sábado, 22 de abril de 2017

Avatares sociais e tecnocráticos, imersos em paradigma liberal

É muito forte (ainda) em Portugal a reprodução das posições sociais de relevância – em termos de riqueza, capacidade de influência ou visibilidade pública – dentro das mesmas linhagens familiares, redes de amizade ou compadrio, ou ainda (fenómeno mais recente) dentro das mesmas formações partidárias e/ou organizações “secretas” da sociedade civil. Trata-se, em todos os casos, de uma certa apropriação privada de poder social.
Isto não deve confundir-se com a reprodução familiar e endogâmica de profissões de elevado estatuto social, como são ainda os médicos, os diplomatas, os juízes e mesmo os advogados, ou como já foram os engenheiros e os militares, porque aqui o fenómeno em causa é sobretudo o da persistente estratificação que dificulta a mobilidade social.   
Dois exemplos: os descendentes dos restos da aristocracia portuguesa estão praticamente todos convertidos ao negócio. Beneficiando por vezes de bens de raiz herdados, sejam propriedades rústicas ou urbanas, convertem-nas em empresas para dar lucro (arrendamentos, explorações turísticas, etc.) ou vendem-nas no mercado em boas oportunidades que a conjuntura ou a evolução lhes oferece. Além do esmero da educação familiar, foi-lhes permitido naturalmente efectuar estudos avançados, geralmente com boas classificações (aproveitando adequadamente a superior bagagem cultural herdada). E com a ajuda das redes extensas de conhecimentos inter-pessoais no seio das elites, souberem identificar que o tempo da mera exploração rendeira das propriedades fundiárias havia passado, tomando então decididamente o partido do risco, da iniciativa no campo da economia e do domínio indispensável dos novos instrumentos técnicos de comunicação, pesquisa e gestão –, às vezes mesmo inserindo-se em equipas internacionais de ciência, ou em estruturas de cultura ou espectáculo-lazer de elevado padrão embora de sucesso aleatório. É por isso que encontramos com frequência apelidos “sonantes” da velha sociedade portuguesa no topo de uma grande empresa multinacional, como curadores reconhecidos nos mercados-da-arte ou a pilotar pessoalmente um caríssimo veículo em competição mundial.   
Os trisavós aristocratas ou muito ricos limitavam-se a velar pelas propriedades já herdadas e se possível a acrescentá-las com os bons casamentos da descendência. Os actuais herdeiros são activos empreendedores que não hesitam em correr os riscos do mercado, com vista à criação de valor e tentando não perder as novas oportunidades que a economia oferece.
Nestes termos, apesar da indiscutível ascensão – por via da escola – de inúmeros “filhos do povo” aos cargos mais cobiçados e bem remunerados nos diversos sectores da sociedade (nas empresas, no espectáculo, na investigação científica, na política, etc.), também é verdade que raros são os descendentes das “classes altas” (aristocracia, grande burguesia, latifundiários) que soçobram e decaem na escala social, em termos absolutos e relativos – distinguindo-se aí muito claramente do que aconteceu com a velha “classe média” (de funcionários, proprietários e outros “remediados”) e sobretudo com uma fracção muito significativa da pequena burguesia, sobretudo no comércio, artesanato e agricultura.
Mas há também um segundo caso exemplificativo, situado no outro extremo da escala social. Como bem se sabe, a miséria material verdadeira passa de pais para filhos, tal como os destrambelhamentos comportamentais. Dantes, era o abuso do álcool, o escorraçamento dos lugares públicos e os maus-tratos infligidos por polícias e meios carcerais! No nosso tempo, vieram as drogas, a marginalização social, o fracasso escolar ou o desemprego prolongado! Sempre, os desajustamentos psíquicos, os traumas afectivos, a cadeia-de-ocorrências-infelizes ou então vícios como os jogos-de-azar que destroem vidas e danificam o ambiente social!
Que haja 20 ou 30% da população em situação ou risco de pobreza, numa sociedade situada no espaço privilegiado que constitui a Europa, é, certamente, um muito mau score de desempenho social. Mas que esses "pobres” tenham fortes probabilidades de “transmitir” tal handicap aos seus filhotes é ainda muito mais injusto. 
