domingo, 29 de janeiro de 2017

Voltamos à política

Com o sr. Trump dono da Casa Branca, intensificaram-se as previsões e os cenários, quase todos marcados pela advertência de “elevada incerteza”. Entre o muito que vem sendo publicado chamou-me particularmente a atenção um texto divulgado no dia 23 de Janeiro na Internet por Miguel Mattos Chaves intitulado “O novo Presidente dos USA” (http://mattoschaves.blogspot.com). O autor (doutorado em estudos europeus e actual director d’O Diabo, um jornal com história singular que na altura do PREC foi dirigido pela aguerrida Vera Lagoa) considera que, analisando o seu Programa Político, «[…] e apesar de isso poder “prejudicar” a União Europeia, Donald Trump tem o meu respeito e apoio» e, «como Português», espera «que nos aproximemos novamente dos EUA e do Reino Unido», aproximação em que vê vantagens e pela qual «evitaremos ser dominados pela Alemanha [e] aliviaremos o domínio excessivo e esmagador da UE sobre o nosso país, que tenho vindo a denunciar».
Detalhando a sua apreciação sobre o referido programa, ele enfatiza a questão da segurança da fronteira sul e do controlo/expulsão dos imigrantes ilegais, a baixa de impostos e as novas obras públicas, o repatriamento de indústrias (como?), a revogação/reestruturação do Obamacare «que está a arruinar o orçamento dos EUA» (estará?), a redução das despesas com a NATO, o restabelecimento das negociações com a Rússia (aceitando a anexação da Crimeia e de parte da Ucrânia?), a anulação ou renegociação de vários tratados internacionais, a taxação dos produtos asiáticos em dumping e a nomeação de um novo juiz do Supremo com posições anti-aborto. Se fosse apenas um programa conservador, nenhum mal especial viria ao mundo (a não ser a exasperação de muitos “vanguardistas”). O pior é que se teme que, com a justificação de um maior equilíbrio no financiamento da NATO, exista, de facto, o desígnio de enfraquecer esta Aliança militar, “largar” a Europa (já tão desconjuntada) e estabelecer relações amistosas com a Rússia de Putin, para a afastar da China e concentrar nesta (e, por tabela, em outros países produtores emergentes) o essencial das pressões americanas de natureza económica, e também estratégico-militares – sem se perceber ainda bem como Washington irá lidar com o terrorismo internacional e o mundo islâmico. Isto seria um jogo de xadrez de alta política, se não se tratasse de uma personagem que não parece ter capacidades para mais do que para uma partida de poker
Pelo que escreve, Mattos Chaves compreende e defende o proteccionismo, o nacionalismo económico e político do novo presidente americano. Eu prevejo e aceito sem dificuldade que, em geral, o controlo das fronteiras deva ser aumentado nos próximos anos mas já apontei para este blogue, a sair em breve, que, com esta política americana, «[…] haveremos de ver se isso acabará por se traduzir numa globalização económico-financeira um pouco mais regulada ou, ao invés, se tais dinâmicas não desencadeiam uma guerra comercial entre as grandes potências de efeitos devastadores». Aquele autor diz esperar 1 a 2 anos para ver como se efectivará o programa de Trump. Talvez não seja necessário tanto tempo para constatar os seus efeitos na ordem internacional e nos assuntos domésticos. Eu aceito, naturalmente, que cada comunidade nacional (de história e de cultura) disponha das suas próprias instituições de representação e que elas velem pelo interesse geral dessa comunidade. Mas o nacionalismo é muito mais (e pior) do que isso: funda a identidade nacional na aversão (quando não no ódio) ao estrangeiro ou, mais particularmente, a uma nacionalidade rival.
O autor devia saber que o espírito nacionalista conduziu à maioria das guerras que ensanguentaram a Modernidade, as quais não foram genuinamente piores que as do passado, mas fizeram-no numa escala multiplicada. Julgo não estarmos com isso de volta (mesmo quando nos acenam com o “perigo alemão”). Mas uma “guerra económica” de proteccionismos e redução das trocas comerciais irá frenar brutalmente o crescimento económico mundial, com consequências de empobrecimento terríveis para muitos países, sobretudo os mais frágeis. Hoje, já não é possível falar estritamente em “políticas nacionais”. Tal como para os equilíbrios ambientais ou para a (in)segurança nuclear, a mundialização é um facto e todos os responsáveis (políticos, económicos, líderes espirituais ou pessoas de superior notoriedade cultural) têm de ter isso muito em conta. É certo que há fundamentalistas ecologistas e religiosos, de quem o bom senso já desconfia. Mas os políticos nacionalistas agressivos devem ser apontados como igualmente perigosos, ou provavelmente ainda mais. 
O autor carrega a sua crítica sobre os jornalistas, os comentadores encartados e os meios de comunicação social que, com Trump, deixarão «de ter o monopólio de “dominar” e influenciar as mentes dos cidadãos menos informados». É uma verdade conhecida que este “4º poder” age frequentemente como um verdadeiro actor político, pela forma como selecciona e redige as notícias, os comentadores que escolhe, etc. Mas, num ambiente de concorrência, tem de se contar com a credibilidade que a opinião pública concede a cada jornal ou TV, fruto da experiência vivida. E, por outro lado, existem regras deontológicas que balizam o exercício da profissão de jornalista, as quais, apesar de muito violadas, sempre constituem um quadro normativo de referência para o sector. Esta função de mediação ou interposição dos media pode deturpar a informação que chega ao público mas também constitui um filtro racionalizador do caos factual e da opinião sem qualquer rigor ou controlo, que se desbundaria na sua ausência. Veja-se o que, precisamente, está acontecendo no ciber-espaço com as chamadas “redes sociais”, onde não existe qualquer critério de verdade nem noção de responsabilidade, mas apenas o “escarrador” daquilo que vem à cabeça de qualquer um, sob anonimato.   
Por outro lado, repete o autor que «foi sobretudo através do Facebook, Twiter e Instagram que Donald Trump conseguiu fazer chegar às pessoas as suas mensagens e Programa Político». Mas quem, como ele, proclama mentiras, provocações ou incongruências em cada intervenção mediática, para excitar as massas apoiantes, é mais digno de crédito do que os “monopolizados” meios de comunicação social?
Idêntica crítica posso fazer a Mattos Chaves quando este afirma que «Trump é multimilionário, não precisa dos “lobbys” para nada, nem dos partidos políticos e prescindiu do seu ordenado de Presidente» como garantia da sua autenticidade. Quanto aos lobbies e à riqueza do homem, estamos conversados! Mas, de facto, eu também sou daqueles que vêm com o maior criticismo o autismo e a monopolização que os partidos instalados vêm fazendo da representação popular, nos regimes democráticos. E não ligo grande coisa às indignações anti-Trump de que o establishment dá mostras, sejam as formações tradicionais da esquerda, seja a inteligenstia bem-pensante que acede aos media ou outras figuras actuais da cultura pop. Porém, julgo saber que essa função de representação colectiva e institucional seja fundamental para que a desordem social não se instale (porventura com o caos e a guerra que alguns sempre tentarão aproveitar) ou prevenir que apareça um “multimilionário” (do dinheiro, como Trump; ou da palavra hipnotizante, como Hitler ou Mussolini) desses que tentam conduzir as gentes como um bando de carneiros, ao mesmo tempo que atiçam contra estes os lobos por si ordenados.
Tudo isto é perigoso, mas há mais. Com a sua figura grotesca, apalhaçada (como Beppe Grillo?); com os seus gestos, postura e modo de falar “à povo” – o senhor Trump desprestigia e desacredita em cada sua intervenção pública as instituições republicanas e, em geral, toda a esfera do “político”. Como querem que as pessoas vulgares velem mais pelo interesse de todos? Que dias chatos, estes que vivemos!

JF / 28.Jan.2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Lisboa futura

Quando as actuais crianças-de-escola forem adultos maduros, lá para meados do século, Lisboa deverá ter mudado enormemente. Imaginemo-la um pouco.

Desejando que nenhum abalo sísmico ou atentado possa vir perturbar a vida da cidade, é provável que os pólos de fervilhamento urbano e turístico de Belém e da Baixa pombalina continuem a afirmar-se, com a reabilitação dos edifícios antigos, novos centros de atracção e meios de transporte relativamente eficientes. Em contrapartida, os bairros tradicionais (Madragoa, Bica, Bairro Alto, Mouraria, Alfama, Castelo ou Graça) terão excluído os seus últimos habitantes populares para dar lugar à classe média, portuguesa e estrangeira. O cosmopolitismo da Baixa e do eixo da Almirantes Reis acentuou-se, este último cada vez mais orientalizado, com “muitas e desvairadas gentes”.

Esta alteração do povoamento foi acompanhada de medidas adicionais de protecção e melhoria do espaço público, da segurança e da qualidade de vida, com interdição ou limitação rigorosa da circulação automóvel em perímetros alargados das “zonas históricas”: colinas da Graça, Santana, Príncipe Real, Campolide, Campo de Ourique: baixas e vales de Chelas, Arroios, S. Bento e Alcântara. Porém, a faixa ribeirinha foi submetida a intensa pressão de urbanização construtiva, salvaguardando o património edificado mais significativo, pondo à vista achados arqueológicos interessantes, mas levantando torres, escavando estacionamentos e adensando a densidade populacional (permanente e transitória) deste “casco urbano”. Com o atraso de algumas décadas em relação ao que se fez no estrangeiro, toda a antiga zona portuária é hoje um dos espaços mais belos e atractivos da capital.

