domingo, 15 de novembro de 2009

As Falácias dos Media

Num destes dias, durante a emissão de um telejornal, em nota de rodapé, passou, várias vezes, a seguinte notícia: “Jovem que matou ex-namorado foi absolvida”.
Pretende-se, como facilmente se percebe, coligir, numa frase, o que a redacção da TV em causa configura como a síntese do acontecimento.
Creio que essa é, justamente, a gravidade do acontecimento que trago à colação.
Este inusitado resumo, decorre da informação que agora foi conhecida, da prolação de uma Sentença, suponho oriunda do Tribunal de Leiria, relativa ao terceiro julgamento a que aquela jovem foi submetida, por força das sucessivas decisões do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) que o mandou repetir por duas vezes. Nos dois primeiros julgamentos, o Tribunal, não dando guarida ao parecer médico que solicitou, que se pronunciou pela inimputabilidade da jovem, decidiu condená-la numa pena de prisão.
A defesa, inconformada, recorreu da sentença, tendo o STJ decidido revogá-la, ordenando a repetição do julgamento.
Baixando o processo à comarca, os srs. Juízes repetiram o veredicto. Novo recurso e nova (segunda) decisão do STJ, no mesmo sentido.
Na terceira vez, o Tribunal de 1ª instância, acatando o sentido do relatório médico, absolveu a jovem, por, por fim, a ter considerado inimputável ao protagonizar os factos pelos quais foi julgada.
Porém, a maioria da população, que geralmente “não perde tempo” com minudências, ficará somente com o registo final, o qual omite o que a montante ocorreu e permitiu esta última decisão.
A redutora simplificação, porventura não inocente na sua redacção, constituirá mais um prego no caixão da credibilidade pública (muito mitigada) que se tem da Justiça Portuguesa, aplicada nos seus Tribunais e das suas decisões.
Será esta uma consequência que nos interessa, enquanto cidadãos, alimentar?
Não será urgente começar a denunciar estes atropelos que os Media vêm protagonizando?
A receptação (linear) de noticias e/ou a maquilhagem que delas faz, invariavelmente, conduz à (de)formação da opinião pública, alicerce primeiro dum País.
ANC / 15.11.2009

1 comentário:

  1. Post certeiro. Contudo ainda o seguinte detalhe. Nota-se com muito mais incidência nos regimes de democracia tardia, (é o nosso caso) este processo - que para além de foleiro, é tremendamente macabro - dos média marcarem não só a agenda política, mas também as janelas e portas de comunicação(escolhas), traduz a prova acabada da ausência de ética, moral, educação, da falta de causas (atenção, não sou de esquerda) e de todo um rol de situações que findam na falta de algo muito mais profundo. Creio que todos sabemos o que evoco. Vivemos num país sem traço de regime, onde a história (passado/presente) se confunde com um produto descartável. Desta forma, nunca será o TGV a fazer-nos tocar na porta da almejada Europa dos direitos, mas muito mais dos deveres.

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