domingo, 15 de novembro de 2009

Famílias

Na imitação imparável de outros, aí temos a controvérsia funda do alargamento do casamento a pessoas do mesmo sexo (ou género?), prestes a tornar-se em nova lei da República.
Desconfiamos de alguns dos que reclamam que a decisão seja tomada por referendo, pois, além do tacticismo da jogada (o aborto não foi adiado por uns anos graças a esse expediente de Marcelo de Sousa?), puxam pelo argumento democrático (a maioria do povo é quem mais ordena) para se abrigarem da dificuldade de se posicionar contra-a-corrente. E entre os seus apoiantes, quantos não haverá que quotidianamente coagem mulheres e filhos, mesmo que não cheguem a configurar casos legais de “violência doméstica”?
A Igreja Católica aparece quase sozinha a acentuar a diferença entre a “família natural” e outras formas jurídicas admissíveis de acautelar interesses de pessoas vivendo em comunhão. Mas tem pouca força moral para o fazer, depois de séculos a pregar a obediência e a fidelidade da mulher ao homem, dos filhos aos pais e de todos a uma ideia divina irrecusável – a qual, porém, não resistiu ao exame e ao questionamento dos filósofos e cientistas da modernidade. Embora tudo isso seja explicável pela história, o certo é que o cristianismo sacralizou a desigualdade e o domínio social masculino, que o século XX veio justamente pôr em questão.
Deste e doutros erros fatais, vem-se penitenciando a igreja romana e é corajoso e agradável que o faça, dada a influência social que ainda possui. Mas, no mundo laico em que vivemos, tem de ser outra a base da discordância e da resistência civil perante este ataque à célula familiar, fundada no amor e responsabilidade mútua do homem e da mulher, e nos seus deveres partilhados de educação dos filhos.
De entre as várias formas antropológicas de família, a “nuclear” parece ser a que mais adequadamente sustenta as relações (e as tensões) entre a pessoa singular e o grupo restrito, o desenvolvimento e a maturidade, a afectividade e a racionalidade aprendida, a protecção e a construção da individualidade e da autonomia, a felicidade pessoal e uma adequada inserção no meio envolvente. Daí que a sua “promoção” devesse ser algo a incluir no programa ideológico-cultural da modernidade. E, necessariamente, devesse ser proposto à evolução, gradual, de outros mundos culturais existentes e vivazes ainda marcados pela desigualdade e (por exemplo) a poligamia.
A nossa lei deveria, pois, reconhecer e proteger uma tal realidade e um tal valor. O que está em causa é sobretudo o modelo social que se projecta para os vindouros. Mas, paralelamente, a sociedade deve deixar viver cada um como lhe aprouver, desde que não escravize alguém.
Isto, não o compreendem os arautos do pós-modernismo e das actuais campanhas “de esquerda” na esfera dos costumes. Ajudados por lóbis homossexuais e anti-religiosos, empregam-se esforçadamente na inscrição legal de temas fracturantes, apostando (erradamente, na esteira das utopias espartanas ou comunistas) na visão de um mundo de “pessoas sós”, onde as crianças se auto-educassem apenas com a ajuda de baby-siters e de computadores, e os velhos devessem adiar o mais possível o inevitável, em vez da procura de uma morte digna.
A individualização e a família não têm que ser opostos irredutíveis.
JF / 10.Nov.2009

2 comentários:

  1. Não há razão para as formas de família não "nucleares" garantirem menos adequadamente a educação dos filhos, adoptivos ou não, a seu cargo, mesmo num contexto opressivo de uma "normalidade" familiar, também as famílias de pais separados eram vistas há uns anos como traumatizantes ou menos capazes de garantir a educação dos menores a seu cargo, ponto de vista completamente ultrapassado hoje em dia.
    A desigualdade quanto a mim não tem nada a haver com a poligamia, que tanto pode ser de um lado ou de outro da relação conjugal, e misturar isso com a questão da homosexualidade apenas confunde as pessoas e a discussão.

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  2. Por lapso o meu comentário seguiu com duas gralhas: uma de pontuação, a seguir a «"normalidade" familiar» devia vir um ponto e não uma vírgula, e a outra tem a ver com a palavra «questão» que devia estar entre aspas.

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