As “grandes obras” foram retomadas, com capitais estrangeiros (europeus, americanos, africanos, indianos, japoneses e sempre chineses) sobretudo para resolver os problemas da circulação urbana: 1) prolongamentos do Metropolitano do Rato até Alcântara (com o grande “nó” aí previsto e renovação do comboio de Cascais, ligando-o finalmente à linha de cintura), de S. Sebastião até Campo de Ourique, de Telheiras à Pontinha e de Odivelas a Loures, com túnel de articulação à renovada linha ferroviária do Oeste (Contudo, o revolucionário projecto japonês do “Metro das Colinas”, saindo de Santa Apolónia, subindo à Graça e Sapadores para passar em viaduto à colina de Santana e desta, por modo idêntico, ao Príncipe Real, terminando na Estrela ou em Alcântara, estará ainda em vias de execução, devido a complicações técnicas e financeiras entretanto surgidas); 2) enterramento do comboio do Cais do Sodré até Algés; 3) eléctricos rápidos de Alcântara ao Jamor e do Terreiro do Paço ao Parque das Nações; 3) túnel rodoviário ligando a Av. 24 de Julho à Infante D. Henrique, para libertar a Praça do Comércio; 4) terceira ponte (rodo-ferroviária) sobre o Tejo, como estava programada desde o início do século; 5) e o novo aeroporto em Alcochete.

O esvaziamento do espaço aeroportuário da Portela de Sacavém (que todavia reteve um heliporto de boas dimensões) permitiu abrigar ali a nova Gare Ferroviária Central da capital e desenvolver ao máximo a urbanização na Alta de Lisboa onde, aproveitando a altitude do lugar, uma enorme torre-miradouro de telecomunicações permite agora aos turistas uma fabulosa vista de 360º, de Sintra a Cascais, a Palmela e a Santarém. Foi uma “quarta centralidade” de Lisboa que ali nasceu (depois da Baixa, Belém e Parque das Nações): onde antes eram quintarolas e depois foram barracas e “bairros sociais”, vive agora gente da classe média-alta em seguros condomínios fechados e existem alguns espaços e equipamentos colectivos de boa qualidade. Está mesmo projectada para ali a “nova ópera de Lisboa” (quando houver um mecenas que ajude o financiamento).

Entretanto, as populações segregadas para fora da Lisboa pós-moderna foram-se acumulando nos concelhos de Amadora, Sintra, Odivelas, Loures e Vila Franca (além, da margem sul), criando problemas que os respectivos autarcas têm dificuldade em resolver.

Mas a capital portuguesa já ombreia de novo com outras grandes urbes europeias!


JF /22.Jan.2017

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Mário Soares

Finou-se há sete dias uma das figuras cimeiras da vida portuguesa da nossa época. Já tudo foi dito e escrito sobre a personagem, quase sempre em termos elogiosos (sobretudo pela voz pública), como é de norma e neste caso também de justiça, se apaziguarmos as paixões.
Porém, alguns viram nele o político que vendeu o ultramar aos nacionalistas dos diversos territórios sem cuidar devidamente dos portugueses de raiz que lá viviam e dos naturais que queriam continuar a sê-lo, nem tentar uma transição que assegurasse a paz nos territórios e um mínimo de convivência democrática entre aqueles que ali aspiravam ao poder (mas é certo que os soldados já não queriam combater e os capitães-de-Abril estavam ideologicamente adquiridos à “justa luta” dos independentistas). Outros não lhe perdoaram ter então virado as costas à “união-das-esquerdas” em Portugal e, pelo contrário, ter encabeçado “a reacção” contra as dinâmicas revolucionárias ou aventureiras da extrema-esquerda.
De facto, contrastando com a flacidez da sua fisionomia e a argumentação superficial e inconsistente que era geralmente a sua, Mário Soares revelou-se então como o “leão” que se bate sem temor e arrisca tudo para alcançar o que a sua certeira intuição política lhe recomenda. Nessa altura, em que se jogava o destino do país, era: -garantir um quadro de liberdade democrática compatível com o modelo dominante no Ocidente; -travar os frescos entusiasmos da “esquerda militar” que pensava como se estivesse em África; -impedir um “retorno do pêndulo” que conduzisse a uma solução política restauracionista; -arriscar-se a ter como “companheiro de barricada” muito do que havia de conservador na sociedade portuguesa de então, que em seguida lhe haveria de pedir contas.
Nessa ocasião foi, à nossa pequena escala, o “Churchill português”, que corajosamente se empenhou e conseguiu ganhar uma batalha decisiva. O regime democrático deve-lhe muito.  
Estabilizado esse, Soares foi o político habilidoso que todos reconheceram, usando das mais variadas jogadas e estratagemas para aceder e ocupar o poder – como chefe do governo e Presidente da República –, ou para contestar e minar um governo de cor diferente da sua – como líder da oposição, também como Presidente da República e ainda como aposentado da função, desmentindo a promessa que fizera de, depois de Belém, não lhe fazer sentido voltar à política partidária. Nesta vertente, Mário Soares foi apenas um chefe-de-partido, de grande longevidade e notável capacidade de “influência”.
Recordar os tempos em que o jovem Soares era um militante empenhado do partido comunista é matéria que não tem hoje grande significado e deve ser deixada aos historiadores, tal como as razões porque dele se afastou, aproximando-se de gente mais próxima da família política de seu pai, republicanos de sensibilidade socialista como, por exemplo, António Sérgio.
Em contrapartida, não pode ser esquecido o seu prestígio e reputação internacional, mesmo numa época que deixou de ser a sua. Para além das relações pessoais que cultivava (Mitterrand, Felipe González, Helmutt Schmitt, Olof Palm, Bettino Craxi, Ximon Peres e até Yasser Arafat o apreciaram), foi também o país moderno pós-salazarista que, através dele, esteve presente nesses areópagos europeus. Para o que certamente também contou (superando o péssimo domínio de línguas estrangeiras) a sua simpatia e carisma pessoal, tanto como um certo domínio da história e à-vontade nos temas culturais. E a Fundação com o seu nome constitui hoje um património documental de valor inestimável.
Mas há ainda a faceta mais obscura do chefe-de-clã. Só os próximos saberão dessas coisas. Mas há suficientes relatos públicos para se perceber que a fidelidade pessoal traída ou a denúncia de certos segredos determinaria nele e nos seus próximos atitudes de rejeição e de “cordão sanitário” de que ninguém mais se poderia livrar, salvo passando-se para um campo adverso.
Intuitivo, com gosto pela escrita, sagaz, corajoso e com o sentido das oportunidades dos políticos de gema, Mário Soares é um dos homens públicos incontornáveis do século XX português. Há-de ser sempre recordado.    

JF / 14.Jan.2017

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Cinco minutos a sós com Deus

