sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Anotações críticas sobre a Sociologia que eu conheci (II)

Concluímos aqui este acervo de ideias pessoais simplesmente rabiscadas em tempos passados e que ficaram no canto da gaveta à espera de melhor oportunidade para serem desenvolvidas e discutidas. Essa oportunidade nunca surgiu mas talvez ainda não seja tarde para as dar a conhecer, tal qual, à apreciação crítica de mais alguns.

Clivagens marcantes: classe, cultura, atitude
Parece clara a grande perda da capacidade explicativa do conceito de classe social, nos tempos actuais. E, sobretudo, parece faltar a legitimação e o encorajamento para os seus adeptos o utilizarem mais abertamente. Está especialmente em causa o sentido univalente e fundador que lhe deu o marxismo (e em geral as doutrinas socialistas oitocentistas). No sentido pluralista weberiano, o conceito tem mais aplicação (em investigação científica fundamental mas também para sondagens de opinião, etc.), embora as análises económicas e o estudo dos comportamentos eleitorais façam um aproveitamento bastante limitado dessa conceptualização. Contudo, olhando para a persistência (as pesanteurs, diriam os franceses) da estrutura social em Portugal, bem poderia um jovem das classes pobres de hoje dizer, com alguma dose de cinismo mas acutilante realidade: os bisavós oprimiram-nos; os avós exploraram-nos; os pais desprezaram-nos; e agora os filhos vêm estudar-nos!
Em contraste, a noção de cultura – ou melhor, das culturas que estão presentes na interpenetração das diversas formações sociais a que vimos assistindo – beneficia hoje de uma aura muito mais resplandecente, que se reproduz e reflecte em múltiplas direcções (geralmente algo abastardadas). É essa variedade de práticas culturais que mais visivelmente se confrontam entre si – e o campo das imagens é hoje surpreendente e determinante –, quer para marcar as diferenças de origem e lugar, quer para assinalar as convergências; seja para evidenciar os diferenciais de antes e depois (evolução pessoal, gerações, etc.), seja ainda para suscitar a criatividade de novas formas e vivências. O campo de desenvolvimento das práticas culturais é hoje, como no passado, o território específico de um número restrito de criadores, que marca a sua diferença perante o mundo muito mais vasto dos seus públicos, mas é também o do convite explícito à criatividade de cada qual, estimulando a utopia de que “todos são artistas” e complementando no campo cultural a referência-chave à inovação, que desde há décadas se enraizou na economia (desafiando a importância da escala) e na “ciência de massas” (onde se insinua que um aluno adolescente já faz “investigação”). 
Porém, quer-nos parecer que, entre as classes – universalizantes e tendencialmente redutíveis a poucas espécies – e as culturas – tendencialmente múltiplas – há um “espaço vazio” para a produção de análises (sociológicas) de situação, de conjuntura e de tendência. É uma potencial “matéria analisável” sobre a qual se pode ensaiar o exercício do comentário crítico da actualidade, a apreciação de estatísticas e indicadores sociais, a desconstrução reflexiva de discursos formais ou a elaboração de problemáticas para a investigação empírica de curto ou médio alcance. Esse espaço vazio é talvez aquele que pode ser preenchido pelo conceito de atitude, desde que devidamente explicitado, alargado e reformulado, em relação aos seus usos mais tradicionais pelos cientistas sociais.
Para além dos “comportamento e opiniões” da definição operacional de Stotzel (isto é, captáveis através de perguntas feitas em inquérito acerca de preferências subjectivas dos sujeitos ou do relato das suas acções objectivas – fumar, votar, deitar papéis para o chão, etc. –, na suposição da sinceridade do respondente), deveríamos alargar ou incluir no conceito de atitude as seguintes outras dimensões (ou componentes): as representações mentais (ideologias práticas, conjuntos articulados mas pouco elaborados de convicções e razões lógicas, de que podem ser exemplos formulações coloquiais como estas: “o mundo é uma selva competitiva onde só os mais fortes, ousados, espertos e agressivos conseguem vencer!”; ou “o importante é preservar o meu espaço de interesses e de afectos; para além disto, quero saber o menos possível!”); as orientações de acção (viradas para o radicalismo e o confronto, para o consenso, a cooperação, a adaptação à envolvente, etc.); e as condicionantes situacionais (ou “estruturais”?) em que se encontram objectivamente os sujeitos (posição familiar, profissional, etc.).
