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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Quatro formas sucessivas de arrogância

Nos comportamentos humanos, há de tudo, já se sabe, incluindo a arrogância com que alguns se assumem na casualidade que os beneficiou e que os leva a votar um desprezo profundo por todos os outros que não compartilham dessa ventura.
Lembremos o caso, muito antigo, dos profetas e daqueles a quem Deus faz revelações. Como Deus não tem laringe, são eles o seu porta-voz, através de quem se prescrevem normas impositivas para todos os Homens, se define a Justiça e se sacralizam alguns, deitando outros às chamas do inferno. Haja ou não doença esquizofrénica, o certo é que o seu poder é apenas limitado pelo Além, o que lhes confere uma ascensão inaudita entre os seres humanos. Contudo, a arrogância que se poderia prever é aqui travada, logo à partida, por outras fortes exigências, geralmente ligadas ao amor e à natureza divina da bondade.
Muito mais próximo de nós, a arrogância aristocrática data apenas do último milénio e já pode ser encarada e compreendida pela história, seja no teatro europeu-mediterrânico, seja no panorama asiático, ou mesmo em África, embora de forma mais rústica. A aristocracia perdeu definitivamente o poder político no tempo dos nossos avós (ou bisavós), pelo que já não pode mandar banir ou decepar os seus adversários, nem ser misericordiosa para com os arrependidos. Vive hoje muitas vezes a crédito, tendo tido que se converter aos incómodos do trabalho e dos negócios, ou às “reservas” onde os paparazzi os cercam, o que – convenhamos – é um bem triste fim.
Os ricos da burguesia histórica ou produzidos pela mobilidade social e o capitalismo são, frequentemente, portadores daquele tipo de arrogância que as artes e a liberdade crítica desde há muito se treinaram em desmascarar ou ridicularizar. Já não é a arrogância do gesto pausado da varanda de Buckingham Palace, mas a arrogância do “quanto custa?” e do “I buy it”. Dá para muito, mas não para reconquistar a subtileza da corte ou a força das genealogias.
Finalmente, temos hoje uma última forma de arrogância (e correspondente desprezo pelos excluídos, a maioria) que está presente nos detentores do saber científico. Aqui, não contam as posses nem o nome da família, mas sim as capacidades próprias e as redes relacionais. Fascinados com a necessidade que o poder político (e quem o disputa), ou a própria sociedade, têm dos resultados da sua investigação, muitos cientistas tendem a esquecer como é pequenino o seu contributo no processo de acumulação do conhecimento e face à vastidão do que ainda não sabemos (para já não falar das descobertas que desembocam em lugar nenhum). E, assim, agregam à arrogância teórica, a vaidade e a inveja que já Camões glosava nos do seu tempo.
JF / 29.Set.2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Guerra informática

A imprensa internacional de hoje relata um suposto ataque informático que já afectaria 30.000 computadores no Irão, que não seria obra de piratas mas o resultado de uma acção premeditada de entidades estatais, que várias vozes apontam como sendo os Estados Unidos ou Israel.
O “vírus” Stuxnet teria a particularidade de atacar prioritariamente os programas informáticos de gestão das indústrias. Seriam seus alvos predilectos as grandes instalações de tratamento de águas, de abastecimento de energia eléctrica, de regulação de tráfegos, oleodutos, centrais nucleares, etc.
É claro que as autoridades persas já afirmaram que se trata de “uma parte da cirber-guerra do Ocidente contra o Irão”, mas isso entra no campo da intoxicação informativa.
Como quer que seja, o certo é que os sistemas informáticos tomaram uma posição absolutamente nevrálgica em todos os países do mundo e, havendo conflitos abertos entre estados, é lógico que constituam (simultaneamente) mais um alvo e um instrumento, que pode ser usado com intuitos destrutivos, de forma discreta, com ou sem aspecto de pirataria.
A sofisticação tecnológica tem destas consequências. Pode produzir efeitos devastadores sobre a vida quotidiana de milhões de pessoas sem se dar a conhecer e sem a brutalidade da violência e do sangue. Mas não deixa de ser guerra.
JF/28.Set.2010

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Cuba despede 500 mil funcionários públicos

Notícia que se transcreve integralmente do jornal Público, de hoje (pág. 20). São desnecessários quaisquer comentários. Que cada um julgue:
“O Governo de Cuba vai avançar com o despedimento de “pelo menos” 500 mil funcionários dos quadros estatais durante os próximos seis meses e permitir que esses trabalhadores se dediquem a outras actividades no sector privado, anunciou ontem a Central de Trabalhadores de Cuba (CTC), a federação oficial de sindicatos do país.
A medida foi apresentada como “uma oportunidade para o exercício do empreendedorismo e da iniciativa própria” e não como uma resposta à difícil situação financeira da ilha. “O nosso estado não pode nem deve continuar a manter meios de produção e companhias da área dos serviços com quadros inflacionados e prejuízos na sua actividade”, referiu a central sindical, acrescentando que estão asseguradas alternativas para os trabalhadores despedidos, quer com o “alargamento das possibilidades de emprego não-estatal” como o aluguer de terrenos agrícolas ou a participação [em] cooperativas, quer com a emissão de 250 mil novas licenças para o “auto-emprego” até ao final de 2011. O Presidente Raúl Castro antecipara, no mês passado, a dispensa de um milhão de funcionários públicos mas garantira que o plano seria executado em cinco anos.”
14.Set.2010

