sexta-feira, 5 de junho de 2015

Doze mil palavras acerca da Modernidade: apogeu e crise do Estado-nação; o advento da “mundialidade” – 1ª Parte: Século XIX

Para o melhor e para o pior, a Revolução Francesa forçou o caminho da nossa Modernidade, da qual estamos agora a balbuciar os ensaios de uma ultrapassagem. Porquê este termo de Modernidade, cunhado principalmente por sociólogos, quando já estava enraizada uma divisão sistemática dos tempos organizada pelos historiadores, segundo os quais a Idade Moderna correspondia ao período iniciado pelo Renascimento (a cultura neo-clássica, mais o desabrochar da ciência e a descoberta do globo) e a Idade Contemporânea ao período que vinha desde a Revolução Francesa até aos dias actuais? Porquê? (Para além das querelas interdisciplinares…) Parece-nos que por três razões principais: para significar o declínio das religiões sobre o modo de organizar e fazer funcionar as sociedades humanas; para evidenciar os princípios de igual dignidade, de direitos fundamentais e de liberdade essencial de cada indivíduo; e para afirmar a primazia do Estado-nação, num determinado território e acerca de uma determinada população, sobre qualquer outra forma de organização do poder e do recurso à violência (por exemplo: o poder tribal ou religioso, a pirataria, etc.).
Todos devemos alguma coisa à Revolução Francesa, desde as repúblicas sul-americanas até ao nosso “5 de Outubro” e à Revolução Russa. Mas, na verdade, não foi realmente apenas a Revolução Francesa que deu ao mundo este “mundo moderno”. A constituição da nação americana, na sua luta de independência face ao poder do rei inglês, deu contributos ideológicos e pragmáticos essenciais, e talvez ainda mais consistentes e perenes. A própria Inglaterra, que tão empenhadamente combateu pelas armas a exportação dos princípios revolucionários e o expansionismo bonapartista, acabou, uma vez vencido este, por adoptar, com prudência e método, uma parte do seu ideário humanista. Mas, por detrás de tudo, no plano das ideias, estão os filósofos “iluministas”, tendo sido tão importantes os ateus ou individualistas franceses como os pragmáticos e utilitaristas (e também individualistas) britânicos; os primeiros, forneceram alimento para as futuras teorias da Revolução e do Estado como se fossem o nec plus ultra das realizações societárias e também para diversas ideias generosas sobre o “bom selvagem”; os segundos, geralmente mais pessimistas acerca da “verdadeira” natureza humana, empenharam-se sobretudo em moderar o poder dos fortes e em minorar a inconsciência ou inconstância dos pobres e das multidões através de meios como a promulgação de certas leis reformistas, o trabalho disciplinado, a instrução ou mesmo (ainda por pragmatismo) o temor dos castigos divinos. Godwin e Malthus são bons exemplos disto.
Com a Modernidade, o Estado-nação atingiu a sua época de maior esplendor. Neste período, os Impérios ainda subsistem, mas não conseguem ter longas durações históricas e mantêm-se por vezes à custa de transacções ou sob formas adulteradas. De facto, o império Otomano foi sendo, pouco a pouco, reduzido e a Grande Guerra (1914-18) pô-lo na dimensão actual, como república turca. O império Áustro-Húngaro foi um falso império desde que perdeu a Lombardia e a Venécia para a unificação italiana e com aqueles dois estados constituindo como que uma união real, só praticável no tempo em que as nações estavam na posse de monarquias hereditárias. Pelo contrário, independentemente do nome, a Rússia foi um império, não só pela extraordinária extensão do seu território (que lhe dá uma vantagem estratégica incomparável) mas sobretudo pela violência com que, ao longo de séculos, foi subjugando povos das suas periferias sem a mínima afinidade cultural com o seu cristianismo ortodoxo, nomeadamente no arco islâmico, e ainda logrou a transição para um regime social e económico inovador sem alterar muito o carácter autoritário e centralista do seu poder político e o modo como usa os seus instrumentos de força.
Quanto aos impérios coloniais, os de Portugal, Espanha e Holanda tinham raízes antigas e no séc. XIX procuraram salvaguardar o que lhes foi possível, enquanto a França, a Bélgica, a Alemanha e a Itália chegaram tarde a essa corrida mas, graças a políticas ofensivas, conseguiram ainda talhar em África pedaços significativos de tal espólio. Somente a Inglaterra, apoiada numa indústria vigorosa e um poder marítimo consistente, soube construir um verdadeiro império global, com direcção política unificada. Porém, ao fim de pouco mais de um século de exploração eficaz deste modelo económico, todos tiveram de baixar bandeira e recolher às suas origens, perante um novo surto de nacionalismos: no princípio do séc. XIX, este movimento havia emancipado (e estilhaçado) a América Latina, no que aliás apenas seguiam o exemplo do que anos antes haviam feito os norte-americanos; agora, a seguir à II Guerra Mundial, é a África e a cintura sul do continente asiático que expulsam os colonizadores europeus e fundam várias dezenas de novos estados, alguns deles ainda hoje à procura da sua identidade nacional.