Sei bem que este é um esquema demasiadamente simplificado e grosseiro que, ainda por cima, se arrisca porventura a ser criticado pelos “holistas” como colocando-se na perspectiva do individualismo metodológico, e a ser acusado de holista pelos “individualistas metodológicos”. Justamente porque, de certa maneira, tenta “sintetizar” ambas as orientações e, nesse sentido, superá-las. Mas, de facto, tenho também de reconhecer que existem posições impossíveis de harmonizar, ou que não consentem “terceiras vias”. Será este o caso?

Redes sociais… e outros processos
O conceito de redes sociais, ou de “sociedade em rede”, ganhou credibilidade e pertinência há talvez duas décadas apenas – tal como o conceito de identidades, usado agora em várias disciplinas das ciências sociais e humanas –, e para isso contribuiu a divulgação da obra de Manuel Castells, que judiciosamente o articulou com a economia mundializada do nosso tempo e o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação. Mas, como geralmente acontece com as vulgarizações bem-sucedidas, as mesmas palavras tomam na linguagem comum um sentido apenas levemente aparentado com o significado inicial, e são usadas indiscriminadamente, muitas vezes mal. Pergunte-se a qualquer pessoa comum o que são as redes sociais e ela responderá sem hesitar que são o Facebook e o Twitter!   
Realmente, as redes sociais são um fenómeno sociologicamente caracterizado, que pode e deve ser usado analiticamente no estudo das sociedades actuais, mas não isoladamente, e de preferência a par das “dinâmicas” e dos “efeitos de massa” mais típicos das sociedades modernas, e ainda de conceitos já mais rotinados como – ou versus, ou cruzados com – as “posições sociais”, os “interesses” e os “conflitos”. Recordemos em tópicos simples o que pode estar dentro de cada um destes termos.
Redes sociais: interconhecimento pessoal, influência, coligações, oposições externas. Redes de interesse, de vizinhança, de cooperação não escolhida (no trabalho, por exemplo), de domínio (a corrente invisível – psicológica, afectiva – que une dominantes e dominados), de atracção sexual, de confiança. Dinâmicas: lógicas de acção, tomadas de decisão, encadeamento de reacções, adequação aos contextos e face aos constrangimentos; dinâmicas individuais, organizacionais (onde as regras formais jogam um importante papel estruturador), locais (de vizinhança), de “campo” (isto é, de espaço comum de actuação), globais (baseadas na informação concedida pela comunicação social). Efeitos de massa: que pesam sobre as representações, a compreensão e as decisões dos sujeitos, de que podem ser exemplos: a opinião pública, mais ou menos estruturada, de onde decorre uma ideia de legitimidade da suposta maioria; os juízos morais (muito estruturados pela primeira socialização e pelas representações religiosas); a legalidade ou ilegalidade do que é pensável, dizível ou praticável; comportamentos emocionais, em interacção directa entre um número significativo (mas limitado) de pessoas; a coacção do grupo identitário (ou de “iguais”) sobre cada um dos seus membros; a moda. Posições sociais: derivadas do usufruto e controlo da riqueza; dos meios de exercício de poder sobre terceiros; do nível de saberes e conhecimentos detidos; das altas qualidades morais identificadas numa pessoa concreta; do estatuto social reconhecido, herdado (o nome de família) ou adquirido (self-made); pela suposta detenção de poderes mágicos ou sobrenaturais; da popularidade ou grau de identificação/imitação por terceiros. Interesses: dinheiro; propriedades; bens sumptuários; poder de coacção sobre terceiros. Conflitos: pessoais; passionais; de poder; de apropriação de bens; de heranças; de estatuto; organizacionais. Etc.