domingo, 12 de setembro de 2010

Liberdade e sinais particulares

Há umas décadas atrás os Bilhetes de Identidade incluíam uma rubrica designada Sinais Particulares onde as autoridades inscreviam, quando era o caso, observações como: “estrábico”, “coxo da perna esquerda”, “sinal protuberante na testa”, “falta do dedo indicador da mão direita”, “tatuagem no ante-braço esquerdo com inscrição amor de mãe”, etc. Eram marcas corporais indisfarçáveis, às vezes marcas penalizantes da natureza, mas que sempre podiam servir para a identificação (e a acusação) de um suspeito de qualquer crime ou delito.
Porque todos procuramos fugir à estigmatização social, era sempre com alívio quando víamos que o burocrata de serviço tinha aposto em tal rubrica do nosso BI um “Nada” ou um mero rabisco a tinta vermelha. E considerávamos geralmente uma parvoíce ou estupidez aquelas figuras bizarras de marítimos ou de blobe-trotters que faziam gala em tatuar um pedaço da sua pele.
Hoje, milhares de jovens (e de menos jovens) bricam visualmente com a superfície do seu corpo como se fosse papel-cenário, que se pinta e deita fora. Nem lhes passa pela cabeça que se estejam a desrespeitar a si próprios! É apenas giro, nice. A mim, ocorrem-me as gravações de identificação que os nazis faziam nos braços dos seus detidos em campos de concentração, e sinto náuseas. Oferecer voluntariamente marcas corporais que nos identificam irrecusável e definitivamente perante uma qualquer polícia impiedosa, um ‘big brother’? Sem nos dar sequer a oportunidade de explicarmos que se trata de um equívoco, de uma troca de nomes? Só de loucos! É, contudo, a prova de que, para o melhor e para o pior, vivemos hoje num verdadeiro “reino da liberdade”, onde as pessoas já não temem ser identificadas nem se sentem estigmatizadas por alguma conspícua marca corporal.
Mas, se calhar, perante a avalancha do fenómeno, já nem hoje as polícias (criminais ou políticas) olham muito para os Sinais Particulares dos suspeitos. (A propósito, será que os comandos da PSP aceitam que os seus agentes se tatuem?)
JF / 12.Set.2010

domingo, 5 de setembro de 2010

Três temas diferentes

É absolutamente dramática a situação que vivem os trinta e tal mineiros no Chile, encurralados a 700 metros de profundidade e que terão ainda de esperar longas semanas até um possível salvamento.
Como em outros trabalhos de elevadíssimo risco físico, tudo deve ser feito para reduzir ao mínimo a possibilidade de ocorrência de acidentes destes. É essa uma preocupação maior dos dirigentes e responsáveis de tais empreendimentos? Será essa uma orientação decisiva que guia as autoridades oficiais que licenciam e fiscalizam estas actividades? E não haverá maneira de substituir estas acções humanas por robôs mecânicos tele-comandados?

Durante dois dias Maputo foi de novo palco de uma “revolta da fome”, que também se estendeu à cidade da Beira. As autoridades governamentais de Moçambique terão dito às suas forças de segurança para “repor a ordem” e estas actuaram da única maneira como provavelmente o sabem fazer: varrendo as multidões das ruas com balas e deixando uma dezena de mortos e muitos mais feridos no terreno, pelo menos.
Pode ser que haja também maquinações políticas, agitação de antigos militares com os bolsos vazios dos meticais que lhes teriam prometido ou formas modernas de mobilização através de telemóveis e das redes de contacto horizontais que estas possibilitam.
Mas o que é certo é que estas populações proletarizadas dos subúrbios vivem em condições económicas de grande escassez ao mesmo tempo que, a dois passos delas, se exibem os “grandes da terra”, nacionais e estrangeiros, dourando ao sol nas praias do Xai-Xai ou do Bilene ou bebendo wisky na esplanado do Polana. E a um passo, ao alcance do botão da televisão, elas “vêem” a riqueza e a ostentação das nossas sociedades ocidentais. Não é isto, por vezes, insuportável?

Finalmente, em Lisboa, um tribunal criminal de 1ª instância condenou seis dos acusados no caso de pedofilia da Casa Pia, entre os quais os senhores Cruz, Ritto, Dinis, Abrantes e Silvino, este o mais desgraçado de toda esta história, porque vítima dos mesmos abusos desde criança na instituição, incluindo por parte de um padre-capelão.
Fala-se nos jornais de outros nomes (sobretudo de Pedroso), cuja inserção no mundo da política lhes teria valido o facto de se não sentarem também no banco dos réus.
Nunca se saberá ao certo o que de facto se passou. A Justiça portuguesa – tão abalada no seu prestígio, independência e eficácia – sai um pouco com imagem melhorada deste processo. Seria contudo trágico se se viesse a espalhar a convicção de que estes réus teriam razão quanto aos erros judiciários que reclamam ou que, por meros argumentos processuais, acabassem por ficar impunes dos crimes que terão cometido.
JF / 5.Set.2010

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Preservar a memória da cultura marítima tradicional

