domingo, 18 de janeiro de 2015

Anotações críticas sobre a Sociologia que eu conheci (I)

Breve esboço antecedente ao que poderia ter sido a escrita de um ensaio sociológico sobre metodologia, intermediações inevitáveis nesta elaboração científica, a tentação da formulação de “leis”, a sociologia crítica e as suas relações ao poder, e ainda outros assuntos que foram surgindo a talhe de foice.
A este, seguir-se-á um outro texto, tratando de coisas análogas.

Análise e contra-análise
Deixem-me ser aqui excessivo e provocatório e começar por afirmar que, no processo de demonstração de muita pesquisa sociológica publicada, “diz-se o que se quer dizer”. Os mesmos dados podem servir para dizer isto e o seu oposto! Falo especialmente das análises qualitativas, em que sobretudo se procede por acumulação de indícios que, no final, o investigador considera serem provas explicativas do fenómeno que procurou estudar. Nos métodos quantitativos, em especial quando se usa o teste de hipóteses formuladas por via de algoritmos ou regularidades aritméticas, tais erros parecem menos possíveis mas, ainda assim, é preciso proceder cuidadosamente ao desenho do modelo de análise, à escolha dos indicadores, à codificação de respostas em inquéritos, etc., para que, sob a aparência do rigor matemático, se não escondam deturpações que viciem os resultados finais. A actual catadupa de informação estatística que é servida diariamente pela comunicação social a um público indiferenciado é bem ilustrativa desta ilusão! E note-se que não estamos a suspeitar de intenções menos éticas por parte dos cientistas sociais, mas apenas a alertar para os possíveis erros e defeitos de uma investigação que parece às vezes demasiado “segura de si”.
Depois de umas décadas de expansão e florescimento, a sociologia dá sinais de alguma perda de credibilidade, com paradigmas envelhecidos e desafiados por outras ciências concorrentes ou insistindo na exploração de temas talvez excessivamente afunilados ou sectoriais. E, no entanto, perante tanta invasão do espaço público por especialistas armados de conhecimentos da economia, da psicologia, da ciência política ou das relações internacionais, sente-se amargamente a falta dos contributos que a sociologia pode trazer para o melhor conhecimento das nossas sociedades e mesmo para um maior controlo social sobre o seu próprio devir.
Começando então pelas questões metodológicas, há um procedimento que há muito me seduz e que poderia constranger o processo de pesquisa a um maior rigor: refiro-me ao modelo da análise e contra-análise.
Tratar-se-ia, para o investigador, após ter concluído a sua análise do objecto estudado, com base nos mesmo dados, procurar demostrar logicamente o inverso das conclusões alcançadas, ou, pelo menos, algo de bem diferente da tese defendida. Ou então, se se busca verificar uma hipótese, procurar com o mesmo esforço, rigor e lógica, chegar à sua não-verificação; ou verificá-la, se o resultado inicial tiver sido o inverso.
Só se esta contra-análise (ou contra-prova) fosse positiva (ou seja, se o inverso ou o diverso não fosse, de facto, também demonstrável; ou se a hipótese não fosse, ao mesmo tempo, verificável e não-verificável), é que poderíamos considerar validadas as conclusões formuladas.
Sei bem que estou a falar em termos abstractos e que existem muitos procedimentos analítico-descritivos da sociologia que, sendo utilíssimos e indispensáveis, não se prestam a tais exercícios formais. Mas estou a pensar principalmente nos projectos de investigação, incluindo aqueles que servem para sustentar provas académicas de doutoramento onde, verdade seja, cada vez mais se procura apenas avaliar a capacidade e competências do candidato para as profissões da Ciência e já não se espera que dali saia obrigatoriamente um (mesmo pequeno) avanço do conhecimento científico.
Mas tenho presente a volumosa bibliografia acumulada na minha área de especialização da sociologia do trabalho que eu avaliei como inutilizável para o ensino após a queda do bloco socialista do Leste… tais eram as insidiosas mas agora indisfarçáveis infiltrações ideológicas derivadas da luta política entre capitalismo e socialismo que haviam penetrado neste edifício da Ciência, suposto inabalável e acima de tais querelas.  
Assim, uma maior exigência metodológica quanto à validação do conhecimento científico em sociologia – independentemente de um mais frequente uso dos seus instrumentos de pesquisa e análise para responder concretamente a problemas socialmente relevantes – traduzir-se-ia possivelmente numa melhor contribuição desta disciplina para o progresso da humanidade. E talvez isso ajudasse a aligeirar um pouco as nossas estantes...

