domingo, 21 de agosto de 2016

Anéis olímpicos

O saudoso professor de educação física Mário Moniz Pereira acompanhou todos os Jogos Olímpicos desde 1948 até aos que antecederam a edição do Rio de Janeiro. É boa parte da história deste encontro quadrienal dos melhores desportistas mundiais que ele conheceu e dominava como poucos.
Embora já em muitos aspectos bem afastados dos seus intuitos originais, os Jogos mantêm a auréola de ser a mais importante competição desportiva do planeta, numa época em que o desporto ocupa um lugar importante na vida social. (Não é verdade que muitos se vestem no dia-a-dia como se fossem praticar actividades físicas?) As cinco argolas entrelaçadas de diferentes cores sobre fundo branco da sua bandeira representam os povos dos cinco continentes na sua mais alta aspiração de paz. O seu fundador, o francês barão Pierre de Coubertin, teve a inspiração de, num mundo de acesa concorrência económica e ásperas rivalidades políticas internacionais, encontrar um pretexto para periodicamente reunir jovens desportistas do mundo inteiro competindo lealmente entre si, segundo as regras ditadas pelas federações desportivas das diversas modalidades, tendo por objectivo apenas a conquista do aplauso público pelo feito atlético alcançado. Como era lógico, os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna realizaram-se em Atenas, em 1896, que para tal reconstruiu o estádio Panatenaico, e logo aí com o simbolismo de ter sido um estoico grego, de seu nome Spiridon Louis, a conquistar o título de vencedor da corrida da maratona, a longa distância um pouco superior a 42 quilómetros que liga o local da batalha histórica àquela cidade. E a mesma prova registou em breve outros dramas e polémicas: em 1908 em Londres, o italiano Dorando Petri chegou esgotado ao estádio e foi amparado pelos juízes que acabou por cortar a meta, não escapando à desclassificação mas acolhendo a simpatia afectiva de todo o público pelo seu esforço; e em 1912 em Estocolmo foi o português Francisco Lázaro que ali morreu, vítima de insolação, respiração cutânea bloqueada e ignorância. Polémica foi também a posterior retirada das medalhas então conquistadas pelo polivalente atleta americano Jim Thorpe (índio Sioux) por ter recebido algum dinheiro como jogador de basebol, infringindo a regra de amadorismo então observada nos Jogos, mas provavelmente com alguma dose de preconceito étnico à mistura.
Como é compreensível, boa parte dos desportos olímpicos provinha de ocupações de recreio das classes altas das sociedades ocidentais, algumas mesmo com conotações aristocráticas ou militares: hipismo, esgrima, tiro, vela, remo, ginástica, ténis e outros. Mas desde as primeiras edições competiram também atletas pertencentes às classes populares em provas individuais mais elementares de força, velocidade, destreza e resistência como são o atletismo, a luta, o boxe (que também era praticado na Grécia antiga), os halteres, o jogo da corda ou mesmo a natação e o ciclismo. Embora as competições individuais fossem as mais emblemáticas (e continuaram sempre a sê-lo), também existiram desde logo algumas provas disputadas por equipas nacionais: o futebol foi uma das primeiras, seguido do hóquei em campo, pólo aquático, etc. – erodindo assim a intenção inicial de combater as tendências para acirrar o confronto entre nações.
Em contrário da tradição grega antiga, as modernas guerras do século XX levaram à suspensão dos Jogos previstos para 1916, 1940 e 1944, festejando o encerramento de cada olimpíada (período de quatro anos), como era norma na Antiguidade.      
Os Jogos de Paris de 1900 foram incluídos nas grandes celebrações da Exposição Universal de entrada no novo século, com inauguração do comboio subterrâneo (vulgo, “métro”), do Grand e do Petit Palais para exposições de arte, etc. Os de 1904, em St. Louis, realizaram-se igualmente no âmbito de uma Feira do mesmo género, com algumas “americanadas” típicas e uns humilhantes “dias antropológicos” onde se exibiram “raças inferiores”; em contrapartida, atletas negros (americanos) pela primeira vez aí competiram e ganharam medalhas. Mas as mulheres já haviam sido admitidas a participar nos Jogos parisienses de 1900: a França era então um farol da modernização do mundo.
