segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ambientes

Uma publicidade de página inteira anda a anunciar no 'Público' (com timbres da Universidade Católica e da Comissão para o Centenário da República) um livro e 2 CD de Guerra Junqueiro com esta leganda destacada: “Criou poesias com música. Inspirou melodias. Criou um ambiente revolucionário.” É caso para perguntar que espécie de ambiente revolucionário nos andam, desde há tempo, a cantar os jornais e televisões com as permanentes suspeitas de escândalos de negociatas, corrupções e favores ilícitos entre políticos e gente bem situada noutras esferas da sociedade, ao mesmo tempo que vai aumentando a nossa descrença nos mecanismos da Justiça e, mais latamente, em toda e qualquer autoridade pública.
Se fosse para punir efectivamente os prevaricadores e travar o apetite dos ambiciosos de lucro e poder, deveríamos andar todos mais alegres e satisfeitos, apesar da crise. Mas, pela aparência dos efeitos provocados na consciência popular, é de temer que os honestos se distanciem cada vez mais da coisa pública – que assim fica mais à mercê dos oportunistas e da primeira quadrilha organizada que lhe possa deitar a mão – ou que acabe por se banalizar a própria noção de ilícito e muitos mais achem “natural” aproveitar-se da situação (“ladrão que rouba a ladrão…”).
Resta-nos (sem nenhuma certeza) a esperança no bom senso e seriedade da maioria, para travar uma deriva cada dia mais desagradável e, por momentos, vergonhosa.
JF / 23.Nov.2009

1 comentário:

  1. Vivemos num regime sem quaisquer referências. Em tempos idos os jornais, as telefonias, os fados da Amália, e não esqueçer o "bife" do Central acrescentavam algo. Hoje, pegar num jornal (raras excepções, mas onde?) ou ouvir "telefonia", é o tropeço no insulto pago ou gratuito. Das televisões então é melhor não falar. Somos um país do faz de conta. A Democracia (felizmente) revelou-nos a dimensão do absurdo.

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