Contudo, as sociedades contemporâneas têm gerado também novas figuras sociais proeminentes. Depois da economia concorrencial e capitalista ter gerado o arquétipo do homo economicus, e de uma certa sociologia científica ter descoberto o homo socius (um conceito básico na análise clássica do trabalho industrial), eis três delas, configuradas no último meio século. A primeira poderá ser o Homo Automobilisticus, que fará referência ao comportamento individual das pessoas ao volante de uma viatura motorizada actual, quer nas suas vertentes de “prolongamento de carácter/temperamento psicológico” (egoísta, respeitador, gentil, etc.), quer em termos de “comportamento de substituição” (não conduz, mas age como se o fizesse, incentivando ou censurando o condutor, criticando ou insultando os terceiros, etc.), quer ainda em situações de “interacção aguda” entre automobilistas (ultrapassagens, engarrafamentos, incidentes, etc.), quer finalmente em relação aos “inferiores” (peões, ciclistas, etc.). Com efeito, estamos hoje numa “civilização do automóvel” e já é possível imaginar os “movimentos automobilísticos” (lembremos o “bloqueio da ponte”, os “boicotes das portagens” e outras formas de contestação motorizada) como substitutos e sucedâneos funcionais dos “movimentos sociais urbanos”. Em segundo lugar, temos o Homo Mediaticus, que exprime a dependência que as pessoas têm da televisão e hoje da Internet (claramente menos, da rádio), com comportamentos utilitários e de inter-relação racional mas também muitas vezes entrando no campo do “addictiv” (que está cada vez mais a ser traduzido pelo termo estranho de “aditivo”) ou mesmo do patológico. E podemos ainda reconhecer a figura do Homo Medicalis, onde se nota muitas vezes a relação “doentia” e desnecessária que os indivíduos forjam com a toma de medicamentos e os exames médicos, ao mesmo tempo que são tratados como “objectos em massa” pelos profissionais qualificados das instituições e das ciências da saúde. Uma imagem espontânea e quase-caricata deste fenómeno tive-a quando viajei pelos Estados Unidos e me surpreendeu a taxa anormalmente alta (para a Europa) de pessoas em espera para viagem (de avião, comboio ou autocarro) que se faziam empurrar em cadeira-de-rodas mas que, finalmente chegadas aos degraus de acesso imediato à viatura ou ao seu lugar reservado de passageiro, se levantavam e caminhavam pelo seu pé, às vezes até ajudando a carregar a cadeira agora “encolhida”!  

As leis científicas em sociologia: uma ‘démarche’ pessoal

Confesso que sempre tive uma atracção por aqueles enunciados de leis científicas, sintéticos, sustentados por investigação empírica ou laboratorial mas com um grau de aplicação que, à partida, críamos ser universal. Newton, Lavoisier, Boyle-Mariotte – eis gigantes da história das ciências físico-químicas, que também ajudaram a constituir a Modernidade e deixaram os seus nomes ligados a leis que, dentro de certos parâmetros e de determinado raio de alcance, se mantêm actuais e verificáveis! Nas nascentes ciências sociais oitocentistas, o único que se atreveu a seguir-lhes as pisadas terá sido Auguste Comte com a sua “lei dos três estados”, porém de registo sobretudo filosófico, como logo assinalou Durkheim ao mostrar, com proposições teóricas e investigação empírica, que a sociologia era outra coisa bem diferente. Mas até Pessoa, que brincou com a sociologia como brincou com os seus heterónomos, pôde escrever um dia: «A sociedade é um sistema de egoísmos maleáveis, de concorrências intermitentes. Cada homem é, ao mesmo tempo, um ente individual e um ente social. Como indivíduo, distingue-se de todos os outros homens; e, porque se distingue, opõe-se-lhes. Como sociável, parece-se com todos os outros homens; e, porque se parece, agrega-se-lhes. A vida social do homem divide-se, pois, em duas partes: uma parte individual, em que é concorrente dos outros, e tem que estar na defensiva e na ofensiva perante eles; e uma parte social, em que é semelhante dos outros, e tem tão-somente que ser-lhe útil e agradável» (in A. Quadros org. Obra em Prosa de Fernando Pessoa – Páginas de Pensamento Político 2, 1986, p.122). Esta não é uma “lei sociológica” mas, contudo, é uma formulação teórica, fundada sobre a observação e a experiência reflectida do mundo, embora saída da cabeça de um não-cientista (ou talvez melhor dizendo: de um anti-cientista).  É uma formulação que se aproxima do terreno das chamadas teorias gerais, das quais os sociólogos contemporâneos parecem ter desistido há muito. De resto, creio não mostrar a minha ignorância ao constatar que até as teorias de médio alcance (como as definiu Merton) têm vindo a rarear ultimamente no quadro desta disciplina. Será isto um sinal de crise?
A referência supra a um pensamento não-científico puxa-me a conversa para a discussão da diferença entre mito e teoria. A teoria propõe uma interpretação formalizada e comprovável da realidade. O mito é uma representação confabulada, que, porém, desempenha certas funções latentes, nomeadamente:
- ordenar e dar sentido ao agenciamento caótico das “coisas”, de modo simplificado, posto ao alcance de todos, mesmo dos mais simples de espírito;
- dar coesão ao grupo, à organização, à comunidade;
- facilitar a difusão (dessa representação), muito para além dos seus membros ou directamente envolvidos;
- permitir novas versões, retoques, variantes e acrescentos, dando assim um papel activo, criador, a todos;
- facilitar os registos da memória colectiva, sua localização no tempo e no espaço e seu confronto com outros mitos ou realidades.