A importância das linguagens
Diferentemente das ciências exactas, nas ciências sociais e humanas o pensamento só vai fluindo e progredindo, através de múltiplas conexões lógicas ou exploratórias, de acordo com a maneira como somos capazes de o formular (isto é, de traduzir em frases construídas com sentido gramatical). No caso das ciências exactas, essa dependência também existe, mas é em relação à formulação lógico-matemática (isto é, através de algoritmos). Isto mostra como nas “humanidades”, para além de outras contingências ou vínculos estruturais, o progresso do conhecimento está também dependente das “disponibilidades linguísticas”, além certamente das competências do cientista em as dominar. Formulamos “ideias científicas” através de conceitos e afirmações (statments, proposições, dúvidas, hipóteses, questões), que se encontram enredados num universo de significações e regras gramaticais que as contextualizam. Por outro lado e simultaneamente, necessitamos absolutamente de tais universos e também de instrumentos “tradutores” que nos permitam: a) primo: verter observações e discursos “triviais” para o nosso quadro analítico; b) secundo: que tais “ideias” sejam difundidas e compreendidas pelo senso e a cultura comuns. Temos pois sempre um problema de tradução (além de outros) no vai-vem inevitável entre as formulações científicas e a linguagem comum.
Para além da percepção comum do “tradutore, traditore”, tinha planeado ler a referenciada obra de Walter Benjamin sobre tradução, coisa que nunca pude concretizar. No entanto, mesmo sendo um leigo na matéria, percebo como todos as dificuldades e armadilhas da tradução (porque o texto está ligado à língua e esta ao pensamento) e tive oportunidade de enfrentar este problema em variadíssimos casos de indicação bibliográfica de autores estrangeiros da sociologia mal vertidos para português, ou para os quais eu procurava uma forma de elucidação dos meus alunos que fosse a mais correcta possível. Ocorrem-me no momento conceitos como o de “discreción”, em castelhano (ou “discretion”, em inglês), que nunca consegui resolver de forma inteiramente satisfatória. Ou os termos “commitment” (inglês) e “compromis” (francês), com diversos sentidos em português, vizinhos mas suficientemente diferenciados: - Envolvimento ? - Compromisso ?  - Empenho, teria um sentido mais forte (talvez já próximo do “compromisso de honra”, ou seja, de um juramento); - Diligência, envolvimento, implicar-se em algo? - Comprometido, comprometimento, com sentido negativo, moral ou jurídico? - Mas “solução de compromisso” já remete para outras direcções, em que solução significa soluço, interrupção, mas também resultado; e compromisso vale aqui como agenciamento de interesses ou posições diferentes, por exemplo numa negociação, em que se cede parcialmente para se chegar a um acordo final; - Etc.
De facto, a sociologia usa linguagens marcadas pelo hermetismo e polissemia, ao mesmo tempo que emprega palavras e expressões do idioma corrente (ou literário), de que são exemplos imediatamente acessíveis à generalidade das pessoas com uma cultura básica ou média, os seguintes (entre muitos outros): classe; poder; família; socialização; diferenciação; etc. Mais raramente a sociologia emprega termos eruditos e/ou herméticos, como “seripendidade” (seripendity), status, “privação relativa” ou outros.
Admito que em outras ciências sociais possa ocorrer o mesmo fenómeno, mas, cautelosamente, não o afirmo, pelo que me refiro aqui apenas à minha disciplina científica.
No primeiro caso, a linguagem dos sociólogos parece muito mais acessível mas, na verdade, entra num jogo de subtilezas semânticas de base polissémica. A decifração do sentido preciso em que o sociólogo usa então o termo comum decorre do contexto discursivo e dos leitores ou dos ouvintes/falantes envolvidos na discussão. Ou seja: esse sentido preciso revela-se por entendimentos subtis a que só os “iniciados” acedem discretamente (de um modo equivalente aos toques ou imperceptíveis sinais de reconhecimento que vigoravam entre os membros das sociedades secretas).
O segundo caso, de mais escassa utilização pelos sociólogos, traduz-se, como vimos, pela adopção e desenvolvimento de uma terminologia própria e especializada (como a usada pelos médicos, pelos marítimos ou ainda nas designações de espécies botânicas em latim). Esta alternativa também afasta os “profanos” mas, diferentemente da anterior, anuncia as fronteiras do “território sagrado”, unicamente acessível aos “ungidos”.
