segunda-feira, 6 de junho de 2011

Como sempre, ganhou quem não votou, mas é uma vitória amarga

Dos resultados quantitativos apurados nestas eleições legislativas podem acentuar-se os seguintes números: abstencionistas, 41%; PSD, 23% e 108 dos 230 lugares do parlamento; PS, 16% e 74 lugares; CDS, 7% e 24 lugares; PCP e amigos, 5% e 16 lugares; BE, 3% e 8 lugares; outros partidos, 3%; brancos e nulos, 2%.
O número dos abstencionistas está muito condicionado pela desactualização dos cadernos eleitorais, onde certamente persistem em figurar mortos, emigrantes e talvez pessoas que mudam de residência. Pois pode lá ser que, dos 10,3 milhões de cidadãos presentes que se espera sejam registados no Censo, 9,4 sejam eleitores de mais de 18 anos?! Em todo o caso é, uma vez mais, um valor muito elevado que, somado aos brancos-e-nulos, dá uma ideia do fosso que hoje separa uma enorme fracção da população da classe política. Fosse posta em prática a ideia de deixar vagos estes lugares no parlamento e veríamos certamente os partidos a actuarem de outra maneira!
Mas já se está a ver que a coligação de governo que o PSD vai estabelecer com o CDS dificilmente será capaz de cumprir o compromisso negociado com a troika, sobretudo se o PS se assumir como opositor, pronto a aliar-se à esquerda marxista, nomeadamente no bloqueio à alteração das leis que necessitam de maioria qualificada. A saída de cena de Sócrates foi um gesto importante mas é preciso ver qual será a orientação da futura liderança socialista.
Contudo, o programa de reduzir o Estado e liberalizar a economia, vendendo inclusivamente talhões ao estrangeiro, é, no contexto actual, o único adequado ao buraco em que nos deixámos cair, apesar de isso ir significar desigualdades acrescidas, miséria para mais uns tantos e empobrecimento para quase todos. Não foi o economista Krugman, geralmente referido como “progressista”, que há meses atrás diagnosticou que os portugueses precisavam de um corte de cerca de 30% nos seus rendimentos?
A esquerda tradicional necessita de rever profundamente o seu programa, sobretudo na cegueira com que confia no papel do Estado: é certo que a economia de mercado exige uma regulação – hoje especialmente a nível internacional – mas tal não deve ser confundido com estatização, subsidiação ou “administrativização” da vida social.
Por tudo isto, seria realmente um “imperativo patriótico” que o PS fizesse a sua necessária catarse interna e ajudasse a preparar um futuro melhor (e que os outros partidos o ajudassem a tal, em vez de o crucificarem). Mas será possível?
JF / 6.Jun.2011

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