Como em tantos outros domínios, é importante preservar marcas ilustrativas do património (material e imaterial) de culturas que a vida moderna destruiu, como é o caso das culturas marítimas, particularmente num país como Portugal. Embarcações, artes de pesca e modos de vida das comunidades piscatórias; faróis costeiros e obras portuárias de atracação e de construção de navios; tecidos urbano-ribeirinhos onde se faziam as trocas de comércio e de convívio dos embarcadiços com a terra; museus náuticos e armas navais, etc. – de tudo isso é preciso cuidar um pouco para que restem memórias vivas das grandezas e misérias do passado.
A “Marinha do Tejo” é uma iniciativa da sociedade civil para ajudar a conservar esse património, referindo-se em particular às embarcações de vela tradicionais que no passado sulcavam este grande rio, pescando ou transportando cargas e pessoas, e de que existem ainda algumas dezenas de exemplares de diferentes tipos.
Ontem, mais de uma vintena desses veleiros sulcaram as águas do Tejo, entre o Parque das Nações e o cais da Moita, numa regata amigável em comemoração do centenário da República.
Felizmente, já não se pode dizer “Que pena me faz ver este Tejo […] sem que nele naveguem aos milhares, sob um céu incomparável, os filhos deste país de marinheiros”.
Mas esta iniciativa foi apenas vista directamente e usufruída por algumas centenas de pessoas, o que é pouco para o significado que ela encerra e diz muito do que ainda falta fazer neste domínio.
JF / 30.Ago.2010
Contribuidores
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
Incêndios florestais: mexidas que se impõem no direito de propriedade
Com mais um Verão de elevadas temperaturas, aí voltou o flagelo dos incêndios nas florestas. Os prejuízos são muitos, de vária natureza e suficientemente conhecidos. Os beneficiários, talvez alguns, que não deviam ficar a rir-se.
A estratégia seguida pelos sucessivos governos de melhorar os meios de resposta e socorro é provavelmente indispensável mas não resolverá nunca o problema (à parte o fortalecimento do ego dos bombeiros e a satisfação de alguns interesses acoitados no fornecimento de equipamentos e na prestação desses serviços).
Parece certo que há, em Portugal, floresta A MAIS, resultado do interesse dos proprietários e utilizadores industriais dos produtos lenhosos e do laxismo das políticas do Estado neste domínio. Por outro lado, a rarefação e envelhecimento das populações rurais tornaram já impossível que sejam elas a cuidar dos seus pinhais e eucaliptais.
Como é impensável entre nós uma apropriação estatizante dos solos rurais, parece evidente que uma gestão apropriada e racional da importante riqueza florestal do país terá que ser feita na base de empresas especializadas, com escala económica suficiente mas também em relação de proximidade com os terrenos e os seus proprietários, em concorrência entre si e em regime de concessão de exploração por determinado número de anos, impondo ainda os poderes públicos as condições ecológicas, silvícolas e de segurança mais adequadas a cada região.
Os proprietários que não quisessem ou pudessem proceder à exploração das suas matas (nos mesmos termos tecnicamente aconselhados), teriam de consentir – por via de imposição legislativa, já se vê – que ela fosse executada pelas tais empresas concessionárias, recebendo uma quota-parte justa dos resultados dessa actividade económica: uma espécie de arrendamento forçado. Os direitos essenciais da propriedade privada – a venda, a herança, a exploração própria, etc. – seriam mantidos, mas não seria mais consentida a POSSE DESLEIXADA OU DESORDENADA.
Todos os direitos têm os seus limites, quando conflituam com outros direitos igualmente legítimos. Porque é que isso não haveria de aplicar-se neste caso em que, além de pessoas e bens concretamente ameaçados e destruídos, sobrelevam ainda interesses sociais e ambientais de toda a colectividade?
JF / 22.Ago.2010
A estratégia seguida pelos sucessivos governos de melhorar os meios de resposta e socorro é provavelmente indispensável mas não resolverá nunca o problema (à parte o fortalecimento do ego dos bombeiros e a satisfação de alguns interesses acoitados no fornecimento de equipamentos e na prestação desses serviços).
Parece certo que há, em Portugal, floresta A MAIS, resultado do interesse dos proprietários e utilizadores industriais dos produtos lenhosos e do laxismo das políticas do Estado neste domínio. Por outro lado, a rarefação e envelhecimento das populações rurais tornaram já impossível que sejam elas a cuidar dos seus pinhais e eucaliptais.
Como é impensável entre nós uma apropriação estatizante dos solos rurais, parece evidente que uma gestão apropriada e racional da importante riqueza florestal do país terá que ser feita na base de empresas especializadas, com escala económica suficiente mas também em relação de proximidade com os terrenos e os seus proprietários, em concorrência entre si e em regime de concessão de exploração por determinado número de anos, impondo ainda os poderes públicos as condições ecológicas, silvícolas e de segurança mais adequadas a cada região.
Os proprietários que não quisessem ou pudessem proceder à exploração das suas matas (nos mesmos termos tecnicamente aconselhados), teriam de consentir – por via de imposição legislativa, já se vê – que ela fosse executada pelas tais empresas concessionárias, recebendo uma quota-parte justa dos resultados dessa actividade económica: uma espécie de arrendamento forçado. Os direitos essenciais da propriedade privada – a venda, a herança, a exploração própria, etc. – seriam mantidos, mas não seria mais consentida a POSSE DESLEIXADA OU DESORDENADA.
Todos os direitos têm os seus limites, quando conflituam com outros direitos igualmente legítimos. Porque é que isso não haveria de aplicar-se neste caso em que, além de pessoas e bens concretamente ameaçados e destruídos, sobrelevam ainda interesses sociais e ambientais de toda a colectividade?
JF / 22.Ago.2010
sábado, 24 de julho de 2010
Ainda Espanha
J., lindo texto sobre a minha querida España. Este sentimento contraditório de pertença e diferença, que une e desune desde tempos imemoriais esta nossa vizinha que, por vezes, procurou em nós a forma de fazer esquecer os problemas que leva dentro de si. Nós pelo contrário pobrezinhos e tristes, cunhados no complexo de Édipo que nos gerou, acabámos embalados por brandos costumes, falta de ambição e querer, apaziguados pelo destino que Deus por Sua glória nos entendeu conceder neste mundo – também aqui o futebol serve às mil maravilhas para nos comparar e distinguir – que as nossas touradas sempre foram menos sanguinolentas é certo – coisas de gente chique e não do vil e reles povo – mas em compensação bem menos nobres… O nosso tempo de glória e conquista tem fogachos, acendalhas de bravura e feitos históricos, momentos de orgulho e depressão nacional (e nisto também nada termos de hermanos, por supuesto).
Mas o risco de implosão não vem só do lado, vem de todos os lados. Todos nós estamos sobre o barril de pólvora da implosão. Eu apoio o Senhor Zapatero por brindar “não as supostas vanguardas com medidas de ruptura cultural que ofenderam a população mais tradicional, a igreja católica ou o mundo taurino, e inquietaram o exército”, mas toda a España. Mais convicto e verdadeiro a este propósito que o seu congénere português a quem esse efeito de diversión politica, efectivamente, se aplica. O Senhor Sócrates nisto e em tudo o mais só é comparável com uma espécie de mau remake do Senhor Zapatero, exemplar made in China. A transição democrática dos nossos vizinhos foi bonita mas não teve cravos vermelhos. Em contrapartida não cometeu os excessos próprios das utopias revolucionárias, não mandou capitalistas para a prisão nem perseguiu MRPPs que estão agora bem na vida, ou no PS ou PSD (recuperaram bastante bem do cárcere, portanto), não provocou a fuga de fortunas para o Brasil e não deixou como relíquia um PC à moda antiga. Parece que ao fim e ao cabo de todos foram estes os menos molestos Mas do outro lado da fronteira, depois de tudo, ainda ficou um Tejero, veio ao de cima a verdadeira natureza violenta do macho ibérico e à Igreja uma herança de bens infindos de poder transcendental e terrenal. De padres e freiras ainda não consta que haja escassez, tal a dimensão do stock acumulado. Ainda bem, pois, que as medidas de Zapatero ofenderam a população mais tradicional, porque a população mais tradicional ofendeu e quer continuar a ofender o respeito pelos mais elementares Direitos Humanos. A população tradicional de que falas só podem ser os filhos e filhas, bons e maus, de Falanguistas e de monseñor Josemaria Escrivá de Balaguer.
Uma última palavra para a Europa. Que se cuide sim, estou de acordo contigo. Porque nacionalismos e extremismos não faltam por ai. Não só em España mas por todo o lado e onde não existirem eles nascerão. Mas a culpa não é das nações europeias (eu defendo as nações europeias e ibéricas), elas ressurgirão, por todo o lado, uma e outra vez, como os talibãs. Alimentaram-se quando à “Europa” deu jeito – e à América – nas ex-Repúblicas Soviéticas, não esqueçamos, com a nossa ajuda, grande irresponsabilidade e não menor cinismo. Nisto o modelo europeu é um péssimo modelo…. Somos todos chineses!!! Mas elas estão também para cá do muro de Berlim, é bom não esquecer. Não desaparecerão, estão ai e não merece a pena metê-las debaixo do tapete. E isto não é só um problema de economia expansiva, é um problema de governança ou falta dela na Europa. Enquanto esta Europa e já agora a economia mundial continuar a ser governada pelos mercados e figuras como o Senhor Barroso, Merkel, Cameron, Berlusconi (ao Sócrates perdou-o porque já não governa) e Cª, a implosão não mora ao lado, mora por todo o lado.