Eis três exemplos de mitos modernos portugueses:
- o mito da “nação de oito séculos”: mito, porque se trata de um facto sociológico (população, território) e cultural (língua, religião) indiscutível, mas que foi simultaneamente, durante a maior parte do tempo, uma questão “privada” das elites aristocráticas e uma representação teológica do Poder;
- o “mito das Descobertas” (no quadro histórico do Renascimento, com a fé e o império projectando-se como grandes destinos nacionais): foi, claramente, o nosso Heroísmo colectivo, que o talento literário de Camões colocou num pedestal insuperável;
- o mito da ligação do “povo português” com o seu Estado nacional (demo-liberal que, realmente, ainda nem conta dois séculos e com uma interrupção pelo meio), que tem servido de base de sustentação do nosso projecto de Modernidade.
E, já agora, refiram-se três exemplos de mitos contemporâneos não-nacionais mas também aqui actuantes, como sejam:
- as doutrinas gestionárias empresariais que procuram envolver os “stakeholders” – investidores, administradores, quadros, “colaboradores”, clientes e comunidade envolvente – numa partilha equitativa de responsabilidades, quando o processo de tomada de decisões e a repartição dos resultados económicos parecem continuar a ser essencialmente inigualitários;
- as políticas de “igualdade de oportunidades” que têm marcado muitas das orientações dos governos dos países desenvolvidos nas últimas décadas, depois de constatado o fracasso das experiências do “socialismo realizado”;
- a procura da “paz perpétua” que há dois séculos orienta a parte melhor da diplomacia internacional.
Neste terreno movediço de mitos e teorias, permitam-me que apresente uma proposta pessoal que em tempos formulei de proposições de alcance geral, fundadas na reflexão própria e na experiência de vida e de observação social, mas caldeadas por um razoável conhecimento do campo teórico das ciências sociais e humanas, mais particularmente da sociologia, onde trabalhei profissionalmente – uma espécie de “leis de Freire”, que contêm sem dúvida uma visão romântica do nosso tempo actual (e, portanto, extemporânea), ou não fosse este um espaço de discussão de ideias livres, mesmo porventura estranhas. Formulo então quatro proposições significantes acerca dos indivíduos e da sua inserção na sociedade.
Primeira: O grau de felicidade experimentado pelo indivíduo só parcialmente depende das condições sociais em que o mesmo se acha inserido e é tributário do processo educativo e da socialização primária que o marcou.
Isto pode significar que o grau (ou forma) de felicidade, ou de infelicidade, experimentado pelas pessoas é relativamente independente do nível de riqueza de que ela goza, se apropria ou que a envolve. Os processos de desenvolvimento social ou os projectos de transformação da sociedade no sentido do seu enriquecimento (ou elevação do nível de vida e conforto) são, assim, relativamente inoperantes quanto ao objectivo de proporcionar ou alcançar a felicidade humana. Naturalmente, esta formulação exigiria ainda um conjunto de explicitações conceptuais para precisar o seu alcance e sentido. Em especial quanto: 1-ao que é a “felicidade experienciada”? Tendo presente certas formas de felicidade – como as místicas – e a sua eventual articulação com estados percebidos no âmbito da saúde mental (prazer, compulsividade, êxtase, etc.), será certamente necessário precisar melhor este conceito; 2-ao que quer dizer “condições sociais”? Podemos pensar em bens e riqueza material. Podemos pensar em cultura partilhada no seio de uma comunidade. Podemos incluir aqui os benefícios e apoios que o indivíduo recebe dessa vivência colectiva (heranças, etc.), mas também os custos que assume (aceitar a integração sujeitando-se às normas do grupo) e os constrangimentos a que é obrigado. Mas quais serão as medidas e as “proporções” dos efeitos (ou influências) das “condições sociais” sobre a felicidade dos indivíduos?; 3-e, finalmente, quanto ao que é o “processo educativo”? Queremos referir-nos fundamentalmente à socialização primária dos indivíduos. Mas, até quando vai ela? Que esferas relacionais mobiliza? Quais as medidas (ou “proporções”) do tal “tributo à sociedade” são devidas especificamente a este “processo educativo”?
Segunda: “A realização pessoal dos indivíduos depende, principalmente, da qualidade das relações humanas – cognitivas, afectivas e simbólicas – possíveis de criar e desenvolver ao longo da vida na esfera da inter-pessoalidade.”
