sábado, 26 de fevereiro de 2011

E vão três… mas a Líbia é muito diferente

Não vale a pena repetir aquilo que as notícias e os comentadores têm afirmado. Mas, de facto, o carácter libertário e cívico dos movimentos de rua da Tunísia e do Egipto que derrubaram os seus autocráticos chefes de Estado está longe de se verificar na Líbia. Infelizmente, mas não com surpresa.
Aqui, tudo é diferente, da estrutura social tribal que parece ainda muito forte, face aos núcleos urbanos onde se situam as classes médias, até à natureza “populista” do regime e da liderança de Kadafi. Este, com um discurso, imagem e poses a roçar o psicótico, foi ao ponto de “dissolver o Estado” (possivelmente para atrair as simpatias de alguns anarquistas de cultura primária) e de criar órgãos de suposta democracia directa. Mas isso foi há quatro décadas atrás, nos tempos do “Livro Verde”, quando oferecia os seus campos de treino aos esquerdistas marxistas europeus tentados pela luta armada e patrocinava quaisquer fedahin em luta contra Israel e o Ocidente. Depois, com o petróleo, fez uma daquelas “viragens estratégicas” em que, de forma despudorada, tantos líderes mundiais pareceram acreditar – de Bush a Mandela, de Berlusconi a Sócrates, de Sarkosy a Barroso. Agora, mostra a sua verdadeira face de sanguinário e manobrador sem escrúpulos.
E, nesta dialéctica de fanatismo e violência, também não se descortina nas populações sublevadas muitos elementos de esperança numa saída positiva para a crise. O desaparecimento de Kadafi seria uma boa coisa, mas será péssimo se o conflito armado se prolongar, se o país se transformar num novo Líbano ou numa nova Somália, ou se houver intervenções estrangeiras inadequadas. Está em jogo, bem entendido, o futuro do povo líbio, mas também a situação regional strictu sensu e, mais latamente, os equilíbrios e os interesses geo-estratégicos da faixa que vai desde o Magrebe até ao Afeganistão/Paquistão, incluindo a situação da Palestina, as polarizações efectivadas pela Turquia e o Irão sobre o mundo islâmico, as reservas mundiais de petróleo, a rota marítima de Suez e a segurança do flanco sul da Europa e da Rússia.
JF / 25.Fev.2011

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