Vítor Peña Ferreira / 22.Julho.2010
Mas o risco de implosão não vem só do lado, vem de todos os lados. Todos nós estamos sobre o barril de pólvora da implosão. Eu apoio o Senhor Zapatero por brindar “não as supostas vanguardas com medidas de ruptura cultural que ofenderam a população mais tradicional, a igreja católica ou o mundo taurino, e inquietaram o exército”, mas toda a España. Mais convicto e verdadeiro a este propósito que o seu congénere português a quem esse efeito de diversión politica, efectivamente, se aplica. O Senhor Sócrates nisto e em tudo o mais só é comparável com uma espécie de mau remake do Senhor Zapatero, exemplar made in China. A transição democrática dos nossos vizinhos foi bonita mas não teve cravos vermelhos. Em contrapartida não cometeu os excessos próprios das utopias revolucionárias, não mandou capitalistas para a prisão nem perseguiu MRPPs que estão agora bem na vida, ou no PS ou PSD (recuperaram bastante bem do cárcere, portanto), não provocou a fuga de fortunas para o Brasil e não deixou como relíquia um PC à moda antiga. Parece que ao fim e ao cabo de todos foram estes os menos molestos Mas do outro lado da fronteira, depois de tudo, ainda ficou um Tejero, veio ao de cima a verdadeira natureza violenta do macho ibérico e à Igreja uma herança de bens infindos de poder transcendental e terrenal. De padres e freiras ainda não consta que haja escassez, tal a dimensão do stock acumulado. Ainda bem, pois, que as medidas de Zapatero ofenderam a população mais tradicional, porque a população mais tradicional ofendeu e quer continuar a ofender o respeito pelos mais elementares Direitos Humanos. A população tradicional de que falas só podem ser os filhos e filhas, bons e maus, de Falanguistas e de monseñor Josemaria Escrivá de Balaguer.
Uma última palavra para a Europa. Que se cuide sim, estou de acordo contigo. Porque nacionalismos e extremismos não faltam por ai. Não só em España mas por todo o lado e onde não existirem eles nascerão. Mas a culpa não é das nações europeias (eu defendo as nações europeias e ibéricas), elas ressurgirão, por todo o lado, uma e outra vez, como os talibãs. Alimentaram-se quando à “Europa” deu jeito – e à América – nas ex-Repúblicas Soviéticas, não esqueçamos, com a nossa ajuda, grande irresponsabilidade e não menor cinismo. Nisto o modelo europeu é um péssimo modelo…. Somos todos chineses!!! Mas elas estão também para cá do muro de Berlim, é bom não esquecer. Não desaparecerão, estão ai e não merece a pena metê-las debaixo do tapete. E isto não é só um problema de economia expansiva, é um problema de governança ou falta dela na Europa. Enquanto esta Europa e já agora a economia mundial continuar a ser governada pelos mercados e figuras como o Senhor Barroso, Merkel, Cameron, Berlusconi (ao Sócrates perdou-o porque já não governa) e Cª, a implosão não mora ao lado, mora por todo o lado.
Vítor Peña Ferreira / 22.Julho.2010
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Espanha, de Julho a Julho
Ontem, dia 18, os franquistas e o seu regime festejavam o “alzamiento”. Hoje, dia 19, os antifascistas celebram o levantamento popular das esquerdas que, em Madrid, Barcelona e outras cidades, travou o que estava planeado como devendo ser um golpe-de-estado militar, em 1936. É certo que se tratou de um genuíno gesto de revolta de séculos do povo deserdado contra a altivez e o desprezo que lhe votavam os “grandes de Espanha”, mas também aí se deu início a uma sangrenta guerra civil que se tornou num campo de manobras internacionais.
Com quatro décadas de ditadura e três de democracia, a Espanha voltou a ser um grande país na cena europeia. Tem recursos e condições para isso, mas também a espreitam algumas velhas ameaças: acima de tudo, a intolerância e o confronto.
Ao mesmo tempo que a despolitização cresce na população e o orgulho hispânico se enche com amplas realizações e ambições de grandeza, os nacionalismos internos, a luta partidária e a memória do franquismo trabalham, pelo contrário, para a desagregação e o enfraquecimento do próprio quadro europeu, no seu conjunto.
No meio da alegria dos campeões futebolísticos logo se viu a bandeira catalã exibida por dois dos seus jogadores. E na véspera, milhares de militantes haviam enchido as ruas de Barcelona para protestar com palavras fortes contra o tribunal constitucional que acabara de negar à região o termo de “nación”, mantendo o actualmente consagrado de “nacionalidad”.
Enquanto a economia foi expansiva (mesmo quando assentava em bases financeiras frágeis, como agora se vê, mas já antes os escândalo imobiliários prenunciavam), a esquerda-PSOE pôde brindar certas supostas vanguardas sociais com medidas de ruptura cultural que ofenderam a população mais tradicional, a igreja católica ou o mundo taurino, e inquietaram o exército. Mas agora que o desemprego voltou aos 20% e que a imigração se sentirá mais ameaçada, não vão bastar as “movidas” que entretêm os jovens, os filmes de Almodovar ou as enebriantes celebrações dos “campeones”.
O juiz Garzón mostrou já sobejamente o seu espírito independente ao tentar incriminar Pinochet e, simultaneamente, não ceder às manobras dos “etarras”. Mas o seu “caso” de agora já foi apanhado pela máquina trituradora da luta política que vem animando a questão da “memória histórica” da guerra civil e da ditadura franquista.
É bom que se redescubra e reconheça o passado sem os preconceitos próprios dos vários contendores. É justo que se dignifique, por igual, a memória de todos os que tombaram e sofreram em condições de grande infelicidade colectiva. Mas deve cuidar-se que tal não seja o pretexto para relançar novas dinâmicas conflituais e destrutivas. O lado mais negro e triste do passado deve guiar-nos para evitar que façamos novas asneiras.
JF/19.Jul.2010
Com quatro décadas de ditadura e três de democracia, a Espanha voltou a ser um grande país na cena europeia. Tem recursos e condições para isso, mas também a espreitam algumas velhas ameaças: acima de tudo, a intolerância e o confronto.
Ao mesmo tempo que a despolitização cresce na população e o orgulho hispânico se enche com amplas realizações e ambições de grandeza, os nacionalismos internos, a luta partidária e a memória do franquismo trabalham, pelo contrário, para a desagregação e o enfraquecimento do próprio quadro europeu, no seu conjunto.
No meio da alegria dos campeões futebolísticos logo se viu a bandeira catalã exibida por dois dos seus jogadores. E na véspera, milhares de militantes haviam enchido as ruas de Barcelona para protestar com palavras fortes contra o tribunal constitucional que acabara de negar à região o termo de “nación”, mantendo o actualmente consagrado de “nacionalidad”.
Enquanto a economia foi expansiva (mesmo quando assentava em bases financeiras frágeis, como agora se vê, mas já antes os escândalo imobiliários prenunciavam), a esquerda-PSOE pôde brindar certas supostas vanguardas sociais com medidas de ruptura cultural que ofenderam a população mais tradicional, a igreja católica ou o mundo taurino, e inquietaram o exército. Mas agora que o desemprego voltou aos 20% e que a imigração se sentirá mais ameaçada, não vão bastar as “movidas” que entretêm os jovens, os filmes de Almodovar ou as enebriantes celebrações dos “campeones”.
O juiz Garzón mostrou já sobejamente o seu espírito independente ao tentar incriminar Pinochet e, simultaneamente, não ceder às manobras dos “etarras”. Mas o seu “caso” de agora já foi apanhado pela máquina trituradora da luta política que vem animando a questão da “memória histórica” da guerra civil e da ditadura franquista.
É bom que se redescubra e reconheça o passado sem os preconceitos próprios dos vários contendores. É justo que se dignifique, por igual, a memória de todos os que tombaram e sofreram em condições de grande infelicidade colectiva. Mas deve cuidar-se que tal não seja o pretexto para relançar novas dinâmicas conflituais e destrutivas. O lado mais negro e triste do passado deve guiar-nos para evitar que façamos novas asneiras.
JF/19.Jul.2010
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Dez nomes portugueses marcantes do Séc. XX
D. Carlos de Bragança – último rei de Portugal, interventor na governação e que acabou assassinado no Terreiro do Paço.
Afonso Costa – o inteligente promotor da República jacobina, modernizadora-à-força, anti-clerical e “racha-sindicalistas”.
Oliveira Salazar – o homem das finanças-em-ordem e da “ordem nas ruas” que dirigiu Portugal durante quase meio-século.
Álvaro Cunhal – o corporizador da uma imaginária contra-sociedade, comunista e de “mão-de-ferro”.
Mário Soares – inquebrantável e astuto político, que orientou o país para a Europa.
Gago Coutinho – uma vida vida simples e venturosa, de republicano e homem do mar, sobrevoando os Atlânticos.
Fernando Pessoa – o indefinível e inencontrável, salvo nas palavras.
Eusébio – ícone da bola e do Portugal africano.
José Saramago – o anjo vermelho da escrita.
A “Senhora de Fátima” – mito sagrado que congregou milhões.
JF/9.Julho.2010
Afonso Costa – o inteligente promotor da República jacobina, modernizadora-à-força, anti-clerical e “racha-sindicalistas”.
Oliveira Salazar – o homem das finanças-em-ordem e da “ordem nas ruas” que dirigiu Portugal durante quase meio-século.
Álvaro Cunhal – o corporizador da uma imaginária contra-sociedade, comunista e de “mão-de-ferro”.
Mário Soares – inquebrantável e astuto político, que orientou o país para a Europa.
Gago Coutinho – uma vida vida simples e venturosa, de republicano e homem do mar, sobrevoando os Atlânticos.