Eis, de novo, a necessidade de esclarecer melhor o alcance das várias noções presentes nesta proposição que, de certa maneira, prolonga a anterior. Se aí se referia a felicidade individual, para nela reduzir o efeito do meio social, agora fala-se de “realização pessoal”: o sujeito é o mesmo, a pessoa concreta e singular; e a noção de sociedade focaliza-se no sentido muito mais restrito da rede de interacções entre indivíduos. O conteúdo desta asserção refere-se assim, de novo, às relações entre indivíduo e sociedade, ou entre pessoa e meio humano envolvente; mas para condicionar, desta vez positiva e afirmativamente, o indivíduo e as suas aspirações a uma medida “qualitativa” das trocas entre ego e os seus próximos. Contudo, a diferente natureza da “medida” não é inteiramente resolvida com a afirmação do seu carácter de “qualidade”; porque se trata, não só de trocas entre múltiplos agentes, como tal rede deve certamente evoluir – fechando-se, abrindo-se – ao longo do tempo. Finalmente, tal complexidade – porventura intelectualmente mais discernível por instrumentos de medida tornados quantificados – é reforçada pela natureza diversa das relações: a enunciação de relações “cognitivas, afectivas e simbólicas” é uma formulação sintética e ambiciosa de uma trama e de combinações dificilmente traduzíveis em representações lógicas simplificadas.
Terceira: “A actividade de trabalho dos indivíduos é o factor de maior importância que os inscreve na vida social do seu tempo.”
Nesta proposição, precisariam de ser explicitadas as seguintes expressões: -“Actividade de trabalho”. Preferida a simplesmente “trabalho” para assinalar o papel social fundamental, de entre os vários que cada indivíduo é chamado a desempenhar, da sua “vida activa”. Refere-se, pois, à acção prolongada ou continuada, ao tipo de contributo com que a pessoa assinala e “paga” a sua presença na sociedade; -“Vida social”. É também uma expressão algo diferente de “sociedade”, procurando transmitir uma ideia de dinamismo e interactividade; -“Inscrição”. Conceito catado no filósofo José Gil; -“No seu tempo”. Para criar a ideia de tempo histórico (na Modernidade). Todos temos uma localização histórica; mas só muito poucos ficam “na história”.
Quarta: “Nas sociedades modernas, a tendência à diferenciação social é permanentemente contrariada pela tendência à igualização social, e inversamente.”
Esta proposição tem um alcance historicamente mais limitado, pois refere-se às sociedades modernas e contemporâneas, deixando portanto de fora as sociedades camponesas tradicionais (as culturas americanas, africanas, asiáticas, etc., além das pretéritas sociedades europeias anteriores à industrialização). Mas tem um carácter mais marcadamente sociológico, referindo-se aos conceitos de diferenciação social (funcional, hierárquica, etc.) e de igualização social (pressão para a similitude e uniformidade), em termos de “tendências” (isto é: processos possuidores de um dinamismo próprio), de “contrariação” (oposição, resistência, etc.) e de “equilíbrio, a longo prazo”.

Sociologia crítica
Na verdade, a sociologia tem de ser crítica – isto é, distanciada, não-implicada e objectiva – em relação aos processos e aos fenómenos que analisa. Porém, também é verdade que os sociólogos têm mostrado alguma tendência para se fixar numa postura crítica daquilo que existe, ou talvez mais rigorosamente: daquilo que existe instituído e oficializado. Ora, esta atitude coloca a sociologia – e as ciências sociais em geral –, não numa melhor posição para a análise científica dos processos sociais, mas numa postura de maior interveniência nesses mesmos processos. Esta posição está, de resto, estreitamente articulada com a evolução das sociedades modernas, que concedem um lugar mais vez maior à ciência como protagonista do desenvolvimento social, posicionando os cientistas como actores desses processos e criando expectativas elevadas quanto aos seus desempenhos e aos efeitos dessa nova postura.
Neste aspecto, a democratização do ensino e, portanto, o acesso de grandes massas recém-promovidas socialmente (isto é, não preparadas por uma socialização inicial no quadro familiar relativamente harmónica e coerente, mas, ao contrário, marcada por ruptura e oposição entre a socialização na família e a proporcionada pela escola, e por uma socialização familiar frequentemente conflituosa e contraditória), a democratização do ensino, dizíamos, tende a criar nas novas gerações das populações urbanizadas a ilusão de que a ciência é um domínio de todos. A esta facilitação de acesso, soma-se a mercantilização das actividades científicas e o desnudamento dos cientistas, revelando-se finalmente como prosaicos profissionais atentos aos seus interesses particulares, muito longe dos valores de desinteresse, independência e espírito de serviço que caracterizavam normativamente a imagem do cientista moderno. O que se arrisca a contribuir, como resultado, para um abaixamento, banalização e desprestígio das actividades de investigação e de ensino mais avançado. Os professores “modernos” eram, fundamentalmente, agentes de difusão do saber científico, promotores de cidadania e educadores de jovens. Os professores de hoje são, frequentemente, profissionais que, além do exercício do seu mester, funcionam como desinquietadores sociais, estéticos e morais.