E o império Americano arrisca-se a durar menos do que isso: assente no vigor demográfico de uma nação nova, ainda em fase de integração e crescimento; com uma escala territorial suficiente e uma capacidade económica de grande dinamismo; e sobretudo com um poder militar insuperável (embora com certas fragilidades) – é contudo um “império virtual”, que ascendeu e se alimentou do conflito estratégico entre o Ocidente e o Leste do séc. XX, sob as bandeiras da liberdade capitalista e do socialismo-de-Estado, mas que subsiste hoje com dificuldades de afirmação em quase todos os terrenos. Finalmente, os impérios Chinês e Nipónico tiveram até agora características apenas regionais: são, por assim dizer, velhos e coesos estados nacionais que, de tempos a tempos, se têm disputado entre si no espaço apertado do Extremo-Oriente.
Deste modo, a história que se relança no início do séc. XIX, com os mundos africanos, muçulmanos e orientais ainda quase fechados, uma nação americana empenhada em construir-se, os impactos da Revolução Francesa e os efeitos da Conferência de Viena é, numa ideia definitiva, a história da afirmação dos estados-nação: internamente, contra os poderes que lhe foram antecedentes e que não lhes cederam o lugar “de-mão-beijada”, mas também contra os movimentos sociais da Modernidade que bem cedo começaram a questioná-los e que sempre têm sabido reinventar-se; externamente, contra os interesses e apetites de outros estados-nação rivais e, só muito recentemente, pela emergência de sinais e formas de uma consciência supra-nacional, mundialista, que os desafia e lhes corrói os alicerces.
Vejamos então com um pouco mais de detalhe alguns dos momentos-chave que marcaram a evolução desse séc. XIX que, em certa medida, encarreirou o que veio a acontecer no seguinte.
Nas décadas de 1820-1840 a indústria vai-se expandindo em países como a Inglaterra, a França e a Alemanha. A máquina-a-vapor começa a substituir a potência animal ou humana na produção manufactureira e aplica-se à novidade do caminho-de-ferro e mesmo à propulsão dos navios. Produzem-se então efeitos inesperados e virtuosos de “arrastamento económico”, com um boom na produção têxtil, na metalurgia e na exploração mineira do carvão e do ferro, e um acelerado crescimento da riqueza nacional, porém muito desigualmente distribuída: consumo sumptuário e re-investimento produtivo por parte das classes dominantes (aristocratas, novos-burgueses e alta burocracia de Estado); salários certos (o que era uma melhoria em relação à miséria do pequeno agricultor), mas baixos (pela abundância da mão-de-obra) e sem garantias nem protecções para a crescente classe trabalhadora.
Esta atracção pela grande indústria de massas consideráveis de populações que vegetavam nos campos traz consigo novos problemas de vida urbana e, esporadicamente, revoltas sociais. Na Grã-Bretanha ganham (má) fama os gestos clandestinos de destruição de máquinas (pela mão de um misterioso e imaginário “capitão Ludd”), as quais eram vistas como responsáveis pela depreciação dos salários e perda de empregos do operariado directamente afectado; enquanto em França ocorrem levantamentos maciços de trabalhadores como aconteceu com os tecelões de Lyon em 1831 (os “canuts”) – sempre com impiedosa repressão por parte dos poderes públicos e ao abrigo de leis que criminalizavam quaisquer “coligações” de interesses, que eram então consideradas como um atentado à liberdade individual (neste caso, a de procurar um emprego e de se conformar com as condições oferecidas) e, no fundo, como obstáculo a uma “fluidez” do mercado de trabalho, até então entravado e muito condicionado pelos múltiplos regulamentos de natureza corporativa-artesanal sobreviventes desde a Idade Média. Neste quadro, todas as respostas alternativas que surgiram no terreno, dispersamente, com o propósito de resolver a “questão social” ficaram apenas como tentativas vãs, mais ou menos interessantes e prenhes de reaproveitamentos futuros, mas incapazes de contrariar esta marcha inexorável do “progresso”: lembremos as experiências “associativas” do industrial e reformador social escocês Robert Owen, os “equitativos pioneiros” de Rochdale fundadores do cooperativismo de consumo, o relançamento dos “monte-pios” e outras associações populares de socorros mútuos ou os ateliers nationaux com que os primeiros socialistas franceses tentaram solucionar a crise de trabalho que sobreveio à queda da monarquia em 1848.