Fernando Pessoa – o indefinível e inencontrável, salvo nas palavras.
Eusébio – ícone da bola e do Portugal africano.
José Saramago – o anjo vermelho da escrita.
A “Senhora de Fátima” – mito sagrado que congregou milhões.
JF/9.Julho.2010
sábado, 19 de junho de 2010
Desapareceu o Anjo Vermelho
Aos 87 anos, José Saramago fechou os olhos, parece que serenamente. Com ele, desaparece um enorme escritor e uma testemunha dos grandes conflitos do nosso tempo, uma figura portuguesa que ganhou dimensão mundial.
Mesmo para quem não apreciava a sua escrita desregrada e acha que ela contribuiu para o desaprender do texto das novas gerações, mas reconhece a sua fantástica capacidade inventiva e de construção romanesca.
Mesmo para quem se situa nos antípodas das suas convicções políticas, mas não deixou de notar algumas suas rebeldias pontuais contra a ordem autoritária e dogmática a que aderiu.
Mesmo para quem vê a Pilar del Rio como uma criatura talvez fanática mas que, 28 anos mais nova do que Saramago, soube construir com ele uma vida amorosa, descobrindo a sua paz de Lanzarote e respeitando-o como era.
Mesmo para quem, olhando ontem à noite na TV as suas imagens, lhe descobre facilmente o pequeno sorriso triunfante – sobre os outros, sobre os adversário e o mundo, e sobretudo sobre os ricos e poderosos – no cenário das vénias e dos dourados de Estocolmo.
Mesmo para quem bem lhe entende a permanente lembrança dos seus anos pobres da Azinhaga e da Lisboa de meio-do-século e os traços auto-biográficos que deixou espalhados em memórias, palavras registadas e histórias efabuladas, mas desconfia do sentido da sua revolta social.
Mesmo para quem, e são muitos, lhe aponta a religiosidade simétrica que o opõe ao Deus dos católicos e desse jogo tende a distanciar-se.
De todos sai o reconhecimento e o respeito conquistado por esse humilde e inteligente trabalhador, do cérebro que procura e cintila, e da mão que labuta e tecla as palavras adequadas.
JF / 19.Jun.2010
Mesmo para quem não apreciava a sua escrita desregrada e acha que ela contribuiu para o desaprender do texto das novas gerações, mas reconhece a sua fantástica capacidade inventiva e de construção romanesca.
Mesmo para quem se situa nos antípodas das suas convicções políticas, mas não deixou de notar algumas suas rebeldias pontuais contra a ordem autoritária e dogmática a que aderiu.
Mesmo para quem vê a Pilar del Rio como uma criatura talvez fanática mas que, 28 anos mais nova do que Saramago, soube construir com ele uma vida amorosa, descobrindo a sua paz de Lanzarote e respeitando-o como era.
Mesmo para quem, olhando ontem à noite na TV as suas imagens, lhe descobre facilmente o pequeno sorriso triunfante – sobre os outros, sobre os adversário e o mundo, e sobretudo sobre os ricos e poderosos – no cenário das vénias e dos dourados de Estocolmo.
Mesmo para quem bem lhe entende a permanente lembrança dos seus anos pobres da Azinhaga e da Lisboa de meio-do-século e os traços auto-biográficos que deixou espalhados em memórias, palavras registadas e histórias efabuladas, mas desconfia do sentido da sua revolta social.
Mesmo para quem, e são muitos, lhe aponta a religiosidade simétrica que o opõe ao Deus dos católicos e desse jogo tende a distanciar-se.
De todos sai o reconhecimento e o respeito conquistado por esse humilde e inteligente trabalhador, do cérebro que procura e cintila, e da mão que labuta e tecla as palavras adequadas.
JF / 19.Jun.2010
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Bola, África e o mundo que vivemos
Os espectáculos futebolísticos do campeonato mundial na África do Sul mantêm entretidos durante algumas semanas milhões de tele-espectadores e fazem exultar o povo desse país. Para desagrado de alguns, o futebol tornou-se um fenómeno universal que diz muito acerca do nosso (baixo) grau de civilização mas que também nos igualiza nestas momentâneas ansiedades e emoções do jogo, que talvez substitua a guerra e outros impulsos de destruição.
Em meados dos anos 60, tendo já visitado as Américas, dois dos países “d’além-cortina de ferro”, as Áfricas e algumas das nações europeias, formulei reflectidamente a convicção de que seria na República da África do Sul que o mundo iria assistir, no final do século XX, às mais raivosas “lutas-de-classes”: aquelas que oporiam brancos e negros, no país mais desenvolvido de todo o continente (graças sobretudo ao esforço dos primeiros). Não supunha é que esse momento viesse a coincidir com o desabar do “socialismo real” nem que a transição fosse, afinal, tão pacífica. Honra e reconhecimento sejam prestados a Nelson Mandela pelo papel que então desempenhou no apaziguamento de paixões, tal como de resto à inteligência política de De Clerk para conter e chamar à realidade a minoria branca. Mas ainda hoje tenho dificuldade em compreender como esse white power cedeu e o novo black power prescindiu da posse da arma nuclear, que para tantos chefes nacionais constitui o meio desejado para defender ou impor os seus interesses na cena internacional. Talvez aí tenha ainda pesado a convergência das duas super-potências, uma das quais se encontrava então em plena decomposição…
Em contrapartida, não alinho no coro laudatório universal a Mandela que tende (como sempre) a varrer da consciência das pessoas comuns os aspectos menos convenientes da sua actuação. Por exemplo: diz-se que Mandela penou 28 anos na prisão, o que é verdade e testemunha da resistência moral do homem, mas omite-se dizer que isso aconteceu por ele se ter tornado adepto da estratégia da luta armada (acções de guerrilha e sabotagem) decidida pelo ANC em 1961 (com apoio do bloco comunista) e que, antes, este velho partido africano tinha actividade legal, mesmo debaixo das leis do apartheid introduzidas a partir de 1948, quando o país se desligou definitivamente da tutela britânica. E esquece-se que, no plano internacional, Mandela tem sido sempre defensor dos nacionalismos africanos contra os ocidentais, mesmo dos líderes mais infrequentáveis como Kadhafi da Líbia ou Mugabe do Zimbabué. Em todo o caso, a sua acção deve ser considerada globalmente meritória. Mas não impediu que a legitimação e a habituação ao uso da violência tenham, depois da vitória da maioria negra, degenerado em altas taxas de criminalidade civil, nem que as enormes desigualdades económicas existentes no seio das populações sul-africanas também contribuam para esse ambiente pouco seguro que se vive em muitos dos seus espaços públicos.
Deixemos aos fans (abreviatura inglesa de fanáticos) dos partidos futebolísticos as suas exultações e as suas frustrações. Ganhará a taça certamente a equipa que mostrar mais capacidades em campo. Mas celebremos desde já a alegria com que tanta gente simples e comum – pretos, brancos, castanhos ou amarelos – é capaz de se entregar a este espectáculo lúdico e universal. Sem esquecer que amanhã é dia de trabalho.
JF/16.Jun.2010
Em meados dos anos 60, tendo já visitado as Américas, dois dos países “d’além-cortina de ferro”, as Áfricas e algumas das nações europeias, formulei reflectidamente a convicção de que seria na República da África do Sul que o mundo iria assistir, no final do século XX, às mais raivosas “lutas-de-classes”: aquelas que oporiam brancos e negros, no país mais desenvolvido de todo o continente (graças sobretudo ao esforço dos primeiros). Não supunha é que esse momento viesse a coincidir com o desabar do “socialismo real” nem que a transição fosse, afinal, tão pacífica. Honra e reconhecimento sejam prestados a Nelson Mandela pelo papel que então desempenhou no apaziguamento de paixões, tal como de resto à inteligência política de De Clerk para conter e chamar à realidade a minoria branca. Mas ainda hoje tenho dificuldade em compreender como esse white power cedeu e o novo black power prescindiu da posse da arma nuclear, que para tantos chefes nacionais constitui o meio desejado para defender ou impor os seus interesses na cena internacional. Talvez aí tenha ainda pesado a convergência das duas super-potências, uma das quais se encontrava então em plena decomposição…
Em contrapartida, não alinho no coro laudatório universal a Mandela que tende (como sempre) a varrer da consciência das pessoas comuns os aspectos menos convenientes da sua actuação. Por exemplo: diz-se que Mandela penou 28 anos na prisão, o que é verdade e testemunha da resistência moral do homem, mas omite-se dizer que isso aconteceu por ele se ter tornado adepto da estratégia da luta armada (acções de guerrilha e sabotagem) decidida pelo ANC em 1961 (com apoio do bloco comunista) e que, antes, este velho partido africano tinha actividade legal, mesmo debaixo das leis do apartheid introduzidas a partir de 1948, quando o país se desligou definitivamente da tutela britânica. E esquece-se que, no plano internacional, Mandela tem sido sempre defensor dos nacionalismos africanos contra os ocidentais, mesmo dos líderes mais infrequentáveis como Kadhafi da Líbia ou Mugabe do Zimbabué. Em todo o caso, a sua acção deve ser considerada globalmente meritória. Mas não impediu que a legitimação e a habituação ao uso da violência tenham, depois da vitória da maioria negra, degenerado em altas taxas de criminalidade civil, nem que as enormes desigualdades económicas existentes no seio das populações sul-africanas também contribuam para esse ambiente pouco seguro que se vive em muitos dos seus espaços públicos.
Deixemos aos fans (abreviatura inglesa de fanáticos) dos partidos futebolísticos as suas exultações e as suas frustrações. Ganhará a taça certamente a equipa que mostrar mais capacidades em campo. Mas celebremos desde já a alegria com que tanta gente simples e comum – pretos, brancos, castanhos ou amarelos – é capaz de se entregar a este espectáculo lúdico e universal. Sem esquecer que amanhã é dia de trabalho.