Apesar da elevação dos níveis de conhecimentos e de cultura erudita das populações e em razão da extrema inter-comunicabilidade de imagens e referentes simbólicos, existe actualmente uma nefasta confusão quanto ao perfil do destinatário médio deste ensino e desta socialização. É que a desinquietação só é verdadeiramente possível e estimulante quando dirigida a indivíduos ou a elites. A cicuta de Sócrates, a decadência mortal de Verlaine ou a cirrose de Pessoa não foram factos sociais, ao contrário da overdose de Elvis Presley. Lançada à massa, a desinquietação é provavelmente mais causadora de perturbação, de anomia e infelicidade do que de autonomização e “empoderamento” dos sujeitos. O exercício do pensamento libérrimo, da criação estética, da poética é apenas individual ou inter-individual. Depois, tradicionalmente, ele era comunicado e tornado acessível a um usufruto particular por intermédio de dispositivos apropriados: a transmissão e a aprendizagem de saberes; o debate; a performance e o seu público; o museu e a biblioteca, etc. Hoje, é ilusão tentar passar como arte espectáculos que relevam mais do circo romano. E achar que se pode fazer “ciência de massas”. Mas eu admito que estas ideias sejam apenas meras “manifestações do meu conservadorismo social”, como me foi ditado um dia por um simpático colega da sociologia. 
Os cientistas sociais aparecem cada vez mais aos olhos do público como críticos em relação aos grandes poderes institucionais – o Estado, os sistemas políticos, o sistema económico dominante, as instituições religiosas, científicas, judiciais e militares, etc. – e relativamente acríticos, ou comportam-se mesmo como aliados ou em posição legitimante, em relação às tendências, forças e movimentos sociais e culturais que os combatem ou que se lhes opõem. A atitude titubeante dos cientistas sociais em relação aos mass media poderia constituir um banco de provas destas afirmações. Ora, se o distanciamento crítico das ciências sociais em relação aos seus objectos de estudo é condição sine qua non do seu múnus científico, tal distanciamento deve exercer-se simultaneamente em relação ao seu próprio processo de pensamento, de investigação e de apuramento de verdades. Como é que esta exigência epistemológica seria compatível com uma “tomada de partido” em favor de tudo o que é “projecto” e contra todo o statu quo? A favor do “futuro” e contra o “presente” e o que nele é “passado”?
Por exemplo, na sociologia, a ocasião do fim da guerra fria Leste-Oeste e da implosão do “socialismo real” não parece ter sido aproveitada para o questionamento de dois grandes paradigmas teóricos conflituantes internamente no seu seio: o paradigma nacional, como lhe chama Pierre Tripier, que supõe a predominância da unidade desta entidade colectiva e que, por essa via, legitima a nação e o seu Estado, ao mesmo tempo que pressupõe a coerência de um espaço supranacional (o da diplomacia, da guerra ou do comércio externo); e o paradigma do conflito, onde se estribam a luta-de-classes, o poder político estatal ou a reivindicação feminista. E a emergência de novas tensões mundiais em torno do que possa ser a “segurança colectiva”, dos “choques de civilizações” e do modelo de desenvolvimento económico não parece terem ainda desencadeado qualquer nova produção científica à altura da magnitude de tais fenómenos.
Pelo contrário, a perspectiva para as ciências sociais desenhada pela corrente do pensamento pós-moderno parece ser a de uma certa incitação à iconoclastia perante o edifício do pensamento moderno, por um lado, e a de legitimação do combate aos poderes estabelecidos desencadeado pelos novos movimentos sociais, por outro. O pós-modernismo veio pôr em causa, entre outras, as fronteiras entre as produções científicas e as estéticas, confundindo a demarcação das respectivas elites.
Os novos movimentos sociais (ainda pouco orgânicos e mesmo por vezes indiscerníveis) integram articulações funcionais entre minorias (cognitiva, cultural e tecnologicamente armadas para o combate aos poderes estabelecidos e aos fundamentos da ordem moderna) e grandes massas (juventude, marginalizados, empobrecidos e, como sempre, os descontentes de toda a ordem) desorientadas e desarmadas pela destruição de referências proporcionada pela mundialização mercantil e comunicacional, e apetentes para a mudança e a destruição/criação de símbolos. (Perante isto, eu deveria classificar-me pessoalmente como moderno, e temeroso do pós-modernismo.)

Sociologia: uma ciência temporária? (ou provisória?)
