sábado, 24 de março de 2012

Comentadores, ainda

Estranharam alguns leitores deste blogue não ter sido incluído o nome de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) entre os comentadores aqui referenciados há algum tempo atrás.
Não foi esquecimento. Foi omissão deliberada. O homem (como ele gosta de dizer) não pertence a este mundo. É, de certo modo, um extra-terrestre, que tudo sabe e que sobre tudo tem uma opinião fundamentada e definitiva. Por isso não podia ser puxado para o plano dos simples mortais…
Com esta omissão, é óbvio que também revelo a minha escassa admiração pela personagem. Mas, sobretudo, quis significar que se trata de um indivíduo à-parte, por boas e piores razões.
Não está em causa a sua superior inteligência (e até a capacidade física para assumir a carga de trabalho intelectual que se diz ser capaz de suportar). Também não interessa muito que a exibição semanal de conhecimentos que pratica só possa ser conseguida pelo labor de uma equipa por si bem coordenada (a não ser que leia os livros que apresenta só pela lombada). É ainda de admirar a prudência e o desapego que manifesta publicamente quanto à posse de bens materiais (casa arrendada, ajuda solidária ao Cais, etc.) e a sua frequência assídua de espectáculos culturais e desportivos de qualidade.
Simplesmente, o “professor Marcelo” é muito mais do que um comentador: é um verdadeiro actor individual da cena política portuguesa.
É certo que muitos aspiram a sê-lo e que, entre os habituais comentadores com lugar próprio nos media, há vários que desenvolvem nesse campo o essencial da sua actividade político-partidária: veja-se, por exemplo, as figuras de segunda grandeza que agora preenchem as habituais colunas do Público ou o lugar que vem sendo talhado por alguma gente de esquerda para que o sindicalista-doutor Carvalho da Silva desempenhe um papel semelhante (para não perderem o laço ao PC).
Mas, uma coisa são as escaramuças travadas na imprensa ou nas estações de rádio e televisão – que, contudo, por vezes, chegam a perturbar o jogo político, havendo ou não interesses materiais em disputa –, outra coisa (vide MRS) é a possibilidade de, neste ou naquele momento, uma só individualidade poder influir directamente o curso dos acontecimentos, por uma simples apreciação escutada por milhões de pessoas ou pela criação dos tão famosos “casos políticos”.
Evidentemente, nem uma personalidade desta grandeza consegue só por si determinar a agenda de um país. Se o PSD se tornou pequeno para ele, é também porque, tendo sido capaz de encurralar Guterres em vários momentos da governação deste, não pôde instrumentalizar o partido de Paulo Portas à sua conveniência. E o tempo vai-lhe faltando para uma eventual assinatura em Belém. Que ele, aliás, já terá ultrapassado mentalmente com o deleite que lhe deve proporcionar esta função de opinador incontornável da República.
JF/ 24.Mar.2012

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