JF/16.Jun.2010
sábado, 12 de junho de 2010
Acontecimentos
Na sucessão de notícias repisadas sobre o andamento da economia (mau, já se sabe), alguns acontecimentos parecem destinados a ser lembrados no futuro, como marcos de qualquer coisa que mudou. Se para melhor ou para pior, é coisa que mais tarde talvez se esclareça, esbatidos os calores das emoções.
Seguindo os passos de alguns outros países, entre os quais o da “católica Espanha”, lá entrou a vigor na lei portuguesa o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sem direito a adopção. Ficaram felizes uns milhares de indivíduos e ofendidos outros tantos (a ponto de estremecer o bloco de apoio à reeleição do presidente Cavaco). O PS e a esquerda acham que assim se tornam “modernos” e os partidos conservadores não bolem muito, quiçá para não afugentarem os lobbies da causa que trabalham também no seu interior. Mas pode-se adivinhar que a discriminação nos comportamentos sociais contra estas novas figuras vai provavelmente acentuar-se porque, como dizia um reputado sociólogo, “on ne change pas la société par décret”. A menos que o indiferentismo individualista e a anomia progridam a tal ponto na sociedade que as pessoas já só digam: “Desde que não me entrem em casa…”.
A explosão de uma torre de extracção petrolífera off-shore da BP, com o enorme derrame que há dois meses envenena as águas da costa sul dos Estados Unidos, parece constituir o maior desastre ambiental jamais sofrido por este país. O presidente americano já está a pedir contas àquele gigante multinacional da energia, no que tem toda a razão. Mas veremos se este tem capacidade financeira para responder às suas responsabilidades e não vai entrar em colapso, em mais um contributo para o agravamento das dificuldades económicas mundiais (a BP que, como as suas principais concorrentes, também investe imenso na investigação de energias alternativas aos combustíveis fósseis…). Em todo o caso, para além das responsabilidades precisas a apurar nesta circunstância, a catástrofe devia alertar-nos para os riscos inerentes a este tipo de exploração do fundo dos mares, com poços submarinos, encanamentos, enormes torres flutuantes ancoradas, etc. É que o mar, a natureza, quando se zanga, não respeita normas nem fronteiras!
E do mar veio também a última má surpresa para Israel. Uma “flotilha da paz” com militantes pró-palestinianos, apoiada pela Turquia, tentou forçar o bloqueio a Gaza e gerou um incidente bélico, com uma dezena de mortos e grande escândalo nos telejornais do mundo. Por “produtivo” (de efeitos políticos e emocionais desfavoráveis a Israel), o filão promete ser agora explorado por mais algum tempo, falando-se já em uma embarcação tripulada por nacionais israelitas opositores às políticas do governo hebraico.
Mas é a alteração da posição externa da Turquia (interessada também em pressionar a UE sobre as suas pretensões a entrar neste clube) que mais preocupa os analistas e observadores mais independentes nestas disputas. Ao apreciar a forma como as autoridades israelitas se terão deixado cair na armadilha que lhes foi montada, o escritor Amos Oz terá dito: “Estamos a ficar burros?” E Jorge Almeida Fernandes (Público, 1.Junho.2010) titulou assim o seu texto: “Bibi e Barak fabricam um desastre internacional”. Irão agravar-se as coisas nesta frente?
JF / 12.Jun.2010
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Seguindo os passos de alguns outros países, entre os quais o da “católica Espanha”, lá entrou a vigor na lei portuguesa o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sem direito a adopção. Ficaram felizes uns milhares de indivíduos e ofendidos outros tantos (a ponto de estremecer o bloco de apoio à reeleição do presidente Cavaco). O PS e a esquerda acham que assim se tornam “modernos” e os partidos conservadores não bolem muito, quiçá para não afugentarem os lobbies da causa que trabalham também no seu interior. Mas pode-se adivinhar que a discriminação nos comportamentos sociais contra estas novas figuras vai provavelmente acentuar-se porque, como dizia um reputado sociólogo, “on ne change pas la société par décret”. A menos que o indiferentismo individualista e a anomia progridam a tal ponto na sociedade que as pessoas já só digam: “Desde que não me entrem em casa…”.
A explosão de uma torre de extracção petrolífera off-shore da BP, com o enorme derrame que há dois meses envenena as águas da costa sul dos Estados Unidos, parece constituir o maior desastre ambiental jamais sofrido por este país. O presidente americano já está a pedir contas àquele gigante multinacional da energia, no que tem toda a razão. Mas veremos se este tem capacidade financeira para responder às suas responsabilidades e não vai entrar em colapso, em mais um contributo para o agravamento das dificuldades económicas mundiais (a BP que, como as suas principais concorrentes, também investe imenso na investigação de energias alternativas aos combustíveis fósseis…). Em todo o caso, para além das responsabilidades precisas a apurar nesta circunstância, a catástrofe devia alertar-nos para os riscos inerentes a este tipo de exploração do fundo dos mares, com poços submarinos, encanamentos, enormes torres flutuantes ancoradas, etc. É que o mar, a natureza, quando se zanga, não respeita normas nem fronteiras!
E do mar veio também a última má surpresa para Israel. Uma “flotilha da paz” com militantes pró-palestinianos, apoiada pela Turquia, tentou forçar o bloqueio a Gaza e gerou um incidente bélico, com uma dezena de mortos e grande escândalo nos telejornais do mundo. Por “produtivo” (de efeitos políticos e emocionais desfavoráveis a Israel), o filão promete ser agora explorado por mais algum tempo, falando-se já em uma embarcação tripulada por nacionais israelitas opositores às políticas do governo hebraico.
Mas é a alteração da posição externa da Turquia (interessada também em pressionar a UE sobre as suas pretensões a entrar neste clube) que mais preocupa os analistas e observadores mais independentes nestas disputas. Ao apreciar a forma como as autoridades israelitas se terão deixado cair na armadilha que lhes foi montada, o escritor Amos Oz terá dito: “Estamos a ficar burros?” E Jorge Almeida Fernandes (Público, 1.Junho.2010) titulou assim o seu texto: “Bibi e Barak fabricam um desastre internacional”. Irão agravar-se as coisas nesta frente?
JF / 12.Jun.2010
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quinta-feira, 3 de junho de 2010
É bem preciso conhecer-se (conhecermos) a história o mais completa possível do movimento operário português e, nele, a história fabulosa do Movimento Sindicalista-Revolucionário e do Anarco-Sindicalismo.
Mesmo para aqueles que, como eu, não se consideram patriotas ou nacionalistas, antes cidadãos-do-mundo, é bom, é benéfico, é reconfortante mergulhar na história colectiva e nas histórias individuais daquela gente tão modesta e, ao mesmo tempo, tão evoluída.
Esses, muitos, vaidosos e vaidosas que se pavoneiam em Portugal por terem conseguido comprar uma Casona de Praia, um Jeep, um Barcão de Recreio de Luxo, um Computador Para Cada Membro da Família, incluindo Cão e Gato, etc., etc., a maior parte das vezes com cartão de plástico ou com dinheiro não-seu mas que no fundo, bem no fundo, têm vergonha de serem portugueses, teriam (se os seus cérebros tivessem um mínimo de despoluição cultural) um gozo, uma vaidade sã, uma alegria enorme por terem existido uns milhares de homens e mulheres portugueses que tiveram/têm um valor moral e cultural muito acima dos considerados "portugueses de valor".
J.M.Colaço
Mesmo para aqueles que, como eu, não se consideram patriotas ou nacionalistas, antes cidadãos-do-mundo, é bom, é benéfico, é reconfortante mergulhar na história colectiva e nas histórias individuais daquela gente tão modesta e, ao mesmo tempo, tão evoluída.
Esses, muitos, vaidosos e vaidosas que se pavoneiam em Portugal por terem conseguido comprar uma Casona de Praia, um Jeep, um Barcão de Recreio de Luxo, um Computador Para Cada Membro da Família, incluindo Cão e Gato, etc., etc., a maior parte das vezes com cartão de plástico ou com dinheiro não-seu mas que no fundo, bem no fundo, têm vergonha de serem portugueses, teriam (se os seus cérebros tivessem um mínimo de despoluição cultural) um gozo, uma vaidade sã, uma alegria enorme por terem existido uns milhares de homens e mulheres portugueses que tiveram/têm um valor moral e cultural muito acima dos considerados "portugueses de valor".
J.M.Colaço
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Os dias passam, cheios de poucas coisas
Enquanto se morre de guerra no Afeganistão ou no Iraque (um pouco menos), a Europa financeira e monetária prolonga-se na crise e Portugal parece andar anestesiado.
Da chicana política e parlamentar, já nem apetece falar. O governo, pela voz do primeiro-ministro ou do responsável das finanças, é forçado a manter um tom optimista, para não deprimir ainda mais as expectativas; se fizesse o contrário, todos os opinadores lhe cairiam em cima. Mas já poucos acreditam que as afirmações de hoje sejam mantidas no mês seguinte. Apesar de tudo, o novo líder do PSD tem marcado uns pontos de seriedade ao dispor-se a colaborar com o governo para enfrentar a gravíssima crise das finanças públicas (e de toda a economia portuguesa), pedindo cortes nas despesas, aceitando aumentos dos impostos e, enfim, alguma redução nos proventos dos mais altos dirigentes, não para atacar o problema económico, mas para dar o exemplo. Bendita crise! Já é alguma coisa. Mas não vai chegar.