No período de entre-as-duas-guerras, os norte-americanos foram afirmando crescente supremacia no atletismo mas o finlandês Paavo Nurmi forjou lenda nas provas de fundo ou longa distância. E Hitler, que organizou impecavelmente os Jogos de 1936 em Berlim com intuitos de propaganda política, viu-se obrigado a engolir as quatro medalhas de ouro e o epíteto do “homem mais rápido do mundo” de um negrinho americano chamado Jesse Owens. Portugal prosseguiu sempre a sua presença olímpica iniciada em Estocolmo, com uma primeira medalha em hipismo (obstáculos, por equipas, com Luis Mouzinho de Albuquerque, Borges de Almeida e Helder Martins) em 1924 em Paris, na esgrima (em espada, também por equipas, com Jorge Paiva, Frederico Paredes, Rui Mayer, Mário de Noronha, João Sasseti, Eça Leal e Henrique da Silveira) em 1928 nos Jogos de Amesterdão, e ainda pela equipa hípica de obstáculos em Berlim (com José Beltrão, Mena e Silva e o Marquês do Funchal), com o destaque desta ser então a última prova dos Jogos, no estádio olímpico, antecedendo a cerimónia de encerramento. Entretanto, desde 1926 que se realizam uns Jogos Olímpicos de Inverno, com diversas modalidades de esqui e gelo. (Muito mais tarde apareceram uns paralelos Paralimpics, para pessoas com deficiência. E existem umas “olimpíadas da Matemática”, do Xadrês, etc.)
No segundo pós-guerra, Londres acolheu os Jogos de 1948, donde velejadores portugueses (os irmãos Bello) trouxeram uma primeira medalha de prata e os cavaleiros a de bronze na modalidade de ensino (ganha “na secretaria” após a desclassificação dos suecos). Mas no atletismo destacaram-se o declatlonista americano Bob Mathias, vencedor com apenas 17 anos de idade, e a já “mamã” holandesa Fanny Blankers-Koen, com 3 medalhas de ouro nas provas de velocidade. Em Helsínquia (1952), distinguiu-se de longe o checo Emil Zatopek, que já havia sido medalhado nos Jogos anteriores, ao ganhar todas as corridas de fundo (5 e 10 quilómetros na pista e maratona na estrada); e os portugueses obtiveram mais um “bronze” na vela (classe stars, com Joaquim Fiúza ao leme). Mas os desportistas da União Soviética, que participaram pela primeira vez nos Jogos Olímpicos, começaram a fazer-se notar pelas seus resultados, embora se discutisse à boca pequena o seu falso amadorismo, tratando-se de facto de “atletas do Estado”, preparados especialmente para exibir as qualidades vitoriosas do seu sistema social na cena internacional. Por exemplo, logo em Melbourne em 1956 o russo Vladimir Kutz ganhou as provas dos 5 e 10 quilómetros sem competidor à sua altura. Mas outro feito atlético surpreendente foi o início da série vitoriosa do discóbolo americano Al Oerter (“branco” e portador de uma deficiência física) que triunfou quatro vezes consecutivas entre 1956 e 1968. Feito semelhante foi alcançado pelo velejador dinamarquês Paul Elvstrom, que triunfou no barco individual finn consecutivamente entre 1948 e 1960. Em todo o caso, se nas disciplinas mais técnicas os competidores das potências ocidentais “davam cartas”, nas provas reveladoras de qualidades atléticas puras (como nas corridas de velocidade) eram os negros que geralmente dominavam, fossem americanos ou de outras nacionalidades. Também o Brasil, com negros, brancos e mestiços, mostraram por vezes grandes talentos e aptidões (Ademar Ferreira da Silva duplo campeão no triplo salto, o nadador Manuel dos Santos, o equitador Nelson Pessoa, os basquetebolistas Amaury, Rosa Branca, etc.).
