domingo, 10 de abril de 2011

À beira da falência!

Chegou o(previsto) momento em que o Estado português deixou de ser capaz de saldar as suas dívidas externas por recurso aos habituais mercados financeiros (que lhe compram as obrigações da dívida pública emitida ou lhe emprestam dinheiro para as suas despesas) ao mesmo tempo que o nosso sistema bancário também já não lograva obter o crédito externo necessário para as suas operações correntes (de conceder empréstimos e pagar as remunerações dos depósitos e outras aplicações financeiras recebidas).
Não fôra a nossa integração monetária no Euro e nas instituições políticas europeias e estaríamos agora numa situação de insolvência externa. Numa empresa, isto chama-se, declaração de falência ou “bancarrota”. Mas como não se pode abolir a existência física e jurídica de um país, as consequências destas falências são sobretudo (embora não exclusivamente) de ordem financeira, económica e orçamental. Terrivelmente gravosas e com o resultado de um empobrecimento abrupto e perdurável de toda a população (salvo os “portugueses internacionais”) e colocando os mais pobres numa situação verdadeiramente aflitiva.
Ainda não estamos aí porque “a Europa” nos ampara. A mesma Europa que também tem algum grau de responsabilidade nesta crise das “dívidas soberanas”, estando apenas agora a aperceber-se de algumas consequências não previstas de uma integração económica e monetária de estados nacionais que, por outro lado, ainda dispõem da maioria das atribuições habituais da soberania política. Pode ser que o “projecto europeu” ressuscite mas, para já, o que se vê é o recrudescimento dos egoísmos nacionais, a imposição da vontade dos mais poderosos, o queixume dos fracos e o apagamento da UE no cenário internacional.
No caso português, não sabemos o que irá seguir-se, em termos de governação do país, e que outras desgraças poderão, a mais ou menos curto prazo, vir juntar-se a estas.
Mas, neste momento, há uma coisa que (embora nada remedeie) precisa de ser apurada sem quaisquer contemplações. De quem foi a culpa? Quem são os responsáveis disto?
A nosso ver, indubitavelmente e longe de toda a “concorrência”, são as elites dirigentes do PS e do PSD, que têm exercido alternadamente a direcção dos governos nacionais, as causadoras deste descalabro, sobretudo depois da adesão à CEE, ao mesmo tempo que só praticam o "bota abaixo" quando estão na oposição. Por tal devem ser responsabilizadas e punidas (ao menos, na consideração dos portugueses).
Depois, num segundo plano de responsabilidades, há que lhes juntar o CDS (que também fez “uma perninha” nos negócios governamentais e na produção legislativa), as oposições (=obstruções) permanentes do PCP e do Bloco de Esquerda, e grande parte das militâncias de base de todos os partidos, esses boys que se forjam nas organizações de juventudes e se apoderam das estruturas do poder autárquico, enxameiam os gabinetes ministeriais e pressionam para obter jobs em todos os meandros da administração pública, nas empresas do Estado, nos organismos públicos autónomos e na “zona cinzenta” situada entre-o-público-e-o-privado.
E deviam ser ainda chamadas à reflexão sobre o caminho trilhado as direcções dos sindicatos de trabalhadores, das associações empresariais e de muitas outras corporações de interesses que se habituaram a pressionar e a “chantagear” estes governos fracos, para obterem sempre novas vantagens para os seus, sem cuidar minimamente do interesse geral.
Pode pensar-se que, ao fim e ao cabo, a culpa é também de nós, simples cidadãos, por tolerarmos este estado de coisas, ou então que, não sendo de ninguém em particular, é da “cultura nacional”, das práticas e do emaranhado de normas jurídicas em que somos pródigos: seria a culpa do “sistema”! Mas quem é que criou e desenvolveu o “sistema” se não aqueles mesmos actores, que nem assim podem aligeirar as suas responsabilidades?!
“Este país” (como alguns gostam de dizer; ou “Portugal”, como outros preferem) não deve orgulhar-se – antes pelo contrário – das elites políticas que deixou produzir e têm desprestigiado a ideia de democracia em que tantos acreditaram após o derrube do “salazarismo”.
O povo português tem uma longa história, não é mais estúpido do que outros, e deve ser capaz de dar o “golpe de rins” necessário para uma regeneração deste regime que pensou (erradamente) em 25 de Abril de 1974 que tinham acabado as provações e tudo lhe seria agora possível.
JF / 10.Abril.2011

1 comentário:

  1. Agora que falas no 25 de Abril, cujo lema consensual foi Descolonização, Democracia e Desenvolvimento, ocorre-me pensar que talvez estejamos hoje numa situação semelhante, nas suas diferenças: quem está a cair na condição de colónia é Portugal, a democracia está nitidamente esgotada e o desenvolvimento falido na melhor das hipóteses por uma década.

    António Pedro Dores

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