sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Tejo já foi

Que pena me faz…
Qualquer pintura de há dois ou três séculos atrás representava o Tejo cheio de naus, charruas, galeotas e outras embarcações. As fotografias de há cem anos ou de há meio-século fixavam centenas de navios a vapor e ainda à vela, fundeados ou a navegar, testemunhando a importância de um dos melhores e maiores portos da Europa, embora já só ao serviço da economia nacional e sem impacto para lá das fronteiras.
Hoje, porém, as águas mansas do Tejo estão quase sempre desertas de navios, de S. José de Ribamar a Alcântara, do Terreiro do Paço ao “mar da palha”, com a excepção dos lindos veleiros de fim-de-semana!
Bem sei que as suas águas estão hoje mais limpas do que há vinte anos; que há o porto de Sines (mas ainda tão longe do que foi pensado ser) e um poucochinho Leixões; que por vezes arribam a Lisboa porta-contentores gigantes que carregam cargas que antes enchiam dezenas de navios; e que no Verão acostam ao cais de Santa Apolónia ou à Rocha alguns paquetes de cruzeiro que parecem prédios de dez andares ou mais!
Mas é confrangedor verificar como a economia – e a vida social que ela induz – pode hoje prescindir de tão excelentes condições prodigalizadas pela mãe-natureza para as actividades marítimas, da pesca ao comércio, da investigação científica à exploração industrial (que parecem ficar sempre pelo discurso retórico das “riquezas futuras”) e, necessariamente, ao exercício do controlo da soberania e da segurança no mar.
Neste aspecto, as condições da adesão de Portugal à CEE vieram selar o golpe-de-misericórdia que representou o fim do império (e o termo das protecções nacionalistas) para estas actividades, sem que o plano desenvolvimentista imaginado pelo engº Rogério Martins nos anos 60 tivesse tido condições para se afirmar, acompanhado por outras componentes igualmente indispensáveis: os estaleiros de construção e reparação naval, a modernização das infraestruturas portuárias, da frota pesqueira e das indústrias de conservas de peixe, e a melhoria da qualificação e dos modos de gestão empresarial das populações trabalhadoras. Tudo actividades que, em boa parte, migraram para Espanha, Marrocos ou outras paragens de mão-de-obra mais barata.
Será que o ambicionado alargamento da Zona Económica Exclusiva irá ser internacionalmente reconhecido e que o país terá capacidade para aproveitar esses recursos? Com que base industrial e científica? (ao menos para saber e controlar “no terreno” aquilo que entregará a grandes companhias multinacionais concessionárias, porventura as únicas com capitais e meios tecnológicos para o fazer)
Não é saudosismo, mas é mesmo uma lástima que o magnífico porto de Lisboa se tenha tornado, nestes nossos tempos, mundialmente irrelevante.
JF / 29.Abr.2011

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