Por esta época, os portugueses só em 1960 (Roma) voltaram a obter uma medalha de prata, ainda na vela (stars, com os irmãos Quina). Mas a esgrima mostrava a persistência dos seus grandes campeões, como o francês d’Oriola, o italiano Mangiarotti, o polaco Pawlovski ou os húngaros Gerevich e Karpati, que coleccionaram sucessivas medalhas entre 1948 e 1968. E nos Jogos da Cidade do México (1968), além dos espectaculares resultados de Bob Beamon no salto em comprimento (com um recorde “estratosférico”) ou do estilo de Fosbury na altura, assistiu-se a nova penetração da política no palco olímpico, com a matança de estudantes contestatários na Praça das Três Culturas nas vésperas da cerimónia de abertura e com a saudação do “Black Power” feita no pódio por dois dos medalhados americanos. Mas as questões políticas continuaram a perturbar estas festividades do desporto mundial. Entre 1964 e 1988, a África do Sul não pôde participar nelas, devido ao seu regime de apartheid rácico. E os Jogos de 1980 em Moscovo foram muito afectados pelo boicote de vários países ocidentais (incluindo os EUA) por causa da invasão militar soviética ao Afeganistão (que retaliaram, não comparecendo ao encontro seguinte, em Los Angeles). Mas o acto mais violador do espírito do olimpismo foi provavelmente o atentado cometido por guerrilheiros nacionalistas palestinianos sobre atletas israelitas nos Jogos de Munique em 1972, que acabou num banho-de-sangue.
A partir de 1976, já em regime democrático e com algum fomento do desporto-de-massas, o atletismo português – sobretudo impulsionado pelo já referido técnico Moniz Pereira (com quem tive ainda a feliz oportunidade de jogar voleibol, em encontros de treino) – começou a obter lugares premiados neste género de competições mundiais. Carlos Lopes tirou a “prata” nos 10 quilómetros de Montreal, naquele ano, enquanto o atirador “a chumbo” Armando Marques trouxe também idêntica medalha. Mas foi em Los Angeles (1984) que o mesmo corredor de fundo (já com 38 anos de idade) obteve a primeira medalha de ouro de um português, numa sensacional maratona (com medalhas também obtidas no atletismo por António Leitão e Rosa Mota), seguido em 1988 em Seoul por igual feito de Rosa Mota na mesma distância, entre as mulheres. Portugal alçou-se nessa época como uma das principais potências mundiais nesta especialidade atlética, sendo porém em breve substituído por gente nascida e vivida em altitude – em especial quenianos e etíopes – que, desde então, dominam em absoluto as provas de longa distância. Nestes Jogos de Seoul o sprinter negro canadiano Ben Johnson venceu os 100 metros com novo recorde mundial mas, descoberto o uso de doping, a medalha de ouro acabou por ir para o americano Carl Lewis (igualmente negro), que reincidiria várias vezes nessa posição. Também a alemã-de-Leste Kristin Otto realizou o feito inédito de ganhar seis medalhas de ouro na natação, mas ficou sempre a pairar a dúvida dos resultados alcançados pelas mulheres deste país, useiro e vezeiro neste género de práticas, tal como agora também se fará na Rússia, “apanhada” por métodos de controlo mais rigorosos. Porém, sem qualquer sombra de dúvidas quanto aos métodos de treino empregados, realce-se a importância e persistência das escolas de natação japonesa e australiana, por estas épocas.