Uma maior mobilidade social não resolve o problema estrutural das excessivas desigualdades socioeconómicas, mas atenua os seus piores efeitos. Nas últimas décadas, isso verificou-se por um conjunto de circunstâncias e factores favoráveis: desbloqueamentos permitidos pelo “saltar-do-ferrolho” do 25 de Abril; algum crescimento económico; criação de uma nova “classe política”; fortes transferências de recursos da “Europa rica” (CEE e UE); mas também elementos encantatórios como o crédito barato e disponível, e os aproveitamentos “facilitistas” de uma certa desregulamentação das nossas burocracias tradicionais, que o salazarismo havia ainda reforçado. Em todo o caso, não é preciso fazer inquéritos ou grandes estudos para ver como uma parte substancial das actuais elites nacionais – no Estado, nos negócios, na ciência e tecnologia, no espectáculo, nas artes, etc. – é hoje oriunda quase directamente das classes populares do campo ou da cidade: basta reparar nos apelidos citados na comunicação social.  

Escutei há tempos uma conferência pronunciada por inteligente e competente especialista na matéria anunciada, que se inseria na esfera da circulação económica, considerada em termos mundiais contemporâneos. O conferencista debitou durante uma hora inúmeros dados, apoiados em projecções de gráficos, esquemas, estatísticas e imagens, adequadamente articulados com o seu discurso, fluente, preciso e sugestivo, com alguns inglesismos à mistura como agora é inevitável. Toda a audiência (de iniciados na matéria) apreciou verdadeiramente a sessão e o caloroso aplauso final nada teve de ritual formalista, antes exprimia a satisfação efectiva com o que tínhamos ali aprendido.
Porém, a própria continuidade e coerência interna do discurso – neste caso, relativo às tendências em curso no tocante à movimentação de mercadorias no espaço-mundo, considerando os seus locais de produção, transporte e logística, em direcção aos grandes centros de consumo, mas também atendendo às condições tecnológicas de circulação da informação implicada por tais fluxos, regras jurídicas mobilizadas e constrangimentos administrativos irrenunciáveis (fiscais, de segurança, etc.) – dizíamos que foi a própria qualidade intrínseca do seu discurso que nos suscitou o desafio de observar (“em cima da onda”) e tentar desmontar e pôr em evidência alguns dos implícitos ali contidos. Ao “naturalizá-los” no (des)envolvimento de uma lógica discursiva avassaladora, a sua eventual discussão e crítica pode ter ficado prejudicada. É isso que pretendemos agora sinalizar, de maneira muito simples ou mesmo elementar.
Recorrendo exclusivamente à memória oral deixada por esta audição (naturalmente, muito falível), fixamo-nos apenas em dois ou três pontos susceptíveis de exploração crítica explicitadora de alguns “não ditos”, o primeiro dos quais é o recurso frequente (neste tipo de apresentações) ao uso de termos de linguagem técnica em inglês (ou melhor, “americano”) sem que, ao menos, uma observação de ressalva seja feita, ou procurando-se o conceito mais aproximado que lhe equivalesse em língua portuguesa. Esta “universalização” da terminologia técnica (fixada na língua inglesa) é um fenómeno comunicacional social desta nossa época, imparável, e com numerosos efeitos benéficos. Mas não deveria servir para o empobrecimento e definhamento de cada uma das línguas maternas. Sempre que possível, a sua tradução seria muito desejável e arriscamos dizer que constituiria mesmo um “acto de cultura”. No caso vertente, as terminologias técnicas dos meios de transporte usados, das actividades logísticas e das operações económico-financeiras referidas têm, todas elas, traduções linguísticas razoáveis (ou mesmo ricas e importantes, algumas mesmo com antiguidade) no idioma português. A sua não utilização, a benefício do jargão anglófono, pode ser vista como o desperdício de uma oportunidade. Por economia de espaço (e escassez de capacidade memorial), não exemplifico aqui com algumas palavras este tipo de comportamento humano, hoje tão recorrente em diversas áreas de especialidade, supondo que todos os leitores terão perfeita consciência da existência deste fenómeno. Noutros casos, concedo facilmente que não exista equivalente terminológico na língua de Camões (que não conheceu a electricidade nem os computadores). Mas, sabendo-se como a língua é uma codificação significante, viva e sempre em evolução, deveriam talvez aqueles especialistas fazer o esforço de facilitar a criação de novos “anglicismos”, ousando experimentar adaptações lógicas do termo original britânico (como fizemos com “computador”, para computer), ou mesmo, com aquela criatividade de que dão mostras os publicitários, encontrando judiciosos termos equivalentes que já existam no nosso idioma. Imaginemos: “comportamentos auto-obrigados” em vez de comportamentos “aditivos” para adictive behaviour.    
