado. A transcendência, se existe, está tão longe de mim, como problema, como o bosão de Higgs ou o big bang.
Realmente, a religião só me interessou verdadeiramente (e ainda assim em terceiro ou quarto plano de prioridades) enquanto fenómeno social, susceptível de análise empírica e psicológica, e sobretudo pelos seus efeitos históricos que, sob novas formas, todavia perduram na actualidade. Verdade seja que conheço muito mal as grandes religiões orientais, apenas superficialmente o hinduísmo, o budismo ou o confucionismo. Mas, com a curiosidade do sociólogo e do cidadão, debrucei-me um pouco mais sobre a história do judaísmo, do cristianismo, do islamismo e dos protestantismos. Matéria interessante para aprender, não para praticar ou ser para mim motivo de fascínio.
O que quero porém significar é que, apesar da descoberta das “luzes da razão” que fiz ao desembarcar na idade adulta, não tenho dúvidas em ser também um resultado da cultura judaico-cristã prevalecente no ambiente social em que me desenvolvi. Para além da doçura materna e da educação paterna, o meu carácter e personalidade foram decerto marcados pela rudimentar educação católica que recebi na infância e na adolescência. O final deste último período do meu desenvolvimento pessoal coincidiu com uma fase de renovação da Igreja de Roma assinalada pelo concílio Vaticano II e por mobilizações generosas como a de muitos “católicos progressistas” (num país como Portugal, então muito fechado ao mundo) ou a de um Movimento para um Mundo Melhor, entre outros. Foi passageira a minha estadia nesses meios, típicos dos anos 60, porque outras mudanças sociais e pessoais estavam em curso, com muito maior amplitude e profundidade reflexiva. Mas lembro-me que então se dizia que aos católicos competia, no dia-a-dia, “dar testemunho da sua fé”. Esta postura era substancialmente diferente do catolicismo do “medo do inferno”, do temor do “pecado” ou do “Deus-pai todo poderoso” com que padres, catequistas e outros mais velhos nos buzinavam aos ouvidos; e sem a disciplina mortificadora do corpo a que nos obrigava a oração (eu, que sempre sofri de me ajoelhar… e por isso não fui para a guerra sem antes ter comprado um daqueles pares de joalheiras com que os guarda-redes de então protegiam essas articulações). Só muito mais tarde compreendi, racionalmente, a importância e o alcance destes gestos e rituais, mas agora num registo eminentemente sócio-antropológico.
Porém, num ponto, julgo que aproveitei deste curto período da minha vida de católico reflectido. O tal “testemunho” quotidiano seria um comportamento e uma atitude eventualmente observável por terceiros mas tinha, no fundo, dois únicos agentes activos: Deus e eu próprio. Em tête-à-tête, sem lugar para intermediários, árbitro, testemunhas ou espectadores, que são sempre figuras que alteram as condições de um efectivo diálogo. Se Deus – aqui representado no seu modelo ideal – era a máxima expressão do Bem, do Amor, do Bom e do Belo, se era a Verdade e a Omnisciência levadas ao infinito, então resultava inútil e mesmo grotesca qualquer tentativa de argumentação sofista, de desculpa ou justificação para as nossas fraquezas ou tropelias. Imaginar-se estar só perante Deus foi, afinal, o truque mental para um reencontro connosco mesmos com o máximo de sinceridade que me seria possível (ou a qualquer ser humano, supunha eu). Sobretudo quando tais congeminações foram desenvolvidas perante uma iminência da morte – da nossa morte física –, bem pensada e bem vivida.
Admito completamente que haja múltiplas outras formas de introspecção pessoal, e que algumas possam até envolver mais do que a actividade mental, mobilizando o próprio corpo ou partes deles (como suspeito que seja o caso de certas espiritualidades orientais), ou ainda as suas interacções psico-biológicas com o ambiente circundante e a forma como cada qual procede à sua digestão. Mas, circunscrevendo-me à minha experiência pessoal e àquelas que julgo mais correntes nas culturais ocidentais, posso admitir que a discussão mais séria e profunda que possamos ter connosco mesmos – ou o “exame de consciência” que o capelão nos prescrevia – seja as mais das vezes torpedeada por armadilhas auto-justificativas, inconsequentes jogos de mutação identitária, círculos viciosos de raciocínio preguiçoso ou fixações mais profundas ancoradas no nosso inconsciente. A diagnose tentada com um especialista tem certamente alguns efeitos terapêuticos para situações de pessoas mais perturbadas, já porventura a roçar a patologia. Mas aqui eu estava referindo-me a indivíduos razoavelmente sãos de corpo e de mente.
Aqueles “cinco minutos com Deus” foram apenas uma pequena fracção de tempo no desenrolar da fita da minha vida. Daí para diante fiquei bem, sozinho e/ou acompanhado, completamente dentro do mundo e em parte contra ele. Por isso, se posso recomendar alguma coisa a alguém, sobretudo se é jovem e inquieto e ainda procura o seu caminho, é que não desperdice esses “cinco minutos” para se conhecer melhor e reconciliar consigo mesmo. E, se não for desta, que seja de outra maneira que se lhe torne mais viável e mais conforme ao seu ser.

(Texto dedicado a uma querida amiga que me conheceu de cueiros e ainda hoje me dedica uma parcela do seu generoso afecto.)


JF / 6.Jan.2017

Arquivo do blogue