Às características deste novo mercantilismo capitalista – um modo tecnologicamente inovador e economicamente expansivo e transformador da criação de riqueza – vem somar-se um assinalável desenvolvimento dos negócios bancários e seguradores, a criação das sociedades anónimas e das bolsas de transacções financeiras, a normalização das moedas e dos pesos-e-medidas, a codificação jurídica dos processos civis e criminais, e uma forte afirmação dos direitos da propriedade privada, livremente transaccionável. Mais tarde vêm as aplicações das novas ciências, como a química e a electricidade, com o telégrafo e o cabo submarino a constituírem a primeira grande rede universal de rápida circulação de informações, e com os correios, a interconexão dos transportes marítimos e a prevenção de epidemias a gerarem as primeiras convenções inter-estatais de coordenação e cooperação para pôr o mundo um pouco mais integrado e mais protegido de ameaças involuntárias. Mais para o final do séc. XIX virá o animado debate ideológico entre proteccionismo e livre-cambismo mas, por agora, eram as grandes nações com economias dinâmicas que procuravam fazer estoirar os monopólios de soberania que impediam o comércio livre (embora sujeito a taxas alfandegárias e outras alcavalas): que o diga Portugal, por exemplo, que foi obrigado a subscrever tratados de comércio e navegação com quase todos esses países, incluindo neles a abertura dos portos das suas possessões ultramarinas. E a partir de meio do século a Inglaterra foi capaz de, pouco a pouco, fazer vingar a tese do livre-cambismo, com o abaixamento das suas próprias barreiras alfandegárias e o consequente aumento da circulação e da produção, e o embaratecimento dos preços dos produtos.
Mas os avanços no mundo e o enriquecimento das duas principais potências europeias não se desenrolaram sempre de forma pacífica e linear. No interior das suas próprias fronteiras, enquanto a Inglaterra acolhe sem especiais sobressaltos os efeitos do movimento democrático “cartista” (anos 30-40, mostrando a sua insatisfação face à reforma eleitoral de 1832) e a capacidade de mobilização crescente das trade unions (os sindicatos de trabalhadores assalariados), pelo contrário resiste sem ceder à pressão do campesinato pobre da Irlanda, que simultaneamente colocava questões de ordem política, agrária e religiosa, e que, acutilado por uma terrível “grande fome”, encontrará na emigração maciça para a América a sua única via de saída (caso espantoso em que a população desceu para metade em meio século). Em França os fulgores revolucionários populares levam a duas insurreições violentas (1848 e 1871) e às correspondentes respostas repressivas, sendo que do primeiro daqueles processos, sempre muito politizados, acabou por sair uma restauração imperial da família Bonaparte que, como alguém célebre disse, “na primeira vez tomou a forma de drama, mas na segunda de farsa”. Externamente, ambos os países tiveram que tomar a sério os permanentes e sucessivos movimentos nacionalistas que, por meio de guerras, levantamentos ou golpes-de-Estado, foram remodelando o mapa das fronteiras políticas da Europa: a criação, bastante artificial, da Bélgica (1830); o esmagamento das aspirações nacionais dos polacos, que ficaram submetidos ao poder da Rússia (em 1831 e de novo em 1863); mais atrasados, os países ibéricos, não só perderam os seus territórios americanos como entraram em guerras civis dinásticas que lhes consumiram recursos, endividaram externamente e atrasaram a sua modernização; e entre os poderes instalados na Turquia e no Egipto rebentaram conflitos que deram oportunidade à Inglaterra e à França de porem o pé no Próximo-Oriente e à Rússia de abrir uma porta de saída marítima para o Mediterrâneo. Esta zona foi palco da guerra da Crimeia (1854-55) entre ingleses, franceses e turcos de um lado, e russos do outro, no termo da qual se convencionou a neutralização daquele mar interior, a internacionalização do rio Danúbio e uma precária afirmação da autonomia da Sérvia ou da Moldávia. E a região dos Balcãs (despojos do império otomano) manteve-se instável durante muito tempo.
Mas foram sobretudo os processos de unificação da Alemanha e da Itália – o primeiro mais político, o segundo mais militar – que vieram trazer, a prazo, novas preocupações e concorrência às lideranças da Inglaterra e da França, quer na Europa quer posteriormente na “corrida à África”, tanto no predomínio dos seus produtos industriais como na ocupação de pontos estratégicos para um eventual confronto militar. De facto, o coração da Europa continuou a ser palco de conflitos bélicos, agora sobretudo por disputas de fronteiras e antagonismos nacionais. Na Europa central, a casa dos Habsburgos conseguiu com o imperador Francisco José organizar à sua volta um considerável domínio regional, estendido aos húngaros (1867), aos checos, aos eslovenos ou aos bósnios (1878), absorvendo as suas pulsões autonomistas. Porém, os austríacos perderam as batalhas de Magenta e Solferino em 1859-60 contra os patriotas italianos (ajudados pela França) e em 1866 a de Sadowa para os prussianos, sendo nessa mesma altura constrangidos a abandonar Veneza e todo o nordeste de Itália. Foi destes desastres humanitários que surgiu a criação da Cruz Vermelha e a Iª Convenção de Genebra (1864) para a protecção dos militares feridos ou doentes em campanha. Não por acaso, a sua sede ficou sempre na Suíça, um país que conseguiu manter a sua neutralidade em todos estes conflitos. Mas a unificação do reino de Itália, com Vítor Manuel II e o seu ministro Cavour, apenas ficou concluída em 1870, ao estabelecer-se a capital em Roma e o fim dos Estados da Igreja com o seu recolhimento ao território simbólico do Vaticano (que só seria aceite em concordata em 1929, pelo papa Pio XI com o ditador fascista Mussolini no poder). 