Em segundo lugar e como venho acentuando, observo que o funcionamento da economia se vem constituindo como o principal meio de acção (e mesmo de representação simbólica) das sociedades modernas. Longe, longíssimo, estão os tempos em que, na família, na freguesia, no trabalho, no estudo ou no lazer, os assuntos que ocupavam a conversação entre as pessoas saltitavam alegremente entre as dinâmicas das interacções individuais (descrevendo-as, caracterizando-as, estigmatizando-as, etc.), os comentários sobre a “ordem política” interna ou externa (de louvor, abespinhamento, temor ou desprezo), as relações dos humanos com a natureza (a doença, a morte, as intempéries, a expectativa de novas primaveras, etc.) e os insondáveis desígnios da vontade divina face aos pequenos imponderáveis do quotidiano, às iniquidades da distribuição da riqueza e da justiça dos homens ou à salvação definitiva das nossas almas. Hoje, fala-se de economia para relatar a concorrência entre estados-nação que antigamente se descreviam em termos de apetites imperiais ou do direito dos povos a disporem do seu próprio destino, que lhes era muitas vezes denegado. Fala-se de economia quando se discutem medidas de política social para socorrer os mais necessitados ou assegurar uma equitativa oferta na prestação dos cuidados de saúde a uma população. Fala-se de economia (alocação de recursos, custos e quem os deve suportar, etc.) quando se põe em causa a lógica de um sistema educativo em relação com a futura divisão-do-trabalho que ele vai fortemente condicionar. Apenas um exemplo concreto da actual prevalência da razão económico-financeira sobre outras considerações de natureza mais social: compreende-se a pressão da CEE para quebrar o monopólio das antigas companhias ferroviárias nacionais e para estimular alguma concorrência entre “operadores”, a benefício dos utentes. Por isso se fez a cisão entre a CP e a Refer (infraestruturas), além de outras. Mas agora foi esta última fundida com a Estradas de Portugal (constituindo a Infraestruturas de Portugal) quando se tratava de duas organizações com culturas-de-empresa inteiramente distintas, e apenas porque a Refer acumulava prejuízos e dívida, e a segunda arrecadava bons proveitos, obtendo-se assim uma única entidade com as contas equilibradas face a Bruxelas e aos credores. Nas políticas governamentais, observa-se algo de parecido: com Passos e Gaspar, a palavra-de-ordem era “corta!”; agora com Costa e Centeno o guião da comunicação política é mais elaborado: “anuncia!”; “mostra as diferenças com o passado recente!”; “festeja!”; “atrasa!”; e “adia!” – tudo por causa do maldito cifrão. Finalmente, quando se tenta reflectir sobre o devir da humanidade para as próximas décadas, é ainda e sobretudo em termos de projecções da evolução dos principais parâmetros socioeconómicos que todos somos levados a raciocinar, ainda que em tais cenários se possam considerar também factores demográficos, de aproveitamento da energia e outros recursos-chave, de degradação do meio natural ou de hipotéticos cenários nas relações internacionais.
Em certa medida, até o discurso ritual-espiritual da Igreja Católica se deixa corromper por esta envolvente populista, espectacular e atenta ao lucro financeiro. Pois não é que se houve dizer que, neste ano jubilar do centenário das aparições de Fátima, terão lugar vários “eventos” complementares, como serão umas cantorias populares por um qualquer Marco Paulo ou um congresso internacional de turismo onde não é crível que se trate da santificação das almas?! Bem pode o Papa Francisco continuar a pregar e dar bons exemplos, que tem atrás de si uma “máquina” imparável e muitos lóbis e interesses a atravessarem-se-lhe no caminho! Porém, é interessante ver um teólogo e hierarca da Igreja como Carlos Azevedo vir reconhecer publicamente que não houve “aparição” alguma aos três pastorinhos de Fátima, mas apenas “visões místicas”. Por muito menos se queimaram e perseguiram apóstatas e hereges no passado.
A linha de pensamento tecnocrático tende a considerar como contínua e ininterrupta (embora oscilante) a curva do crescimento económico, embora conheça da teoria como essa linha foi, no passado, afectada por perturbações de grandezas e sentidos diversos. Crises económico-financeiras brutais (como a que despovoou a Irlanda em poucas décadas no século XIX ou assolou o mundo ocidental no pós-Grande Guerra); conflitos armados de grandes proporções (como a guerra civil norte-americana ou as duas Guerras Mundiais do século passado); “revoluções culturais” surpreendentes como foi o Maio de 68; magnos acidentes geológicos (como o terramoto de Lisboa de 1755) ou cósmicos (com o impacto sempre possível de algum meteorito); ou mesmo flagelos epidémicos incontroláveis (já não temos memória da “peste negra” mas não ficámos imunes a fenómenos deste tipo, como a “gripe das aves”) – tudo isto são ameaças possíveis a um mundo que acumulou um stock fantástico de bens materiais e de conhecimentos operativos, que durante um tempo afivelou uma máscara de optimismo e nonchalance mas que, de repente, se viu agora confrontado com as suas próprias contradições e por algumas delas ameaçado, a que se somou a insegurança do terrorismo, a desconfiança no outro e a descrença nas possibilidades de melhoria colectiva. A sociedade de risco foi uma caracterização feliz do sociólogo alemão Ulrich Beck para os medos, as ameaças e os movimentos inorgânicos e emocionais dos nossos dias. 