Como a maior parte dos jovens da época e do meu meio social, eu tive uma educação católica ma non troppo. A minha mãe ia à missa (e mandou-me à catequese) mas o meu pai apenas a acompanhava. O meu avô era maçon e só entrou em igrejas para alguma cerimónia de casamento, mas despedia-nos com um “Vai com Deus”. Só a minha irmã se tornou uma católica de verdade e coração, fazendo do apostolado uma das dimensões fortes da sua vida. Eu segui a esteira da minha época e, ao chegar à idade adulta, emancipei-me decididamente de qualquer crença religiosa. O meu pensamento crítico-racional nunca sentiu necessidade de questionar mais do que a realidade sensível, material ou social que me rodeava, com o auxílio daquilo que fui aprendendo da acumulação do conhecimento científico ao meu alcance. O que desconhecemos, desconhecemos, e talvez outros venham mais tarde a ser capazes de o explicar um pouco melhor. Os fenómenos sobre-naturais, os poderes extraordinários de certas pessoas, as coincidências perturbantes, os “milagres”, não constituíam para mim algo de essencialmente diferente do nosso ainda escasso conhecimento acerca do funcionamento celular ou sobre os “buracos negros” do universo. Questões metafísicas acerca da “alma” ou dos “espíritos”, nunca me perturbaram a consciência. Eram interrogações especulativas cuja amplitude ia, pouco a pouco, sendo reduzida devido ao labor de especialistas de conhecimento muito aprofundado. Nos termos filosóficos elementares aprendidos no liceu, julgo ter-me sentido sempre mais próximo do ateísmo do que propriamente do agnosticismo. Não do ateísmo positivista apostado em “negar a existência de Deus” – e talvez por isso nunca o tenha proclamado abertamente. Mas parecia-me que a posição do agnóstico pressupunha sempre a possibilidade da existência de Deus – só que fora do alcance do sujeito, e deixando-o portanto à merce de “um chamamento”, que o levasse “a acreditar” – o que nunca foi o meu caso, nem racional, nem emocionalmente considerado. A transcendência, se existe, está tão longe de mim, como problema, como o bosão de Higgs ou o big bang.
Realmente, a religião só me interessou verdadeiramente (e ainda assim em terceiro ou quarto plano de prioridades) enquanto fenómeno social, susceptível de análise empírica e psicológica, e sobretudo pelos seus efeitos históricos que, sob novas formas, todavia perduram na actualidade. Verdade seja que conheço muito mal as grandes religiões orientais, apenas superficialmente o hinduísmo, o budismo ou o confucionismo. Mas, com a curiosidade do sociólogo e do cidadão, debrucei-me um pouco mais sobre a história do judaísmo, do cristianismo, do islamismo e dos protestantismos. Matéria interessante para aprender, não para praticar ou ser para mim motivo de fascínio.
O que quero porém significar é que, apesar da descoberta das “luzes da razão” que fiz ao desembarcar na idade adulta, não tenho dúvidas em ser também um resultado da cultura judaico-cristã prevalecente no ambiente social em que me desenvolvi. Para além da doçura materna e da educação paterna, o meu carácter e personalidade foram decerto marcados pela rudimentar educação católica que recebi na infância e na adolescência. O final deste último período do meu desenvolvimento pessoal coincidiu com uma fase de renovação da Igreja de Roma assinalada pelo concílio Vaticano II e por mobilizações generosas como a de muitos “católicos progressistas” (num país como Portugal, então muito fechado ao mundo) ou a de um Movimento para um Mundo Melhor, entre outros. Foi passageira a minha estadia nesses meios, típicos dos anos 60, porque outras mudanças sociais e pessoais estavam em curso, com muito maior amplitude e profundidade reflexiva. Mas lembro-me que então se dizia que aos católicos competia, no dia-a-dia, “dar testemunho da sua fé”. Esta postura era substancialmente diferente do catolicismo do “medo do inferno”, do temor do “pecado” ou do “Deus-pai todo poderoso” com que padres, catequistas e outros mais velhos nos buzinavam aos ouvidos; e sem a disciplina mortificadora do corpo a que nos obrigava a oração (eu, que sempre sofri de me ajoelhar… e por isso não fui para a guerra sem antes ter comprado um daqueles pares de joalheiras com que os guarda-redes de então protegiam essas articulações). Só muito mais tarde compreendi, racionalmente, a importância e o alcance destes gestos e rituais, mas agora num registo eminentemente sócio-antropológico.
Porém, num ponto, julgo que aproveitei deste curto período da minha vida de católico reflectido. O tal “testemunho” quotidiano seria um comportamento e uma atitude eventualmente observável por terceiros mas tinha, no fundo, dois únicos agentes activos: Deus e eu próprio. Em tête-à-tête, sem lugar para intermediários, árbitro, testemunhas ou espectadores, que são sempre figuras que alteram as condições de um efectivo diálogo. Se Deus – aqui representado no seu modelo ideal – era a máxima expressão do Bem, do Amor, do Bom e do Belo, se era a Verdade e a Omnisciência levadas ao infinito, então resultava inútil e mesmo grotesca qualquer tentativa de argumentação sofista, de desculpa ou justificação para as nossas fraquezas ou tropelias. Imaginar-se estar só perante Deus foi, afinal, o truque mental para um reencontro connosco mesmos com o máximo de sinceridade que me seria possível (ou a qualquer ser humano, supunha eu). Sobretudo quando tais congeminações foram desenvolvidas perante uma iminência da morte – da nossa morte física –, bem pensada e bem vivida.
Admito completamente que haja múltiplas outras formas de introspecção pessoal, e que algumas possam até envolver mais do que a actividade mental, mobilizando o próprio corpo ou partes deles (como suspeito que seja o caso de certas espiritualidades orientais), ou ainda as suas interacções psico-biológicas com o ambiente circundante e a forma como cada qual procede à sua digestão. Mas, circunscrevendo-me à minha experiência pessoal e àquelas que julgo mais correntes nas culturais ocidentais, posso admitir que a discussão mais séria e profunda que possamos ter connosco mesmos – ou o “exame de consciência” que o capelão nos prescrevia – seja as mais das vezes torpedeada por armadilhas auto-justificativas, inconsequentes jogos de mutação identitária, círculos viciosos de raciocínio preguiçoso ou fixações mais profundas ancoradas no nosso inconsciente. A diagnose tentada com um especialista tem certamente alguns efeitos terapêuticos para situações de pessoas mais perturbadas, já porventura a roçar a patologia. Mas aqui eu estava referindo-me a indivíduos razoavelmente sãos de corpo e de mente.
Aqueles “cinco minutos com Deus” foram apenas uma pequena fracção de tempo no desenrolar da fita da minha vida. Daí para diante fiquei bem, sozinho e/ou acompanhado, completamente dentro do mundo e em parte contra ele. Por isso, se posso recomendar alguma coisa a alguém, sobretudo se é jovem e inquieto e ainda procura o seu caminho, é que não desperdice esses “cinco minutos” para se conhecer melhor e reconciliar consigo mesmo. E, se não for desta, que seja de outra maneira que se lhe torne mais viável e mais conforme ao seu ser.

(Texto dedicado a uma querida amiga que me conheceu de cueiros e ainda hoje me dedica uma parcela do seu generoso afecto.)