É certo que o país gosta é de festas, emoções e polémicas (como aquela, insuperável de sabor, com que Mário Nogueira e Santana Castilho se têm digladiado ultimamente nas páginas do 'Público' acerca das últimas peripécias na educação). Mas dizia há dias um adepto benfiquista que a vitória das “águias” no campeonato interno da bola ia dar alegria aos portugueses durante uma semana. É pouco. Mais tempo durará a incerteza gostosa dos resultados dos futebolistas lusos no próximo “mundial” – veremos se com momentos emocionantes proporcionados por Ronaldo e companheiros, ou com falhanços de que o único responsável será o “professor” Carlos Queiroz (É que nem todos são Mourinhos). Mas nem a vista do Papa – momento de fé para uns, espectáculo com demasiada encenação para outros – foi capaz de nos livrar da última subida de impostos e outras medidas de austeridade que a nossa proverbial inconsciência tornou inevitáveis. Até quando?
JF/13.Maio.2010
Da chicana política e parlamentar, já nem apetece falar. O governo, pela voz do primeiro-ministro ou do responsável das finanças, é forçado a manter um tom optimista, para não deprimir ainda mais as expectativas; se fizesse o contrário, todos os opinadores lhe cairiam em cima. Mas já poucos acreditam que as afirmações de hoje sejam mantidas no mês seguinte. Apesar de tudo, o novo líder do PSD tem marcado uns pontos de seriedade ao dispor-se a colaborar com o governo para enfrentar a gravíssima crise das finanças públicas (e de toda a economia portuguesa), pedindo cortes nas despesas, aceitando aumentos dos impostos e, enfim, alguma redução nos proventos dos mais altos dirigentes, não para atacar o problema económico, mas para dar o exemplo. Bendita crise! Já é alguma coisa. Mas não vai chegar.
É certo que o país gosta é de festas, emoções e polémicas (como aquela, insuperável de sabor, com que Mário Nogueira e Santana Castilho se têm digladiado ultimamente nas páginas do 'Público' acerca das últimas peripécias na educação). Mas dizia há dias um adepto benfiquista que a vitória das “águias” no campeonato interno da bola ia dar alegria aos portugueses durante uma semana. É pouco. Mais tempo durará a incerteza gostosa dos resultados dos futebolistas lusos no próximo “mundial” – veremos se com momentos emocionantes proporcionados por Ronaldo e companheiros, ou com falhanços de que o único responsável será o “professor” Carlos Queiroz (É que nem todos são Mourinhos). Mas nem a vista do Papa – momento de fé para uns, espectáculo com demasiada encenação para outros – foi capaz de nos livrar da última subida de impostos e outras medidas de austeridade que a nossa proverbial inconsciência tornou inevitáveis. Até quando?
JF/13.Maio.2010
domingo, 2 de maio de 2010
1ª República: Questão laboral ou questão social?
Há um século, a Monarquia aprestava-se a sair de cena, e a República a ser proclamada em Lisboa, com entusiasmo popular semelhante ao do 25 de Abril de 1974.
Entre as forças sociais que aplaudiam ou observavam esperançosas o desempenho do novo regime encontrava-se o movimento operário, essencialmente consubstanciado num sindicalismo de acção vigorosa no seu campo de luta e afirmação próprio: directamente contra o patronato, através da greve e da solidariedade entre “irmãos de classe”; alheando-se da política e olhando as instituições estatais com reserva ou hostilidade; e confiando que não estaria longe a “aurora redentora” de uma grande transformação do mundo, operada no campo social, que pusesse a economia ao serviço de todos, abolisse as guerras e dispensasse os profissionais do uso da violência e do poder.
Tais esperanças vieram rapidamente a revelar-se ilusórias – tanto no plano doméstico como internacionalmente – mas a força e genuinidade desse movimento merece ainda hoje ser recordada, sobretudo para assinalar como, na prática, os ideais da República foram incapazes de responder aos anseios desse povo laborioso das oficinas, das fábricas e dos campos.
Mais do que lutar por condições de trabalho e de vida melhoradas, essa gente aspirava a uma superação do seu estatuto secundário e subordinado na vida social do Portugal de então. Eram os porta-vozes de reivindicações seculares de dignidade humana. Por isso, o movimento operário de inspiração anarco-sindicalista de então não apenas punha na ordem do dia problemas concretos de ordem laboral – melhoria de salários, redução da duração do trabalho, etc. – como, sobretudo, exprimia a questão social dessa época: não mais “amos e escravos”, “não mais deveres sem direitos, nem direitos sem deveres”. Uma boa mensagem.
João Freire
(texto solicitado pelo Jornal de Notícias para sair a 1/5/2010, mas não publicado, certamente por chegada tardia)
Entre as forças sociais que aplaudiam ou observavam esperançosas o desempenho do novo regime encontrava-se o movimento operário, essencialmente consubstanciado num sindicalismo de acção vigorosa no seu campo de luta e afirmação próprio: directamente contra o patronato, através da greve e da solidariedade entre “irmãos de classe”; alheando-se da política e olhando as instituições estatais com reserva ou hostilidade; e confiando que não estaria longe a “aurora redentora” de uma grande transformação do mundo, operada no campo social, que pusesse a economia ao serviço de todos, abolisse as guerras e dispensasse os profissionais do uso da violência e do poder.
Tais esperanças vieram rapidamente a revelar-se ilusórias – tanto no plano doméstico como internacionalmente – mas a força e genuinidade desse movimento merece ainda hoje ser recordada, sobretudo para assinalar como, na prática, os ideais da República foram incapazes de responder aos anseios desse povo laborioso das oficinas, das fábricas e dos campos.
Mais do que lutar por condições de trabalho e de vida melhoradas, essa gente aspirava a uma superação do seu estatuto secundário e subordinado na vida social do Portugal de então. Eram os porta-vozes de reivindicações seculares de dignidade humana. Por isso, o movimento operário de inspiração anarco-sindicalista de então não apenas punha na ordem do dia problemas concretos de ordem laboral – melhoria de salários, redução da duração do trabalho, etc. – como, sobretudo, exprimia a questão social dessa época: não mais “amos e escravos”, “não mais deveres sem direitos, nem direitos sem deveres”. Uma boa mensagem.
João Freire
(texto solicitado pelo Jornal de Notícias para sair a 1/5/2010, mas não publicado, certamente por chegada tardia)
1º de Maio
Por cortesia de Claude Moreira (em Londres):
a..
b.. SINDICALISMO A LA CUBANA
c.. Solamente hay una federación laboral en Cuba. Es la Central de
Trabajadores de Cuba (CTC) organizada y controlada por el gobierno Cubano.
d.. Todos los obreros tienen que ser miembros de la CTC (aunque no
quieran) y pagarle contribuciones. (Como em Portugal durante o Fascismo)
e.. "Elecciones" obreras se celebran periódicamente, pero solamente pueden
competir en ellas los candidatos que el Partido Comunista de Cuba apruebe.
f.. No hay en Cuba negociaciones laborales ni colectivas ni individuales.
g.. Los obreros no pueden cambiar de empleo sin el permiso del gobierno.
h.. La inmensa mayoría de las empresas de negocios, agrícolas e
industriales son propiedad del gobierno y la mayoría de los cubanos trabajan
para el Estado.
i.. Todos los salarios los fija arbitrariamente el Estado.
j.. Los obreros son empleados, disciplinados y despedidos por el gobierno.
k.. Las compañías extranjeras con negocios en Cuba tienen que solicitar
sus obreros al gobierno. No pueden contratar ni despedir por su cuenta a los
trabajadores sin la aprobación de ese gobierno.
l.. Las compañías extranjeras pagan al gobierno en moneda extranjera
fuerte (por ejemplo, en dólares canadienses, euros, etc.). El gobierno paga
el salario de los obreros cubanos en pesos cubanos, que valen 1/20 de la
moneda extranjera y se embolsilla el 90 por ciento de cada dólar que recibe.
m.. Todos los trabajadores en la industria turística o en cualquier otra
industria que entra en contacto con los extranjeros son cuidadosamente
seleccionados por el gobierno. Trabajadores de tez mas clara o los que son
leales a la revolución son los escogidos para trabajar en hoteles, complejos
turísticos, y otros destinos turísticos.
n.. El régimen cubano da contratos de médicos, pintores, músicos,
taberneros, etc., a gobiernos extranjeros y a compañías del extranjero.
Usualmente estos cubanos residen seis meses en los países extranjeros y se
les paga en moneda fuerte. Sin embargo, los empleadores descuentan el 40 por
ciento de sus salarios para enviarlo al régimen totalitario de Fidel Castro.
o.. Todo arbitraje laboral tiene que efectuarse en caprichosas y corruptas
oficinas del gobierno donde el obrero recibe muy poca protección. No hay un
sistema judicial independiente en la Isla y todos los jueces son nombrados
por el gobierno y trabajan para el gobierno.
