sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Síria e arredores


Os habituais “intelectuais franceses” fizeram-se ouvir de novo, desta vez clamando contra a indiferença das opiniões públicas ocidentais e a tibieza dos seus governos face à catástrofe que se abateu sobre o povo da Síria desde há vinte meses, onde se contabiliza qualquer coisa como 40.000 mortos. Tratam o governo de Assad e os seus militares de “bando de assassinos” e reconhecem que, entre os que os combatem, são cada vez mais numerosos os radicais islamistas provindos do Hezbolah e do Irão. Mas consideram que esse novo perigo se adensa cada vez mais perante o imobilismo da França, dos Estados Unidos, da NATO ou de uma outra qualquer coligação internacional, enquanto a Rússia não cessa de fornecer meios bélicos ao governo de Damasco. Equiparam mesmo esta situação à da Espanha de 36-39 em que as democracias respeitavam a não-intervenção enquanto Hitler e Mussolini ajudavam Franco.
O apelo é decerto justificado. O pior é que não se vê maneira de parar a sangueira sem desencadear porventura males ainda maiores. A Turquia, Israel, o Irão, o próprio Egipto, a Rússia e mesmo a China distante têm interesses cruzados neste xadrez, como também os tem a União Europeia, travada pela sua incapacidade para falar com uma única voz nestas matérias.
O conflito sírio pode estender-se facilmente ao Líbano, seu frágil vizinho também multiconfessional. Israel teme que as forças pró-iranianas estabeleçam novas plataformas ofensivas junto às suas fronteiras. A Turquia poderia resolver militarmente o problema, sobretudo se a zona curda se instabilizar, mas isso alteraria os equilíbrios regionais e talvez levasse o Egipto a reagir.
Enfim, estamos perante um novo quebra-cabeças internacional que só judiciosas iniciativas diplomáticas combinadas com ameaças credíveis poderão talvez conduzir a um cessar-fogo no terreno, a um afastamento da cabeça-do-Estado e a uma mudança política razoavelmente justa e equilibrada – uma vez que a opinião pública (ocidental) parece hoje demasiado absorvida pelos seus próprios problemas económicos para que possa ter um papel positivo no apaziguar deste conflito.
Eis mais um triste exemplo de um “regime forte” que teima em não largar os seus instrumentos de poder, usando-os contra os seus próprios cidadãos, e mais um caso de degradação da convivência num mesmo espaço multicultural.  
JF / 2.Nov.2012

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