JF / 6.Jan.2017

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A Universidade e os saberes

As universidades são instituições antigas, com vários séculos de história ao longo dos quais se registaram consideráveis alterações nos objectivos perseguidos e modos de os atingir. Durante muito tempo, elas ensinavam com mais elevada sofisticação argumentativa os credos religiosos dominantes nas respectivas sociedades, e algumas ainda hoje o fazem. Mas, a par disso e da discussão especulativa das leis que deviam reger a conduta os Homens, também se empenharam em estudar e explicar os fenómenos naturais observáveis na natureza envolvente. Assim, desde logo se cavaram diferenciações profundas entre meia dúzia de ramos do saber, cada um deles capaz de elaborar e justificar as suas próprias metodologias de pensar: a teologia, consolidando o património legado pelos “doutores da Igreja” (Santo Agostinho, S. Tomás de Aquino) mas bastante imbricada com a base filosófica legada pelo antigos Gregos; a literatura (poética, teatro, epopeia); as leis e a retórica, muito ao serviço dos poderes político-sociais dominantes (e criando uma incrível densidade de regras formais que marcaram a época medieval); a matemática, ligada à astronomia e à representação da Terra por um lado, e à física e às edificações por outro; a cartografia geográfica e a navegação; a medicina; e as ciências naturais (em particular a zoologia e a botânica).
Com a revolução cultural renascentista (a que não foi alheio o estilhaçamento da unicidade do cristianismo de Roma), a universidade começou a projectar os seus braços, formando Colégios especializados em novos ramos da ciência, a saber: a biologia, explorando os mecanismos mais íntimos e não visíveis da vida, com efeitos na medicina e no aprofundamento do conhecimento do mundo animal e vegetal; a geologia e a história da terra (com ligação aos antecedentes); a física (mecânica, óptica, magnetismo, termodinâmica, etc., conhecimentos que tornaram possível a “revolução industrial”); a química (com desenvolvimento um pouco posterior mas irresistível, permitindo penetrar onde a física já não chegava e com aplicações directas na indústria); a história (puxada da lenda e da crónica para a esfera do saber investigativo); e a economia (despegando-se da filosofia e do direito, e explorando os métodos de cálculo matemático). Em contrapartida, a literatura saiu a pouco e pouco da alçada académica para o espaço civil da criação artística, autonomizando-se com o romance, a novela, o jornalismo e o panfletarismo. E as “artes da guerra” mantiveram-se sempre à margem destas instituições, constituindo a sua própria escola de pensamento e de formação dos seus quadros, um pouco como os conventos e seminários haviam congelado a disciplina, os saberes e os rituais do cristianismo.
No século XVIII, as “luzes” do racionalismo abriram novas portas ao conhecimento, crença em que acreditavam firmemente os enciclopedistas. A educação e a pedagogia erigiram-se então em matérias importantes leccionadas em instituições especializadas, que deveriam orientar os futuros profissionais da escola pública, complementando e substituindo em boa medida o papel das famílias e das comunidades de base de residência ou pertença. Preparava-se o processo da “reforma social” da Modernidade e, sob este enfoque, a metamorfose do Estado-nação.   
Por outro lado, paralelamente às Universidades, as Academias contribuíram poderosamente para a sistematização dos saberes: o método passou a dominar e organizar os resultados da investigação, da experimentação, da reflexão e da própria criação. Academias das Ciências, das Belas-Artes e das Belas-Letras, da História, de Música, etc., surgiram em vários cantos da Europa, relegando doravante para um passado tornado imóvel os saberes recitados da escola corânica ou dos santuários budistas. Obviamente, estas Academias beneficiavam dos favores dos poderes régios, mas estes acarinhavam sobretudo os arquitectos e os músicos, que lhes asseguravam a glorificação, e também os “físicos” (que lhes tratavam da saúde) e os confessores da Igreja, a bem de um eterno descanso. Mas o “método científico”, baseado na possibilidade de repetição da prova, entrou na sua idade adulta. E a Indústria – e já não o empório comercial ou os complexos e dificilmente transmissíveis saberes agrários – veio para, progressivamente, reorganizar toda a vida económica dos povos, alterar a estrutura social e as próprias sociabilidades e entendimentos colectivos. Não trouxe consigo apenas o Progresso e alguma forma de Liberdade; trouxe também uma enorme multiplicação da potência destruidora (ou constrangedora) das Armas, alterando a configuração da batalha e das guerras, mexendo com a diplomacia, redefinindo Nações e Impérios. Num plano mais conceptual, nascia também a geopolítica, caída em desgraça no século seguinte (Yves Lacoste: “la géographie sert avant tout à faire la guerre”). Porém, além das matérias-primas e dos novos mercados, a “segunda globalização” (colonial, oitocentista) atacou a espiritualidade animista ou panteísta de negros africanos e nativos americanos, atribuindo-se a humanitária missão de trazer esses povos para a nossa civilização e para a Modernidade – o que, parecendo impossível, afinal foi feito ao cabo de quatro ou cinco gerações, embora produzindo contradições e dilaceramentos internos que hoje se nos mostram mais visíveis.
Nesse século XIX – que viu também a economia e o direito começarem a organizar a vida internacional em bases mais racionais, com as convenções, as patentes e a estandardização –, a Universidade vai tomando as formas que ainda hoje lhe reconhecemos: faculdades e institutos donos de “disciplinas científicas” consolidadas; formalização de procedimentos (cátedras e cadeiras, exames, concursos, bibliotecas, laboratórios, rotinas administrativas, rituais académicos, fontes de financiamento); cada vez maior subdivisão dos saberes, organizados em especialidades; e nascimento das “ciências humanas” (com a antropologia, a sociologia, a demografia, a psicologia, mais tarde a psicanálise); penetração quase geral do uso de técnicas de medição estatística, tendendo a dar àqueles últimas um aspecto mais objectivo – tudo isto favorecido e legitimado por uma visão filosófica positivista, que congelava definitivamente os “estados teológico e metafísico” do pensamento humano. Mas, é por estas épocas que a articulação entre a ciência e as técnicas se torna mais evidente, directa e impactante sobre a sociedade e o meio natural. A química e a física (sobretudo com o domínio dos materiais metálicos, os maquinismos e, depois, com a electricidade) tornam-se factores quase imediatamente produtivos; são eles que permitem (ou exigem) o desabrochamento das engenharias como disciplinas e saberes de intermediação entre a investigação fundamental e as aplicações úteis, com valor económico.
No dealbar do século XX, a física alarga o seu espectro com a descoberta da composição íntima da matéria, o estudo das radiações, enfim, a física atómica. A electricidade, o magnetismo e as radiações suportam o desenvolvimento da electrónica, com a exploração do espectro radioeléctrico e a multiplicação e especialização de equipamentos. Aqui, o décalage temporal entre descobertas científicas e artefactos fabricados com base nelas reduz-se talvez a 30 ou 40 anos (a telegrafia sem fios, a radiologia, o incrível poder destruidor da “bomba atómica”, etc.). E a instituição universitária – agora no Ocidente já totalmente liberta das peias religiosas – acantona-se durante algum tempo numa estruturação interna implícita em torno de duas grandes áreas: as “ciências” (exactas, experimentais e comprováveis, incluindo as físico-químicas, as engenharias, a medicina e a farmácia, ou ainda as chamadas ciências naturais), por um lado; e por outro as “humanidades”, onde cabiam a história, a filosofia, o estudo das línguas, das literaturas e das culturas, a sociologia e (um pouco forçadamente, mas por razões diferentes) a geografia e o direito. A escola primária continuava a ter como missão o ensinar a ler, escrever e contar. Mas as matérias elementares do ensino secundário que abriam os caminhos para aquelas duas fileiras eram, no primeiro caso, as matemáticas e as ciências físico-químicas; e, no segundo, geralmente o latim, a filosofia e a história. Não por acaso, os prestigiados prémios criado por Alfred Nobel incidiram sobre a Física, a Química e a Medicina e Biologia, sendo o da Literatura e o da Paz correspondentes a outras motivações daquela época.
A indústria, os meios de transporte e comunicação, os laboratórios dos cientistas e os gabinetes governamentais criaram então as condições de crescimento de uma economia capitalista que se tornou imparável, até aos nossos dias. Esta, por sua vez, modificou profundamente as estruturas internas das sociedades e afectou as relações internacionais com efeitos nunca antes imaginados (guerras, tratados, organizações inter-estatais). E esta economia, as indústrias pesadas e extractivas, e os progressos constantes da ocupação urbana ajudaram a configurar um novo desafio: o de fazer face aos nefastos efeitos ambientais, com a emergência de algum novo cepticismo quanto aos benefícios do Progresso em franjas minoritárias mais sensíveis das opiniões públicas. 
Depois do processo de descolonização, do alarme causado pelo “risco nuclear” e na vigência de um quadro de áspera competição entre duas “super-potências” (americana e russo-“soviética”), a ciência e as instituições universitárias tornaram-se verdadeiramente matéria de interesse estatal: assegurando-lhes financiamento e encomendas, sugerindo-lhes orientações de pesquisa, estimulando a aproximação universidade-empresas, enquadrando a “vontade de saber” de populações de jovens cada vez mais vastas e preparando as futuras classes dirigentes – sempre com um olho na competição internacional, agora escrutinada com indicadores, rankings e estatísticas muito elaboradas. Neste contexto, a área dos estudos económicos desenvolveu-se notavelmente (acabando também por suscitar um outro Prémio Nobel) e sobretudo originou um novo filão de formação e carreiras profissionais que, de alguma maneira, são típicas do século XX e se prolongam na actualidade: referimo-nos aos gestores, uma qualificação aprendida com o contributo de várias matérias (economia, estatística, direito, psicologia e outras mais específicas) cujos titulares tendem a ocupar os lugares profissionais intermédios das médias/grandes organizações produtivas (fabricantes, prestadoras de serviços, vendedoras, etc.) e de entre os quais se recrutarão as próximas elites dirigentes.
Entretanto, acossadas por uma onda de credibilização que só a auréola de cientificidade parecia poder dar, as “humanidades” não descansaram enquanto não se sujeitaram a critérios de validação semelhantes aos das suas primas “nomotéticas”, assumindo-se no areópago académico como “ciências sociais e humanas”, também vulgarmente tratadas por “ciências moles” para se distinguirem daquelas, ditas “duras”. E, mais recentemente, até as disciplinas artísticas – da música ao teatro ou às belas-artes –, e mesmo as ciências-e-artes da guerra, não resistiram ao apelo de se abrigarem sob a tenda da universidade e de os seus estudantes se representarem com o “manto diáfano” das capas negras – sendo esse também o grande desígnio que alimenta as aspirações das escolas técnicas de nível superior.
Mas, assim como a geografia proporcionou que tal objecto de estudo permitisse abordagens multi-disciplinares (geografia física e geografia humana, para começar), também o desenvolvimento do conhecimento científico tem evidenciado numerosos conflitos quanto à jurisdição de que se arrogam certas disciplinas (ou áreas de conhecimento), decerto com teorias explicativas e métodos de análise originais, mas cada qual pretendendo possuir potencialidades heurísticas superiores… quando muitas vezes tais argumentos cobrem apenas interesses particulares dos seus praticantes (disputa de melhores recursos materiais ou humanos, dos favores dos financiadores, de prestígio próprio e outras compreensíveis fraquezas humanas). Mas noutros casos é o desenvolvimento interno de certos paradigmas teóricos ou metodologias de análise que introduzem factores de crise ou definhamento da capacidade explicativa de uns ramos destas ciências, em favor de outros. Por exemplo, depois de uma fase de florescimento e indesmentível atractividade, a sociologia contemporânea parece-me estar a sofrer dos avanços de disciplinas parcialmente concorrentes como a psicologia social, a antropologia das sociedades complexas, o ordenamento territorial, a história oral, a ciência política ou as relações internacionais. E há ainda os efeitos das percepções sociais dos mais jovens sobre as oportunidades futuras, que podem justificar a redução do interesse pela história, os efeitos de moda das actividades artísticas/criativas ou as fundadas expectativas em toda a fileira das “TIC”.
O desenvolvimento dos diversos saberes científicos tem-se operado nas últimas décadas sem qualquer cimento de ligação entre eles. A filosofia deixou de preencher esse papel, resumindo-se agora talvez a uma “história da evolução do pensamento humano”. Nenhuma meta-teoria, nenhuma epistemologia consistente subjaz às derivas próprias de cada ramo do conhecimento, alguns dos quais cavalgam alegremente as fantásticas tecnologias já disponíveis (ou deixam-se conduzir por elas). Talvez por isso, as religiões parecem sobreviver e relançar-se, após dois séculos de exibição triunfante das nossas racionalidades.
Novas problemáticas e núcleos de saberes se formam – por exemplo, agora nas ciências da computação, na bioquímica ou na astrofísica – com maior rapidez do que se esbatem ou superam as referidas disputas interdisciplinares. Mas, acrescentando-se à missão permanente dos institutos universitários de ciência – pesquisa, codificação e difusão dos saberes –, nunca talvez como agora se esperou tanto dos seus resultados para responder a questões colocadas pelo próprio desenvolvimento da sociedade.
Na actualidade, para dirigir estas grandes organizações que são geralmente as universidades, já não são necessários (nem talvez convenientes) reitores cientistas ou humanistas como foi, por exemplo, Unamuno – que corajosamente enfrentou em 1936 o nacionalismo espanhol mais estúpido e brutal. Bastam bons administradores ou gestores, naturalmente provindo do meio docente universitário mas que, em vez de prosseguirem o seu mister de investigar, ensinar e publicar, disponham antes de competências próprias para bem gerirem recursos diversos em ambientes complexos.
Além disso, hoje, num país como o nosso, as universidades (e os politécnicos) constituem uma espécie de “serviço cívico” para os jovens que almejam alçar-se a patamares de actividade profissional com alguma respeitabilidade social, autonomia de decisão e rendimento económico mais confortável. Eis uma expectativa porventura excessiva para uma instituição que, aspirando à universalidade e ao máximo possível de liberdade para investigar e criar/propor novos esquemas explicativos que dêem conta das complexidades crescentes do mundo onde estamos inseridos, se vê ainda e sempre limitada pelos recursos dos seus patrocinadores principais: os estados nacionais em que se situam.

JF / 28.Dez.2016  

sábado, 17 de dezembro de 2016

Mentira e morte, em política

Estamos de novo a viver um período difícil, na vida política internacional e igualmente em muitos países.
Até ao século XIX, com regimes monárquicos hereditários e sem escrutínios públicos, o recurso à eliminação física de adversários ou rivais ocorria com alguma frequência, incluindo entre pessoas com laços familiares entre si. Além das guerras, a morte era aceita para a investigação da verdade e nos veredictos da justiça. Só a consciência individual ou o receito da violação de leis divinas constituíam travões a tais práticas.

Por outro lado, esses mesmos poderes absolutos da realeza não precisavam de se preocupar minimamente em falar verdade: os seus discursos eram apenas ditados pela sua vontade ou seguindo o conselho dos seus ministros. Apenas em raros momentos de audição pública colectiva – as Cortes ou órgãos equivalentes –, perante embaixadores ou os próprios reis estrangeiros, ou entidades detentoras de outros poderes (senhores feudais, municípios e corporações, condestáveis, bispos, judeus prestamistas, etc.) os monarcas de então eram constrangidos usar justificações e argumentos com alguma verosimilhança e racionalidade. Normalmente, para eles, a verdade ou a mentira eram meramente discricionárias ou apenas instrumentais para a obtenção de certos fins ou interesses inconfessáveis. 