Aqui há meses, o livro Eu e os Políticos de José António Saraiva suscitou um êxito editorial pouco comum e comentários indignados de alguns dos nossos mais reputados comentadores. É certo que o estilo “lavagem de roupa suja” estava anunciado e que a qualidade de jornalista – ou melhor, de director de imprensa escrita – deveria impedir o autor de publicitar frases e atitudes recolhidas off record. Esclareço desde já que não li o livro e não tenciono fazê-lo, porque julgo nada ter a apreender com tais revelações. Apenas escutei parte de uma entrevista dada por Saraiva a um canal de televisão, onde aliás me pareceu pouco convincente e à-vontade a “falar para as massas”. Também não me custa a crer que a sua personalidade seja altamente auto-referenciada (se é verdade o que se diz de o homem se considerar um romancista de enorme craveira…) e, por isso, menos interessante. Mas, enquanto observador privilegiado da vida política portuguesa dos últimos 40 anos (sobretudo pelo que assistiu em privado e lhe contaram actores determinantes desses processos), é possível que daqui por meio-século estas “inconfidências” possam constituir uns complementos bastante esclarecedores sobre o referido período da nossa história, o que poderia ajudar ao perdão dos pecadilhos actuais. Jornalismo ilícito? É provável. Mas talvez o testemunho deixado venha a justificá-lo. Em todo o caso, eis um profissional da imprensa bem contrastante com o perfil de um José Manuel Paquete de Oliveira, o “sociólogo afável” que o Público elegeu entre as principais figuras nacionais que nos deixaram no ano de 2016, ou a escritora-reporter globetrotter deste mesmo jornal chamada Alexandra Lucas Coelho, de cujas posições políticas e sociais geralmente discordo mas a quem reconheço uma elegância e desenvoltura de escrita irrepreensíveis e julgo ser mulher de coragem a toda a prova (ver o seu interessante “Último texto” no Público de 27.Mar.2017 e o elogio de João Miguel Tavares na edição do dia seguinte do mesmo jornal). Todos bem diferentes ainda do pivot do telejornal da “2” João Fernando Ramos que, geralmente discreto, não se coibia contudo de anunciar a série dinamarquesa Fraude acrescentando que “tinha muitos pontos de contacto com a nossa realidade”, no que estava excedendo a sua função: sobre a interpretação e as intencionalidades da ficção, responde unicamente o público, a crítica e o próprio autor; dispensa-se a “promoção” do jornalista.
E uma palavra ainda para dois “mestres da comunicação”. Por coincidência, na mesma edição do jornal Público (de 24.Dez.2016), José Pacheco Pereira e Jorge Almeida Fernandes assinaram artigos sobre política internacional de grande qualidade e oportunidade. Se do último já é habitual lermos análises muito bem informadas, prudentes e que nos fazem reflectir, de JPP há muito que já não suportávamos escutar as suas palavras, pela “roda-livre” discursiva a que se entrega e pelos “ódios de estimação” que manifestavam. Desta vez, porém, falando da “Doutrina Trump-Putin”, Pacheco antecipa com lucidez as prováveis mudanças que aí vêm no xadrez internacional. Se a isso juntarmos os riscos que se percebem existir no sistema económico (matéria que ele ignora), há de facto fortes razões para estarmos preocupados. Quanto ao acutilante texto de JAF (“Nas mãos da Alemanha e de Angela Merkel”), só me apetece lembrar todos aqueles que, até há dois anos atrás, invectivavam quotidianamente a chanceler alemã e assestavam as suas baterias alarmistas sobre o novo “perigo germânico”, apostado em dominar na Europa para poder impor-se no mundo! Emudeceram? (perante a política “do milhão de refugiados”, a estabilidade da coligação CDU-SPD, o relativo apagamento do sr. Schäuble, as dificuldades financeiras da Volkswagen e do Deutsch Banke ou o atentado natalício de Berlim?)
Apesar das travagens proteccionistas que se ensaiam actualmente, o mundo não deixará de funcionar como um todo, numa ordem algo desordenada que nenhum poder verdadeiramente controla. A tecnologia já não consente grandes recuos. E talvez a vontade dos Homens seja capaz de o aproveitar para melhor preservar o seu destino.   

JF / 22.Abr.2017   (dois dias depois de uma sessão extraordinária, de sonho e vibrações, ocorrida no auditório B103 do edifício II do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa)

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