* Desde 1960 que não houve uma única greve legal em Cuba.
p.. WWW.CUBANUESTRA.NU
a..
b.. SINDICALISMO A LA CUBANA
c.. Solamente hay una federación laboral en Cuba. Es la Central de
Trabajadores de Cuba (CTC) organizada y controlada por el gobierno Cubano.
d.. Todos los obreros tienen que ser miembros de la CTC (aunque no
quieran) y pagarle contribuciones. (Como em Portugal durante o Fascismo)
e.. "Elecciones" obreras se celebran periódicamente, pero solamente pueden
competir en ellas los candidatos que el Partido Comunista de Cuba apruebe.
f.. No hay en Cuba negociaciones laborales ni colectivas ni individuales.
g.. Los obreros no pueden cambiar de empleo sin el permiso del gobierno.
h.. La inmensa mayoría de las empresas de negocios, agrícolas e
industriales son propiedad del gobierno y la mayoría de los cubanos trabajan
para el Estado.
i.. Todos los salarios los fija arbitrariamente el Estado.
j.. Los obreros son empleados, disciplinados y despedidos por el gobierno.
k.. Las compañías extranjeras con negocios en Cuba tienen que solicitar
sus obreros al gobierno. No pueden contratar ni despedir por su cuenta a los
trabajadores sin la aprobación de ese gobierno.
l.. Las compañías extranjeras pagan al gobierno en moneda extranjera
fuerte (por ejemplo, en dólares canadienses, euros, etc.). El gobierno paga
el salario de los obreros cubanos en pesos cubanos, que valen 1/20 de la
moneda extranjera y se embolsilla el 90 por ciento de cada dólar que recibe.
m.. Todos los trabajadores en la industria turística o en cualquier otra
industria que entra en contacto con los extranjeros son cuidadosamente
seleccionados por el gobierno. Trabajadores de tez mas clara o los que son
leales a la revolución son los escogidos para trabajar en hoteles, complejos
turísticos, y otros destinos turísticos.
n.. El régimen cubano da contratos de médicos, pintores, músicos,
taberneros, etc., a gobiernos extranjeros y a compañías del extranjero.
Usualmente estos cubanos residen seis meses en los países extranjeros y se
les paga en moneda fuerte. Sin embargo, los empleadores descuentan el 40 por
ciento de sus salarios para enviarlo al régimen totalitario de Fidel Castro.
o.. Todo arbitraje laboral tiene que efectuarse en caprichosas y corruptas
oficinas del gobierno donde el obrero recibe muy poca protección. No hay un
sistema judicial independiente en la Isla y todos los jueces son nombrados
por el gobierno y trabajan para el gobierno.
* Desde 1960 que não houve uma única greve legal em Cuba.
p.. WWW.CUBANUESTRA.NU
domingo, 4 de abril de 2010
Páscoa
Os judeus celebram nesta época a fuga do Egipto, a caminho da terra prometida. Os cristãos, a morte e ressurreição de Jesus. Em certos países influenciados por esta última religião (Filipinas, México…) praticam-se rituais populares de mortificação, significando o desejo de passagem para uma vida renovada. Enquanto isto, as sociedades ocidentais aproveitam para mais um fim-de-semana prolongado de lazer. Este ano, a hierarquia da Igreja de Roma pede desculpa pelos pecados de pedofilia. E os órgãos de informação de massa fazem o seu trabalho de espevitar a contradição e o conflito, para manter as audiências.
Vasco Pulido Valente tem razão em vir lembrar, no ‘Público’, que os pecados e crimes da Igreja ao longo da história, a sua conivência com o massacre, por acção e omissão, são bem mais graves do que os comportamentos desviantes dos pastores, e é talvez isso que leva o Papa a estes gestos públicos.
Mas se os rabinos se indignam justamente com a comparação feita destas denúncias com “o pior do anti-semitismo” (e VPV recorda muito bem o papel histórico de Roma nesse clima), também se descortina alguma sanha anti-clerical nos actuais ataques ao catolicismo, que tem sido, apesar de tudo, a grande religião que mais tem evoluído nas décadas recentes e mais tem reconhecido os erros do passado. E não parece fácil para o islamismo evoluir e compatibilizar-se com o mundo moderno, como seria desejável que o fizesse.
O filósofo racionalista Bertrand Russel criticou o papel histórico do cristianismo, sobretudo porque este “santificou o ódio e a intolerância”. Hoje, não tenho a certeza deste género de balanço histórico. Conheço mal as religiões orientais (induismo, budismo e confucionismo, sobretudo) mas, pelo que toca às mediterrânicas, tendo a pensar mais num efeito ambivalente: por um lado, é certo que foram culpadas de muitos malefícios (e ainda mais aquelas que, como a cristã e a islâmica, exerceram um poder temporal); mas, por outro lado, terão tido um efeito “disciplinador” para conter a bestialidade latente em sociedades onde o direito e cidadania ainda não haviam chegado. Além disto, o mundo contemporâneo também parece mostrar-nos que a “civilização” é facilmente compatível com (ou até pode estimular) os mais perversos comportamentos humanos.
Daí a minha conclusão de que, independentemente do grau de evolução, é indispensável a existência de uma moral (sentido do bem e do mal) que impregne os valores da vida social – e ainda mais quando vivemos (felizmente) numa sociedade laica. Por tal, não dou razão aos que confundem isto com “moralismo” ou acham que se trata de meras referências “judaico-cristãs”.
JF/ 4.Abril.2010
Vasco Pulido Valente tem razão em vir lembrar, no ‘Público’, que os pecados e crimes da Igreja ao longo da história, a sua conivência com o massacre, por acção e omissão, são bem mais graves do que os comportamentos desviantes dos pastores, e é talvez isso que leva o Papa a estes gestos públicos.
Mas se os rabinos se indignam justamente com a comparação feita destas denúncias com “o pior do anti-semitismo” (e VPV recorda muito bem o papel histórico de Roma nesse clima), também se descortina alguma sanha anti-clerical nos actuais ataques ao catolicismo, que tem sido, apesar de tudo, a grande religião que mais tem evoluído nas décadas recentes e mais tem reconhecido os erros do passado. E não parece fácil para o islamismo evoluir e compatibilizar-se com o mundo moderno, como seria desejável que o fizesse.
O filósofo racionalista Bertrand Russel criticou o papel histórico do cristianismo, sobretudo porque este “santificou o ódio e a intolerância”. Hoje, não tenho a certeza deste género de balanço histórico. Conheço mal as religiões orientais (induismo, budismo e confucionismo, sobretudo) mas, pelo que toca às mediterrânicas, tendo a pensar mais num efeito ambivalente: por um lado, é certo que foram culpadas de muitos malefícios (e ainda mais aquelas que, como a cristã e a islâmica, exerceram um poder temporal); mas, por outro lado, terão tido um efeito “disciplinador” para conter a bestialidade latente em sociedades onde o direito e cidadania ainda não haviam chegado. Além disto, o mundo contemporâneo também parece mostrar-nos que a “civilização” é facilmente compatível com (ou até pode estimular) os mais perversos comportamentos humanos.
Daí a minha conclusão de que, independentemente do grau de evolução, é indispensável a existência de uma moral (sentido do bem e do mal) que impregne os valores da vida social – e ainda mais quando vivemos (felizmente) numa sociedade laica. Por tal, não dou razão aos que confundem isto com “moralismo” ou acham que se trata de meras referências “judaico-cristãs”.
JF/ 4.Abril.2010
sexta-feira, 26 de março de 2010
PEC – 1ª parte
Toda a gente sabe que, mais coisa menos coisa, as medidas do PEC são inevitáveis e indispensáveis. Mas a lógica da oposição partidária leva a que ninguém queira “fazer má figura” perante os seus (correligionários, mandantes, eleitores, etc.). Por isso são “contra”.
Ontem, no parlamento, ao PSD salvou-o o facto da dra. Manuela Ferreira Leite já estar de saída e não poder ser prejudicada com a abstenção da sua bancada ao documento do governo (que, se calhar, comprometeu definitivamente as hipóteses de Aguiar Branco lhe suceder).
E ao PS, ajudou-o bastante a notícia divulgada horas antes (coincidência…) de que a agência de rating Fitch tinha acabado de penalizar Portugal, por “mau pagador das dívidas”.
Com um primeiro-ministro fragilizadíssimo com os ataques pessoais sucessivos de que tem vindo a ser alvo (e para os quais ele parece contribuir generosamente), um PR insondável e uma representação parlamentar como aquela que temos, continuamos muito longe de ver surgir na sociedade a criação de uma onda de vontade colectiva para fazer face aos trementos problemas económicos que Portugal enfrenta.
Por isso, é quase certo que haverá um PEC-II e talvez um PEC-III, com uma crise política pelo meio, para evitar que se chegue a algum “plano de falência”. E não se vislumbra qualquer sinal, nem de recuperação sustentatada da nossa base económica, nem de recomposição política das escolhas do eleitorado – o que até pode ser um sinal de prudência e bom senso, mas exigiria da classe política uma capacidade de entendimento e de regeneração que ela dá mostras claras de não possuir.
JF / 26.Março.2010
Ontem, no parlamento, ao PSD salvou-o o facto da dra. Manuela Ferreira Leite já estar de saída e não poder ser prejudicada com a abstenção da sua bancada ao documento do governo (que, se calhar, comprometeu definitivamente as hipóteses de Aguiar Branco lhe suceder).
E ao PS, ajudou-o bastante a notícia divulgada horas antes (coincidência…) de que a agência de rating Fitch tinha acabado de penalizar Portugal, por “mau pagador das dívidas”.
Com um primeiro-ministro fragilizadíssimo com os ataques pessoais sucessivos de que tem vindo a ser alvo (e para os quais ele parece contribuir generosamente), um PR insondável e uma representação parlamentar como aquela que temos, continuamos muito longe de ver surgir na sociedade a criação de uma onda de vontade colectiva para fazer face aos trementos problemas económicos que Portugal enfrenta.
Por isso, é quase certo que haverá um PEC-II e talvez um PEC-III, com uma crise política pelo meio, para evitar que se chegue a algum “plano de falência”. E não se vislumbra qualquer sinal, nem de recuperação sustentatada da nossa base económica, nem de recomposição política das escolhas do eleitorado – o que até pode ser um sinal de prudência e bom senso, mas exigiria da classe política uma capacidade de entendimento e de regeneração que ela dá mostras claras de não possuir.