Evidentemente que houve sempre reis e senhores que se guiaram pela bondade e amor dos seus súbditos, e procuraram falar verdade. Em geral, foram os mais apreciados pelos povos que dirigiam, quando estes tiveram a possibilidade e a oportunidade de forjar uma opinião própria.

Esta dependência do carácter pessoal do monarca acabou com a instauração dos regimes constitucionais e, mais consolidadamente, com a generalização das repúblicas. Porque estas se fundaram e foram duradouramente alimentadas por uma ideologia de “direitos e deveres iguais” de todos os cidadãos; porque as instituições judiciais e policiais e a própria guerra passaram a estar sob a alçada de leis que traduziam aqueles princípios; porque, nessas condições, uma imprensa livre passou a vigiar eficazmente o exercício dos poderes públicos e se foi assim construindo uma opinião pública mais vigilante e capaz de se indignar e manifestar-se nas ruas ou nos parlamentos perante desmandos dos governantes – as populações destas sociedades ocidentais puderam beneficiar e habituar-se a acreditar razoavelmente nas proclamações e comunicados oficiais.

O século XX viu, contudo, graves violações e inversões destes princípios. Depois da Primeira Guerra Mundial, foi na própria Europa que líderes populistas como Mussolini, primeiro, e Hitler, depois, instauraram práticas da mentira descarada como expressão normal da clique governante (com a rádio a ajudar à sua amplificação). Nisto, foram acompanhados pelo poder “soviético” instalado na sequência da revolução de 1917 que havia derrubado o czarismo. Nisto e na facilidade e indiferença com que mandaram assassinar adversários políticos e, por fim, comunidades inteiras (como milhões de judeus ou “agentes ocidentais”) que pereceram nos fornos crematórios ou nos gulags siberianos.

Obviamente, fora deste espaço ocidental onde os Direitos do Homem tinham alguma aplicação, não eram poucos os países onde se matava com ligeireza e impunidade, por obra de regimes ditatoriais de diversos matizes. Mas também existiram casos de espécie: o Japão foi uma potência imperialista e militarista que causou indesculpáveis estragos e massacres em povos vizinhos, mas a mentira não fazia parte do seu discurso político. Diversamente, a URSS criou um estilo de argumentação estereotipada (“língua-de-pau”), rapidamente copiado pelos partidos-irmãos, em que, como escreveu George Orwell, a verdade passa a ser mentira e a mentira circula como verdade. E desde há muito que as opiniões públicas ocidentais se habituaram a não acreditar grandemente nas declarações e promessas dos estadistas árabes, genericamente considerados como pouco fiáveis. É certamente um preconceito, mas por alguma razão ganhou raízes em diversos sectores de opinião.

O espírito crítico e não fanático ou sectário foi geralmente capaz de “dar desconto” e se precaver, nos regimes democráticos, contra as omissões, inverdades ou “pequenas mentiras” a que mesmo os governantes mais honestos estão sujeitos, às vezes por “razões de Estado”, algumas das quais atendíveis, outras vezes por mero eleitoralismo, ou excesso de empenho na luta inter-partidária.      

O que agora nos aflige é que grandes potências tenham actualmente lideranças que nos estão a habituar a, sistematicamente, afirmar uma verdade entre cada duas mentiras, sempre com a mesma impassibilidade de expressão facial. A Coreia do Norte, as Filipinas, o Irão, a Rússia do senhor Putin, a Turquia de Erdogan ou a Síria de Assad (além da China, claro) estão talvez à frente dos regimes que praticam este tipo de discurso. E têm o deplorável hábito de eliminar (ou, pelo menos, tentam fazê-lo) aqueles que se lhes opõem ou os podem desmascarar. A tanto não chegam a Venezuela ou o próprio Brasil, mas, como vários outros, são estados onde a mentira baila alegremente na boca dos seus dirigentes. Nestes casos, a corrupção e o negocismo aparecem-lhes muitas vezes associados.

Finalmente, o espaço da mentira quase-institucional acabou de ganhar um importante alargamento com o surgimento do senhor Donald Trump, catapultado para a cabeça da mais poderosa nação do mundo, em grande parte devido ao seu discurso super-demagógico, primário e mentiroso. E a combinação vergonhosa da mentira com a violência e a morte tem vindo a campear nas terras da Síria e do Iraque setentrionais, primeiro pelos bárbaros do “Estado Islâmico”, e depois, sobretudo nos últimos tempos, com o castigo que tem estado a ser infligido à cidade-mártir de Alepo, onde nunca sabemos quem são os rebeldes e os resistentes, mas conhecemos sempre donde vêm os aviões e as granadas e os mísseis que arrasam a cidade e dizimam a sua população civil.


JF / 16.Dez.2016

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Sinais preocupantes de exasperação política

Lembram-se de quando “Tó Zé” Seguro era o líder do partido socialista e em 2013 recusou qualquer entendimento com o governo, não cessando de exigir eleições antecipadas? E de António Costa, antes como depois das eleições, ter recusado acertar qualquer política de médio ou longo prazo com Passos Coelho, mesmo sobre matérias tão estruturantes (e, à partida, pouco eleitoralistas) como a sustentabilidade da segurança social? E, inversamente, como o governo PSD-CDS terá provavelmente confiado sempre mais nas receitas dos seus boys e conselheiros externos do que em tentar algum tipo de acordos com “o maior partido da oposição”?

De facto, já só quase o Presidente (que tem a sua agenda própria) aparece ainda a sugerir “pactos de regime” entre os vários partidos, sobretudo os de maior representatividade nacional, relativamente à educação, saúde, sustentabilidade da segurança social, saneamento das contas públicas ou reforma do sistema político. Parece que, quanto mais se fecha o leque das alternativas de orientação política e os partidos mais se parecem uns com os outros, mais difícil se torna qualquer entendimento entre eles, mesmo sobre assuntos menores da governação. Isto, praticamente quando ninguém põe hoje em causa o sistema democrático de governo, a propriedade privada, a economia de mercado, as grandes organizações internacionais ou o papel da concorrência (até no âmbito da educação escolar!). Embora “engolindo sapos”, comunistas e esquerdistas também participam nessa mesma liturgia. Contudo, é vê-los à bulha sobre minudências jurídicas, no rateio das verbas do orçamento ou na dose de cortes que é preciso aplicar na despesa pública, procedimento que uns apelidam de “austeridade” e outros de “rigor”.

A actual coligação no poder parece de-vento-em-popa e, tirando os tropeções na “Caixa”, quase tudo lhe corre bem. Tem a opinião pública relaxada e a comunicação social atenta mas geralmente a seu favor, tal como o PR. Eu não duvido que as esquerdas possuam melhores quadros técnicos capazes de arranjar soluções mais engenhosas quanto à eficácia das políticas e dos serviços públicos. Mas são quase sempre medidas que aumentam a despesa do Estado e não necessariamente a sua eficiência ou a produtividade do trabalho, seja nos ministérios, nas autarquias e regiões, nas empresas públicas ou mesmo nos organismos autónomos (preços tabelados, despesas com pessoal, etc., e não é certo que assim melhore a motivação deste). Por outro lado, os exemplos que se têm visto nos anos passados dos contratos com os privados (PPP’s, “rendas” asseguradas a sectores ou empresas, etc.) não são de molde a deixar-nos descansados. E, como já sabemos demasiado bem, a despesa pública só se paga com mais impostos ou endividamento.

A eleição de Obama há oito anos para a presidência dos Estados Unidos levou a algumas correcções de tiro na política externa e procurou uma reforma de modestas proporções na assistência sanitária aos mais pobres, além de que a sua própria imagem de negro inteligente, moderado, bem-nascido e bem-parecido augurava um mandato feliz e conciliador da grande maioria dos americanos, e destes com o mundo, após a penosa experiência do Bush júnior. Pois, foi neste quadro que uma parte da América branca conservadora se rebelou, com o movimento do Tea Party a fragmentar o partido republicano, bloqueando várias medidas do presidente no congresso, ganhando aqui a maioria nas eleições intercalares e dando origem à inacreditável emergência do senhor Trump na cena política nacional. A sua vitória final nas urnas não vai pôr fim a este mal-estar, antes vai amplificá-lo: Washington vai retrair-se do envolvimento em grandes desafios mundiais; salvo na tecnologia, na economia e no comércio externo, os EUA vão fechar-se mais sobre si próprios; e, embora revertendo parte das políticas sociais, raciais e ambientais que vinham sendo prosseguidas, a resistência oposta pelos seus destinatários e as próprias dificuldades institucionais e orçamentais para o lograr vão provavelmente continuar a exasperar a “direita profunda” que o elegeu. Por outro lado, a política externa que Trump irá efectivamente pôr em prática é ainda uma enorme interrogação.

Mas há um outro ponto fraco destes regimes democrático-eleitoralistas: é que, com a polarização (e personalização) da escolha do executivo governamental, em cada ciclo de quatro anos há um que fica quase completamente perdido, tanto em termos de política interna como na sua acção no xadrez internacional. Veja-se como, além de outros, Putin (que joga com outras coordenadas) tem aproveitado esta circunstância para se afirmar internamente e impor-se no que considera ser o seu “espaço vital”.