A Alemanha consegue de forma mais paulatina a sucessiva congregação das dezenas de pequenos estados em que estava dividida, incluindo o Schleswig-Hollstein dinamarquês e a Baviera católica, sob a tutela da Prússia e da casa Hohenzollern, a direcção política de Bismark e o comando militar de Molkte, culminando numa guerra contra a França em 1870, da qual obtém os vastos e ricos territórios da Alsácia e da Lorena.
Mas as guerras ocorreram também em territórios periféricos e longínquos. Para garantir o seu domínio nos territórios de além-mar, a Inglaterra teve de travar duras campanhas militares no Afeganistão já em concorrência com russos e persas (1839-42 e 1878-80), na Índia contra os sikhs do Punjab (1849) e para dominar a revolta dos spahis (sipaios) iniciada em 1857, no Sudão contra o seguidores do Madi (1898) e no sul de África, primeiramente contra Zulus insubmissos (1879), depois contra os colonos holandeses boers há muito ali instalados (1880-81 e 1899-1902). A França, sob Napoleão III, conquistou militarmente a Indochina a partir de 1857, meteu-se numa aventura mexicana de que saiu chamuscada (1866-67) e empenhou-se na exploração e assenhoreamento de extensos territórios na África Ocidental, da Senegâmbia ao golfo da Guiné e ao Congo, tudo aventuras com custos financeiros pesados para as finanças públicas das metrópoles mas com risonhas promessas de lucros a curto e médio prazo.
Fazendo disso um ponto forte da sua política externa, a Inglaterra exerceu ao longo do séc. XIX um papel de polícia dos mares para travar e erradicar os fluxos de transporte de escravos africanos para as plantações do sul dos Estados Unidos, de Cuba e outras ilhas do Caribe, e do Brasil. Os interesses económicos de americanos, espanhóis, portugueses e brasileiros foram duramente atingidos, bem como os dos africanos que capturavam os seus irmãos de cor e os vendiam na costa aos negociantes ocidentais. Este tráfico ainda resistiu durante mais algumas décadas com as rotas alternativas, por mar e por terra, da África oriental para a Arábia, o golfo Pérsico e a Índia. Quanto aos comerciantes brancos, prosseguiram na troca de armas, pólvora e álcool contra marfim, peles e a exploração da borracha, até que a descoberta de minas de diamantes desencadeou uma nova corrida de europeus àquelas zonas tropicais. Foi um processo oitocentista muito semelhante àquele que lançou nas pistas do oeste americano toda a sorte de aventureiros, negociando com os povos autóctones artigos semelhantes (de novo, armas, pólvora e álcool, agora contra peles de búfalo), apropriando-se das suas melhores terras e por fim encontrando nas jazidas de ouro o chamariz mais apelativo para um mirífico enriquecimento rápido.    
Neste período expansionista e com governos adquiridos às ideias fundamentais do liberalismo, a França tenta recuperar o atraso que regista face à Inglaterra no que toca à sua presença no mundo, começando por conquistar e se adjudicar a Argélia (1830) para disputar a hegemonia naval que aquela detém no Mediterrâneo. Mas a Inglaterra, já com a rainha Vitória no trono (1837-1901), visa muito mais longe. Assegurando-se por modos vários do controlo económico e político da Índia, vira-se para o Extremo-Oriente e provoca a abertura comercial da China na sequência das guerras do ópio, que venceu militarmente (1839-42 e 1856-60).
A China, que tinha contido o anterior império mongol e dominado a Coreia, a Manchúria e a península indo-chinesa, encontrava-se então em grande decadência e teve que fazer estas concessões não apenas à Inglaterra, mas também seguidamente à França, à Rússia e mesmo, mais tarde, à Alemanha e aos Estados Unidos. Assim surgiram a posição inglesa de Hong-Kong, os estratégicos portos russos de Vladivostok e Port Arthur, e as concessões territoriais e de direitos de navegação fluvial ocidentais nos principais eixos de penetração – ZhuJiang ou Rio das Pérolas desaguando em delta, no sul, junto a Cantão [actualmemnte escrito Guangzhou], o rio Yang-Tsé [Yangtze] que chega ao mar perto de Nankin [Nanjing] e Xangai [Shanghai], e o Rio Amarelo ou Hwang Ho [Huanghe] mais a norte, não muito longe de Pequim [Beijing].      