Como em tantos outros domínios, é importante preservar marcas ilustrativas do património (material e imaterial) de culturas que a vida moderna destruiu, como é o caso das culturas marítimas, particularmente num país como Portugal. Embarcações, artes de pesca e modos de vida das comunidades piscatórias; faróis costeiros e obras portuárias de atracação e de construção de navios; tecidos urbano-ribeirinhos onde se faziam as trocas de comércio e de convívio dos embarcadiços com a terra; museus náuticos e armas navais, etc. – de tudo isso é preciso cuidar um pouco para que restem memórias vivas das grandezas e misérias do passado.
A “Marinha do Tejo” é uma iniciativa da sociedade civil para ajudar a conservar esse património, referindo-se em particular às embarcações de vela tradicionais que no passado sulcavam este grande rio, pescando ou transportando cargas e pessoas, e de que existem ainda algumas dezenas de exemplares de diferentes tipos.
Ontem, mais de uma vintena desses veleiros sulcaram as águas do Tejo, entre o Parque das Nações e o cais da Moita, numa regata amigável em comemoração do centenário da República.
Felizmente, já não se pode dizer “Que pena me faz ver este Tejo […] sem que nele naveguem aos milhares, sob um céu incomparável, os filhos deste país de marinheiros”.
Mas esta iniciativa foi apenas vista directamente e usufruída por algumas centenas de pessoas, o que é pouco para o significado que ela encerra e diz muito do que ainda falta fazer neste domínio.
JF / 30.Ago.2010

domingo, 22 de agosto de 2010

Incêndios florestais: mexidas que se impõem no direito de propriedade

Com mais um Verão de elevadas temperaturas, aí voltou o flagelo dos incêndios nas florestas. Os prejuízos são muitos, de vária natureza e suficientemente conhecidos. Os beneficiários, talvez alguns, que não deviam ficar a rir-se.
A estratégia seguida pelos sucessivos governos de melhorar os meios de resposta e socorro é provavelmente indispensável mas não resolverá nunca o problema (à parte o fortalecimento do ego dos bombeiros e a satisfação de alguns interesses acoitados no fornecimento de equipamentos e na prestação desses serviços).
Parece certo que há, em Portugal, floresta A MAIS, resultado do interesse dos proprietários e utilizadores industriais dos produtos lenhosos e do laxismo das políticas do Estado neste domínio. Por outro lado, a rarefação e envelhecimento das populações rurais tornaram já impossível que sejam elas a cuidar dos seus pinhais e eucaliptais.
Como é impensável entre nós uma apropriação estatizante dos solos rurais, parece evidente que uma gestão apropriada e racional da importante riqueza florestal do país terá que ser feita na base de empresas especializadas, com escala económica suficiente mas também em relação de proximidade com os terrenos e os seus proprietários, em concorrência entre si e em regime de concessão de exploração por determinado número de anos, impondo ainda os poderes públicos as condições ecológicas, silvícolas e de segurança mais adequadas a cada região.
Os proprietários que não quisessem ou pudessem proceder à exploração das suas matas (nos mesmos termos tecnicamente aconselhados), teriam de consentir – por via de imposição legislativa, já se vê – que ela fosse executada pelas tais empresas concessionárias, recebendo uma quota-parte justa dos resultados dessa actividade económica: uma espécie de arrendamento forçado. Os direitos essenciais da propriedade privada – a venda, a herança, a exploração própria, etc. – seriam mantidos, mas não seria mais consentida a POSSE DESLEIXADA OU DESORDENADA.
Todos os direitos têm os seus limites, quando conflituam com outros direitos igualmente legítimos. Porque é que isso não haveria de aplicar-se neste caso em que, além de pessoas e bens concretamente ameaçados e destruídos, sobrelevam ainda interesses sociais e ambientais de toda a colectividade?

JF / 22.Ago.2010

sábado, 24 de julho de 2010

Ainda Espanha

J., lindo texto sobre a minha querida España. Este sentimento contraditório de pertença e diferença, que une e desune desde tempos imemoriais esta nossa vizinha que, por vezes, procurou em nós a forma de fazer esquecer os problemas que leva dentro de si. Nós pelo contrário pobrezinhos e tristes, cunhados no complexo de Édipo que nos gerou, acabámos embalados por brandos costumes, falta de ambição e querer, apaziguados pelo destino que Deus por Sua glória nos entendeu conceder neste mundo – também aqui o futebol serve às mil maravilhas para nos comparar e distinguir – que as nossas touradas sempre foram menos sanguinolentas é certo – coisas de gente chique e não do vil e reles povo – mas em compensação bem menos nobres… O nosso tempo de glória e conquista tem fogachos, acendalhas de bravura e feitos históricos, momentos de orgulho e depressão nacional (e nisto também nada termos de hermanos, por supuesto).

Mas o risco de implosão não vem só do lado, vem de todos os lados. Todos nós estamos sobre o barril de pólvora da implosão. Eu apoio o Senhor Zapatero por brindar “não as supostas vanguardas com medidas de ruptura cultural que ofenderam a população mais tradicional, a igreja católica ou o mundo taurino, e inquietaram o exército”, mas toda a España. Mais convicto e verdadeiro a este propósito que o seu congénere português a quem esse efeito de diversión politica, efectivamente, se aplica. O Senhor Sócrates nisto e em tudo o mais só é comparável com uma espécie de mau remake do Senhor Zapatero, exemplar made in China. A transição democrática dos nossos vizinhos foi bonita mas não teve cravos vermelhos. Em contrapartida não cometeu os excessos próprios das utopias revolucionárias, não mandou capitalistas para a prisão nem perseguiu MRPPs que estão agora bem na vida, ou no PS ou PSD (recuperaram bastante bem do cárcere, portanto), não provocou a fuga de fortunas para o Brasil e não deixou como relíquia um PC à moda antiga. Parece que ao fim e ao cabo de todos foram estes os menos molestos Mas do outro lado da fronteira, depois de tudo, ainda ficou um Tejero, veio ao de cima a verdadeira natureza violenta do macho ibérico e à Igreja uma herança de bens infindos de poder transcendental e terrenal. De padres e freiras ainda não consta que haja escassez, tal a dimensão do stock acumulado. Ainda bem, pois, que as medidas de Zapatero ofenderam a população mais tradicional, porque a população mais tradicional ofendeu e quer continuar a ofender o respeito pelos mais elementares Direitos Humanos. A população tradicional de que falas só podem ser os filhos e filhas, bons e maus, de Falanguistas e de monseñor Josemaria Escrivá de Balaguer.