Ao constatarmos esta prática social dos sociólogos na sua produção científica escrita e falada, podemos então pensar, em termos interpretativos, que os sociólogos tendem a adoptar uma postura estratégica inteligente e elaborada através da qual encenam, à primeira vista, uma intenção de abertura, diálogo e dissolução no meio das pessoas comuns ao utilizarem uma linguagem entendível e com (algum) sentido para todos. Assim, recolherão os benefícios de parecerem próximos ou iguais ao indivíduo vulgar, pois assim o percebem esses anónimos.
Porém, a realidade é mais complexa e menos altruísta. Com efeito, a pessoa comum não entenderá no discurso do sociólogo senão uma parte, um sentido restrito e parcial do conceito dominado, na sua complexa globalidade, pelo cientista. Este sabe-o e disso tirará algum capital de superioridade. E se um exemplar do comum ousa intervir, perguntando ou contestando a afirmação do sociólogo, logo se lhe revelará como profano, desarmado do saber e da posse dos códigos da comunicação científica.
Assim, um despique (e, de certa forma, um embuste) se perfila na relação entre o sociólogo e o cidadão comum, por via deste uso duplo da linguagem científica. Os sociólogos, como especialistas científicos da sociedade, tiram todo o proveito de se fazerem mostrar próximos e iguais às pessoas comuns, insinuando-se e fazendo-se passar por tais, mas, internamente, preservam o seu espaço próprio e reconhecem-se como diferentes e bafejados pela distinção de um acesso exclusivo a um grau de compreensão superior.
Alguns dos seus comportamentos prosaicos quotidianos vão no mesmo sentido. É muitíssimo mais fácil encontrar um sociólogo vestido de forma (espontânea ou estudadamente) descontraída ou mesmo algo negligente – sem gravata, de blue jeans, despenteado, etc. – do que da forma de vestir tradicional da classe média ou trajando à dandy.  
Dentro do próprio território sagrado, um processo semelhante – agora de maior ou menor domínio dos cambiantes do conceito – tende a diferenciar e a hierarquizar os vários estratos de sociólogos, em termos de acesso, posse e conservação do conhecimento, estratos que muitas vezes não correspondem às hierarquias formais das carreiras académicas ou à idade e experiência dos sujeitos mas, principalmente, à sua aptidão em usar adequadamente os recursos de conhecimento, relacionamento e comunicação mais eficazes neste específico meio social.

Perguntar, responder
As técnicas de inquirição a pessoas comuns escolhidas aleatoriamente são muito utilizadas em sociologia e, cada vez mais, por outros agentes, sobretudo com fins comerciais.
Nesta última circunstância, muitas vezes feita telefonicamente ou por via da Internet, é frequentíssimo as perguntas – e, sendo caso disso, as alternativas de resposta – serem muito mal formuladas, dando lugar à multiplicação de ambiguidades que acabam inevitavelmente por enfraquecer a qualidade dos resultados finais apurados no inquérito. Os sociólogos, psicólogos sociais e politólogos aprendem a evitar tais escolhos mas, mesmo assim, não é raro encontrar em trabalhos científicos deficiências de formulação, em parte causadas por mau manejo da língua, em parte por incúria do investigador.
Uma pergunta “de opinião” pode ser interpretada diferentemente se, na redacção da mesma ou nas “instruções” anexas, não se esclarece devidamente o respondente sobre aquilo que se pretende. Por exemplo: ao perguntar simplesmente “O grau de importância que atribui a…”, o respondente mais consciencioso fica sem saber se se pretende que responda “Como eu acho que é, actualmente…” (princípio da realidade) ou “Como eu acho que devia ser” (normatividade pessoal ou ideológica). Ou, se se inquire qual “O grau de preocupação que lhe suscita... (um determinado problema)”, convém esclarecer que se pretende obter a opinião do respondente como resultado de uma análise, minimamente estruturada (isto é, resultado de uma hierarquização conceptual) ou, diferentemente, como preocupação emocional (afectiva, angustiante, ligada à vivência do problema).