Quanto ao Japão, depois de séculos de isolamento (com a excepção do pequeno entreposto português de Nagasaki) em 1868 começa a era Meiji, com o imperador a impor o fim do feudalismo e do poder dos samurais e a promover aceleradamente a modernização do país, abrindo os portos ao comércio ocidental e mandando os seus jovens cultos estudar para a Europa e aqui aprenderem as ciências e técnicas modernas. Com os rápidos progressos alcançados mas mantendo muito fortes alguns dos traços culturais do país (a fidelidade, o belicismo, a honra), o Japão irá entrar no séc. XX com aspirações de domínio imperial não apenas do Extremo-Oriente mas mesmo capaz de desafiar os americanos no Pacífico.  
Por outro lado, as chamadas colónias de povoamento (Canadá, Austrália, Nova-Zelândia e província do Cabo, no sul de África) são um bom escoadouro para os excessos populacionais do Reino Unido e para a deportação dos mais indesejados; e na medida em que esta colonização produz bons resultados na agricultura, criam-se novas fontes de abastecimento alimentar (e sumptuário) para o consumo interno e de matérias-primas para a indústria metropolitana (algodão, etc.), ao mesmo tempo que os produtos e a maquinaria em ferro dos transportes (comboios e navios) necessária a este comércio de penetração e longa distância sustentam a sua indústria pesada. E, a prazo, criaram-se países anglófonos, que em grande parte ainda hoje constituem uma comunidade cultural e simbólica com algum significado. Entretanto, os processos de migração económica das populações europeias mais pobres ou desintegradas para “terras de oportunidades” foram-se massificando ao longo do séc. XIX, sobretudo em direcção às Américas: irlandeses, alemães, polacos, russos, italianos e portugueses aliviaram dessa forma as suas tensões internas e os seus países beneficiaram das remessas amealhadas por esses seus emigrantes.
Os choques de interesses nacionais levaram as diplomacias dos estados ocidentais a procurar racionalizar o seu apossessamento das riquezas africanas, ao mesmo tempo que se atribuíam a benemérita missão de civilizar aqueles povos mais atrasados. Para além da influência dos valores cristãos (muito etnocêntricos, claro), três razões fortes impeliam para esta percepção dos ocidentais face a estes povos da África e da América: o facto do poder “político” das suas comunidades (reinos, sobados, chefias) não terem delimitado com precisão territórios físicos com fronteiras, ou serem mesmo tribos nómadas; a ausência de uma linguagem escrita; e a presença de formas religiosas meramente animistas, não organizadas numa representação deísta. Tanto bastava para que fossem considerados selvagens ou, numa linguagem mais cuidada, “povos sem história”.    
As conclusões da Conferência de Berlim (1885) traduziram-se numa “partilha de África” entre as potências coloniais: o rei dos belgas ficou beneficiado com o rico território do Congo; o rio Zaire foi declarado internacional, mas os portugueses conseguiram obviar que o mesmo estatuto fosse aplicado ao Zambeze; a França e a Inglaterra puderam içar a sua bandeira nos vastos territórios que já controlavam ou estabelecer protectorados sobre potentados locais; e a imparável Alemanha obteve o Sudoeste Africano (hoje Namíbia), o Tanganica (Tanzânia), o Togo e os Camarões. Portugal pôde conservar a sua Guiné, Angola e Moçambique, sujeitos porém à obrigação de uma “ocupação efectiva” e não meramente fundada em “direitos históricos”. E todas as questões de concreta demarcação de fronteiras – frequentemente traçadas “a régua e esquadro”, sem respeito pelas populações que as habitavam, umas nómadas, outras já mais sedentarizadas – foram remetidas para tratados bilaterais a estabelecer entre os interessados e comissões mistas de geógrafos e militares que trabalhariam no terreno nos anos seguintes. É conhecido o conflito anglo-luso acerca do “mapa cor-de-rosa” que levou ao “ultimato” e à crise de 1890-91. Mas a grande rivalidade que ocorria era entre britânicos e franceses, os primeiros procurando aproveitar as futuras potencialidades económicas do eixo Cabo-Cairo, os segundos querendo expandir-se o mais possível para leste a partir do Senegal, do Magrebe e do golfo da Guiné, tentando atingir Djibuti e a ligação por mar às suas ilhas no Índico (Reunião, Comores, Madagáscar). Esta emulação atingiu um ponto de quase ruptura com o “incidente de Fachoda” (1898) no Sudão. Mas a Inglaterra dominava o mar, que depois da abertura do Canal de Suez (1869) se tornou uma via indispensável para o comércio e a estratégia militar global das grandes potências europeias, e dominava também os principais pontos de apoio nas ligações ao Extremo-Oriente: o Mediterrâneo (com Gibraltar, Malta, Chipre e grande influência no Egipto); a rota do sul de África (com Lagos ou Freetown e o Cabo); e a linha do Pacífico (por Áden, Bombaim, Ceilão e Singapura); além da própria Oceania (atingível também pelo cabo Horn ou a partir do Canadá ocidental).