Depois de nova “passagem em branco” nos Jogos de Barcelona (1992), onde os espanhóis brilharam em muitas modalidades (mas “aldrabaram” no caso do archeiro que devia acender a chama olímpica), a fundista Fernanda Ribeiro voltou a dar grande alegria aos portugueses ao sagrar-se campeã em Atlanta (1996) na prova dos 10 quilómetros, com os jovens velejadores da classe 470 a lograrem também uma medalha de bronze. Em Sydney, a abrir o milénio, a novidade portuguesa veio do judo, com o “bronze” de Nuno Delgado, e lugares de pódio de Fernanda Ribeiro e do velocista negro naturalizado Obikwelu, num evento em que o britânico Jonathan Edwards coroou a sua carreira com o “ouro” que lhe faltava, ele que conseguira um espantoso recorde mundial de mais de 18 metros no triplo-salto que ainda hoje se mantém. Medalhas secundárias também obtiveram em Atenas (2004) o atleta de meio-fundo Rui Silva e o ciclista Sérgio Paulinho. Finalmente, Nélson Évora sagrou-se campeão olímpico do triplo-salto em Pequim (2008), oportunidade em que a “prata” no triatlo feminino foi para a jovem Vanessa Fernandes, muito infeliz na sua trajectória posterior. E também se iniciou o reinado de um novo sprinter negro, o teatral jamaicano Usain Bolt, actual recordista mundial e campeão em três sucessivas Olimpíadas. Em Londres (2012), só os canoístas lusos Emanuel Silva e Fernando Pimenta puderam subir ao pódio dos agraciados, tal como a judoca Telma Monteiro nos recém-realizados Jogos do Rio de Janeiro. Aqui, o velejador João Rodrigues cumpriu a sua sexta participação olímpica, sempre na prancha à vela, o que é caso único em Portugal (superando as anteriores cinco presenças do também velejador Duarte Bello e do cavaleiro Henrique Calado).
Certos competidores marcaram decisivamente algumas edições dos Jogos. Por exemplo, o nadador norte-americano Mark Spitz conquistou 7 medalhas de ouro em Munique, feito inigualado até então e só superado pelo também yankee Michael Phelps com 8 em 2008 (com um total de 23 “ouros” arrecadados em quatro edições, um máximo absoluto em todas as modalidades e que superou o da ginasta russa Larissa Latynina). Estes “papa-medalhas” têm beneficiado, porém, da multiplicação de provas com que algumas disciplinas se têm brindado. Enquanto, por exemplo, o atletismo mantém desde há muito o seu programa quase inalterado, desportos como a natação ou a ginástica têm aumentado muito os seus. Perante mais este factor de crescimento quantitativo e a pressão para a admissão de novas modalidades, os organizadores obrigam agora certas federações com menos impacto mediático a seleccionarem apenas os melhores dos rankings e a reduzirem o seu leque de provas, ainda que estabilizadas há muito tempo (como é o caso da esgrima, do ténis ou do hipismo). Já existem há várias décadas Jogos pluri-desportos de âmbito geográfico mais restrito (pan-americanos, asiáticos, mediterrânicos, africanos e agora até europeus), bem como alguns com outro tipo de discriminante (os Jogos da Commonwealth ou uns efémeros e algo pífios Luso-Brasileiros). Pena que não se tenha estudado ainda a hipótese de “partir” o gigantismo dos Jogos distribuindo-os por grupos de modalidades afins, disputadas no mesmo ano mas em lugares e momentos diferentes: por exemplo, além dos desportos de Inverno, os desportos atléticos e outros individuais; os desportos de água; e os desportos de bola, por equipas. Talvez se reduzissem alguns dos inconvenientes actuais.
Além dos campeões, recordistas e medalhados, deixemos contudo que uma referência seja feita a alguns daqueles que, no seu máximo esforço, ficaram para sempre à beira da glória sem lhes provarem o sabor. Os franceses experimentaram frequentemente a situação (vide Michel Jazy em Tóquio), dizia-se que por causa do “trac”. Entre os muitos 4º classificados que experimentaram essa decepção, citem-se os portugueses: os esgrimistas da equipa de espada nos Jogos de 1920 (Antuérpia) e de 1924 (Paris); os velejadores Duarte Bello e Bustorff Silva nos stars em Melbourne, 1956; o corredor Manuel de Oliveira nos 3.000 metros obstáculos em Tóquio (1964); o team de hóquei em patins em Barcelona (onde existiu esta modalidade, em que os portugueses sempre haviam brilhado, como demonstração); as equipas de futebol e de voleibol de praia nos Jogos de 1996 em Atlanta e a dupla de canoístas Silva e Ribeiro agora no Rio. Os nossos sempre excitados jornalistas e dirigentes desportivos e políticos deviam ter mais vergonha na cara quando vaticinam medalhas irrealistas, em vez de – sendo as coisas como são – imporem mais rigor nos processos de selecção (com as condições de treino adequadas) e mostrarem mais respeito pelo esforço de todos aqueles para quem participar sem deslustre é já um resultado honroso e compensador para eles, ainda que nada abone para o país que representam. Mas há também treinadores e atletas que se deixam embalar por esses cantos de sereias.