Em França, em breve haverá eleições presidenciais e é mais do que provável que Marine Le Pen passará à segunda volta, devendo ser aí vencida, pois unir-se-á contra ela a “frente republicana”. Nas legislativas seguintes, é inevitável que o número de deputados eleitos pela Frente Nacional volte a ficar muito aquém da expressão dos seus votos genuínos em termos proporcionais. O sistema eleitoral maioritário em duas voltas é hoje a principal barreira que impede esta extrema-direita nacionalista de governar a França. Podemos respirar de alívio com o facto, mas ele só adia o problema, ao mesmo tempo que faz aumentar o natural ressentimento desta já significativa parcela da opinião pública do país.

A tão criticada Srª Merkel tem conseguido manter na Alemanha a sua corajosa (e inteligente) política de acolhimento de um milhão de refugiados das guerras do próximo-oriente apesar da crescente oposição anti-imigrantes que se nota na opinião pública. É certo que com ela estão os sociais-democratas, sem oposição dos verdes, dos comunistas reconvertidos (Die Linke) ou dos liberais. Mas o partido eurocéptico AfD (Alternativa para a Alemanha) arrisca-se a inchar nos próximos resultados eleitorais nacionais para os finais do próximo ano. E na Áustria o candidato do partido de extrema-direita (FPO) à Presidência da República obteve 46% dos votos, o que causa apreensões para próximas legislativas.

E o desconcertante e inclassificável “movimento 5 estrelas” na Itália não assume também posições nacionalistas e anti-europeias sempre que estas encontram aplauso em largas camadas populares? O referendo de 4 de Dezembro sobre uma importante e necessária reforma constitucional proposta pelo governo Renzi não conseguiu aprovação, como já era previsível pelas reacções assustadas dos eleitorados que se observam em vários países perante problemas diversos, mas neste caso face a uma tentativa de dar melhor governabilidade ao sistema político italiano. Os partidos “do sistema” estão com as suas cotações muito em baixo e qualquer oportunidade parece boa para os castigar.

Ocorre então perguntar se toda esta gente que, com os seus votos, vai empurrando os partidos de direita (mais ou menos extremos) para diante e quiçá um dia para o exercício do poder é, digamos assim, “neofascista”? A nossa percepção inclina-se para a negativa. Com efeito, partimos das quatro seguintes constatações: em primeiro lugar, as sociedades democráticas “de bem-estar” habituaram os indivíduos a progressos constantes do seu nível de vida e isso é hoje cada vez menos evidente, sendo necessário algum tempo para reaprender a viver com maior contenção consumista; depois, as “classes políticas” perderam grande parte do prestígio e da autoridade que possuíam, ruídas pela corrupção, a ganância e o apetite do poder, existindo hoje um claro anseio de “refundação democrática”; em terceiro lugar, a globalização tornou mais evidente a injusta repartição da riqueza no mundo, tendendo a lançar os “damnés de la terre” ao assalto das “fortalezas ocidentais” e exigindo destas respostas novas e mais adequadas; e, finalmente, existe uma agenda e uma motivação de forças políticas radicais (islâmicas, mas não só) para utilizarem meios extremos no seu combate contra o modo-de-vida ocidental, o qual vai ter que reforçar as suas defesas nos planos fronteiriços, de segurança interna e informático. Neste quadro, a maioria dos votantes nestes partidos de extrema-direita está longe de querer lançar-se numa qualquer experiência totalitária, limitando-se a desejar mais segurança e ordem nas ruas, ver travada a corrente imigratória e preservada a identidade colectiva tradicional do seu país, e querendo também operar uma renovação profunda do pessoal político que desde há décadas ocupa e domina a cena pública. Por inevitável incultura política, dispõe-se a entregar o poder a forças direitistas, porque as esquerdas deixaram de responder aos seus anseios.

Isto não retira, porém, a noção de perigosidade ao fenómeno em si mesmo, dado que: Primo, as lideranças e a militância dos referidos partidos direitistas são perigosas, conscientes e visam objectivos que, em alguns casos, comportam elementos gravemente cerceadores das liberdades; Secundo, os eleitores que lhes entregarão o poder não imaginam as consequências futuras do seu voto; e Terzo, o combate que lhes moverão as esquerdas e outros companheiros-de-caminho será de molde a dar-lhes a coesão que não tinham à partida, por reflexo-de-defesa.

O dr. Jorge Sampaio veio dizer palavras de grave preocupação sobre o futuro que nos espera se nada de muito vigoroso e esclarecido, e rapidamente, for feito para travar esta subida eleitoral dos populismos. Mas deve dizer-se que tanto as forças políticas maioritárias de direitas como as de esquerda – mas talvez sobretudo estas – têm uma parte importante de responsabilidade por esta irrupção populista instrumentalizada por líderes como Trump ou Le Pen. É claro que logo personalidades emblemáticas de esquerda vieram “nuancear” o alerta de Sampaio: o jornalista José Vítor Malheiros, que têm clara noção do que são as exigências da comunicação televisiva (e, quando aí aparece, se comporta adequadamente), nas páginas do seu jornal não se coibiu de vir destapar ligeiramente a panóplia habitual do politicamente correcto, que à esquerda cabe protagonizar, juntando-lhe a tarefa adicional de desmascarar a “amálgama” onde querem confundi-la (com forças situadas nos antípodas), pelas suas críticas à UE ou à ditadura dos mercados; por seu lado, Francisco Louçã, que é um homem inteligente, conhecedor e culto, que se exprime de modo “jesuítico” mas que ultimamente tem tomado poses mais macias e institucionais, empurra a posição de Sampaio para onde mais lhe interessa: a de uma “economia responsável”, em que o Euro tenha desaparecido ou sido substancialmente transformado (Público, 16.Nov.2016).

Em especial, está qui patente o fenómeno das migrações maciças dos países pobres para as democracias bem nutridas. As diferenças abissais na distribuição da riqueza, os fáceis meios de comunicação existentes e as liberalidades do “way of life” ocidental explicam o essencial deste fenómeno, que só se esbaterá com fortíssimos investimentos financeiros nos países pobres. Mas as responsabilidades da situação actual repartem-se: à direita, porque se acomodaram facilmente com todas traficâncias, desde que a mão-de-obra fosse barata e os negócios prosperassem; à esquerda – que durante décadas havia sido hostil (por temperamento) às forças policiais e militares mas que aprendeu o valor da segurança já há uns trinta anos atrás –, porque continuou cega e surda a acreditar na abertura das fronteiras, como se a liberdade do comércio internacional (isto é, o abatimento das taxas alfandegárias e outras medidas facilitadoras da mobilidade mercantil) fosse automaticamente equivalente a ter escancaradas as passagens de pessoas nas linhas divisórias das soberanias legais e ainda porque acredita genuinamente na “fusão cultural universal”. A famosa “4ª liberdade” de circulação interna na CEE e na UE – a das pessoas – era uma ideia interessante mas, como de resto se viu na prática, a ter de ser implementada muito progressivamente, ao longo de décadas, no pressuposto de se estar caminhando para um duplo patamar – nacional e “comunitário” – de cidadania e de organização política da Europa. A circulação de profissionais regulamentados e o direito de estabelecimento foram processos complicados, de que o “canalizador polaco” foi o símbolo mais risível. Agora, que o processo de construção europeia está visivelmente “gripado”, alguma reposição dos controlos humanos fronteiriços vai certamente ser feita, em articulação com medidas de vigilância mais apertadas sobre as populações residentes e sobretudo sobre as suas “minorias problemáticas”. Além do acréscimo da despesa pública, alguém já nota em França que o país está há um ano a viver sob o “estado de emergência”? É triste reconhecê-lo, mas talvez que a futura clivagem política mais importante se faça entre os que assegurem esse controlo fronteiriço, filtrem as novas entradas e disponham de programas eficazes de ajuda aos refugiados e de integração social dos migrantes, por um lado, e aqueles outros que (entre outras medidas preocupantes), como o senhor Trump afirma, pretendem expulsar 3 milhões de pessoas que estariam ilegalmente no seu país ou “impedir a entrada a muçulmanos”, por outro.

Apesar de tudo, não sejamos trágicos antecipadamente. No caso da Europa, não nos parece que, mesmo que algum destes partidos populistas de direita venha a aceder à governação, isso seja “o fascismo de novo em acção” – ainda que eles pudessem alterar muitas leis liberais que julgávamos definitivamente adquiridas ou instaurassem medidas de segurança pelas quais anseiam até muitos eleitores de esquerda. Estribamo-nos no que atrás acentuámos. E também porque o maior perigo do nacionalismo – que é o lançar as nações e os povos uns contra os outros, pela guerra – nos parece definitivamente esconjurado. Bem sabemos que hoje se fazem guerras apenas com militares profissionais e armas de “comando remoto”, mas desde que os seus efeitos destruidores, com vítimas inimigas e civis “colaterais”, fiquem distantes. Porém, pela nossa parte, mantemos uma forte convicção (fundada em juízo analítico) de que “toda a Europa” sairia à rua para travar qualquer aventura deste tipo no seu solo.

Porém, muito mais plausível e também negativo para as vivências liberais de que têm usufruído as três últimas gerações (e para as aspirações libertárias de alguns de nós) é a tendência de que as políticas de centro-direita e de centro-esquerda vigentes entretanto se desumanizem cada vez mais, num reflexo de “grande centrão ameaçado”, acabando por cumprir uma parte do programa das “direitas perigosas” (nacionalistas, eurocépticas e autoritárias) para responder às expectativas do seu eleitorado e assim tentar vedar-lhes o caminho do seu acesso ao poder.
   