Uma última palavra para a Europa. Que se cuide sim, estou de acordo contigo. Porque nacionalismos e extremismos não faltam por ai. Não só em España mas por todo o lado e onde não existirem eles nascerão. Mas a culpa não é das nações europeias (eu defendo as nações europeias e ibéricas), elas ressurgirão, por todo o lado, uma e outra vez, como os talibãs. Alimentaram-se quando à “Europa” deu jeito – e à América – nas ex-Repúblicas Soviéticas, não esqueçamos, com a nossa ajuda, grande irresponsabilidade e não menor cinismo. Nisto o modelo europeu é um péssimo modelo…. Somos todos chineses!!! Mas elas estão também para cá do muro de Berlim, é bom não esquecer. Não desaparecerão, estão ai e não merece a pena metê-las debaixo do tapete. E isto não é só um problema de economia expansiva, é um problema de governança ou falta dela na Europa. Enquanto esta Europa e já agora a economia mundial continuar a ser governada pelos mercados e figuras como o Senhor Barroso, Merkel, Cameron, Berlusconi (ao Sócrates perdou-o porque já não governa) e Cª, a implosão não mora ao lado, mora por todo o lado.
Vítor Peña Ferreira / 22.Julho.2010

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Espanha, de Julho a Julho

Ontem, dia 18, os franquistas e o seu regime festejavam o “alzamiento”. Hoje, dia 19, os antifascistas celebram o levantamento popular das esquerdas que, em Madrid, Barcelona e outras cidades, travou o que estava planeado como devendo ser um golpe-de-estado militar, em 1936. É certo que se tratou de um genuíno gesto de revolta de séculos do povo deserdado contra a altivez e o desprezo que lhe votavam os “grandes de Espanha”, mas também aí se deu início a uma sangrenta guerra civil que se tornou num campo de manobras internacionais.
Com quatro décadas de ditadura e três de democracia, a Espanha voltou a ser um grande país na cena europeia. Tem recursos e condições para isso, mas também a espreitam algumas velhas ameaças: acima de tudo, a intolerância e o confronto.
Ao mesmo tempo que a despolitização cresce na população e o orgulho hispânico se enche com amplas realizações e ambições de grandeza, os nacionalismos internos, a luta partidária e a memória do franquismo trabalham, pelo contrário, para a desagregação e o enfraquecimento do próprio quadro europeu, no seu conjunto.
No meio da alegria dos campeões futebolísticos logo se viu a bandeira catalã exibida por dois dos seus jogadores. E na véspera, milhares de militantes haviam enchido as ruas de Barcelona para protestar com palavras fortes contra o tribunal constitucional que acabara de negar à região o termo de “nación”, mantendo o actualmente consagrado de “nacionalidad”.
Enquanto a economia foi expansiva (mesmo quando assentava em bases financeiras frágeis, como agora se vê, mas já antes os escândalo imobiliários prenunciavam), a esquerda-PSOE pôde brindar certas supostas vanguardas sociais com medidas de ruptura cultural que ofenderam a população mais tradicional, a igreja católica ou o mundo taurino, e inquietaram o exército. Mas agora que o desemprego voltou aos 20% e que a imigração se sentirá mais ameaçada, não vão bastar as “movidas” que entretêm os jovens, os filmes de Almodovar ou as enebriantes celebrações dos “campeones”.
O juiz Garzón mostrou já sobejamente o seu espírito independente ao tentar incriminar Pinochet e, simultaneamente, não ceder às manobras dos “etarras”. Mas o seu “caso” de agora já foi apanhado pela máquina trituradora da luta política que vem animando a questão da “memória histórica” da guerra civil e da ditadura franquista.
É bom que se redescubra e reconheça o passado sem os preconceitos próprios dos vários contendores. É justo que se dignifique, por igual, a memória de todos os que tombaram e sofreram em condições de grande infelicidade colectiva. Mas deve cuidar-se que tal não seja o pretexto para relançar novas dinâmicas conflituais e destrutivas. O lado mais negro e triste do passado deve guiar-nos para evitar que façamos novas asneiras.
JF/19.Jul.2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Dez nomes portugueses marcantes do Séc. XX

D. Carlos de Bragança – último rei de Portugal, interventor na governação e que acabou assassinado no Terreiro do Paço.
Afonso Costa – o inteligente promotor da República jacobina, modernizadora-à-força, anti-clerical e “racha-sindicalistas”.
Oliveira Salazar – o homem das finanças-em-ordem e da “ordem nas ruas” que dirigiu Portugal durante quase meio-século.
Álvaro Cunhal – o corporizador da uma imaginária contra-sociedade, comunista e de “mão-de-ferro”.
Mário Soares – inquebrantável e astuto político, que orientou o país para a Europa.
Gago Coutinho – uma vida vida simples e venturosa, de republicano e homem do mar, sobrevoando os Atlânticos.
Fernando Pessoa – o indefinível e inencontrável, salvo nas palavras.
Eusébio – ícone da bola e do Portugal africano.
José Saramago – o anjo vermelho da escrita.
A “Senhora de Fátima” – mito sagrado que congregou milhões.