Nunca fui especialista das matérias de ensino dos métodos e técnicas de investigação e análise sociológica. Porém, na oportunidade de participar em inquéritos internacionais de grande exigência metodológica, pude avaliar melhor a importâncias destas questões, que procurei aperfeiçoar em diversos projectos de investigação empírica de que fui responsável. E tive ainda o desplante de poder conceber uma operacionalização técnica inovadora – a choice box (ver revista Sociologia – Problemas e Práticas, nº 48, 2005) –, utilizável num questionário de administração presencial, em situação de entrevista, em que o método de resposta a um tipo específico de pergunta era o da escolha múltipla distributiva, que pode ser definido como aquele em que o sujeito “arbitra a distribuição ou incidência relativa de um atributo, dentro de um campo limitado de alternativas” ou, em termos matemáticos, uma “escolha distributiva ou percentual”. Isto originou um pedido de submissão de patente nacional, financeiramente sustentado durante alguns anos, mas que infelizmente não pôde ser levado ao seu termo por desatenção ou desinteresse do centro de investigação a quem eu oferecera a “invenção”. Lamento hoje não ter dedicado mais atenção a este assunto e, sobretudo, não ter solicitado desde logo a patente europeia (bastante mais cara). Tenho a impressão de que, se reconhecida, teria sido uma première absoluta em sociologia, que talvez tivesse despertado a emulação de outros investigadores mais qualificados do que eu, lançando-os para maiores cometimentos neste domínio.

Avaliar e medir: o caso das classificações avaliativas académicas   
Alguma reflexão prosseguida ao longo de anos sobre as “notas” obtidas pelos alunos da minha área científica levou-me a questionar o sistema classificativo “de zero a vinte” em vigor nas universidades portuguesas e a levar esta questão a um debate de natureza pedagógica com os meus colegas, organizado em tempo, certamente mais de uma década, pelo ISCTE.    
Recordo-me de ter recorrido a simples análises de estatística descritiva sobre os resultados escolares dos alunos, a confrontos e discussões com colegas de universidades estrangeiras, sobretudo a partir do momento que o programa de mobilidade estudantil Erasmus se tornou mais recorrente, e também à experiência que ocorreu em Portugal nos anos agitados a seguir a 1974, em que a classificação numérica de 0-20 foi substituída por uma escala qualitativa positiva de “A, B, C”. Tanto aqui como no lançamento de classificações obtidas no estrangeiro, colocou-se logo o problema das respectivas equivalências. Lembro-me, por exemplo, que na Bélgica acrescentavam alguns valores às classificações trazidas de Inglaterra e, em contrapartida, diminuíam as obtidas em Itália…
Defendi então que melhor qualidade da escala 0-20 era a sua “universalidade” (vide até as então marcantes “notas do professor Marcelo”), por não haver qualquer contestação significativa à sua aplicação, num meio social onde a crítica é incentivada e a contestação estudantil está activa a propósito de muita coisa, justificada ou não. Tinha também a vantagem de ser facilmente convertível em percentagem, e vice-versa, pois a estrutura lógica é a mesma. Mas não haveria défice de discussão e reflexão? Não haveria mesmo atitudes “estratégicas” dos actores para manter o statu quo, pelas vantagens pessoais que daí retirariam? Nas disciplinas optativas, os professores tinham evidente interesse em, por via das classificações elevadas, atrair os alunos, e estes em as angariarem, com vista à melhor média final do curso. E tenho ideia de ter exibido os resultados da minha análise estatística apontando a “arbitrariedade” das classificações negativas (por força da sua escassez nas nossas disciplinas), e a dificuldade de atribuir classificações positivas em mérito absoluto numa escala de 21 graus (10 a 20, inclusive) em matérias de ciências sociais (através de apresentações orais, ensaios críticas, notas de leitura, etc.), acabando por essas classificações decorrerem essencialmente de uma avaliação em mérito relativo, onde se podia sustentar que, embora ambos “Bons”, a prova de Fulano era melhor do que a de Beltrano.   
Problemas de índole semelhante mas concretizados de modo diferente se colocam frequentemente também nas classificações qualitativas a atribuir em provas de doutoramento ou em exercícios de avaliação do desempenho profissional de pessoas ou de instituições.
Recordo-me, finalmente, que a orientação para a qual me inclinava então, decorrente dessas análises e oportunidades de reflexão, ia no sentido de uma escala positivo-negativo não-simétrica, com 2 graus na parte negativa (ou insuficiente) e 3 ou 4 na parte positiva – no fundo, próxima daquela em uso há largos anos no ensino básico português. E que a minha maior frustração decorreu da percepção com que então fiquei de que estas questões de avaliação classificativa são encontravam a mínima sensibilidade e interesse em serem discutidas na nossa universidade (pois a Ciência estava sempre à frente de tudo!…). Mas também retive a ideia, que me foi transmitida por alguém conhecedor do que se passa em grandes países, de que qualquer modelo de avaliação de desempenho tem necessariamente, de tanto em tanto tempo, de alterar os seus critérios e modos de intervir, para assim se furtar aos “curtos-circuitos” e “comportamentos estratégicos” que os avaliados põem sempre em acção para evitar sofrer os efeitos nefastos daí decorrentes. 

