segunda-feira, 10 de julho de 2017

Dilemas terríveis

Estava-se em plena Batalha do Atlântico e a corveta Compass Rose navegava em mar picado rumo a nordeste. O navio era acanhado e escassamente equipado mas o comandante Ericson conseguira unir bem a centena de homens da sua guarnição para o cumprimento das missões que lhes eram atribuídas, essencialmente de escolta de comboios de navios de transporte com subsistências, homens e materiais para as populações e as frentes de guerra aliadas na Europa. Os submarinos da Kriegsmarine atacavam com frequência lançando os seus torpedos em imersão, ora isoladamente, ora em “matilhas”, perseguindo por vezes as suas presas durante muitas horas até acharem o momento mais adequado para terem sucesso.
Passava das 7 da manhã e os quartos preparavam-se para serem rendidos na corveta quando um dos navios que se atrasara um pouco do comboio foi torpedeado, a cerca de 2 milhas de distância. Tocou o besouro dos postos-de-combate, o comandante subiu rapidamente à ponte, ordenou “toda a força a vante” e a proa conveniente ao homem-do-leme de modo a acercar-se da zona onde umas dezenas de náufragos tentavam sobreviver, apenas com os seus coletes salva-vidas. Minutos depois, da cabana do asdic, o marinheiro operador lançou o grito: “Contacto! Tenho um eco no azimute um-três-cinco vermelho”. Talvez influenciado por tal notícia, o grumete de vigia a bombordo disse então que lhe parecera ter avistado um rasto branco de periscópio ou snorkel, entre a carneirada da pequena ondulação. O comandante dirigiu para lá o seu navio mas ficou sem respiração quando deu conta que se tratava, afinal, da mesma zona onde se encontravam os náufragos, esbracejando: uns quarenta, calculou por alto. Se o submarino inimigo estivesse ali, as bombas de profundidade que lançaria decerto os matariam a todos. E as ordens do Almirantado e do Gabinete de Guerra de Chuchill eram taxativas: tudo devia ser sacrificado ao objectivo de pôr fora de combate um navio inimigo ou salvar uma unidade da Navy.
A seu pedido, o imediato confirmou do asdic: “É um eco autêntico. Só pode ser o submarino, que agora nos ameaça!”. Em tais condições, nem pensar parar as máquinas da corveta e pôr na água as baleeiras para resgatar os náufragos: seria oferecer um alvo imóvel aos boches. Dilacerado pelo dramático pela situação, Ericson assumiu o dever de todo o comandante em combate: ordenou “Pronto a atacar!”, completando com os dados de regulação da profundidade das bombas, de acordo com o posicionamento do “eco”, já apenas a 300 jardas de distância.  E, num sofrimento moral atroz, soltou a voz de “Fogo!”.
Como é sabido, a superfície do mar estremeceu sucessivamente em círculos concêntricos brancos donde se elevavam gerbes com vários metros de altura. Os corpos dos desgraçados saltaram como bonecos desarticulados, muitos ficando despedaçados à tona de água. Toda a guarnição da corveta estava lívida e alguns fitavam o comandante tentando entender o seu estado de espírito. Mas, caso estranho, não boiaram destroços do submarino nem apareceram manchas de óleo à superfície. Passaram os minutos, agora com o inglês a pairar, na expectativa, sem compreender muito bem o que se passava. O “eco” da detecção fora-se atenuando e quase desaparecera. Vários marinheiros se interrogavam sobre o que, de facto, acontecera; se o alemão os tinha ludibriado e escapado ao castigo; ou se…
O lieutenant-commander Ericson mandou finalmente a “dar volta” aos postos-de-combate e regressar à navegação a bordadas, reocupando o seu lugar na escolta. Conferenciou com o imediato e, em seguida, fez seguir uma mensagem secret para o comodoro do comboio. Nela dava conta do sucedido e aventava a hipótese de o “eco” do asdic ter sido, afinal, do casco do navio torpedeado descendo no oceano, e não do seu executor. E pedia para ser substituído no comando logo que fosse oportuno.
Este é – mais coisa, menos coisa – um caso relatado, com superior qualidade literária, por Nicholas Monsarrat em The Cruel Sea, livro que alguns liam nos anos 60. É um dos dilemas com que sempre se confrontam os chefes militares no terreno, especialmente quando envolvidos em guerras irregulares e assimétricas ou quando se batem no mar contra outros marinheiros que, num instante, podem deixar de ser inimigos para se tornarem náufragos que devem ser socorridos, na medida do possível. Esse é um drama de todas as guerras e de grande parte das situações de emergência, para as quais se exigem uma sólida formação moral e a plena assunção de responsabilidades pessoais. Mas cabe à sociedade evitar que tais situações aconteçam.
JF / 8.Jul.2017

(Dedicado ao meu velho amigo Zé Carlos B.B.S., que foi perito na matéria)

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