segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

É isto o povo português?

Depois do 25 de Abril, só três acontecimentos conseguiram elevar a um ponto significativo de emoção extensas camadas da população portuguesa: a independência de Timor-Leste, a morte de Amália Rodrigues e agora o desaparecimento de Eusébio.
Naturalmente, este foi um futebolista extraordinário no seu tempo, um rapaz simpático e um homem sempre humilde nas suas atitudes e comportamentos, que merece ser lembrado.
Mas (apesar de todo o peso oficialista-comunicativo dado ao evento), o que explica esta ultrapassagem de qualquer outra manifestação desportiva, política, cultural ou religiosa dos últimos tempos em Portugal?
Que ingredientes terão transformado esta figura humana no mito e símbolo nacional que agora se percebe ser?
A primeira interpretação possível é talvez a de uma nação à deriva que encontra uma oportunidade para assim exprimir o seu mal-estar.
Em segundo lugar, trata-se do fenómeno do futebol que, mais do que popular, se tornou num espaço inter-classista e inter-nacional de canalização de paixões, de constituição de comunidades-de-massa e de objectivação de um outro/adversário/inimigo que é necessário esconjurar. E, dentro deste fenómeno, o Benfica é provavelmente a mais típica e alargada destas “comunidades maciças” que temos em Portugal: desde os “vermelhos” (impossíveis de pronunciar)/encarnados, até à “catedral da luz” (num momento, “vale dos caídos” para os vizinhos espanhóis).
Eusébio também representa o bom africano português que, com a sorte pelo seu lado e a vontade firme de a aproveitar, não teve necessidade de pegar em armas nem de apostrofar a singular colonização que os lusitanos plantaram em África.
Finalmente, era homem (de carnes vigorosas, indomáveis) e do povo, com as qualidades que, com ou sem razão, as mais comuns representações sociais lhe atribuem: simplicidade, abnegação, bondade, homem-menino, que aceita ser orientado por outros mais sabedores ou experientes.
Disto, já há pouco. Talvez seja mesmo uma despedida, até que chegue outra coisa.

JF / 6.Jan.204

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