Pensar em “A-4”; raciocinar em “Windows”
Esta era uma especulação que nunca cheguei ou fui capaz de desenvolver: era um exercício especulativo sobre as “formatações” físicas em que somos obrigados a expor a complexidade de raciocínios nas análises em ciências sociais. Os psicólogos, por exemplo, forjaram uma sistemática de exposição do texto científico muito económica e formalizada em que, geralmente, procuram explicitar um problema de contornos bem delimitados, referenciar a teoria que guia a pesquisa, indicar os procedimentos metodológicos usados, apresentar e discutir os resultados obtidos. Em sociologia, a variedade de métodos expositivos é muitíssimo maior. Mas todos os investigadores menos experimentados começam por experimentar a “angústia da folha em branco”, na hesitação de como começar o texto. Mas sabem perfeitamente que este tem de “caber” naquele formato preconcebido.
O “A-4” é um pouco o símbolo da escrita, do artigo, do trabalho académico, da tese. É o ponto de conjunção de um pensamento sistemático e teórico, com o texto, o discurso da língua e das suas exigências gramaticais e semânticas. O texto torna mais rigoroso o pensamento, porque o fixa; mas mata o discurso, porque lhe tira a expressividade, a emoção, a convicção (que existe na pregação, na defesa jurídica, no apelo do líder, na exaltação do conferencista, na peroração do filósofo). Experimente o sociólogo professor universitário gravar discretamente algum dos seus cursos – como eu já fiz com a intenção baldada de aproveitar esse discurso para escrever depois um “manual” – e veja como pouco dali se aparenta com um texto preparado para publicação, não obstante todo o empenho e sabedoria postos da preparação dessas aulas!
Por seu lado, o “Windows” é o símbolo do actual trabalho e uso da informática em ciências sociais: manipula o texto com muito maior facilidade, mas sobretudo integra a palavra com o número e com gráfico; integra (coisas dispersas), normaliza (a revisão literária), sintetiza, pesquisa (as palavras-chave), intercomunica, etc. O Windows não é apenas a máquina; é uma parte já de saber codificado e aplicado. O resultado já não é puramente individual, singular. É uma técnica hoje indispensável, utilíssima e muito mais produtiva do que todas as anteriores formas de escrita (caligráfica, dactilógrafa, com revisões, etc.), mas é também uma nova maneira de organizar e transmitir o pensamento a terceiros.
Mas, por outro lado, ao oferecer ao cibernauta um conjunto de leques de escolhas entre termos alternativos não hierarquizados, a Internet “achata” a hierarquização da importância dos temas, as suas relações lógicas e sequencialmente ordenadas. Todos os assuntos se equivalem em ordem de importância: tudo são “palavras-chave” para a pesquisa. O conhecimento (a que acede o cibernauta e, futuramente, a sua educação intelectual) passa tendencialmente a ser “horizontal”, “paralelo”, misturando indiferentemente conceitos de elevada complexidade e formulação com informações triviais da prática quotidiana, turística ou desportiva. O que se ganha de um lado parece perder-se de outra banda.

Atitudes e racionalidade

Segundo Stoetzel, as atitudes sociais são disposições relativamente estáveis dos sujeitos, subjacentes a um conjunto de comportamentos (actos objectivos, observáveis, registáveis) e de opiniões por eles emitidas, conferindo um certo grau de coerência ao conjunto e sendo, por isso, um instrumento útil para construir tipologias que nos ajudem a entender as acções humanas, individuais e colectivas.
Quando se fala de atitudes – que, insistimos, não são leituras imediatas da realidade – é frequente usarem-se os adjectivos de “optimistas” ou “pessimistas”, os quais representariam desde logo uma certa disposição atitudinal dos sujeitos face a um determinado problema ou campo de opções. Procuremos então confrontar estas supostas disposições em contraposição com um aferimento quanto à sua racionalidade ou não-racionalidade.