JF / 26.Março.2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
Dois artigos de opinião hoje inseridos no “Público” (15.Março, 2010, p. 41) merecem ser divulgados. Num (intitulado “Redes sociais não, obrigado”), o médico psiquiatra Pedro Afonso alerta para os perigos e malefícios das “redes sociais” da Internet. Entre outras coisas, escreve: “[…] parece existir uma busca pela auto-valorização e uma necessidade exibicionista de atenção e admiração. Esta última característica torna-se bem visível pela forma como se arrecada ‘amigos’, aos milhares, como se fossem troféus de caça social. Portanto, na amizade, desvalorizou-se a qualidade para se dar primazia à quantidade […]. As redes sociais [da Internet] favorecem o empobrecimento do relacionamento social – criando-se novas formas de solidão – porque as relações pessoais reais são mais ricas e profundas. […] Este é um sinal preocupante de desumanização da nossa sociedade uma vez que esta emigração maciça para o mundo virtual pode revelar-se como o início de uma psicose colectiva: como esta realidade não é conveniente, as pessoas refugiam-se noutra imaginária. O crescimento vertiginoso das redes sociais demonstra que o Homem, outrora sonhador, com ideias e valores, está a capitular. Desistiu de lutar por uma sociedade melhor, cedeu ao facilitismo e renunciou viver neste mundo. […]”.
No outro texto (“Vida, morte e dignidade”), o juiz Pedro Vaz Pato sustenta com ponderosas razões a sua oposição à eutanásia e ao auxílio ao suicídio: “[…] O princípio aqui em jogo é o da inviolabilidade e indisponibilidade da vida humana […] direitos humanos fundamentais, que as primeiras históricas declarações sempre afirmaram como ‘inalienáveis’, isto é, dotados de um valor objectivo e independente da vontade do seu titular.[…]”.
Pode-se, e deve-se, discutir cada uma destas teses, mas é certo que qualquer dos opinadores contribui de modo relevante para tal.
JF / 15.Março.2010
No outro texto (“Vida, morte e dignidade”), o juiz Pedro Vaz Pato sustenta com ponderosas razões a sua oposição à eutanásia e ao auxílio ao suicídio: “[…] O princípio aqui em jogo é o da inviolabilidade e indisponibilidade da vida humana […] direitos humanos fundamentais, que as primeiras históricas declarações sempre afirmaram como ‘inalienáveis’, isto é, dotados de um valor objectivo e independente da vontade do seu titular.[…]”.
Pode-se, e deve-se, discutir cada uma destas teses, mas é certo que qualquer dos opinadores contribui de modo relevante para tal.
JF / 15.Março.2010
segunda-feira, 8 de março de 2010
Se queres a Paz... prepara a Paz! É esta a divisa que há que
contrapor ao bárbaro «se queres a paz, prepara a guerra».
Convido os que se reconhecem nessa divisa a aderir à possibilidade de
co-financiarem comigo a edição de um livro chave na construção de uma
corrente favorável à paz e à não violência: Peregrinação às Fontes,
de Lanza del Vasto. O autor (1901-1981) é um dos mais destacados
seguidores de Gandhi na Europa; o livro inclui a narração do seu
encontro e estadia junto do Mahatma, em Wardha.
Para viabilizar o livro, são precisas 100 pessoas que pré-comprem 2
exemplares (investimento: 40 euros) ou 200 que pré-comprem um
exemplar (investimento: 20 euros).
Os co-financiadores amigos da Paz, que por sua vez poderão alargar a
corrente falando dela aos amigos, poderão, com um pequeno
investimento, obter o livro em retorno, sem outro pagamento e com uma
redução de quase vinte por cento em relação ao preço previsto de
venda ao público.
O editor enviará a cada co-financiador, na volta do correio, um
documento contabilístico com valor oficial e um certificado de
compromisso de entrega (prevista até 30 de novembro de 2010).
No endereço abaixo encontrará as informações necessárias, em especial
na secção «Passo a Passo». Qualquer dúvida não hesite em contactar-me:
www.sempreempe.pt/peregrinacao
Obrigado desde já.
Saúda
José Carlos Costa Marques * Edições Sempre-em-Pé
Rua Camilo Castelo Branco 70/52 * 4425-037 Águas Santas
contacto@sempreempe.pt * Telefax 22 975 9592 * www.sempreempe.pt
nif 152 977 023 * nib 00 33 0000 45320830239 05 * IBAN PT 50 00 33
0000 45320830239 05 *SWIFT/BIC BCOMPTPL
contrapor ao bárbaro «se queres a paz, prepara a guerra».
Convido os que se reconhecem nessa divisa a aderir à possibilidade de
co-financiarem comigo a edição de um livro chave na construção de uma
corrente favorável à paz e à não violência: Peregrinação às Fontes,
de Lanza del Vasto. O autor (1901-1981) é um dos mais destacados
seguidores de Gandhi na Europa; o livro inclui a narração do seu
encontro e estadia junto do Mahatma, em Wardha.
Para viabilizar o livro, são precisas 100 pessoas que pré-comprem 2
exemplares (investimento: 40 euros) ou 200 que pré-comprem um
exemplar (investimento: 20 euros).
Os co-financiadores amigos da Paz, que por sua vez poderão alargar a
corrente falando dela aos amigos, poderão, com um pequeno
investimento, obter o livro em retorno, sem outro pagamento e com uma
redução de quase vinte por cento em relação ao preço previsto de
venda ao público.
O editor enviará a cada co-financiador, na volta do correio, um
documento contabilístico com valor oficial e um certificado de
compromisso de entrega (prevista até 30 de novembro de 2010).
No endereço abaixo encontrará as informações necessárias, em especial
na secção «Passo a Passo». Qualquer dúvida não hesite em contactar-me:
www.sempreempe.pt/peregrinacao
Obrigado desde já.
Saúda
José Carlos Costa Marques * Edições Sempre-em-Pé
Rua Camilo Castelo Branco 70/52 * 4425-037 Águas Santas
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Grécia, Islândia…
Finalmente, o governo helénico (de esquerda) apresentou um plano de reequilíbrio orçamental e financeiro um pouco mais realista, e a reacção popular nas ruas é a que se pode ver… E na Islândia o referendo sobre a proposta oficial de pagamentos externos foi recusada quase por unanimidade (daqueles que votaram validamente, pois a maioria parece que votou branco ou nulo e não se deu mesmo ao trabalho de ir votar, o que pode ter significados diversos). Em todo o caso, eis dois países bem diferentes da periferia europeia que foram apanhados em cheio pela crise de 2008 e cujas populações reagem mal, com indignação ou desagrado, à perda dos padrões de vida a que se haviam habituado: no caso grego, com a cultura mediterrânica do “desenrasca”, veremos até que ponto o governo conseguirá resistir à pressão da rua; no outro, os simpáticos gélidos islandeses ainda devem estar à procura de compreender como a sua prosperidade se evaporou e, de um momento para o outro, viram o seu sector financeiro arruinado e eles próprios muito mais pobres.
E, entre nós, o PEC hoje apresentado vai dar para muita especulação jornalística, “de café” (não nos respectivos estabelecimentos que o vendem, que já não servem para isso, mas nas pausas-café do trabalho onde tagarelam quadros e empregados), e infindáveis manobras partidárias. Agravamento fiscal sobre os mais ricos? Justíssimo! Adiamento dos grandes investimentos? Pois se já não há dinheiro para eles!… Cortes nos subsídios e despesas sociais? Veremos onde vão incidir, sendo certo que estas práticas (inevitáveis em casos de socorro social) sempre distorcem a verdade na formação dos preços! Privatizações, na complicada economia pública de hoje? Resta saber se há compradores, a que preço e se é para fazerem melhor… Finalmente, o “congelamento” dos rendimentos pessoais pagos pelo Estado (a funcionários e, parcialmente, a pensionistas), que pode ser justo quando aproxima estes dos restantes cidadãos, mais uma vez deixa incólomes os privilégios de que gozam os agentes políticos e altos gestores públicos, embora se saiba que não se situa aqui o peso fundamental da despesa, que é preciso controlar.
Esta, seria a pedra-de-toque de uma reforma moralizadora (e mobilizadora) das energias nacionais, imposta pelas circunstâncias excepcionais que estamos vivendo – mas fora delas, isso alguma vez será viável? –, que poderia relançar a confiança e o crédito de um sistema político desgastado por 2 anos de PREC e 33 de “partidocracite”.
JF/8.Mar.2010
E, entre nós, o PEC hoje apresentado vai dar para muita especulação jornalística, “de café” (não nos respectivos estabelecimentos que o vendem, que já não servem para isso, mas nas pausas-café do trabalho onde tagarelam quadros e empregados), e infindáveis manobras partidárias. Agravamento fiscal sobre os mais ricos? Justíssimo! Adiamento dos grandes investimentos? Pois se já não há dinheiro para eles!… Cortes nos subsídios e despesas sociais? Veremos onde vão incidir, sendo certo que estas práticas (inevitáveis em casos de socorro social) sempre distorcem a verdade na formação dos preços! Privatizações, na complicada economia pública de hoje? Resta saber se há compradores, a que preço e se é para fazerem melhor… Finalmente, o “congelamento” dos rendimentos pessoais pagos pelo Estado (a funcionários e, parcialmente, a pensionistas), que pode ser justo quando aproxima estes dos restantes cidadãos, mais uma vez deixa incólomes os privilégios de que gozam os agentes políticos e altos gestores públicos, embora se saiba que não se situa aqui o peso fundamental da despesa, que é preciso controlar.