JF/9.Julho.2010

sábado, 19 de junho de 2010

Desapareceu o Anjo Vermelho

Aos 87 anos, José Saramago fechou os olhos, parece que serenamente. Com ele, desaparece um enorme escritor e uma testemunha dos grandes conflitos do nosso tempo, uma figura portuguesa que ganhou dimensão mundial.
Mesmo para quem não apreciava a sua escrita desregrada e acha que ela contribuiu para o desaprender do texto das novas gerações, mas reconhece a sua fantástica capacidade inventiva e de construção romanesca.
Mesmo para quem se situa nos antípodas das suas convicções políticas, mas não deixou de notar algumas suas rebeldias pontuais contra a ordem autoritária e dogmática a que aderiu.
Mesmo para quem vê a Pilar del Rio como uma criatura talvez fanática mas que, 28 anos mais nova do que Saramago, soube construir com ele uma vida amorosa, descobrindo a sua paz de Lanzarote e respeitando-o como era.
Mesmo para quem, olhando ontem à noite na TV as suas imagens, lhe descobre facilmente o pequeno sorriso triunfante – sobre os outros, sobre os adversário e o mundo, e sobretudo sobre os ricos e poderosos – no cenário das vénias e dos dourados de Estocolmo.
Mesmo para quem bem lhe entende a permanente lembrança dos seus anos pobres da Azinhaga e da Lisboa de meio-do-século e os traços auto-biográficos que deixou espalhados em memórias, palavras registadas e histórias efabuladas, mas desconfia do sentido da sua revolta social.
Mesmo para quem, e são muitos, lhe aponta a religiosidade simétrica que o opõe ao Deus dos católicos e desse jogo tende a distanciar-se.
De todos sai o reconhecimento e o respeito conquistado por esse humilde e inteligente trabalhador, do cérebro que procura e cintila, e da mão que labuta e tecla as palavras adequadas.
JF / 19.Jun.2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Bola, África e o mundo que vivemos

Os espectáculos futebolísticos do campeonato mundial na África do Sul mantêm entretidos durante algumas semanas milhões de tele-espectadores e fazem exultar o povo desse país. Para desagrado de alguns, o futebol tornou-se um fenómeno universal que diz muito acerca do nosso (baixo) grau de civilização mas que também nos igualiza nestas momentâneas ansiedades e emoções do jogo, que talvez substitua a guerra e outros impulsos de destruição.
Em meados dos anos 60, tendo já visitado as Américas, dois dos países “d’além-cortina de ferro”, as Áfricas e algumas das nações europeias, formulei reflectidamente a convicção de que seria na República da África do Sul que o mundo iria assistir, no final do século XX, às mais raivosas “lutas-de-classes”: aquelas que oporiam brancos e negros, no país mais desenvolvido de todo o continente (graças sobretudo ao esforço dos primeiros). Não supunha é que esse momento viesse a coincidir com o desabar do “socialismo real” nem que a transição fosse, afinal, tão pacífica. Honra e reconhecimento sejam prestados a Nelson Mandela pelo papel que então desempenhou no apaziguamento de paixões, tal como de resto à inteligência política de De Clerk para conter e chamar à realidade a minoria branca. Mas ainda hoje tenho dificuldade em compreender como esse white power cedeu e o novo black power prescindiu da posse da arma nuclear, que para tantos chefes nacionais constitui o meio desejado para defender ou impor os seus interesses na cena internacional. Talvez aí tenha ainda pesado a convergência das duas super-potências, uma das quais se encontrava então em plena decomposição…
Em contrapartida, não alinho no coro laudatório universal a Mandela que tende (como sempre) a varrer da consciência das pessoas comuns os aspectos menos convenientes da sua actuação. Por exemplo: diz-se que Mandela penou 28 anos na prisão, o que é verdade e testemunha da resistência moral do homem, mas omite-se dizer que isso aconteceu por ele se ter tornado adepto da estratégia da luta armada (acções de guerrilha e sabotagem) decidida pelo ANC em 1961 (com apoio do bloco comunista) e que, antes, este velho partido africano tinha actividade legal, mesmo debaixo das leis do apartheid introduzidas a partir de 1948, quando o país se desligou definitivamente da tutela britânica. E esquece-se que, no plano internacional, Mandela tem sido sempre defensor dos nacionalismos africanos contra os ocidentais, mesmo dos líderes mais infrequentáveis como Kadhafi da Líbia ou Mugabe do Zimbabué. Em todo o caso, a sua acção deve ser considerada globalmente meritória. Mas não impediu que a legitimação e a habituação ao uso da violência tenham, depois da vitória da maioria negra, degenerado em altas taxas de criminalidade civil, nem que as enormes desigualdades económicas existentes no seio das populações sul-africanas também contribuam para esse ambiente pouco seguro que se vive em muitos dos seus espaços públicos.
Deixemos aos fans (abreviatura inglesa de fanáticos) dos partidos futebolísticos as suas exultações e as suas frustrações. Ganhará a taça certamente a equipa que mostrar mais capacidades em campo. Mas celebremos desde já a alegria com que tanta gente simples e comum – pretos, brancos, castanhos ou amarelos – é capaz de se entregar a este espectáculo lúdico e universal. Sem esquecer que amanhã é dia de trabalho.
JF/16.Jun.2010

sábado, 12 de junho de 2010

Acontecimentos

Na sucessão de notícias repisadas sobre o andamento da economia (mau, já se sabe), alguns acontecimentos parecem destinados a ser lembrados no futuro, como marcos de qualquer coisa que mudou. Se para melhor ou para pior, é coisa que mais tarde talvez se esclareça, esbatidos os calores das emoções.
Seguindo os passos de alguns outros países, entre os quais o da “católica Espanha”, lá entrou a vigor na lei portuguesa o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sem direito a adopção. Ficaram felizes uns milhares de indivíduos e ofendidos outros tantos (a ponto de estremecer o bloco de apoio à reeleição do presidente Cavaco). O PS e a esquerda acham que assim se tornam “modernos” e os partidos conservadores não bolem muito, quiçá para não afugentarem os lobbies da causa que trabalham também no seu interior. Mas pode-se adivinhar que a discriminação nos comportamentos sociais contra estas novas figuras vai provavelmente acentuar-se porque, como dizia um reputado sociólogo, “on ne change pas la société par décret”. A menos que o indiferentismo individualista e a anomia progridam a tal ponto na sociedade que as pessoas já só digam: “Desde que não me entrem em casa…”.