Como se percebeu, até aos tempos do nosso 25 de Abril, as aventuras olímpicas dos portugueses foram escassas e limitadas aos poucos que usufruíam de condições particulares para tal: meninos ricos de Cascais, gente fina do Chiado, filhos de africanistas enriquecidos sabe-se-lá-como, afilhados do salazarismo e alguns militares de carreira. Cumprindo uma regularidade sociológica já testada internacionalmente, a partir dos anos 70 deu-se a oportunidade aos filhos do povo para se prepararem intensamente e, à custa de sacrifícios e vontade indómita, estes obtiveram alguns triunfos e bons resultados perante competidores semelhantes de qualquer parte do globo. Esse toque de coragem e de esforço, foi sempre a marca dos saídos dos meios sociais e dos países mais pobres e desfavorecidos: os Aldegalega, Mimoun ou Abebe Bikila; os Belarmino ou Cassius Clay; os Agostinho ou Raymond Poulidor; os Matateu, Eusébio ou Cristiano Ronaldo.
Os britânicos deram porém, frequentemente, o excelente exemplo da auto-superação nos momentos decisivos, como aconteceu com o saltador em comprimento Lynn Davies em Tóquio (superando no final por poucos centímetros os favoritos, o americano Ralph Davies e o russo Ter-Ovanesyan) e até com o fundista anglo-somali Mo Farah em Londres e agora no Rio, ou ainda com o cavaleiro de obstáculos Nick Skelton que aos 59 anos conseguiu superar toda a fortíssima concorrência para chegar ao “ouro” nesta última competição.
Sem cair em qualquer espécie de pseudo-teorização rácica, é no entanto uma evidência a supremacia de resultados obtidos por atletas de origem africana (longínqua ou actual) em disciplinas de velocidade pura, elevação ou outras mostras de destreza física, como no futebol ou no básquete. Não deixa de ser significativo ver no último pódio de estafetas doze atletas negros representando os EUA, a Jamaica e as Bahamas (embora todos seguindo o modelo desportivo americano), que são certamente descendentes dos escravos trazidos há séculos de África, à força, pela mão dos civilizados europeus (que também colonizaram as Américas) mas igualmente criaram as possibilidades e oportunidades para esta simbólica “desforra”.    
Os Jogos Olímpicos cultivaram sempre diversos cerimoniais e aspectos simbólicos: a chama, o juramento, o içar da bandeira, os desfiles inaugural e de encerramento – o último dos quais se transformou, desde há décadas e por força da juvenil vontade de prolongar os namoricos e o convívio da aldeia olímpica, numa caótica e feliz despedida com todos os atletas misturados, subvertendo o princípio das nacionalidades. (Também subvertido, mas noutro sentido, pela naturalização-de-conveniência de bons atletas de países pobres por nações ricas, vendo-se agora por via destes processos burocráticos corredores de fundo de origem africana a representarem países nórdicos ou mesa-tenistas orientais com emblemas de países europeus.)
