sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Intelectuais, burocratas e vanguardas dirigentes

Por meados do século passado, discutiu-se muito nos meios marxistas críticos a questão da “natureza de classe” dos novos poderes dirigentes dos países socialistas como a Rússia, a China, as “democracias populares” da Europa de Leste e mesmo de Cuba e de alguns países recém-descolonizados. O termo “burocracia-de-estado” ficou mais ou menos consagrado como o de uma nova classe social que, depois e em vez da burguesia, vinha assegurar a perpetuação de uma estrutura social de domínio e exploração de uma minoria sobre a maioria da população de um país. Contribuíram decisivamente para esta conceptualização (distanciando-se de todos os trotskistas, que continuavam a apostar nos “partidos operários”) autores como Mattick, Djilas, Rizzi, Marcuse, Castoriadis ou os pensadores-provocadores radicais soixant-huitards da IS (Internationale Situationniste, na intersecção de caminhos do marxismo, do anarquismo e do surrealismo) que bramavam então que a “a libertação só será efectiva quando o último capitalista for pendurado nas tripas do último burocrata”.
Desconheciam talvez que, logo no início do século, pela mesma altura em que o sociólogo Pareto teorizava sobre as elites, um polaco desmarxisado, Ian Waclav Makhaiski, havia escrito O Socialismo dos Intelectuais onde antecipara que o destino dessa camada de pessoas com boa educação escolar que se empenhava então na luta (dirigindo-a, como Lénine personificou, mais que todos) ao lado dos operários e camponeses pobres seria, forçosamente, o de se constituirem, eles próprios, pelo seu saber e capacidade dirigente, como nova classe dominante (e não apenas “dirigente”), substituindo na função as velhas aristocracias em perda e as burguesias amedrontadas. É claro que tal já fora anunciado pelos doutrinadores anarquistas desde os tumultuosos debates dos primórdios do movimento socialista mas esses, a partir da vitória de Franco em Espanha, praticamente haviam desaparecido da cena.
No final do período de expansão económica pós-segunda guerra mundial e pós-descolonização, analistas sociais como Touraine bem chamaram a atenção para o fenómeno de as classes dominantes no mundo o serem agora mais pelas decisões que tomavam no exercício dos seus cargos profissionais e políticos, afectando com elas grandes massas de população, do que propriamente pela apropriação de riqueza privativa. Gestores, peritos e “grandes decisores” – experientes em gigantescas organizações e tendo que decidir como e quando lançar investimentos financeiramente pesados – deixaram desde então de poder ser vistos como meras categorias de ocupação profissional. A massificação do ensino e da universidade propiciou que milhares e milhões de componentes das classes médias ascendessem no consumo e na escala social, e a partir deles passaram a ser recrutados os membros destas novas elites dirigentes (elites porque circulando facilmente entre instituições públicas e empresariais, e porque integrando também as lideranças das oposições políticas e sociais reconhecidas). A “igualdade de oportunidades” foi não só um slogan de agitação eleitoral mas uma real oportunidade proporcionada por esta nova fase de desenvolvimento da economia e das sociedades mais dinâmicas na segunda metade do século passado.
Depois, aí pelos anos 70, as coisas mudaram. E porquê? Talvez porque: -esgotada uma primeira fase da “social-democratização” das sociedades ocidentais (assente num “compromisso histórico” entre a esquerda-representante-dos-trabalhadores e as classes proprietárias, para uma gradual redistribuição dos rendimentos) em que o peso dos impostos estava esmagando o crescimento; -alterados os termos-de-troca dos produtos energéticos, com a emergência do poder dos petro-dólares e a corrida para o “nuclear”; -consciencializado o planeta acerca da finitude dos seus recursos naturais e do envenenamento provocado pela grande indústria; -lançada a China para uma via original de desenvolvimento capitalista-comunista numa escala inigualável; -soçobrada a União Soviética e todo o seu “bloco” pela pressão de um Reagan primário e pelo agudizar de todas as suas contradições internas; -e criada a base científico-tecnológica para a “sociedade de comunicação” e a emergência de uma cultura mundial – a economia, agora realmente globalizada, deu um novo salto em frente permitindo a rápida subida dos níveis-de-vida de milhões de pessoas e o enriquecimento efectivo das tais novas elites ou classes dirigentes. O seu poder social, assente nos seus saberes, decisões, redes relacionais, possibilidades de mobilização de recursos públicos e privados, passou a ser então acrescentado pela apropriação privada de grandes somas de valor financeiro.
Quer isto dizer, como alguns parecem sustentar agora, que as contestações ao actual estado de coisas (a crise, que nos aperta) são “insusceptíveis de produzir novas lideranças”? [citado do anúncio ao seminário internacional “Manifestos e Manifestações: Política, Linguagem e Revolta”, Lisboa, 20-21.Jan.2012] Ninguém certamente o saberá. Mas, se tal for verdade, isso deve ser visto como uma boa ou uma má coisa? A nosso ver, a crítica ao modo vanguardista de conduzir estes processos conflituais e ao destino final dos “revolucionários” mantém-se pertinente, tal como foi formulada por Makahiski ou Malatesta há um século atrás. Mas parece também indispensável encontrar o modo de identificar politicamente e de responsabilizar os “representantes” do povo que se alcandoraram à situação de “donos da terra” e, enfim, de imaginar novas formas de socialização do poder político, que não sejam proprietárias, nem elitistas, nem populistas, nem vanguardistas.
JF / 10.Fev.2012

1 comentário:

  1. Numa perspectiva semelhante há o Manifesto Autogestionário, de Nildo Viana: http://2012.nildoviana.com/wp/livros-disponibilizados-2/

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