domingo, 5 de novembro de 2017

Nós, os velhos

Temos tendência a falar do passado, pela razão simples de já pouco conhecermos do presente e estarmos desinteressados do futuro.
Tivemos a sorte (casual) de uma doença ou acidente não nos ter encurtado a trajectória para podermos fazer agora balanços históricos alargados, inatingíveis pelos mais novos.
Quase todos não resistimos a meter na conversa dos outros o “no meu tempo…” que tanto nos irritava.
A nossa empatia com as crianças não precisa de grandes teorias explicativas: sente-se, dos dois lados.
Lisboa é, cada vez mais, um lugar de “muitas e desvairadas gentes”. Apesar disso, nunca me ofereceram tanto um lugar sentado no “Metro”…
Os velhos esperavam pelo correiro, uma ou duas cartas por semana (“Meu querido…” ou “Contra-Fé… A Bem da Nação”). Os jovens de hoje trocam mensagens minuto a minuto (“Estou na maior…”, “Minha estúpida…”, etc.).
A doença e o acidente não escolhem idade mas são sempre mais dramáticos para os mais jovens. Pode-se passar num instante de um atleta para um inválido. Os velhos têm é maior dificuldade de recuperação, que é sempre incompleta.
Revi há dias o filme As Quatro Penas Brancas (versão de Shekhar Kapur, de 2002). É curioso como, emocionalmente, me sinto mais próximo dos finais do século XIX do que do início do actual.
Cada vez com maior frequência nos deixamos aprisionar por certas obsessões sobre assuntos que, racionalmente, julgamos serem minudências. 
(Além da falta de óleo nas dobradiças,) porque será que temos sempre que repetir o que dizemos para nos fazermos entender? Não é provável que seja devido a surdez dos nossos interlocutores. Restam duas hipóteses: a irrelevância do que dizemos; ou a que os outros lhe atribuem.
Para muitos, o banco do jardim e as conversas de café estão sendo substituídas pela tagarelice da Internet onde fazem circular coisas engraçadas, irrelevantes, interessantes ou já fora de moda.
Mesmo na vida de um casal feliz e prolongado nem tudo são rosas. Tirando os (cada vez mais raros) ímpetos sensuais, já tudo foi dito. O interesse vira-se para outros objectos. Resta o respeito, a ternura… e ficar à espera da solidão.
Nesta fase, sentimos muito directamente como as pequenas dores corporais se reflectem no nosso estado psíquico (abatimento, nostalgia, etc.), mais do que inversamente.
A invocação da maior idade (ou experiência) como fonte de conhecimento é indesmentível mas, por ser irrefutável, não pode ser usada como argumento.
A vontade é para ser praticada (e em parte contrariada) pelos mais novos, a ciência pela maturidade, a sageza pela terceira idade.
A nossa relação com o tempo torna-se estranha: tanto se encurta, que não dá para o que queremos realizar; como se alonga, provocando aborrecimento e sonolência.
A dor física pode ser insuportável mas o seu mais pequeno alívio é sentido como uma dádiva maravilhosa.
Passámos do tempo dos “coronéis” e do Estado a que tudo se consentia, para a promoção acelerada dos gay proud e dos governos fracos que só olham para as sondagens.
As acentuadas diferenças de alguns poucos anos quando eramos crianças concentram-se agora numa única “geração”, de idosos. 
Quando nos sentimos empurrados até ao limite, só queremos que cesse a dor que nos magoa o corpo, um mínimo de alimento e um derradeiro regresso aos prazeres primordiais.
Para uma relação afectiva forte e duradoura entre dois amantes têm importância a pertença a meios sociais próximos, terem idades não muito diferenciadas e não serem concorrentes na mesma actividade profissional.
Às vezes, dá-nos mais conforto uma lã ou uma aragem fresca do que uma conversa de intelectuais.
O destino de um espírito racional é este: começamos por querer planear uma reorganização do mundo; e acabamos a tentar planear o nosso dia de amanhã.
O que nos vale é que, hoje, há sempre corpos belíssimos a serem oferecidos ao nosso olhar. Além de paisagens surpreendentes que nos extasiam e acalmam.
Com a idade avançada, as unhas ficam mais duras de cortar e os cabelos mais ralos de pentear, mas o pior é o enrijar das nossas frustrações e o desvanecer da nossa memória.
Somos como o Sporting: lembramo-nos simpaticamente das velhas glórias mas já nunca conseguimos sair por cima.
Mudou o display gráfico do meu programa informático: dantes, via-se um prado verdejante; agora, uma paisagem fria coberta de neve. Sinal dos tempos?
À medida que envelhecemos, vamos realizando a experiência da espiritualidade oriental de a nossa mente poder voar bastante livre, separando-se cada vez mais da carcaça.
Os seres excepcionais são lembrados ao longo de várias gerações através da preservação das suas obras. As pessoas normais são-no apenas pelas impresssões que deixaram na memória dos seus contemporâneos.   
Somos terrivelmente egoístas. Se não fôssemos, quem cuidaria de nós?
Não há dúvida que amamos a vida: basta observar o modo como sorvemos cada colherada, como se fosse a última, para a viagem. Só falta ouvir a voz: “Largar amarras!”.
Mas ocorre então lembrar-nos dos timbres das cantoras latino-americanas Violeta Parra com o seu precioso Gracias a la vida, e Mercedes Sosa com o não menos ajustado Todo cambia.
JF / 5.Nov.2017

[Este conjunto de (des…)aforismos foi sendo construído um pouco em eco aos pensamentos e sensibilidade de um “cte.costa”  ou  de um “antolibento”] 

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