Nas atitudes “optimistas” a racionalidade residirá em reconhecer a insuficiência, limitações e distorções da informação de que dispomos e do nosso conhecimento; e hipotizar que, no futuro, podem surgir outros e novos dados que permitam saídas para situações aparentemente bloqueadas. Temos pois, aqui, uma racionalidade objectiva, fundada sobre hipóteses plausíveis ou condicionada por elementos presentes desde o início. Distintamente, a não-racionalidade poderá residir em apostar (à sorte) que algo de novo e de melhor virá desbloquear uma situação aferrolhada (atitude temperamental); ou ter a crença de que a humanidade caminha para melhor, apesar dos desvios, ou que o Homem é bom, apesar dos disparates que faz, etc. (atitude cultural).
Pelo seu lado, nas atitudes “pessimistas” a racionalidade residirá em: reconhecendo a insuficiência, limitações e distorções da informação de que dispomos e do nosso conhecimento, concluir que, numa dada situação, as saídas podem ser negativas, devendo então prepararmo-nos para esse pior cenário (de novo, uma racionalidade objectiva, fundada sobre hipóteses); ou então, admitir que tais saídas possam, apesar de tudo, ser menos negativas do que as que entrevemos (ou até, surpreendentemente, positivas), considerando nesse caso que tal surpresa é um ganho adicional em relação a expectativas mais modestas (ainda uma racionalidade positiva, mas hipotética, de segundo grau). Por seu lado, nesta mesma atitude “pessimista”, a não-racionalidade residirá em: ter a inclinação para tapar as saídas possíveis, ainda que improváveis (atitude temperamental); ou ter a convicção de que a humanidade caminha para pior, ou que o Homem é mau por natureza, etc. (atitude cultural).

Temas dispersos de uma epistemologia simples:
A teoria dos dominós é muitas vezes referida nas relações internacionais. Parece que adquiriu esse estatuto depois do uso político que dela fez o Secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger na primeira metade da década de 70 do século passado. A sucessão de quedas dos regimes políticos nacionais que vigoravam no sudoeste asiático orientando-os para o bloco socialista, a que se seguiu a vaga de democratizações no sul da Europa, terão configurado aos seus olhos a ideia de insustentabilidade de um governo quando outros homólogos implodem ou são derrubados em curto espaço de tempo. Esta noção foi confirmada, anos depois, pela erradicação das ditaduras na América Latina e, sobretudo, em 1989-91, pelo esboroamento e auto-destruição dos regimes socialistas do leste europeu. É sabido que a “ordem internacional” tem uma natureza específica que não é comparável a qualquer formação social constrangida pelos limites jurídicos e geográficos dos poderes de Estado. Contudo, à vista de fenómenos de enfraquecimento da coesão social e de perda de reconhecimento das instituições tradicionais (políticas, económicas, judiciais, etc.) como aqueles que parecem entrever-se no actual clima de crise económica, não deixa de ser pertinente perguntar se a referida “teoria dos dominós” (ou algo de parecido) pode ter aqui algum tipo de aplicação. Ao observar as pulsões regionais e nacionalistas no interior de certos estados europeus, ocorre-me pensar na história de um país tão importante e progressivo como a França na década de 1930 e em seguida na década de 50, e na maneira como então se finaram as instituições da III e depois da IV República.  
Dois factores sempre esquecidos. Em praticamente todas as análises históricas (mas de acontecimentos e situações que podem ter ocorrido há apenas alguns anos atrás), sejam elas de base documental ou por rememoração de algum observador então presente, há dois factores “de contexto” que são quase sempre esquecidos, em favor das dinâmicas em jogo, da intencionalidade dos agentes, etc. São: as condições meteorológicas e o dia da semana. Da nossa própria experiência de vida, sabemos bem como a chuva, o calor, o frio, o vento ou a tempestade condicionam externamente muitos dos planos que poderiam estar previstos ou o empenhamento ou disponibilidade das pessoas para fazerem isto ou aquilo. Ora, se isto é assim, parece óbvio que, relativamente a qualquer evento passado, o investigador deva apurar que condições meteorológicas vigoravam no dia e no local em que ocorreram os factos em análise. Algo de semelhante deve ser feito em relação ao dia da semana em que um determinado acontecimento tem lugar, pois sabemos que, no mundo moderno, o ciclo semanal de actividade das populações organiza de forma muito impositiva as práticas e as disposições anímicas dos sujeitos, quer se trate da vida económica e laboral, das instituições escolares, das actividades de cultura e recreio ou das liturgias religiosas. Eis uma recomendação que, em primeira mão, deveria ser dirigida aos historiadores mas que se pode aplicar igualmente aos sociólogos, aos psicólogos e a outros cientistas sociais.