Voltando porém a África, convém lembrar que este continente oferecia a possibilidade de obtenção a preços baixos de inúmeros produtos agro-silvícolas tropicais, quer para um apetitoso consumo dos europeus (café, chocolate, algodão, oleaginosas, etc.) quer para seus usos industriais (na química, por exemplo). E que, para além das pedras e metais preciosos, desde logo se prospectaram amplas possibilidades de exploração mineira em fosfatos, micas, cobre, ferro e carvão. Por outro lado, como mercado, em África quase tudo estava por fazer em termos modernos: assim, as edificações urbanas; os caminhos-de-ferro e o telégrafo; as barragens, captações e distribuição de água potável; as escolas, dispensários de saúde, hospitais e mercados; a abertura de estradas e meios de transposição dos cursos de água; o equipamento dos portos e a farolagem das costas; mais tarde, a electrificação – tudo isso constituía uma formidável oportunidade de enriquecimento para patrões da indústria, comerciantes e técnicos. Mas, antes ou a par destes empreendimentos, foi necessário reconhecer, descrever e cartografar os solos e subsolos, inventariar a riqueza biológica, conhecer melhor as características do clima e “sociografar” as populações. Ao lado das missões religiosas que se iam instalando no terreno, as missões de investigadores palmilharam de lés-a-lés este continente ainda quase desconhecido, recolhendo dados para o grande fundo do conhecimento científico moderno mas também produzindo relatórios e recomendações imediatamente utilizáveis pelos seus governos e as elites económicas dos seus países. Compreensivelmente, o baixíssimo custo da mão-de-obra local era um outro atractivo para o investimento capitalista mas a contrapartida era que as populações negras constituíam ainda um consumidor com muito pouca capacidade aquisitiva; os panos de algodão eram então quase o único artigo manufacturado importante que as fábricas europeias enviavam e vendiam aos africanos (além dos produtos deletérios já assinalados). Por isso, o principal mercado tropical para aquelas indústrias era constituído pelos bens de equipamento – sobretudo consumidores de ferro – que os orçamentos públicos podiam adquirir (ou, nas suas vezes, algumas companhias concessionárias), o que exigia equilíbrios financeiros que nem sempre os governantes foram capazes de assegurar. No caso português, por exemplo, apenas a exploração do cacau de São Tomé e Príncipe (e dos trabalhadores recrutados fora) deu nesta época lucro e desafogo às finanças públicas; todas as outras colónias terão sido quase sempre deficitárias.           
Na América do Norte, a expansão territorial e a consolidação nacional fazem-se em duas direcções: por um lado, o Estado afirma-se externamente ao obter pela força das armas (contra o México) as antigas colónias espanholas limítrofes do Texas, do Novo México e da Califórnia, e por negociação diplomática com os russos o gélido Alaska; por outro lado, o exército a mando do governo de Washington tratou de negociar, guerrear e por fim parquear em “reservas” os antigos caçadores das pradarias, onde estiolaram pela sedentariedade forçada, o álcool e a doença, sob os auspícios de uma especializada administração dos Indian Affairs. Algo de semelhante (em muito menor escala) ocorreria mais tarde no Brasil, com a concentração dos índios remanescentes na Rondónia (Amazónia). Em África, reservatório aparentemente inesgotável de recursos humanos, este processo foi mais complexo e moroso, prolongando-se pelo século seguinte sob as formas do trabalho “contratado” (muitas vezes, forçado) e da condição social do “indigenato”. Mas ainda para além de meados de oitocentos, a questão da escravatura continuou a dividir muito fortemente os americanos, com duas economias com interesses muito distintos – o nordeste industrial e o sueste onde permanecia a grande plantação de algodão –, o que levou à guerra civil da secessão entre confederais e unionistas (1861-1865).