Da Grécia fala-se agora pouco, com o Syriza depurado do senhor Tsipras a aplicar a austeridade imposta pela terceira operação de “reestruturação da dívida” na última meia-dúzia de anos. Mas a anterior ala mais esquerdista deste partido (amigo do nosso Bloco de Esquerda), provavelmente em concordância com o antigo ministro das finanças Varoufakis, não deixará de se exprimir nas próximas eleições, provavelmente complicando as contas de qualquer coligação governamental, tal como (no outro extremo) os apoiantes do partido Aurora Dourada poderão crescer para níveis ainda mais preocupantes. Perder-se-á então a actual maioria de governo? A benefício de quem?
Da Turquia só pode falar-se com grandes dúvidas e receios. No meio deste clima de depuração política do Estado e da sociedade, com a perspectiva da entrada na União Europeia definitivamente arredada e uma economia em dificuldade, que esperanças restarão para os sectores mais esclarecidos e inconformistas do país? Aos laicos e ocidentalizados, esperar anos até que passe a onda de islamização e intolerância, emigrando alguns para o continente; mas os mais crentes e impacientes poderão ser tentados pela via da luta armada, sejam curdos ou não, defensores ou opositores de um Islão integrista. O que poderá fazer deslizar mais a Turquia para o turbilhão de instabilidade e insegurança que assola o Iémen, o Iraque e várias zonas da bordadura mediterrânica como a Síria, Gaza e a Líbia. Mesmo fora destes casos extremos, a vizinhança da fronteira sul da Europa continua a ser de molde a causar-nos grandes preocupações: a série televisiva espanhola O Príncipe, apesar de muitas simplificações “hoolywoodescas”, foi capaz de evidenciar com grande força de imagens a importância dos laços familiares nestas culturas islamizadas e a enorme falta de alternativas que se apresentem aos jovens das cidades do Magrebe (à parte a economia da droga e os pequenos tráficos e delinquências), sujeitos como os demais aos apelos da moda, das focagens mediáticas e ao abuso das “redes sociais”.  
Finalmente, a Espanha é talvez o país onde, não estando agora em causa focos de violência interna nem ameaças extremistas de direita, é o próprio regime democrático que põe à mostra alguns dos seus piores defeitos próprios: intransigência partidária e ideológica; confusão e enfrentamentos dentro do PSOE; bloqueio das instituições; riscos de exasperação dos nacionalismos periféricos. Com a pergunta adicional de saber que papel será capaz de jogar o jovem rei para manter o “Estado das nacionalidades” gizado nos anos 70; ou se, dessa incapacidade em o reformar, nascerá mais um grave problema para estes que são nossos vizinhos e principais parceiros económicos (nas trocas comerciais, banca e mesmo investimentos directos na produção e bens fundiários). Por agora, a economia não parece ter sofrido muito deste quase um ano “sem governo” e a sua ausência nos fora europeus até pode ter simplificado os seus sempre difíceis entendimentos. Mas, a prazo, na falta de certas decisões centrais necessárias, será também o sistema económico que poderá começar a “arrastar os pés” e a produzir descontentamento entre as populações.
 
Fora destes contextos político-institucionais nacionais, a outra “grande política” prossegue, de maneira sangrenta no Próximo-Oriente, e em modo larvar noutras paragens. Russos e alguns ocidentais, jihadistas e regulares, sunitas e xiitas, governos e seitas (religiosas, étnicas, tribais, políticas ou nacionais) – todos se enfrentam de armas na mão na Síria e no Iraque, e mais dispersamente nas Arábias e em África, em coligações precárias e sempre reversíveis. Mas no Extremo-Oriente (passe o habitual euro-geocentrismo), grandes manobras se desenham em torno dos mares da China, com de novo russos, japoneses, quiçá vietnamianos e indonésios, mais vizinhos turbulentos como a Coreia do Norte e o Sr. Duterte (que agora preside com punho-de-ferro na república “latino-americana” das Filipinas), a não quererem deixar a China falar sozinha na região frente aos Estados Unidos (que só pode contar com o apoio certo de australianos e neozelandeses). China que também tem internamente problemas complicados para resolver…

Depois de Palmira, Ramadi, Faluja, Nimrud, Tikrit e Kirkuk, a queda de Mossul para a coligação anti-Daesh irá deixar o Estado Islâmico com uma “profundidade de campo” de actuação e recursos muito reduzidos, com uma possível batalha final em torno de Racqua, nas margens do rio Eufrates. O destino do que resta de Alepo é ainda uma incógnita mas, se não se gerar aí algum incidente grave que ponha russos e americanos face a face, não é de crer que os bárbaros jihadistas do EIIL consigam triunfar, e menos ainda os guerrilheiros “moderados” que perecem ser os alvos preferenciais da aliança Putin-Assad. Isto significará o fim da guerra territorial em que a estratégia do EIIL assentou nos últimos anos. Este espaço (norte do Iraque e partes da Síria) e tempo (quase um quinquénio) foram suficientes para: fixar ali uma guerra de tipo convencional (que só se ganha no terreno à custa da destruição de cidades); indispor Washington contra Moscovo; lançar apelos e mobilizar aderentes em âmbitos mais vastos; expulsar para a Europa uma multidão de refugiados e assustá-la em simultâneo com a ameaça de atentados terroristas bem-sucedidos. Mas todos os analistas se preocupam já com o que será este pós-guerra, no terreno e fora dele. Reduzir-se-á o Daesh a um grupúsculo perigoso como parece ser hoje a Al-Kaeda? Ou este medievalismo brutal irá agora voltar a irromper de forma mais pontual em geografias alargadas? (em África, no Oriente ou mesmo na América?) Ou ainda: serão os próximos cenários de confrontos violentos o Egipto, a Turquia, o Magrebe ou o mesmo as imediações da península arábica?  

Isto não é política partidária mas, tal como aquela que está agora a ser praticada nos casos referidos, é também a disputa do poder (de decidir sobre nações e recursos gigantescos) que mobiliza as elites dirigentes e governantes. Ambas estão esquecidas de que a vida é curta, e que a maioria das pessoas espera deles outra actuação.


JF / 5.Dez.2016

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O período 1974-1986: doze anos decisivos que forjaram o mundo actual

