sábado, 29 de dezembro de 2012

A crise europeia

Desde 2010, já há mais de dois anos, que as políticas, as economias e as sociedades europeias se encontram praticamente bloqueadas devido à quase insolvência em que se têm vindo a revelar as dívidas financeiras de vários estados da sua periferia. Culpa dos próprios? Certamente (pela sua má governação e facilidade no gastar). Mas não só.
A edificação económico-monetária e política da UE é agora apontada como tendo incorrido em “erros de palmatória” que, na altura, nenhuma força política ou corrente de opinião identificou e denunciou. Apesar dos seus atrasos e debilidades, Portugal procurou e conseguiu sempre ficar no “pelotão da frente” da construção europeia, e o único sector que se opôs a este caminho foi a extrema-esquerda política, por razões ideológicas, soberanistas ou de insuficiência da “Europa social”. Depois de ter perseguido o objectivo do “mercado único”, Jaques Delors, considerado por muitos como o último europeísta com visão, indicou a direcção da UEM (união económica e monetária) como a próxima etapa capaz de mobilizar as elites continentais para o “projecto europeu”. Foi a arquitectura disto que ficou coxa, ou foi o simultâneo alargamento da UE aos países de Leste que lhe prejudicou a concretização?  
A braços com a absorção da sua sub-desenvolvida “zona leste”, a Alemanha não parece ter desempenhado um grande papel neste processo, que vai da cimeira de Maastrich à de Lisboa (1993-2000), salvo no que dissesse respeito à disciplina monetária e financeira do banco central, pelas razões históricas conhecidas. Mas preservou a sua base económica e industrial, e explorou logo que pôde a oportunidade dos novos mercados que lhe estavam à mão na Europa oriental. Por seu lado, a Inglaterra manteve-se fora destas escolhas e evoluções, aproveitando apenas a liberdade de circulação do “mercado comum”, a relevância da sua praça financeira, a “sorte” do petróleo no mar do Norte e a boa intrusão que tem com os norte-americanos.
Mas o Euro tornou-se uma realidade a partir de 2002. Internacionalmente, cedo ganhou valor face ao dólar e passou a constituir referência e moeda de reserva para muitos estados e potentados financeiros. Aqui, porém, talvez tenham começado a intervir factores de avaliação política e estratégica globais. A super-potência USA mostrou as suas fragilidades e relativa decadência na forma como foi desafiada e como respondeu ao radicalismo extremo de islamistas mal definidos. A China afirmava-se cada vez mais como fábrica mundial de produtos baratos e prometia protagonismo global para o século XXI. Outos países emergentes (Índia, Brasil, África do Sul) também o faziam, sectorial ou regionalmente. E o mundo árabe mostrava cada vez mais o poder financeiro internacional que já conseguiu a partir da base económica do petróleo.
Num quadro de escassa regulação dos movimentos de capitais (multiplicados nas últimas décadas pelas possibilidades permitidas pelas novas tecnologias de informação e comunicação e pela moda de modelos económicos mais liberais), a expectativa e as manobras especulativas dos detentores de grandes somas de dinheiro e dos “investidores” terão passado a incluir a compra e a remuneração das dívidas soberanas europeias, bem como as transacções cambiais entre o Euro, o dólar e outros valores de reserva, como objecto possível de ganhos (enormes) nas suas operações financeiras mundializadas.
Como a resposta da Europa, em vez de forte – como seria o avançar para uma arquitectura política federal mais integrada, apesar das suas evidentes dificuldades –, foi, pelo contrário, feita de hesitações, pequenas medidas e “cada um por si”, instalou-se uma dinâmica perversa de “gato e rato” entre decisões governamentais e novas apostas dos “mercados”, entremeadas de anúncios de baixas de notação financeira (sobre as quais são sempre lançadas suspeições) e de informações da conjuntura económica geralmente pouco animadoras.
Estes diversos factores estarão na base do actual descalabro que lavra na Europa. A Grécia “salva” à beira da falência mas na mais profunda desgraça. A Espanha e a Itália periclitantes. A própria França, guiada por socialistas, a ter que adoptar políticas de austeridade. Portugal, a empobrecer rapidamente e incrédulo… E os eleitorados dos países do “centro” a recusarem-se a pagar para aqueles. Dizem que as alterações institucionais actualmente em curso no espaço europeu (para uma união bancária, união fiscal, etc.) vão no bom sentido, mas parecem incrivelmente tímidas e lentas aos olhos do público em geral.
Por seu lado, a América de Obama está à borda do “precipício fiscal” e mesmo que em Washington se chegue a um acordo de última hora, este será sempre precário e de curto prazo, permitindo apenas o adiar do problema (e que já justifica que a Standard & Poor’s tenha retirado o rating AAA à república norte-americana). Nestes termos, há quem sustente que esta crise pode tornar-se mundial (e catastrófica) se os Estados Unidos entrarem num processo recessivo ou se o complexo financeiro anglo-americano se deixar ficar a descoberto, tal a diferença que medeia entre a sua escrituração contabilística e a economia real – de pouco valendo então a pujança dos capitais árabes e das dinâmicas de crescimento dos “novos gigantes” do Sul e do Leste. 
Com 10% da mão-de-obra parada, a Europa atravessa a sua pior crise social desde a segunda guerra mundial. Mas, apesar das travessuras dos pequenos combates políticos (que os mass media tanto alimentam), é provável que, ao longo desta crise, a maioria dos cidadãos tenha adquirido uma nova noção dos limites do endividamento (que ultrapassámos), da precariedade dos rendimentos oriundos do Orçamento, da interdependência económica mundial e da não-linearidade do aumento do bem-estar.
A ideia de uma Europa unida e federal (ou confederal) foi uma elevada aspiração de alguns bons espíritos. A preservação da paz foi uma real preocupação dos “pais fundadores” e talvez ainda de “grandes decisores” como foram Mitterrand e Khol. No resto, a UE foi uma construção de tecnocratas, (des)aproveitada por políticos para as suas melhores conveniências e pragmaticamente usada pelos cidadãos, que contudo foram adquirindo, ao longo destas décadas, alguns  reflexos de comportamentos “europeus” (circular sem fronteiras, moeda comum, estudar e trabalhar em vários países, etc.), que desejarão preservar.
Mas, entrementes, o tempo vai passando com a economia europeia a “pisar ovos” e a retardar o crescimento mundial, do mesmo passo que, com uma competitividade mais esbatida, vai perdendo posições para os seus principais concorrentes. A Europa é ainda uma das regiões mais ricas do mundo, mas numa decadência que parece inevitável.
JF / 29.Dez.2012

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