Portugal percorreu o séc. XIX de forma extremamente turbulenta: invasões francesas e retirada da corte para o Rio de Janeiro (1807-11), com controlo do poder nacional pelos ingleses; revolução liberal (1820-21); independência do Brasil (1822); conflito dinástico que acaba em guerra civil (1832-34); instabilidade governativa até à crise da Patuleia de 1846-47 com nova intervenção militar externa. Só a partir de 1851, com a chamada Regeneração e a política de obras públicas do “fontismo”, juntamente com a aposta de Sá da Bandeira no desenvolvimento ultramarino, o regime político de monarquia constitucional consegue alguma estabilidade e desenvolvimento económico, que porém é interrompido no início do reinado de D. Carlos por causa do conflito africano com a Inglaterra, a revolta republicana no Porto e a crise das finanças públicas em 1890-91. A dívida externa então contraída irá permanecer por décadas, com as colónias de África a constituírem um “activo” secreto mas mobilizável pelos interesses económicos de Inglaterra e Alemanha, principalmente. A partir daqui, face ao descrédito da Casa Real, o movimento republicano irá crescer, bem enraizado na pequena burguesia e nas classes médias de Lisboa e Porto.  
Perante os sinais contraditórios deste progresso material, as realizações culturais no Ocidente viram-se num primeiro momento para um passado de há séculos, mítico e idealizado: é a época do romantismo, que tão fortemente marcou a literatura e a música eruditas, e teve ecos na pintura e no ensaio histórico. Para os finais do século, sobrevém o realismo ou o naturalismo no romance e na pintura, enquanto a composição musical, sinfónica ou operática, descobre os timbres das culturas nacionais e populares, quando não mesmo se põe ao serviço desses nacionalismos. E aparecem finalmente as primeiras ciências sociais e humanas, libertando-se de alguns constrangimentos da velha filosofia, mas caindo no novo pecado do “cientismo”, como aconteceu com a primeira sociologia. Mas a etnografia, a psicologia e até a ciência política começaram aqui a sua trajectória, com dificuldade em afirmarem a sua identidade própria de ciências face às doutrinas sociais, aos poderes constituídos e às forças montantes na sociedade. E a economia começou a experimentar dificuldades semelhantes, tal como as ciências jurídicas e administrativas. Só a física, a química e as ciências geológicas, biológicas e médicas progrediram então rapidamente sem aparentemente sentirem hesitações deste jaez, já que os obstáculos levantados pelas religiões estavam aqui mais distantes (salvo a questão da “criação do mundo” que opôs muito forte e duradouramente religiosos e cientistas agnósticos). De resto, as aplicações práticas e industrializadas destas suas descobertas chegam rapidamente à sociedade: a iluminação eléctrica (em breve estendida aos motores de potência), o telefone, a rádio-telegrafia, as vacinas e os anestésicos são grandes realidades do início do séc. XX.  
Naturalmente, os progressos técnicos também se verificaram nos armamentos, nomeadamente nas armas de fogo, com as almas estriadas e de carregar pela culatra, a melhoria dos aços e das pólvoras, a potência e a precisão dos canhões. Mas, no último quartel do séc. XIX, a invenção mais importante foi a metralhadora, mortífera tanto no campo de batalha como quando usada em espaços urbanos.
Em contraponto, no plano humanitário, vai-se esboçando um movimento internacional de opinião pacifista, favorável aos processos de negociação e de arbitragem como substitutos do recurso à guerra. Era, de certa maneira, um prosseguimento das anteriores causas “abolicionistas”, muito marcadas por referências religiosas (veja-se o exemplo do explorador e missionário protestante britânico Livingstone, feroz adversário da escravidão), agora transpostas para um terreno mais laico e universalista. Isto veio a ter tradução na diplomacia, com as Conferências Intergovernamentais da Paz de Haia, em 1899 e 1907, que fixaram os termos de um direito internacional aplicável nas situações de guerra, mas cuja intenção suprema era então a de poder evitá-las. Na mesma linha se podem entender os contemporâneos esforços de cidadãos de múltiplos países em favor do auto-controlo na natalidade (o chamado “neomalthusianismo”) e para a adopção do Esperanto como língua-veículo de comunicação internacional.
Mas o acontecimento mais perturbador da ordem oficialmente estabelecida em todos os países mais avançados foi, a partir da segunda metade do séc. XIX, o movimento internacional do operariado e das ideias socialistas que lhe estavam associadas. A França, a Inglaterra, a Itália, a Espanha, a Alemanha, a Rússia, os Estados Unidos, Portugal e outros países já industrializados ou em vias de o ser foram tocados pelas ideias e pela acção deste novo movimento social. No plano económico, através da constituição de sindicatos, usou-se colectivamente a greve para lograr o aumento dos salários, a redução do tempo de trabalho e a obtenção de outras melhorias. No plano político, através de partidos filiados neste mesmo credo, por meios democráticos legais ou preparações insurreccionais, propagandearam-se incansavelmente os seus temas reivindicativos e os seus objectivos doutrinários: de imediato, medidas tendentes a igualizar todos os cidadãos, nos aspectos económico, político, civil, social, educativo e cultural; num futuro mais ou menos longínquo, abolição das classes sociais e do Estado, com instauração definitiva de um regime comunista, sem propriedade privada nem exploração do trabalho. Este programa utópico estava implícito no acto fundador da Associação Internacional dos Trabalhadores em 1864 e veio a ser modelado de muitas maneiras, segundo os países, as conjunturas e as correntes políticas. Maioritariamente, o movimento operário alinhou-se em posições reformistas ou de mera reclamação por melhoras limitadas mas imediatas – como as 8 horas de trabalho diário, que deram origem à jornada internacional de luta e celebração do 1º de Maio –; porém, importantes minorias jogaram o papel de vanguardas revolucionárias ou de acção política e frequentemente eclodiram acessos de rebelião e violência quando a repressão dos governos faziam vibrar a corda sensível da solidariedade de condição social. Em todo o caso, o movimento operário transpôs-se para o séc. XX com uma perspectiva plausível de transformação social profunda em países como os acima referidos.
