sábado, 23 de abril de 2011

Em tempo de espera

Pacheco Pereira escreve hoje no Público contra “o estilo radical, adolescente e futebolístico dos blogues”. Percebendo mas rejeitando a crítica – vinda de um bem-sucedido actor da blogosfera – refiro de passagem alguns temas interessantes neste tempo de expectativa sobre o que irá sair da negociação nacional com as entidades prestamistas internacionais e da consulta eleitoral de 5 de Junho.
Soube-se que os convocantes da grande manifestação da “geração à rasca” legalizaram agora o movimento – sob a apropriada sigla de M12M – ao mesmo tempo que se têm multiplicado em iniciativas de debate público 'webista' e de apresentação de propostas concretas de medidas legislativas (contra os falsos “recibos verdes”, etc.). É louvável esta vontade de “permanecer no terreno” e de serem propositivos, sem se deixarem cair na tentação de irem já para a criação de um movimento político (à boleia de umas quaisquer eleições) ou de entrarem na elaboração de um programa político (para o qual falta hoje uma qualquer base ideológica). É certo que, se este movimento social se afirmar e consolidar – como aconteceu há uma geração com o movimento ecologista ou com sindicalismo operário um século atrás –, essas duas necessidades emergirão a certa altura. Mas, por agora, não vale desqualificar esses jovens dizendo que são contra os partidos e, por isso, um perigo para a democracia, nem acusá-los de não se perceber se são de direita ou de esquerda. Os movimentos políticos genuínos são aqueles que nascem da sociedade, se constroem a partir dos movimentos sociais. Quando assim não é, é porque se trata de organizações partidárias que apenas lutam pelo poder ou então multidões unificadas por sentimentos identitários, que frequentamente se deixam fascinar pelo carisma de um chefe.
Por seu lado, na esfera superior da sociedade portuguesa, o alarme soou. Além do risco de falência, boa parte das elites nacionais temem agora o prosseguimento do destempero das lideranças partidárias e que uma crise política 'de regime' possa vir a perfilar-se no horizonte próximo. Daí uma talvez surpreendente tomada de consciência – mesmo entre gente afecta aos partidos – da necessidade de um governo de “união sagrada” para fazer face aos imensos desafios dos próximos anos. Ora isto é o reconhecimento implícito da enorme responsabilidade dos partidos existentes na situação criada. De facto, se o tempo das guerras entre vizinhos acabou para países como o nosso, é preciso perceber que há questões económicas, sociais, culturais e mesmo políticas que exigem consensos alargados e não devem ficar sujeitas às lutas partidárias e à alternância das políticas.
No plano internacional, é de realçar que desde há cerca de um mês que as manifestações de rua em diversas cidades da Síria contra o regime do presidente Assad-filho não param, a despeito de quase todas deixarem mortos no asfalto. De novo, são usados os meios de comunicação e mobilização modernos (telemóveis, Internet), as reclamações parecem ser não-religiosas mas essencialmente democráticas (liberdades cívicas, saída de cena do governo e da sua polícia política, etc.) e as oposições conseguem aliar-se. É mais um país árabe onde o partido Baas (em tempos visto como o do socialismo possível naquela área) parece estar a chegar ao fim, mas esta será uma evolução com imediatas consequências externas imprevisíveis, em particular em casa do vizinho Líbano e, por consequência, também na fronteira norte de Israel. Enquanto isto, no Iémen o presidente Saleh continua a resistir e a reprimir com violência as manifestações populares contra o seu poder (aqui, parece que com colorações étnico-religiosas) e na Libia a guerra vai-se prolongando, com a ajuda a-conta-gotas da NATO aos rebeldes de Bangazi (mas a roçar a ultrapassagem do mandato da ONU) e o insuportável Kadafi a não dar sinais de cedência. Entretanto, para lá do jogo-do-empurra entre Berlusconi e Sarkozy, como deve a Europa fazer face à massa de refugiados que afluem dessa região?
JF / 23.Abr.2011

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