Esta, seria a pedra-de-toque de uma reforma moralizadora (e mobilizadora) das energias nacionais, imposta pelas circunstâncias excepcionais que estamos vivendo – mas fora delas, isso alguma vez será viável? –, que poderia relançar a confiança e o crédito de um sistema político desgastado por 2 anos de PREC e 33 de “partidocracite”.
JF/8.Mar.2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Ajuda aos madeirenses
Houve provavelmente erros na urbanização e talvez na engenharia hidráulica; apostar fundamentalmente no turismo como fonte do desenvolvimento económico é sempre arriscado.
Mas nada disto é importante agora, no momento em que é preciso reagir e ajudar os madeirenses a superarem a tragédia natural que sobre eles se abateu. Para além dos fundos públicos, é bom que os simples cidadãos possam também contribuir para minorar estragos e prejuízos, já que aos mortos ninguém pode mais acudir!
E para além das correcções de concepção que é necessário fazer para o futuro, oxalá todos ganhemos um pouco mais de consciência sobre o nosso lugar na natureza e a relatividade das causas em que nos empenhamos.
JF / 22.Fev.2010
Mas nada disto é importante agora, no momento em que é preciso reagir e ajudar os madeirenses a superarem a tragédia natural que sobre eles se abateu. Para além dos fundos públicos, é bom que os simples cidadãos possam também contribuir para minorar estragos e prejuízos, já que aos mortos ninguém pode mais acudir!
E para além das correcções de concepção que é necessário fazer para o futuro, oxalá todos ganhemos um pouco mais de consciência sobre o nosso lugar na natureza e a relatividade das causas em que nos empenhamos.
JF / 22.Fev.2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
A E.T.A. em Portugal
A descoberta de armamento da E.T.A. numa vivenda do concelho de Óbidos veio comprovar aquilo que se suspeitava desde 2007: a instalação da organização separatista basca em Portugal.
Os analistas dividiram-se entre a condenação geral da organização e a necessidade de adaptar com rapidez e eficácia as forças de segurança portuguesas a casos de violência terrorista, pouco comuns entre nós. Da parte do governo veio a garantia de que a cooperação policial entre Portugal e Espanha se vai estreitar com a criação de corpos policiais mistos.
Tanto os analistas como o governo parecem ter perdido uma excelente ocasião de abordarem o caso basco fora do simplismo habitual. O caso basco é em geral reduzido na imprensa a dois clichés: a E.T.A. (sempre em vias de desaparecer) não passa dum gang sem escrúpulos e o P.N.V., inspirado por Sabino Arana (1865-1903), um partido de ideologia racista e fascizante. O correspondente português em Madrid, Nuno Ribeiro, é um excelente exemplo deste fio redutor.
Mais uma vez, a propósito da casa de Óbidos, a imprensa e os analistas repetiram os estereótipos, esquecendo a complexidade duma situação cultural e social de grande delicadeza. Todos calaram que a organização separatista basca E.T.A. representa cerca de quinze a vinte por cento da sociedade basca (deve ter sido por isso que Baltazar Garçón se preocupou em ilegalizar os partidos que a representavam) e que o P.N.V. é um partido com uma tradição riquíssima, que merece o respeito e até a admiração de todos os que conhecem a sua história, além de ter sido e continuar a ser o partido mais votado do eleitorado basco.
Quanto ao governo português perdeu uma estupenda oportunidade para se afirmar no plano ibérico, mediando um conflito insolúvel, que muito beneficiaria com uma intervenção descomprometida de mediatismos imediatos e de hipocrisias de fachada.
Portugal não se pode tornar numa base logística dum grupo que só através da violência das armas encontra solução para os problemas com que se confronta. É certo que não.
Mas não vemos razão para que Portugal, que ocupa uma posição privilegiada e única na Península, com uma secessão da Espanha no seu historial recente, não possa ter uma palavra mais empenhada e imparcial, menos do agrado de Madrid, na mediação pacífica e negociada deste conflito.
Jerónimo Leal / 20 de Fevereiro de 2010
Os analistas dividiram-se entre a condenação geral da organização e a necessidade de adaptar com rapidez e eficácia as forças de segurança portuguesas a casos de violência terrorista, pouco comuns entre nós. Da parte do governo veio a garantia de que a cooperação policial entre Portugal e Espanha se vai estreitar com a criação de corpos policiais mistos.
Tanto os analistas como o governo parecem ter perdido uma excelente ocasião de abordarem o caso basco fora do simplismo habitual. O caso basco é em geral reduzido na imprensa a dois clichés: a E.T.A. (sempre em vias de desaparecer) não passa dum gang sem escrúpulos e o P.N.V., inspirado por Sabino Arana (1865-1903), um partido de ideologia racista e fascizante. O correspondente português em Madrid, Nuno Ribeiro, é um excelente exemplo deste fio redutor.
Mais uma vez, a propósito da casa de Óbidos, a imprensa e os analistas repetiram os estereótipos, esquecendo a complexidade duma situação cultural e social de grande delicadeza. Todos calaram que a organização separatista basca E.T.A. representa cerca de quinze a vinte por cento da sociedade basca (deve ter sido por isso que Baltazar Garçón se preocupou em ilegalizar os partidos que a representavam) e que o P.N.V. é um partido com uma tradição riquíssima, que merece o respeito e até a admiração de todos os que conhecem a sua história, além de ter sido e continuar a ser o partido mais votado do eleitorado basco.
Quanto ao governo português perdeu uma estupenda oportunidade para se afirmar no plano ibérico, mediando um conflito insolúvel, que muito beneficiaria com uma intervenção descomprometida de mediatismos imediatos e de hipocrisias de fachada.
Portugal não se pode tornar numa base logística dum grupo que só através da violência das armas encontra solução para os problemas com que se confronta. É certo que não.
Mas não vemos razão para que Portugal, que ocupa uma posição privilegiada e única na Península, com uma secessão da Espanha no seu historial recente, não possa ter uma palavra mais empenhada e imparcial, menos do agrado de Madrid, na mediação pacífica e negociada deste conflito.
Jerónimo Leal / 20 de Fevereiro de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Estamos mesmo mal…
Ficámos suspensos do “flop” da cimeira climática de Copenhague e da atitude do Ocidente face ao Irão… Durante um mês, em que as imagens da desgraça haitiana nos entravam diariamente pela casa dentro, ficámos calados assistindo algo incrédulos às pequenas manobras partidárias nacionais e à degradação acelerada da posição de Portugal no concerto dos países e nos mercados financeiros internacionais.
Pode pensar-se que tudo não passa de encenações, que as discussões acirradas dos políticos escondem uma efectiva partilha de gestão em comum dos benefícios de um sistema (sócio-económico) onde os mesmos se mantêm, finalmente, quase nos mesmos lugares de sempre. Não deixa isto de ser verdade; e as discussões inter-partidárias até já causam nojo a muito boa gente! Mas os desequilíbrios financeiros do Estado, a dívida externa, o afundamento da nossa anterior economia industrial a engrossar o desemprego, apenas com alguns pequenos sucessos vendáveis lá fora, e com a falta de credibilidade de que dá mostras grande parte da nossa classe dirigente – tudo isso explica que o crédito do país no exterior pareça estar, de facto, a esgotar-se. Já não é pessimismo temer-se próximas situações muito graves.
Perante tal quadro, a aposta na ajuda às pequenas empresas e ao consumo interno para reanimar o crescimento, parecem apenas piedosas medidas para efeitos propagandísticos.
Um verdadeiro sobressalto nacional passa por medidas ainda impensáveis entre nós, mas que já estão a ser aplicadas (ou serão em breve) na Irlanda, na Grécia ou em Espanha, nossos habituais companheiros nos rankings da simpatia, informalidade, ineficácia e corrupção: cortes nos salários e nas pensões – esperemos que A COMEÇAR PELOS MAIS ELEVADOS!; adiamento da idade de aposentação; redução do peso do Estado; ataque aos corporativismos que medram à sua sombra; revisão urgente de muitas leis atacando diversos “direitos adquiridos”; etc.
Preparemo-nos. O próximo futuro não é risonho. Mas é talvez necessário.
JF/4.Fev.2010
Pode pensar-se que tudo não passa de encenações, que as discussões acirradas dos políticos escondem uma efectiva partilha de gestão em comum dos benefícios de um sistema (sócio-económico) onde os mesmos se mantêm, finalmente, quase nos mesmos lugares de sempre. Não deixa isto de ser verdade; e as discussões inter-partidárias até já causam nojo a muito boa gente! Mas os desequilíbrios financeiros do Estado, a dívida externa, o afundamento da nossa anterior economia industrial a engrossar o desemprego, apenas com alguns pequenos sucessos vendáveis lá fora, e com a falta de credibilidade de que dá mostras grande parte da nossa classe dirigente – tudo isso explica que o crédito do país no exterior pareça estar, de facto, a esgotar-se. Já não é pessimismo temer-se próximas situações muito graves.
Perante tal quadro, a aposta na ajuda às pequenas empresas e ao consumo interno para reanimar o crescimento, parecem apenas piedosas medidas para efeitos propagandísticos.
Um verdadeiro sobressalto nacional passa por medidas ainda impensáveis entre nós, mas que já estão a ser aplicadas (ou serão em breve) na Irlanda, na Grécia ou em Espanha, nossos habituais companheiros nos rankings da simpatia, informalidade, ineficácia e corrupção: cortes nos salários e nas pensões – esperemos que A COMEÇAR PELOS MAIS ELEVADOS!; adiamento da idade de aposentação; redução do peso do Estado; ataque aos corporativismos que medram à sua sombra; revisão urgente de muitas leis atacando diversos “direitos adquiridos”; etc.
Preparemo-nos. O próximo futuro não é risonho. Mas é talvez necessário.
JF/4.Fev.2010
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