sexta-feira, 20 de abril de 2012

Compreender ou transformar o mundo?

Cerca de 1845 Marx escreveu umas famosas ‘Teses sobre Feuerbach’ cuja derradeira tinha aproximadamente esta formulação: “Até agora, os filósofos mais não fizeram do que interpretar o mundo, quando o que interessa é transformá-lo.” Eis uma ideia simples mas ao mesmo tempo da mais alta complexidade, pelas suas consequências e implicações lógicas e de princípio. Vejamos algumas, da forma mais simplificada. O preceito apela a que as pessoas pensantes não se fiquem pelas cogitações; que procurem mudar as situações existentes pela sua acção. Parece ser um indiscutível bom princípio. Porém, situando o autor no seu tempo, deve-se perguntar quem são os “filósofos” que ele assim critica? São, directamente, os que discutem filosofia (mas também, por arrasto, política e economia) na academia (alemã, sobretudo, então marcadamente idealista), mas igualmente os padres das religiões judaico-cristãs, que pregavam aos escravos a mansidão na terra para poderem ganhar o céu depois da morte. Pode-se assim perceber melhor que ao comando moral não eram estranhas as preocupações prosaicas (o papel que o cristianismo ainda detinha na ordem política ocidental) e até o contencioso pessoal do autor (de família judaica mas anti-teista). O apelo obteve um eco fantástico, na Europa, primeiro, depois em todo o planeta. Nunca mais faltaram “filósofos” disponíveis e armados para mudar o mundo. Foram para a acção política (os partidos, as reivindicações, as revoluções, as guerras, os pleitos eleitorais e, finalmente, para a acção governativa quando alcançaram o poder) mas também se empenharam em fazer o mesmo na literatura e outras artes, na história e no direito, nas ciências sociais e humanas, e até o tentaram nas ciências exactas. Para a aquisição de tal sabedoria, apenas bastou geralmente a “iluminação” provocada pela leitura de uma vulgata carimbada pelo Partido ou mesmo a aplicação da “linha justa” definida pelos “camaradas responsáveis”. Enquanto a liberdade pessoal de procurar uma razão filosófica se estiolava em outros campos, a teoria leninista do partido forjava a operacionalização essencial capaz de “transformar o mundo”: foi o insucesso (e, em muitos casos, o desastre) que se viu. Entretanto, o mundo mudou imenso. Sobretudo pela economia e pelos cataclismos políticos provocados pelos governos nacionais e imperiais. O apetite do enriquecimento e a volúpia do poder (e, quando muito, a ideia mobilizadora do “progresso”), mais as dinâmicas incontroláveis, comandaram tais processos – bem longe, portanto, das preocupações filosóficas do Marx de 1845. Mas, com as possibilidades permitidas pela técnica e o desenvolvimento económico, também cresceu uma consciência planetária de dignidade humana e de direitos e condições mínimas de vida para todas as pessoas. Além – nos últimos 30 anos – da percepção das consequências nefastas deste modelo económico sobre os nossos equilíbrios ambientais. Toda a gente tem querido, pois, transformar o mundo. No plano político, deixou em grande medida de fazer sentido a distinção entre partidos “conservadores” e partidos “progressistas” (ou de movimento). E, no plano social, até as instituições mais antigas e tradicionais (como os exércitos, a justiça ou as igrejas cristãs) têm dificuldade em assumir essa função estabilizadora, por receio de serem vistas como “excessivamente filosóficas” e pouco aptas a acompanhar as mudanças da sociedade. Naturalmente, na esfera criativa das artes e da ciência, é da sua própria vocação querer transformar a realidade existente. Só o choque de consciência ecológico, acerca da finitude de certos recursos e dos efeitos nocivos da industrialização, veio perturbar esta linha maciça de entendimento, tendo, mesmo assim, de se definir como “conservacionista” para se distanciar de qualquer laivo do anterior conservadorismo. O valor ético da “interpretação do mundo” cedeu, pois, ao imperativo político e cultural da “mudança”. Tudo, em fim de contas, coisas compreensíveis e que nos apelam cada vez mais ao esforço de procurar entender o(s) sentido(s) em que estamos a mudar a face dos Homens e da sua Terra. E, já agora, não tanto pelo fétiche da inovação, mas talvez, mais modestamente, para ir balizando e controlando em liberdade, aproximativamente, o caminho da nossa vida colectiva. JF / 20.Abr. 2012

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