Economias de escala/Escalas da sociologia? As economias de escala são um dos núcleos de conhecimento fundamentais da economia. Em sociologia, o conceito tem menor aplicação, sobretudo porque, tendo uma lógica essencialmente quantitativa e por isso muito adequada à análise algébrica, se casa mal com diferenciações qualitativas que os cientistas julgam fundamentais para o estudo da vida social, como sejam o “a família”, o “pequeno grupo”, a “formação social”, a “sociedade global”, etc. Apesar disso, talvez não fosse esdrúxulo pesquisar mais aprofundadamente certos patamares quantitativos para apurar o seu impacto sobre as relações sociais, internas e externas, dessas unidades. Por exemplo, nas empresas, a noção de “micro”, “pequenas”, “médias” e “grandes” tem sido objecto de uma utilização grosseira, por economistas ou estatísticos, por ausência de uma base de reflexão mais fundamentada oriunda da sociologia ou da psicologia social. E – outro exemplo – a determinação aritmética da representação para constituir um parlamento político, por referência à população mas também à eficácia do seu funcionamento, deveria ser reexaminada também sob esses prismas de aproximação científica.
Pós-grupos. De que falam e como se comportam as pessoas que em tempos pertenceram a um mesmo grupo de inter-conhecimento e depois dele se desligaram (ou o mesmo se dissolveu), quando, mais tarde, ocasionalmente se encontram ou relembram essa experiência passada? Que traços individuais e que laços permanecem ao longo da vida dos participantes, deste envolvimento passado: apenas recordações nostálgicas? compadrios e entreajudas oportunamente reactivadas? ressentimentos definitivos? Que efeito tem aqui a “variável tempo” ou o grau de afastamento físico entre os antigos companheiros? Trata-se, com efeito, de um fenómeno muito corrente nas nossas sociedades, sobretudo ligado a práticas de convívio geracional em ambiente escolar, de “grupo de bairro” (ou de aldeia), de grupo de amigos (aproximados pela idade, o género ou um isolamento geográfico), de camaradagem profissional ou de pertença a organizações políticas ou confessionais. Porém, diferentemente das relações familiares (que, evidentemente, têm todo um outro grau de integração e afectividades), não temos visto esta questão ser estudada pelos sociólogos.
Provérbios populares e regularidades sociológicas. É sabido que a sabedoria popular está cheia de convicções cientificamente erradas, mas também é prudente encarar algumas delas – sob a forma de provérbios ou ditos de tradição, do tipo: “não sirvas a quem serviu, nem peças a quem pediu…” – como sendo o resultado consolidado e sedimentado pela sua verificação prática ao longo de gerações de uma espécie de “sociologia espontânea”, cujas formulações poderiam ser confirmadas por critérios de aferição científica ou servir de pista ou pergunta de partida para uma investigação conduzido com bom rigor metodológico.
Três gerações bastam (mas são necessárias) para mudanças sociais profundas. Em estudos sócio-históricos, tenho-me debruçado com algum detalhe sobre a moderna colonização de África pelos europeus. E salta-me mais à evidência que, por referência aos actuais viventes urbanos desses países, os seus avós estavam, na grande maioria dos casos, ainda imersos nas redes, práticas e crenças típicas das pequenas sociedades tradicionais, cultivando a machamba, pastoreando a cabra ou batendo o prego, e observando os rituais ditados pelos grandes. Os pais passaram talvez já pelos bancos de uma escola rudimentar e obtiveram um trabalho a salário, mesmo se incerto. Mas os de hoje podem ser empregados, vendedores ou funcionários; e, sobretudo, estão falando e vivendo ao ritmo do mundo. Nem mais, nem menos.

Uma sociologia de proximidade
Há muitas maneiras de fazer sociologia. Nada, em princípio, impede um sociólogo português de realizar uma pesquisa sociológica, baseada em dados estatísticos e documentais sobre, por exemplo, a Papua-Nova Guiné ou o uso de estupefacientes pelas prostitutas egípcias. São objectos de estudo distantes do investigador mas cuja informação lhe pode ser, mais ou menos, acessível. Porém, eu prefiro e sugiro preferencialmente a procura de uma sociologia de proximidade. É certo que esta é mais exigente, pelo maior controlo necessário para que tal proximidade não perturbe a indispensável procura de objectividade com que o investigador deve tratar os seus objectos de estudo. Daí a recomendação de um bom traquejo e experiência prévia em investigações mais tradicionais, isto é, de “meia-distância” entre o observador e a população observada.
