sábado, 24 de novembro de 2012

O reino dos especialistas: financeiros, economistas, juristas, informáticos e psicólogos

Os sociólogos têm dedicado alguma atenção ao poder específico do expert, do especialista, que contribui de forma decisiva para a realização de bens e serviços de interesse social mas também pode tirar proveito próprio dos saberes que só ele detém. Todos temos consciência de que, em certa medida, “saber é poder”. Os feiticeiros e curandeiros alçaram-se sempre, nas sociedades antigas, muito acima das pessoas comuns e mesmo a ponto de desafiar os ricos e poderosos. Os reis ficavam frequentemente dependentes dos seus ministros, dos físicos ou dos banqueiros, embora às vezes também lhes mandassem cortar a cabeça.
Hoje, há quatro grupos profissionais que parecem sobrelevar todos os outros porque dominam técnicas e conhecimentos especiais que se situam na encruzilhada entre os negócios-de-Estado e os propriamente ditos (que almejam lucros onde podem).
Os financeiros, públicos ou privados, dominam essa ciência económica dos valores simbólicos e imateriais que são o dinheiro, o crédito, a dívida, o juro, a renda, a hipoteca, etc., mediante o uso de técnicas matemáticas e contabilísticas complicadas, bem longe dos tempos em que se contavam as moedas de ouro e as joias guardadas em caixas-fortes.
Os economistas tornaram-se especialistas centrais nas sociedades modernas, combinando análise matemática com ciência social e fazendo esperar deles o que só muito limitadamente podem dar: previsões rigorosas quanto ao futuro – quando é certo que só podem produzir juízos exactos sobre fenómenos já passados, e ainda assim com todo o lastro dos modelos teóricos muitas vezes conflituantes, do acerto no manejo das metodologias e de uma ética científica nem sempre observada.
Os juristas terão surgido há cerca de dois milénios como servidores do poder político. Ajudaram a conceber o Estado imperial romano que assenhoreou o Mediterrâneo e boa parte da Europa, forjando o modo de funcionamento dos seus órgãos soberanos, formulando as regras fundamentais de um direito unificado, contabilizando numérica e juridicamente as trocas económicas e iniciando o registo sistemático dos actos da vida civil. Mas mesmo fora deste quadro histórico, não deixaram de ser dos principais “conselheiros dos príncipes” para a conservação do poder, o lançamento do imposto, a negociação diplomática ou a abertura de hostilidades. Depois da Revolução Francesa, alargaram as suas capacidades, pondo-as também ao serviço dos aspirantes ao governo dos povos, da resolução dos litígios surgidos no seio das classes elevadas e ainda dos interesses das populações, colectivamente consideradas. Julgar “em nome do povo” ou “arguir a causa de qualquer acusado” tornou-se um símbolo da Justiça e um alicerce da Democracia. Mas nunca se pensou que juízes, advogados e jurisconsultos pudessem um dia tornar-se também actores do jogo político, embora de maneira escondida. 
Os informáticos são “os rapazes” que estão pilotando tecnicamente a mudança de sistema produtivo e relacional em curso desde há uma trintena de anos, a partir “da América” mas que envolve o mundo inteiro e encontra inusitados intérpretes universais em todo o lado. Com a ousadia e a inconsciência dos neófitos, forçam-nos a saltos culturais fantásticos, cujas consequências não sabemos ainda medir.
Num outro espaço, os psicólogos existem já há algumas décadas e resultaram do desenvolvimento científico e do ensino universitário. Têm um “mercado” enormíssimo à sua espera, sobretudo na vertente clínica, onde vieram substituir o padre e o feiticeiro de outrora. Mas, como especialistas capazes de nos “espreitar a alma”, têm o dever de regular a sua actividade profissional segundo padrões éticos irrepreensíveis, perante os riscos evidentes de manipulações afectivas ou comunicacionais.
Temos pois aqui um conjunto de peritos com poder social efectivo nos seus respectivos campos, de quem se deve exigir que, além de uma ideologia profissional própria defensora do “serviço público” que desempenham, aceitem submeter-se ao escrutínio pelos órgãos adequados representativos da sociedade, contrariando a sua tendência espontânea para o fechamento entre pares.
JF / 23.Nov.2012

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