sexta-feira, 9 de março de 2012

Os gregos

Os gregos são um povo estimável, como todos os outros. Têm o calor humano mediterrânico, mas também as suas inconstâncias e arrebatamentos. Suscitam-nos sempre um carinho especial, pela história da sua antiguidade (da filosofia às artes, da democracia aos jogos olímpicos), mas isso são contas do passado profundo, que geralmente olvidam a existência da escravatura, a brutalidade de Esparta, a impiedade das guerras e as querelas entre cidades. A Grécia medieval, moderna e contemporânea é, não por acaso, um objecto de colonizações romanas e turcas, e de precárias soberanias próprias quase sempre economicamente dependentes do estrangeiro.
Actualmente, aos olhos de muita opinião pública, tornaram-se parecidos connosco, portugueses (mas para pior!), no desleixo das despesas estatais, no desperdiçar das oportunidades tidas pela participação no “clube dos ricos” europeus e no sectarismo das divisões políticas tantas vezes exibidas. Mas já vinham partilhando com outros povos da região – em particular, com os seus vizinhos e odiados turcos – uma reputação de escassa seriedade e confiança nos compromissos firmados. Há povos (como nós também) que parecem oscilar entre a submissão e a rebeldia.
É claro que tudo isto tem muito de preconceito e imagem-cliché. Mas as opiniões colectivas fazem-se precisamente dessa maneira, não sobre o rigor da ciência.
E para comprovar esta tendência, aí estão agora a correr nos facebooks e blogs mais irreverentes todas as chispas e apóstrofes contra “os alemães”, que ainda não pagaram dívidas de guerra à Grécia, os incitaram a todos os gastos, lhes venderam submarinos inúteis (como a nós) e mais toda uma vasta gama de culpas “nacionais”, a que não chegam a faltar alusões aos crimes de guerra dos seus avós e aos desígnios imperiais da sua próxima geração.
À parte algumas “tiradas” com graça, estas polarizações nacionalistas são desajustadas e inúteis, e podem até ser perigosas. Ninguém acredita nisso, mas não foi por acaso que o sr. Kohl lembrou há dias que neste continente “há ainda uma questão de paz” e que a União Europeia deve ter isso em conta.
A Europa debate-se numa crise interna de natureza económico-financeira mas que também corresponde ao enfraquecimento da sua força produtiva no mundo global. Isto está a pôr em causa o sistema político aqui levantado nas últimas décadas: quer, de modo imediato, as instituições supra-nacionais arquitectadas; quer as velhas soberanias nacionais, tal como têm sido praticadas de há dois séculos para cá; quer ainda os modos de participação popular nas decisões (via eleições) e de legitimação dos diferentes órgãos de poder democrático.
Muitos acreditam que só este estado de necessidade pode empurrar o processo para um novo salto de integração política europeia – necessariamente uma Europa federal. Mas não há dúvida que tal intento redundará num perigoso fracasso se não assegurar estas duas condições fundamentais: -que os espaços nacionais mantenham a sua própria identidade histórica e cultural, e alguma capacidade de auto-governo e de auto-determinação; -e que seja possível construir um modo de participação política directa dos cidadãos europeus que não os aliene perante gigantescas máquinas partidárias transnacionais ou líderes puramente mediáticos, o que agravaria exponencialmente a já visível crise de legitimidade e de capacidade de representação que vem afectando os agentes políticos actuais.
Se, porém, a crise grega se transformar em falência descontrolada, é todo um outro cenário que se abrirá para a Europa, quiçá para o mundo. Oxalá tal não aconteça.
JF / 9.Mar.2012
(PS – A este propósito, vale a pena ler o ponderado texto de opinião de Paulo Trigo Pereira “A Grécia e Portugal” saído no jornal 'Público' de 4 de Março último)

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