sábado, 19 de fevereiro de 2011

Sexo e violência

Passada a onda de excitação mediática suscitada por um crime de homicídio, podem já propor-se alguns tópicos de reflexão acerca deste tema.
Não sabemos se a “violência doméstica” entre homossexuais é maior ou menor do que em outros casos, mas é certo haver um temor antigo acerca disso. Recordamo-nos bem de havermos assistido em Paris, cerca de 1972, a um filme-debate animado por militantes do então Front Homossexuel d’Action Révolutionnaire justamente sobre esta questão, que dividia e perturbava esses próprios activistas. Não é, por isso, de estranhar que o ex-deputado independente pelo PS Miguel Vale de Almeida tenha logo vindo para a imprensa qualificar de “crime homófobo” o gesto do “modelo” assassino confesso de Nova Iorque, para afastar o debate de terrenos incómodos.
Dias depois, Helena Matos escreveu no mesmo jornal sobre “o glamour do mundo dos famosos” (Público, 13.Jan.2011, p. 29) onde, judiciosamente, escreve: “as mesmas famílias e jovens sempre muito activos na denúncia do trabalho infantil […], que acham que qualquer exigência horária causa traumas irreparáveis no cérebro dos adolescentes e que qualquer palavra menos festiva de um professor é, pelo menos, caso para apresentar queixa por violência psicológica aceitam tudo e mais alguma coisa em troca de um futuro como ‘famoso’ para os seus filhos e familiares” enfatizando que “é perturbante a ingenuidade e a permissividade das famílias de crianças e jovens perante a sua entrada no mundo da moda”.
Mesmo não havendo incentivos familiares, causa grande apreensão a forma como a sociedade actual procura seduzir os jovens, precocemente, para a busca do prazer e da evasão (ainda por cima com lucro chorudo para os promotores) ou como tantas vezes aproxima a sexualidade de várias formas de violência: é ver o modo como isso é constantemente mostrado no cinema e séries televisivas, sugerido na música e mesmo explicitado em certa literatura, construindo ambientes que assim se tornam os quadros de referência em que a grande massa dos jovens de hoje convive e se afirma, na escola, nas ruas ou nas discotecas. De certeza que quando (até meados do século passado) no plano cultural predominava uma estética romântica (tantas vezes ilusória e até pateta), os seus efeitos sobre a juventude estariam longe de ser os mesmos que hoje provocam as referências dominantes centradas no edonismo, nas emoções e na imagem. A relação entre produção cultural e atitudes sociais está longe de ser unívoca e de efeitos necessariamente positivos.
Sabe-se que as fronteiras entre sexo e violência, entre prazer e dor, são coisas em que é preciso tocar com a maior cautela, e não com o despudor com que hoje são exibidas e banalizadas. E que as patologias também podem andar por perto, sendo então indispensável a intervenção de especialistas qualificados. Mas é dever imperioso dos pais e educadores acompanharem de perto as crianças, adolescentes e jovens a seu cargo na difícil construção da sua personalidade, num mundo cada vez mais incerto.
JF / 19.Fev.2010

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