sexta-feira, 1 de junho de 2012

Comprar o corpo, vender a alma

A questão da legalização da prostituição é velha de bem mais de um século. Mas esteja, ou não, no centro do debate público – o que só episodicamente acontece –, é um problema que sempre há-de dividir muito as opiniões. É consabido que a necessidade económica (nalguns casos, também a ambição) está na base da decisão da mulher em prostituir-se. Quando existe indução ou coação a tal prática, por terceiros, o caso torna-se mais grave e tem geralmente uma tipificação jurídica diferente. Mas tudo se complica quando esta pressão se suaviza por força da existência de um laço afectivo intenso entre a prostituta e o proxeneta. Ela jurará que o faz “por amor” (do seu querido). E aqui pode atingir-se a situação-limite em que a prostituta aluga o seu corpo ou se presta a dar prazer ao cliente, mantendo-se virgem, fiel e apaixonada na sua relação emocional profunda com alguém. Parece, contudo, indispensável que a sociedade permaneça atenta a estes casos e possa impedir e penalizar o aproveitador e beneficiário de tal situação, ajudando a mulher a superar essa dependência. Com a habituação e a experiência, a prostituta pode tornar-se verdadeiramente “actriz” da sua actividade, simulando o que não sente e repetindo profissionalmente gestos e poses supostos capazes de provocar excitação sexual num “cliente médio”. O diferencial entre este standard e a realidade de cada beneficiário constitui a medida exacta da frustração ou da exaltação recebida em cada uma dessas experiências. Mas o perfil da “oferta” é hoje talvez mais amplo do que no passado. Numa situação económica menos carente, não pode excluir-se a prostituição por gosto do risco ou desafio do abismo, como várias obras literárias e cinematográficas têm procurado ilustrar. Ou ainda, com a liberalização das normas de moral social, que certas mulheres se entreguem a tal prática apenas limitada ou esporadicamente, com o objectivo puramente instrumental de obter um rendimento suplementar ao seu modo de vida habitual. De facto, os constrangimentos ou abrandamentos da moral aceite na sociedade – e mais ou menos plasmada nas suas leis estatais – têm enorme importância nestes comportamentos humanos. Houve uma época, recente, em que tudo se aceitava, desde que fosse feito na sombra (da casa particular ou do bordel) e sem “escândalo público” – situação que era fustigada pelos seus jovens críticos com a acusação de “hipocrisia”. Hoje, com a importante ajuda dos “produtores culturais” e dos empresários do espectáculo, quase tudo se aceita e a quase tudo se pode aceder no espaço público, de modo presencial ou “mediático”: strip-tease, todas as modalidades de sexo, erotismo e pornografia, boxe ou wrestling, música alucinante, cenas de violência ou sadismo (só as touradas concitam o rigor abolicionista de alguns). E aquilo que era, desde há milénios, uma prática de mulheres, tornou-se também o destino de alguns homens ou de pessoas sexualmente indeterminadas. É claro que estas coisas têm também de ser vistas do lado da “procura”. O cliente da prostituição é sempre o frustrado ou um incapaz de seduzir? Já não se fala nos antigos exércitos que isolavam prolongadamente milhares de homens e para cujas necessidades fisiológicas, emocionais e afectivas pareciam preferíveis os bandos de vivandeiras (ou os bares de retaguarda) do que a violação das mulheres do inimigo após a excitação do “cheiro da morte” no combate. Mas até nos confinamentos prisionais hoje se procura atender a estas necessidades! Mais genericamente, é questionável que, mesmo numa relação afectiva estável e compensadora existente no seio do casal familiar, não sobrevenham fases ou momentos de insatisfação sexual em algum dos parceiros. O recurso à prostituição, como cliente, é então certamente o modo mais rápido e prático de resposta (desde que exista oferta adequada). E é o que leva muitos a pensar que a prostituição, de uma ou outra forma, nunca cessará por falta de procura, seja nas sórdidas vielas escondidas de Charles Dickens, seja actualmente em casas de “massagens” ou no turismo sexual de certos países do oriente. Em todo o caso, se para o cliente se trata se comprar um momento de prazer, o vendedor estará sempre a alienar uma fracção da sua intimidade: é, no fundo, um trade-off compreensivelmente humano, mas pouco edificante. JF / 1.Jun.2012

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