Em França, na sequência da guerra com a Prússia, do episódio da Comuna de Paris e da fundação da III República, este “revolucionarismo” atingiu uma das suas expressões mais ousadas, com o bombismo anarquista, a táctica da greve geral, o sindicalismo-revolucionário e a palavra-de-ordem do “não à guerra!” se um novo conflito bélico viesse a opor franceses e alemães. Em contrapartida, a vida política e social do país viu levantar-se o espectro do autoritarismo militar “boulangista”, o anti-semitismo enraizado no caso Dreyfus (a que se opôs a consciência republicana de um Zola) e, finalmente, um arrebatamento patriótico que levou os conscritos em 1914 a partirem alegremente para o front aos gritos de “À Berlin! À Berlin!”. Um extremo suscitava talvez um outro extremo.
Mas o bombismo e o tiranicídio faziam parte dos gestos vingadores desta época. Estes justiceiros sabiam que o enforcamento, o fuzilamento ou o garrote lhes estariam destinados, mas não faltaram os voluntários para cumprir tal tarefa. Aconteceu com os populistas na Rússia, os acratas em Espanha, os carbonários em Itália, os republicanos em Portugal, os nacionalistas na Bósnia, etc. Contudo, se esses gestos radicais atemorizavam as classes dominantes, foram os comportamentos colectivos das grandes massas humanas, as garantias legais e a sustentação económica que possibilitaram as mudanças mais duradouras e estruturais.    
Até nas potências guardiãs do “Antigo Regime” as coisas vão mudando. A monarquia austríaca torna-se constitucional em 1860. Na Rússia dos Romanoff, a pressão interna e o ambiente internacional levaram o czar Alexandre II a abolir em 1861 o regime da servidão que constrangia milhões de camponeses e os condenava à pobreza. Novo passo é dado em 1905 com a institucionalização de um parlamento (Duma). Na Alemanha unificada inventa-se um “Estado social” que dá as primeiras garantias de protecção económica às classes assalariadas, ao mesmo tempo que também aí progridem formas de entreajuda solidária para os pequenos agricultores (com caixas de crédito mútuo de inspiração cristã). De resto, estes movimentos da sociedade civil desenvolvem-se por todo o lado, nas cidades industriais e nos seus subúrbios: educação popular, ateneus, agremiações de abstémios, cooperativas, associações de socorros mútuos, cozinhas económicas, quêtes de solidariedade. E quando os partidos socialistas começam a conquistar democraticamente certas municipalidades, surgem mais frequentemente as Casas do Povo, os dispensários e lactários, os banhos públicos e até os bairros sociais. São uma resposta “mais comunitária” às obras levantadas por um certo paternalismo patronal, fossem elas inspiradas pela nova doutrina social da Igreja (encíclica Rerum Novarum, 1891) ou por um altruísmo maçónico.
Entretanto, as economias tinham-se desenvolvido imenso, criando empresas industriais gigantes, com os correspondentes encargos salariais, comerciais e financeiros, tornando-se interlocutores privilegiados dos governos; tinham interesses próprios diferentes mas mutuamente compatíveis e articuláveis, nomeadamente no tocante às expansões externas. A maior concessão de créditos bancários, a fluidez da transferência de fundos por via postal e a emissão muito mais generosa de papel-moeda contribuíram também para uma corrida capitalista que, a partir de certa altura, encontrou na fabricação de armamentos um sector de aplicação importante. Tais dinâmicas económicas concorrenciais, juntamente com as ambições de predomínio governativo, o destemor militarista e os exacerbados sentimentos nacionais populistas, acabaram por conduzir as principais potências para uma catástrofe guerreira nunca vista com tal amplidão, quando pouco tempo antes se tinha celebrado a entrada num novo século sob os auspícios do progresso técnico e de um bem-estar material que a todos haveria de satisfazer. 
JF / 5.Jun.2015

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