Ao mesmo tempo que em Portugal se regista um florescimento do número de doutorados e da diversidade de temas estudados pela sociologia, o número de candidatos a frequentar os cursos de licenciatura oferecidos pelas universidades parece manifestar uma tendência constante de perda, bem como a qualidade dos candidatos (medida pelas classificações do ensino secundário). Não é uma situação confortável, mas é também talvez o retorno do pêndulo de um aumento excessivo da oferta, comandada pelo interesse dos sociólogos já “instalados” e pela vontade de afirmação das instituições universitárias, no quadro de uma autonomia não temperada por uma conveniente auto-regulação conjunta.
Por outro lado, além destas situações de mercado e da percepção pública a que já atrás fizemos referência (hermetismo de linguagem, insuficiente demarcação da política), perece-nos que, internamente, a sociologia tem vindo a ser desafiada por outras disciplinas parcialmente concorrentes, ou que disputam os mesmos objectos de estudo com metodologias de abordagem diferentes, procurando cada uma delas valorizar-se pela qualidade ou excelência dos resultados por si oferecidos à sociedade. É o caso da psicologia social (quantitativa) ou da antropologia das sociedades complexas (qualitativa), para já não falar da ciência política e da “história actual”, ou das “ciências de intervenção social”. Serão apenas desafios estimulantes para os próximos tempos ou estaremos a assistir ao prelúdio da entrada em crise de delimitações disciplinares definidas no passado e que razões institucionais e corporativas prolongam desnecessariamente? Estão as investigações inter-disciplinares a contribuir para essa crise? Constituem uma ameaça para a sociologia os saberes mais “aplicados” que parecem acusá-la de querer tratar intuitivamente de tudo sem nada conseguir explicar ou prever? Derivará isto de ela querer produzir simultaneamente análises “macro” e “micro” das nossas sociedades actuais? Haverá alguma tendência em curso de convergência ou fusão longínqua em uma única “ciência social”?
Não sei responder a estas questões. Mas há sinais na minha área científica que me incomodam o espírito: por exemplo, a arrogância que me pareceu ser a atitude da sociologia europeia face à chamada sociobiologia de Edward Wilson (Sociobiology: The New Synthesis, 1975), no que talvez seja apenas mais um episódio da confrontação cultural Europa-América. No fundo, preferiu-se ignorá-la, a intervir na discussão que, apesar de tudo, grassou nos Estados Unidos entre partidários e críticos da nova teoria, metendo também o linguista Chomsky à disputa (e através dele o anarquista Kropótkine), entre muitos outros. Aquela teoria teria porventura muitas fragilidades e infiltrações ideológicas mas o certo é que as ciências neurobiológicas e do cérebro têm progredido nos últimos trinta a uma velocidade que deixa a sociologia a boa distância. Só António Damásio, que nos está acessível, é todo um programa de leituras enriquecedoras e que nos fazem pensar: O Erro de Descartes (1994), O Sentimento de Si (1999), Ao Encontro de Espinoza (2003) ou O Livro da Consciência (2010).

Os sociólogos e o poder – O poder dos sociólogos
A “escola sociológica de Coimbra”, liderada por Boaventura de Sousa Santos, ganhou desde há anos uma indesmentível reputação internacional. A profundidade teórica e a inovação de muitos dos seus escritos marcaram a comunidade transnacional da sociologia, para mais com adequadas apostas intencionais facilitadoras da sua difusão. De alguma maneira, trata-se de uma teorização sociológica que, além de sustentada internamente, se tem mostrado também útil à contestação das periferias mundiais dependentes (ou dominadas) contra os centros de poder global (económico, político, etc.). Além disto, como cidadãos, alguns destes sociólogos entraram ocasionalmente em diversas arenas políticas, como actores, mentores ou conselheiros de movimentos sociais em germinação. Boaventura de Sousa Santos chegou a declarar qualquer coisa como: “A sociologia é uma arma” (in Jornal de Letras, 2004, cit. de memória), posição esta que faz lembrar alguns momentos da chamada Teologia da Libertação que há poucas décadas atrás se empenhava em alterar várias das posturas tradicionais da Igreja de Roma.
Com o devido respeito, frontalidade e sem vénia, manifesto a minha discordância deste posicionamento. Como pessoa e como cidadão, sempre tive convicções políticas, por mais contestáveis ou inconsequentes que possam ter sido consideradas por muitos. Nunca as escondi, mas também nunca as exibi “fora do contexto”, reservando essas afirmações para os tempos e os lugares adequados. A referência liminar, e para mim “definitiva”, nesta matéria foi a que aprendi, enquanto estudante, em O Político e o Cientista de Max Weber. Sempre discordei, pois, daqueles que, por descuido ou por opção, acabam por misturar a sociologia com a política. Parece-me negativo, quer para o lado da sociologia, quer para o lado da política. E, enquanto profissional, estive sempre muito atento a essa questão, face à responsabilidade de ensinar os meus alunos. A única vez que, conscientemente, falei “de política” perante eles foi na minha Última Lição, incitando-os, como aceno de despedida (e por este motivo excepcional e irrepetível), a procurarem ser indivíduos livres e cidadãos conscientes, além de profissionais competentes. E também não deixou de me incomodar saber que o “meu” ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, na denominação de uma das suas Escolas internas, tinha decidido associar ao prestigioso nome da Sociologia a prosaica designação de “Políticas Públicas”, que certamente pode e deve ser matéria de ensino e investigação mas não pode equiparar-se ao estatuto científico granjeado por aquela.   