Se os primeiros “heróis do estádio” receberam coroas de louro (com os da Antiguidade), a subida ao pódio e as medalhas “de ouro, prata e cobre” para os três primeiros classificados de cada prova impuseram-se rapidamente, mas só a partir de 1960 com as medalhas a serem colocadas com uma fita à volta do pescoço. No entanto, o simultâneo içar das bandeiras dos atletas premiados e a execução musical do hino do vencedor foi uma cedência ao persistente nacionalismo espontâneo das massas – que, por exemplo, subiu ao rubro por razões da conjuntura política do momento nas competições de polo aquático entre húngaros e russos em 1956 e de hóquei no gelo entre russos e checoslovacos em 1968. Há por isso quem considere mais conforme ao “espírito olímpico” o cerimonial dos Jogos Mundiais Universitários onde esta entrega de prémios é sempre acompanhada pelos acordes do Gaudeamus Igitur. Mas tem sido inevitável a tentação da contagem das medalhas ganhas pelos países no final da cada edição olímpica. É que existem também questões de identidade nacional, mais ou menos interiorizadas pelas pessoas e comunidades, a que tais gestos simbólicos conseguem responder. Durante muitos anos, houve uma disputa particular entre a URSS e os Estados Unidos, quase sempre os grandes “açambarcadores”, os primeiros devido a sua política-de-Estado (prosseguida agora pela Rússia) e os segundos graças à pujança da sua juventude, sistema desportivo-universitário, riqueza e ao inesgotável reservatório da sua “raça negra”.
O amadorismo durou mais de meio-século – apesar de alguns entorses menos divulgados – mas não resistiu aos apelos materialistas da economia contemporânea. Até ‘Magic’ Johnson e seus comparsas do “dream team” da liga profissional de básquete americano actuaram sob o aplauso geral nos Jogos de Barcelona. E hoje competem nas Olimpíadas jogadores de futebol, golfistas ou tenistas profissionais, havendo mesmo fundistas cujos prémios em maratonas internacionais são cheques bancários de elevado valor. Neste aspecto, o desporto actual e o olimpismo renderam-se ao “deus dinheiro”. Contudo, não é isso que faz correr homens e mulheres do mundo inteiro: além do bem-estar físico e mental, é sobretudo o desafio da superação e o fugaz momento de glória do vencedor – que a maioria nunca chega a experimentar.
Estes magnos eventos desportivos têm sempre sido organizados por cidades e não por países: parecia ser mais uma maneira de travar a competição internacional. E durante muito tempo os comités olímpicos nacionais (mesmo de grandes nações como a britânica) faziam gala em não receber dinheiro dos seus governos, preferindo recorrer a subscrições públicas e outras formas de angariação directa de fundos. Mas as despesas de organização de uns Jogos atingiram somas astronómicas e deixaram frequentemente em má postura financeira os municípios que se aventuravam a tal cometimento, a partir do momento em que se construíram propositadamente estádios e pavilhões para impressionar as opiniões públicas – o que parece ter sido ainda o caso de Atenas em 2004, ajudando a precipitar o país na desastrosa crise económica em que tem vivido desde então. Veremos daqui a algum tempo as sequelas pós-Rio, onde os Jogos passaram “ao lado” da maioria da população, foram objecto de contestação política ou social por alguns sectores e muitos bilhetes ficaram por vender (além da má demostração de desportivismo de muitos dos brasileiros que presenciaram as competições). Em todo o caso, desde há várias décadas que a disputa para a escolha da cidade anfitriã é cerrada no seio do Comité Olímpico Internacional, tendo já sido identificados casos de corrupção e “compra de votos”. Mas, por outro lado, desde os anos 80 que os Jogos passaram a dar lucro ao movimento olímpico e às diversas federações desportivas internacionais, graças aos direitos televisivos (e publicidade comercial, etc.). As despesas com a preparação dos melhores atletas (agora quase todos dedicados em exclusivo à sua modalidade) são hoje também custeadas com tais receitas, além das ajudas do Estado, cujos dirigentes não perdem nunca o ensejo de se glorificarem com o esforço dos outros.
Contudo, apesar das doenças do gigantismo e do negocismo que atingiram este fenómeno social da Modernidade, é importante reconhecer que o modelo orgânico do movimento desportivo e do olimpismo, desde os clubes locais até quase aos grandes clubes-empresas, e das federações nacionais e internacionais das diferentes modalidades, tem-se mantido sempre de livre iniciativa e responsabilidade, com modos democráticos de tomada de decisões e designação dos dirigentes, e recusando sempre a intromissão dos governos (e da política, das convicções religiosas, preconceitos raciais, sexismo, etc.) na gestão das suas actividades.

JF / 22.Ago.2016

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