A explosão de uma torre de extracção petrolífera off-shore da BP, com o enorme derrame que há dois meses envenena as águas da costa sul dos Estados Unidos, parece constituir o maior desastre ambiental jamais sofrido por este país. O presidente americano já está a pedir contas àquele gigante multinacional da energia, no que tem toda a razão. Mas veremos se este tem capacidade financeira para responder às suas responsabilidades e não vai entrar em colapso, em mais um contributo para o agravamento das dificuldades económicas mundiais (a BP que, como as suas principais concorrentes, também investe imenso na investigação de energias alternativas aos combustíveis fósseis…). Em todo o caso, para além das responsabilidades precisas a apurar nesta circunstância, a catástrofe devia alertar-nos para os riscos inerentes a este tipo de exploração do fundo dos mares, com poços submarinos, encanamentos, enormes torres flutuantes ancoradas, etc. É que o mar, a natureza, quando se zanga, não respeita normas nem fronteiras!

E do mar veio também a última má surpresa para Israel. Uma “flotilha da paz” com militantes pró-palestinianos, apoiada pela Turquia, tentou forçar o bloqueio a Gaza e gerou um incidente bélico, com uma dezena de mortos e grande escândalo nos telejornais do mundo. Por “produtivo” (de efeitos políticos e emocionais desfavoráveis a Israel), o filão promete ser agora explorado por mais algum tempo, falando-se já em uma embarcação tripulada por nacionais israelitas opositores às políticas do governo hebraico.
Mas é a alteração da posição externa da Turquia (interessada também em pressionar a UE sobre as suas pretensões a entrar neste clube) que mais preocupa os analistas e observadores mais independentes nestas disputas. Ao apreciar a forma como as autoridades israelitas se terão deixado cair na armadilha que lhes foi montada, o escritor Amos Oz terá dito: “Estamos a ficar burros?” E Jorge Almeida Fernandes (Público, 1.Junho.2010) titulou assim o seu texto: “Bibi e Barak fabricam um desastre internacional”. Irão agravar-se as coisas nesta frente?
JF / 12.Jun.2010

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quinta-feira, 3 de junho de 2010

É bem preciso conhecer-se (conhecermos) a história o mais completa possível do movimento operário português e, nele, a história fabulosa do Movimento Sindicalista-Revolucionário e do Anarco-Sindicalismo.
Mesmo para aqueles que, como eu, não se consideram patriotas ou nacionalistas, antes cidadãos-do-mundo, é bom, é benéfico, é reconfortante mergulhar na história colectiva e nas histórias individuais daquela gente tão modesta e, ao mesmo tempo, tão evoluída.
Esses, muitos, vaidosos e vaidosas que se pavoneiam em Portugal por terem conseguido comprar uma Casona de Praia, um Jeep, um Barcão de Recreio de Luxo, um Computador Para Cada Membro da Família, incluindo Cão e Gato, etc., etc., a maior parte das vezes com cartão de plástico ou com dinheiro não-seu mas que no fundo, bem no fundo, têm vergonha de serem portugueses, teriam (se os seus cérebros tivessem um mínimo de despoluição cultural) um gozo, uma vaidade sã, uma alegria enorme por terem existido uns milhares de homens e mulheres portugueses que tiveram/têm um valor moral e cultural muito acima dos considerados "portugueses de valor".
J.M.Colaço

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Os dias passam, cheios de poucas coisas

Enquanto se morre de guerra no Afeganistão ou no Iraque (um pouco menos), a Europa financeira e monetária prolonga-se na crise e Portugal parece andar anestesiado.
Da chicana política e parlamentar, já nem apetece falar. O governo, pela voz do primeiro-ministro ou do responsável das finanças, é forçado a manter um tom optimista, para não deprimir ainda mais as expectativas; se fizesse o contrário, todos os opinadores lhe cairiam em cima. Mas já poucos acreditam que as afirmações de hoje sejam mantidas no mês seguinte. Apesar de tudo, o novo líder do PSD tem marcado uns pontos de seriedade ao dispor-se a colaborar com o governo para enfrentar a gravíssima crise das finanças públicas (e de toda a economia portuguesa), pedindo cortes nas despesas, aceitando aumentos dos impostos e, enfim, alguma redução nos proventos dos mais altos dirigentes, não para atacar o problema económico, mas para dar o exemplo. Bendita crise! Já é alguma coisa. Mas não vai chegar.
É certo que o país gosta é de festas, emoções e polémicas (como aquela, insuperável de sabor, com que Mário Nogueira e Santana Castilho se têm digladiado ultimamente nas páginas do 'Público' acerca das últimas peripécias na educação). Mas dizia há dias um adepto benfiquista que a vitória das “águias” no campeonato interno da bola ia dar alegria aos portugueses durante uma semana. É pouco. Mais tempo durará a incerteza gostosa dos resultados dos futebolistas lusos no próximo “mundial” – veremos se com momentos emocionantes proporcionados por Ronaldo e companheiros, ou com falhanços de que o único responsável será o “professor” Carlos Queiroz (É que nem todos são Mourinhos). Mas nem a vista do Papa – momento de fé para uns, espectáculo com demasiada encenação para outros – foi capaz de nos livrar da última subida de impostos e outras medidas de austeridade que a nossa proverbial inconsciência tornou inevitáveis. Até quando?
JF/13.Maio.2010

domingo, 2 de maio de 2010

1ª República: Questão laboral ou questão social?