Assumi também muito cedo, não sei com que filósofo ou doutrinador social, que uma política dirigida pela ciência (quero dizer: por sujeitos da ciência) conduziria provavelmente ao desastre. E que uma ciência orientada por preocupações políticas perde capacidade heurística, credibilidade e grandeza. É consabida a intromissão de factores político-ideológicos na reflexão sociológica, mas é para isso que procuramos ensinar os estudantes a adquirir e manter uma atitude de vigilância crítica para controlar tais interferências. É também desejável que a condução da acção política não ignore as análises e os avisos da ciência sociológica, mas quem deve decidir são os políticos que mantenham a relação mais verdadeira com o povo. São eles os responsáveis dos resultados da governação. Se não, temos amanhã um dirigente caído em desgraça dizer que a culpa foi do Giddens... 
Naturalmente, temos visto em democracia exemplos vários de sociólogos que, como cidadãos e como agentes políticos, exercem cargos governamentais (que me lembre, entre nós, Arlindo de Carvalho, Capoulas Santos, Ana Benavente, Paulo Pedroso, Augusto Santos Silva, António Dornelas, Maria de Lurdes Rodrigues e talvez outros). Mas não deixa de ser curioso imaginar que, se fosse feito um inquérito à preferência político-partidária dos sociólogos portugueses (coisa que nunca foi feita, talvez por justificada prudência), o resultado seria provavelmente o de um posicionamento muito mais “à esquerda” do que a distribuição verificada no quadro eleitoral nacional, resultado esse que não poderia deixar de ser interpretado como uma “regularidade sociológica” significativa. Igualmente significativa é a percepção (muito subjectiva e intuitiva, claro!) de que alguns sociólogos politicamente posicionados “à direita” possam ser alvo de um olhar crítico (ou levemente desdenhoso) por parte da grande maioria dos seus colegas. Isto, para já não falar do sociólogo holandês Pym Fortuyne que se tornou conhecido por liderar um movimento político considerado de extrema-direita e xenófobo (e acabou assassinado), que deve ter envergonhado mais de um sociólogo, dentro e fora do seu país.
Mais frequentemente talvez (e decerto com mais discrição) alguns sociólogos têm desempenhado o lugar de “conselheiro do príncipe”, de especialistas de gabinete (ministerial) e de altos funcionários do Estado. Oscilarão então entre os papéis de inspiradores, consultores ou executores de determinadas políticas sectoriais, para os quais o conhecimento sociológico não os habilita especialmente mas lhes pode fornecer uma base de informação relevante, quando posta ao serviço de excelentes aptidões pessoais e bom entrosamento em redes relacionais, no todo favorável à execução dessas políticas. Resta saber de que forma uma suposta “agenda social” (ou “procura social”, de melhor conhecimento dos sociólogos) se conjugará com a “agenda política” (que tanto é determinada pelo governo como pelas oposições e por factores aleatórios que nenhum desses actores controla) e com a “agenda mediática” (que persegue interesses e objectivos próprios). Eis, em certa medida, uma via de aproximação ao poder dos sociólogos. Por exemplo, pode dizer-se que hoje, em Portugal, “há exclusão social” porque os sociólogos inventaram, não obviamente o fenómeno, mas o conceito, e o conseguiram “impor” aos jornalistas, aos políticos e finalmente à sociedade mediatizada.
Não de se trata de uma sociologia política envergonhada, e ainda menos de uma sociologia “desenvergonhada”. Mas, sim, do uso que o poder e os actores políticos fazem de instrumentos que têm ao seu dispor, em cuja panóplia figuram algumas áreas do saber científico. Porém, a crítica teórica que sociólogos ingleses fizeram há mais de quarenta anos aos grandes protagonistas da «sociologie du travail en France», sob o labéu de “Servants of Power” (servidores dos que estão hoje no poder, ou que estarão amanhã), é capaz de conter ainda elementos que guardam toda a sua pertinência.
JF / 6.Fev.2015

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