sábado, 15 de julho de 2017

Os militares e a sociedade

Embora muito desactualizado, tenho algum conhecimento do mundo militar, não só livresco. Mas estou de fora dele, o que talvez me dê uma maior isenção nas suas apreciações e decerto uma maior liberdade de julgamento.
Os exércitos foram durante séculos forças privadas ao serviço dos reis e da aristocracia mais elevada. A partir do século XVII, com a afirmação dos estados-nação na Europa, começaram a reconhecer-se também como defensores dos territórios nacionais e das suas populações. O grande choque da Revolução Francesa e da aventura napoleónica fortaleceu a ideia de um exército nacional a que os constitucionalismos liberais do século XIX deram a sua mais forte expressão com o serviço militar obrigatório. Nessa época, os militares ainda juravam fidelidade ao rei e à pátria. Com a generalização dos regimes republicanos ficou apenas o patriotismo, mais as regras sagradas da disciplina e da obediência hierárquica.
Porém, estas referências maiores foram algo abaladas no século XX pela difusão dos valores democráticos da liberdade e igualdade proclamados urbi et orbi, mas talvez sobretudo por uma ténue sensação reflexa de ilegitimidade que se foi decantando sobre a experiência das horríveis mortandades das duas Guerras Mundiais (incluindo milhões de civis na segunda) e das “guerras revolucionárias” desencadeadas na segunda metade do século, que têm prosseguido até hoje sob outras formas de conflito assimétrico (terrorismo, etc.). Neste quadro, os grupos políticos de esquerda, sobretudo alguns dos mais radicais (ou genuinamente pacifistas), estimularam comportamentos antimilitaristas na população sobre a base da percepção – muito generalizada no século XIX e ainda prosseguida no seguinte – de que os militares eram “fautores de guerras”, assim como de golpes-de-estado de sentido conservador ou liberticida. Naturalmente, referiam-se especialmente aos altos-comandos mas viam também no pessoal de enquadramento (oficiais e sargentos) os elementos determinantes na operação de transformar um “homem livre” num “pau mandado”. Pelo contrário, outros sectores radicais do espectro político (de direita mas também de esquerda), apostaram antes na infiltração dos seus agitadores no interior das instituições militares, fosse para neutralizar a sua eventual acção anti-social ou para favorecer um inimigo da sua simpatia, fosse para ter a força militar do seu lado numa eventual disputa áspera pelo poder estatal. A palavra-de-ordem de Mao-Tse-Tung “o poder está boca da espingarda” seduziu muitos jovens de meados do século passado.
O exército sempre corporizou a imagem mitificada da instituição militar. Isto porque a marinha (de guerra) se constituiu desde cedo como um corpo separado, meio-marinheiro, meio-militar, portador de uma identidade cultural mais tradicional, conjugando o “aristocratismo” da oficialidade com a rudeza das marinhagens, mas que o sentido do risco, da aventura, e o brio da sobrevivência uniam de uma maneira muito particular. Além disto, a partir do século XIX, a marinha sofreu, rápida e fortemente, o impacto das modernizações técnicas industriais, enquanto o exército continuava a ser, no fundamental, um rolo compressor de “trabalho-intensivo”. Nascida do nada, nos alvores do século XX, a aviação (militar) improvisou-se, já em pleno “mundo tecnológico” – de cujo desenvolvimento acelerado foi, de resto, um dos melhores exemplos –, tendo, por isso, que inventar uma sua própria idiossincrasia, assente no risco e no destemor, embora focada no domínio das suas competências técnicas (e na importância dos seus custos). Ficou assim um corpo sem tradições antigas, apenas adaptado o necessário às rotinas e rituais há muito vigentes nos outros corpos militares, também porventura frágil na auto-percepção de como podia ser instrumentalizado por interesses (políticos) alheios à sua missão profissional.
As guerras externas em que Portugal esteve envolvido nos últimos dois séculos foram apenas as guerras de ocupação colonial (sobretudo entre 1891 e 1907), o conflito mundial de 1914-18 e as últimas guerras-do-império em 1961-74. Porém, estivemos à beira de outras que tiveram lugar ou se prefiguravam nas nossas vizinhanças geográficas e que obrigaram a esforços intensos de defesa nacional armada, nomeadamente nos casos da guerra civil de Espanha (1936-39), na guerra geral de 1939-45 e na “guerra fria” entre o Ocidente e o Bloco de Leste entre 1950 e 1991. Em todas estas conjunturas, os militares e a nação aceitaram os esforços que lhes foram pedidos, a despeito das críticas de alguns sectores de opinião minoritários.
Em determinadas circunstâncias, as unidades militares intervieram também no plano interno, para impor a lei-e-ordem, a mando do governo legal. E produziram as três mudanças de regime político que o país conheceu no século XX. Porém, depois de 1834, só rara e fugazmente se dividiram em conflito armado, apenas algumas vezes aflorado ou ensaiado e logo apaziguado, mais frequentemente brandido como ameaça para obter efeitos num jogo político nacional de baixa qualidade. Mas hoje, como nos outros países do Ocidente, vivemos numa sociedade pacífica, com subordinação das Forças Armadas ao poder civil democrático, embora o ambiente externo geoestratégico esteja longe de ser tranquilizador.
Em prontidão para combate, os militares portugueses têm evidenciado qualidades de bravura, inteligência de comando e sistemática-e-improvisação logísticas que são francamente comparáveis a forças estrangeiras dotadas de muito melhores recursos. Porém, como em todos os outros exércitos, no resto do tempo e na “vida quarteleira” imperam as rotinas burocráticas, os rituais regulamentares e as práticas sem sentido objectivo – que vão ocultando os subtis jogos de interesses inter-corporativos e as rivalidades na ascensão profissional. Salva-se geralmente o cuidado posto na conservação do património e no bom uso da “fazenda nacional” a seu cargo; e talvez também o profissionalismo de que parecem imbuídas as novas gerações. Com dois adicionais mais recentes: à vista do que nos conta a comunicação social, a desfaçatez do ganho ilícito ou da corrupção vai alastrando por todo o sector público sem encontrar barreiras éticas e legais suficientes; e as instituições para-militares que nas últimas décadas têm proliferado (forças policiais, de protecção civil, etc.) parecem querer imitar alguns dos piores comportamentos que podem encontrar na esfera castrense.
Oxalá a futura realidade possa desmentir as actuais preocupações.

JF / 15.Jul.2017


Post Scriptum: A obediência cega e a disciplina-por-castigo (com o essencial dos louvores para os comandos) eram provavelmente a única forma de lograr que grandes massas de homens fossem vencedoras na batalha. E o rústico nível cultural do pessoal de enquadramento que lhe estava associado era tanto o promotor necessário dessa disciplina como o seu resultado.   

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