Há um século, a Monarquia aprestava-se a sair de cena, e a República a ser proclamada em Lisboa, com entusiasmo popular semelhante ao do 25 de Abril de 1974.
Entre as forças sociais que aplaudiam ou observavam esperançosas o desempenho do novo regime encontrava-se o movimento operário, essencialmente consubstanciado num sindicalismo de acção vigorosa no seu campo de luta e afirmação próprio: directamente contra o patronato, através da greve e da solidariedade entre “irmãos de classe”; alheando-se da política e olhando as instituições estatais com reserva ou hostilidade; e confiando que não estaria longe a “aurora redentora” de uma grande transformação do mundo, operada no campo social, que pusesse a economia ao serviço de todos, abolisse as guerras e dispensasse os profissionais do uso da violência e do poder.
Tais esperanças vieram rapidamente a revelar-se ilusórias – tanto no plano doméstico como internacionalmente – mas a força e genuinidade desse movimento merece ainda hoje ser recordada, sobretudo para assinalar como, na prática, os ideais da República foram incapazes de responder aos anseios desse povo laborioso das oficinas, das fábricas e dos campos.
Mais do que lutar por condições de trabalho e de vida melhoradas, essa gente aspirava a uma superação do seu estatuto secundário e subordinado na vida social do Portugal de então. Eram os porta-vozes de reivindicações seculares de dignidade humana. Por isso, o movimento operário de inspiração anarco-sindicalista de então não apenas punha na ordem do dia problemas concretos de ordem laboral – melhoria de salários, redução da duração do trabalho, etc. – como, sobretudo, exprimia a questão social dessa época: não mais “amos e escravos”, “não mais deveres sem direitos, nem direitos sem deveres”. Uma boa mensagem.
João Freire
(texto solicitado pelo Jornal de Notícias para sair a 1/5/2010, mas não publicado, certamente por chegada tardia)

1º de Maio

Por cortesia de Claude Moreira (em Londres):
a..
b.. SINDICALISMO A LA CUBANA
c.. Solamente hay una federación laboral en Cuba. Es la Central de
Trabajadores de Cuba (CTC) organizada y controlada por el gobierno Cubano.
d.. Todos los obreros tienen que ser miembros de la CTC (aunque no
quieran) y pagarle contribuciones. (Como em Portugal durante o Fascismo)
e.. "Elecciones" obreras se celebran periódicamente, pero solamente pueden
competir en ellas los candidatos que el Partido Comunista de Cuba apruebe.
f.. No hay en Cuba negociaciones laborales ni colectivas ni individuales.
g.. Los obreros no pueden cambiar de empleo sin el permiso del gobierno.
h.. La inmensa mayoría de las empresas de negocios, agrícolas e
industriales son propiedad del gobierno y la mayoría de los cubanos trabajan
para el Estado.
i.. Todos los salarios los fija arbitrariamente el Estado.
j.. Los obreros son empleados, disciplinados y despedidos por el gobierno.
k.. Las compañías extranjeras con negocios en Cuba tienen que solicitar
sus obreros al gobierno. No pueden contratar ni despedir por su cuenta a los
trabajadores sin la aprobación de ese gobierno.
l.. Las compañías extranjeras pagan al gobierno en moneda extranjera
fuerte (por ejemplo, en dólares canadienses, euros, etc.). El gobierno paga
el salario de los obreros cubanos en pesos cubanos, que valen 1/20 de la
moneda extranjera y se embolsilla el 90 por ciento de cada dólar que recibe.
m.. Todos los trabajadores en la industria turística o en cualquier otra
industria que entra en contacto con los extranjeros son cuidadosamente
seleccionados por el gobierno. Trabajadores de tez mas clara o los que son
leales a la revolución son los escogidos para trabajar en hoteles, complejos
turísticos, y otros destinos turísticos.
n.. El régimen cubano da contratos de médicos, pintores, músicos,
taberneros, etc., a gobiernos extranjeros y a compañías del extranjero.
Usualmente estos cubanos residen seis meses en los países extranjeros y se
les paga en moneda fuerte. Sin embargo, los empleadores descuentan el 40 por
ciento de sus salarios para enviarlo al régimen totalitario de Fidel Castro.
o.. Todo arbitraje laboral tiene que efectuarse en caprichosas y corruptas
oficinas del gobierno donde el obrero recibe muy poca protección. No hay un
sistema judicial independiente en la Isla y todos los jueces son nombrados
por el gobierno y trabajan para el gobierno.

* Desde 1960 que não houve uma única greve legal em Cuba.