A sociologia de proximidade seria então aquela em que uma tensão emocional existe entre ambas as entidades, excitando a apetência do investigador por aquele seu objecto e, mais importante, mobilizando nele uma maior capacidade de atenção para lhe apreender as subtilezas e especificidades, sem efeitos negativos sobre o rigor da análise.
Por exemplo, para um sociólogo em fim de carreira, seria adequado fazer uma sociologia da morte – afastando, claro está, qualquer tentação de morbidez ou de pulsões suicidárias. Mas como fazer uma sociologia da morte? Uma “sociologia dos mortos” não é possível, nem previsível, a despeito dos futuros e inevitáveis progressos no campo científico, desde os domínios das neuro-ciências e da medicina até novas tecnologias de informação e comunicação! Mas, em contrapartida, não parece inviável uma investigação – não da população em geral acerca da morte, caso em que estaríamos, corriqueiramente, em mais uma ilustração de “sociologia distante” – em que a população inquirida fosse a daqueles que se encontram “à beira da morte”. Aproximar-se dos moribundos, conversar com doentes terminais, observar pessoas acidentadas recentemente – eis um procedimento metodológico “de terreno” perfeitamente possível de realizar, com as devidas cautelas. Ou então, numa outra vertente metodológica, proceder a uma análise de conteúdo de escritos testamentários – porque feitos, com a pessoa a pensar seriamente na morte – ou de pedidos ou confissões feitas a pessoas íntimas ou próximas por indivíduos in articulo mortis, seriam outros tantos meios legítimos e possivelmente operativos para uma tal análise.
E certo que já existem “Histórias da morte” (Michel Vovelle, Phillipe Ariès, etc.), paralelas a diversas “Histórias da vida” (o mesmo Ariès e outros). A curiosidade, para a sociologia, é que, existindo também já abordagens sociológicas às condições em que os bébés nascem, julgo nunca ter sido explorado cientificamente o outro extremo do percurso humano – a morte –, salvo no estudo pioneiro de Durkheim sobre o suicídio. 
E, nestas condições, que questões poderia o sociólogo ser levado a formular e inquirir? O fundamental, parece-nos, seria perceber para onde se dirigem ou se focalizam as atenções, as preocupações ou os pensamentos dos idosos em tempos de “finição” (ou “passamento”). Assim, as perguntas – sempre em entrevista muito informalizada, ou em simples observação e tomada de notas imediatamente após – deveriam versar sobre: aquela atenção está sobretudo fixada para a morte (e o seu misterioso desconhecido), para o momento presente, para o futuro dos que ficam, ou para a vida passada? No caso da morte, do pressentido desaparecimento, há no sujeito sinas de ansiedade, angústia, alívio ou conformação com tal destino? No caso do presente, é sobre alguma forma de dor ou sofrimento, ou pelos reflexos que tal possa ter sobre pessoas próximas? Se a preocupação do moribundo se centra sobre como ficará o mundo sem a sua presença, é a sua obra ou reputação que estão em causa? ou a sua preocupação está virada para terceiros, familiares, descendentes ou quem possa sofrer com a sua falta? E se a atenção da pessoa se fixa sobretudo no seu passado, sobre que objectos incide ela: a trajectória da sua própria vida? as pessoas que amou ou odiou? algum acontecimento particular? E despertando que tipo de sentimentos: nostalgia? remorso? indiferença? Etc. Mas compreendo seja pouco provável que estas pistas possam ainda ser úteis a algum colega.
O tesouro psicológico que está dentro de cada indivíduo é inatingível pela sociologia, mas ela pretende compreender, classificar e, até certo ponto, explicar aqueles dos seus comportamentos e ideias expressas que sejam derivados das influências do meio social onde está inserido. 
Várias destas ideias poderiam ter dado origem a debates mais aprofundados e mesmo a investigações teóricas ou operacionalizadas pelas diversas técnicas de uso corrente na sociologia. Não sucedeu assim. E por isso aqui ficam, da forma incipiente como surgiram ao seu autor e tal como agora foram retocadas, apenas para poderem ser minimamente entendidas por outras pessoas.

JF/ 18.Jan.2015

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