p.. WWW.CUBANUESTRA.NU

domingo, 4 de abril de 2010

Páscoa

Os judeus celebram nesta época a fuga do Egipto, a caminho da terra prometida. Os cristãos, a morte e ressurreição de Jesus. Em certos países influenciados por esta última religião (Filipinas, México…) praticam-se rituais populares de mortificação, significando o desejo de passagem para uma vida renovada. Enquanto isto, as sociedades ocidentais aproveitam para mais um fim-de-semana prolongado de lazer. Este ano, a hierarquia da Igreja de Roma pede desculpa pelos pecados de pedofilia. E os órgãos de informação de massa fazem o seu trabalho de espevitar a contradição e o conflito, para manter as audiências.
Vasco Pulido Valente tem razão em vir lembrar, no ‘Público’, que os pecados e crimes da Igreja ao longo da história, a sua conivência com o massacre, por acção e omissão, são bem mais graves do que os comportamentos desviantes dos pastores, e é talvez isso que leva o Papa a estes gestos públicos.
Mas se os rabinos se indignam justamente com a comparação feita destas denúncias com “o pior do anti-semitismo” (e VPV recorda muito bem o papel histórico de Roma nesse clima), também se descortina alguma sanha anti-clerical nos actuais ataques ao catolicismo, que tem sido, apesar de tudo, a grande religião que mais tem evoluído nas décadas recentes e mais tem reconhecido os erros do passado. E não parece fácil para o islamismo evoluir e compatibilizar-se com o mundo moderno, como seria desejável que o fizesse.
O filósofo racionalista Bertrand Russel criticou o papel histórico do cristianismo, sobretudo porque este “santificou o ódio e a intolerância”. Hoje, não tenho a certeza deste género de balanço histórico. Conheço mal as religiões orientais (induismo, budismo e confucionismo, sobretudo) mas, pelo que toca às mediterrânicas, tendo a pensar mais num efeito ambivalente: por um lado, é certo que foram culpadas de muitos malefícios (e ainda mais aquelas que, como a cristã e a islâmica, exerceram um poder temporal); mas, por outro lado, terão tido um efeito “disciplinador” para conter a bestialidade latente em sociedades onde o direito e cidadania ainda não haviam chegado. Além disto, o mundo contemporâneo também parece mostrar-nos que a “civilização” é facilmente compatível com (ou até pode estimular) os mais perversos comportamentos humanos.
Daí a minha conclusão de que, independentemente do grau de evolução, é indispensável a existência de uma moral (sentido do bem e do mal) que impregne os valores da vida social – e ainda mais quando vivemos (felizmente) numa sociedade laica. Por tal, não dou razão aos que confundem isto com “moralismo” ou acham que se trata de meras referências “judaico-cristãs”.
JF/ 4.Abril.2010

sexta-feira, 26 de março de 2010

PEC – 1ª parte

Toda a gente sabe que, mais coisa menos coisa, as medidas do PEC são inevitáveis e indispensáveis. Mas a lógica da oposição partidária leva a que ninguém queira “fazer má figura” perante os seus (correligionários, mandantes, eleitores, etc.). Por isso são “contra”.
Ontem, no parlamento, ao PSD salvou-o o facto da dra. Manuela Ferreira Leite já estar de saída e não poder ser prejudicada com a abstenção da sua bancada ao documento do governo (que, se calhar, comprometeu definitivamente as hipóteses de Aguiar Branco lhe suceder).
E ao PS, ajudou-o bastante a notícia divulgada horas antes (coincidência…) de que a agência de rating Fitch tinha acabado de penalizar Portugal, por “mau pagador das dívidas”.
Com um primeiro-ministro fragilizadíssimo com os ataques pessoais sucessivos de que tem vindo a ser alvo (e para os quais ele parece contribuir generosamente), um PR insondável e uma representação parlamentar como aquela que temos, continuamos muito longe de ver surgir na sociedade a criação de uma onda de vontade colectiva para fazer face aos trementos problemas económicos que Portugal enfrenta.
Por isso, é quase certo que haverá um PEC-II e talvez um PEC-III, com uma crise política pelo meio, para evitar que se chegue a algum “plano de falência”. E não se vislumbra qualquer sinal, nem de recuperação sustentatada da nossa base económica, nem de recomposição política das escolhas do eleitorado – o que até pode ser um sinal de prudência e bom senso, mas exigiria da classe política uma capacidade de entendimento e de regeneração que ela dá mostras claras de não possuir.
JF / 26.Março.2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

Dois artigos de opinião hoje inseridos no “Público” (15.Março, 2010, p. 41) merecem ser divulgados. Num (intitulado “Redes sociais não, obrigado”), o médico psiquiatra Pedro Afonso alerta para os perigos e malefícios das “redes sociais” da Internet. Entre outras coisas, escreve: “[…] parece existir uma busca pela auto-valorização e uma necessidade exibicionista de atenção e admiração. Esta última característica torna-se bem visível pela forma como se arrecada ‘amigos’, aos milhares, como se fossem troféus de caça social. Portanto, na amizade, desvalorizou-se a qualidade para se dar primazia à quantidade […]. As redes sociais [da Internet] favorecem o empobrecimento do relacionamento social – criando-se novas formas de solidão – porque as relações pessoais reais são mais ricas e profundas. […] Este é um sinal preocupante de desumanização da nossa sociedade uma vez que esta emigração maciça para o mundo virtual pode revelar-se como o início de uma psicose colectiva: como esta realidade não é conveniente, as pessoas refugiam-se noutra imaginária. O crescimento vertiginoso das redes sociais demonstra que o Homem, outrora sonhador, com ideias e valores, está a capitular. Desistiu de lutar por uma sociedade melhor, cedeu ao facilitismo e renunciou viver neste mundo. […]”.
No outro texto (“Vida, morte e dignidade”), o juiz Pedro Vaz Pato sustenta com ponderosas razões a sua oposição à eutanásia e ao auxílio ao suicídio: “[…] O princípio aqui em jogo é o da inviolabilidade e indisponibilidade da vida humana […] direitos humanos fundamentais, que as primeiras históricas declarações sempre afirmaram como ‘inalienáveis’, isto é, dotados de um valor objectivo e independente da vontade do seu titular.[…]”.
Pode-se, e deve-se, discutir cada uma destas teses, mas é certo que qualquer dos opinadores contribui de modo relevante para tal.
JF / 15.Março.2010

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