Segundo alguns, nos anos de 1974 a 1986 ocorreram mudanças que passaram na altura como a factualidade do dia-a-dia que os noticiários nos trazem mas que, à distância, se podem considerar que foram decisivas para construir o mundo que actualmente existe, com todas as suas espectacularidades, dificuldades e interrogações.
Em 1974, a mudança de regime em Portugal deu algumas dores de cabeça aos governantes de Washington. A “utopia” dos militares revolucionários – pensando aplicar em Portugal o que tinham aprendido em  África, como sublinhou Eduardo Lourenço – acabou por ser de curta duração, embora tivesse deixado vestígios numa extrema-esquerda aguerrida mas muito dividida ideologicamente. Em breve, porém, os líderes ocidentais puderam ficar apaziguados com o rumo democrático aqui seguido a partir de 1976. É que se estava em plena “guerra fria”, com quedas e mudanças súbitas de sinal contrário, cujo equilíbrio final estava longe de ser perceptível. Em 1973, os militares haviam tomado o poder no Chile e Pinochet inaugurava uma ditadura sangrenta que duraria décadas, enquanto os israelitas ganhavam mais uma guerra aos países árabes (a chamada do Ion Kipur) sem que os golpes terroristas dos grupos palestinianos abrandassem (bombismo, desvio de aviões, reféns, etc.). Ainda em 1974, os coronéis gregos devolvem a governação aos partidos, mas em 74-75 são as colónias portuguesas de África tornadas países independentes que se inclinam notoriamente para o lado do Bloco de Leste e Cuba mete tropas em Angola e na Etiópia, onde o velho imperador Hailé Selassié fora deposto. São anos maus para os Estados Unidos, com a forçada demissão do presidente Nixon, a queda militar de Saigão e do Vietnam do Sul perante o Norte (pró-“soviéticos”), e o triunfo dos khmers vermelhos (pró-chineses) no Cambodja. Contraditoriamente, este avanço geoestratégico do Bloco de Leste só foi contido em Timor-Leste por uma invasão militar indonésia (que aí realizou uma ocupação opressiva e prolongada). E na América Latina eram regimes militares que se auto-justificavam fazendo frente às ameaças guerrilheiras esquerdistas (rurais ou urbanas), como no Brasil, no Uruguai (73) ou em 1976 na Argentina; mas três anos mais tarde os combatentes sandinistas tomam o poder na Nicarágua. Entretanto, a Europa mostrava ser uma zona relativamente neutralizada, com algum apaziguamento Leste-Oeste (selado pela Acta Final de Helsínquia em 1975) e uma transição da ditadura espanhola para um regime democrático sem mais derramamentos de sangue. Apesar disto, mantinham-se instalados em tais regimes pluralistas forças partidárias e sindicais fortemente alinhadas com Moscovo e existiam franjas extremistas (sobretudo à esquerda) que não hesitavam no recurso a formas de oposição armada (em Espanha, na Irlanda, Itália, Alemanha, França e até em Portugal).
No plano da economia mundial, observavam-se os efeitos de uma subida acentuada dos preços do petróleo, impulsionada pelo cartel da OPEP e que começaram a proporcionar grandes recursos financeiros aos países produtores do Médio-Oriente, ao mesmo tempo que as economias dos países industrializados ocidentais entravam num período de fraco crescimento e de aceleração dos preços dos produtos (estagflação), crise essa que fez aumentar os níveis do desemprego, já de si pressionados pelos progressos tecnológicos da automatização de certos processos de produção industrial, nos quais a Alemanha e o Japão (os vencidos de 1945) se distinguiam, beneficiando da dispensa de pesados gastos militares. E aqui vem entroncar a crucial alteração política ocorrida entre 1976 e 1978 na China, com o afastamento dos supostos radicais herdeiros de Mao Tse-Tung e a vinda ao poder dos comunistas pragmáticos liderados por Deng Xiao-Ping que estabelecem uma nova orientação da política económica do país, essencialmente concorrencial, exportadora e capitalista, mas sempre sob o controlo político monopolista do partido comunista.
Porém, não menos importante e significativa foi a atitude dos Estados Unidos perante essa reorientação, provavelmente ditada em primeira mão pela intenção de agudizar as relações entre Pequim e Moscovo (ideologicamente desavindos e que se confrontavam, por interposta pessoa, na península indochinesa) e de enfraquecer a capacidade deste último, um país-continente que desafiava os americanos, cara a cara, nos planos estratégico, militar e espacial. Com efeito, com a concordância dos ocidentais, já em 1971 a República Popular da China tomara o lugar de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU que até então fora ocupado pelo regime nacionalista da Formosa, sendo-lhe assim reconhecido o estatuto de grande potência (com armas nucleares desde 1967); no ano seguinte, o presidente Nixon fizera uma surpreendente visita a Pequim, normalizando-se as relações diplomáticas entre os dois países; e as trocas económicas com o Ocidente capitalista foram-se desenvolvendo, com algum papel particular da França mas sempre com a “luz verde” americana, culminando com o estabelecimento de um acordo comercial entre a China e a CEE em 1978, mais as negociações sobre o retorno à pátria chinesa dos enclaves de Hong-Kong e de Macau, sob o regime dito de “um país, dois sistemas”.
Nestes termos, ao findar da década de 1970, podemos considerar que os Estados Unidos continuavam a sustentar o seu poderio económico e geopolítico mundial forjado na II Guerra Mundial, liderando a coligação de países democráticos do Ocidente (e, em particular, a aliança da NATO), mas que perderam nesse decénio importantes posições para o Bloco adverso: geograficamente, no Sueste Asiático e em África; politicamente, ao ver consolidado um ligame de facto existente entre aquele Bloco e o movimento dos países não-alinhados do “3º Mundo”; eticamente, ao apoiar vários regimes ditatoriais na América Latina; e, no seu próprio campo, ao constatar a afirmação de uma tendência “neutralista” na Europa (com o “soberanismo” tradicional da França, a öst-politk  do chanceler alemão Willy Brandt, as rivalidades inter-nações e as liberalidades do seu pluralismo político). Por seu lado, o Bloco Socialista de Leste registava os correspondentes avanços geoestratégicos em África e Sueste Asiático, mantinha influências no Industão, na Europa e nos países árabes, mas continuava enfraquecido pela sua querela com os chineses e, sobretudo, pelas insuficiências do seu sistema económico, que suportava mal o nível das despesas militares e espaciais, bem como a ineficiência declarada do seu funcionamento burocrático: um exemplo disto é o acordo passado com os Estados Unidos em 1975 para o recebimento de 6 milhões de toneladas de cereais em troca de 10 milhões de toneladas de petróleo. O “Brejnevismo” estava a atingir os seus limites de desgaste pelo exercício do poder de Estado.
O biénio 1979-1980 constitui a abertura de uma nova fase na política internacional, no enquadramento anteriormente descrito. Por um lado, inicia-se a revolução islâmica no Irão que, de imediato, representa a primeira forma de afrontamento directo entre “o Islão” e os Estados Unidos, então qualificados de “grande Satã”, que ali perdem o importante apoio que tinham no regime do Xá, faustoso e opressor mas, até certo ponto, modernizador da sociedade. Por outro lado, os dirigentes da URSS lançam-se na aventura de sustentar um governo por si suscitado no Afeganistão, terra que sempre foi de salteadores e de rebeldias tribais e que entra numa guerra dura que só terminaria com Gorbatchev dez anos depois, retirando os seus homens.
Perante isto, imagina-se que os “cérebros estratégicos” norte-americanos tenham concluído que – ainda que com a China “neutralizada” – não podiam enfrentar simultaneamente dois adversários ao mesmo tempo: o Bloco de Leste e o “islamismo radical” (já enriquecido em surdina com petro-dólares, a despeito dos aliados ocidentais do mesmo credo religioso mas pouco seguros que eram a Turquia, o Egipto, a Arábia ou os países do Golfo). Assim, tal como os alemães nos dois grandes conflitos novecentistas tentaram ganhar rapidamente uma guerra a ocidente para depois enfrentar a outra a oriente, também os estrategas de Washington terão pensado elevar o seu grau de pressão competitiva sobre a URSS (embora sempre dentro da “política de desanuviamento”) respondendo à nova ameaça tecnológica dos SS-20 russos de maneira vigorosa com o seu programa dos “euromísseis” em 1979. Aqueles mísseis procuravam separar ainda mais os europeus dos americanos, reforçando a referida “neutralização” da Europa ocidental; estes últimos respondiam ofensivamente a tal ameaça, aproveitando o estado de exaustão do regime russo, as suas preocupações no Afeganistão e com o seu arco islâmico meridional, face ao levantamento irado dos povos do Médio Oriente. Talvez assim pressionado, Moscovo viesse a “lançar a toalha ao chão” – terá pensado Reagan em 1983 ao anunciar o programa da “guerra das estrelas” num momento de transição e indefinição da liderança política em Moscovo.
Os “Kremlinólogos” sempre exploraram os sinais e brechas entrevistas na aparente unidade da direcção política da URSS. Os anos de 1983-85 deram fartos pretextos para tais congeminações e decerto que a ascensão de Gorbatchev ao poder supremo não foi isenta de golpes, traições e denúncias. Mas o seu programa reformador de “transparência e reestruturação” mostra até que ponto a situação do país estava bloqueada: politicamente, economicamente e socialmente. Como reformador para salvar o sistema do afundamento, Gorbatchev chegou tarde demais. E encontrou pela frente dois líderes ocidentais conservadores “duros de roer”: a senhora Thatcher (1979-1990) que forjou a sua força política ao denunciar e desafiar internamente o poder social dos sindicatos e externamente os generais argentinos, ganhando a difícil guerra das Malvinas; e o medíocre actor Reagan (1980-1988), limitado político mas com “faro” para a percepção das relações-de-força internacionais e das oportunidades oferecidas pela conjuntura. O desabar do muro de Berlim e do Bloco de Leste (1989-1991) foi o acontecimento histórico mais relevante desde a II Guerra Mundial e a Descolonização.
Com o encorajamento dado à “globalização” da economia mundial e com a ajuda involuntária dos novos meios de telecomunicações de massas (televisão por satélite, etc.), aqueles governantes tiveram ainda um papel preponderante num progresso económico visível ao longo dos anos 80 e 90, ajudados no espaço europeu por líderes com personalidade própria como o Papa João Paulo II, o francês Mitterrand ou mesmo o alemão Kohl, e pela dinâmica do processo de “construção europeia”.
Por seu lado, a China (que anteriormente tentara competir com a URSS em África sem grande sucesso) preocupou-se nestes anos sobretudo em sedimentar o seu novo modelo económico e menos com a evolução das relações políticas internacionais, deixando espaço livre para o benefício experimentado pelos ocidentais com as liberalizações das trocas comerciais e a desregulação dos mercados financeiros – e o “velho continente” com as delícias do seu “modelo social europeu”.
Porém, já nos anos 70 o sociólogo Ralph Dahrendorf alertava para uma possível “revolta dos contribuintes” perante os elevadíssimos níveis de tributação que os governos social-democratas do norte da Europa estavam instituindo nos seus países, que prenunciavam um regresso quase inevitável de uma nova corrente de liberalismo económico, que veio a ser concretizada na década de 1980 com Tatcher e Reagan, a evolução dos acordos GATT para a OMC (Organização Mundial do Comércio) e o desenvolvimento das grandes empresas multinacionais, mais o início da “desformatação” interna das organizações produtivas, com a ajuda das automatizações tecnológicas e informáticas e a erosão do poder sindical.
Quanto ao “3º mundo” e ao movimento dos não-alinhados, foi-se desvanecendo o que restava da sua genuinidade inicial e da sua própria autonomia. Em África, reforçou-se a dependência da “fraternal ajuda” de Moscovo, com algum protagonismo próprio do castrismo cubano, ao mesmo tempo que o militantismo africano concentrava as suas lutas nos últimos redutos de resistência branca (na Rodésia, Namíbia e sobretudo na República da África do Sul); mas a pobreza acentuou-se para largas massas camponesas, as elites governantes reforçaram os seus poderes e houve países quase destruídos por guerras civis, tribalismos ou ditadores sanguinários – sem esquecer os progressos da islamização para sul, na costa oriental mas também na vertente atlântica. No Oriente, caiu o regime autoritário de Marcos nas Filipinas em 1886, mas manteve-se o de Suharto na Indonésia, enquanto o Vietnam impunha a sua influência na península indochinesa (embora ainda quase fechada ao exterior), a Índia conseguia conservar o epíteto da “maior democracia do globo” e se afirmavam economicamente “novos dragões”, países pequenos como Singapura, a Malásia, a Formosa ou a Coreia do Sul, mas com mão-de-obra barata e abundante que as multinacionais investidoras aproveitaram intensamente. E na América Latina os democratas ocidentais tiveram o ensejo de saudar a sucessiva queda de vários dos regimes de ditadura militar, como se verificou na Argentina e no Brasil.
Enquanto isto acontecia, no Médio-Oriente as coisas tornavam-se mais intrincadas e concentravam nesta área o principal foco de conflitualidade mundial. A contínua flagelação de Israel por parte de guerrilheiros palestinianos levou a diversas incursões das tropas judaicas em territórios vizinhos como o Líbano e Gaza (que pertencera ao Egipto) e a ocupações territoriais mais ou menos prolongadas. A Líbia de Kadafi continuou a ser um foco de agitação anti-ocidental e base de apoio de diversos extremismos políticos. E o Irão envolveu-se numa guerra prolongada com o Iraque, que então beneficiou de ajudas europeias e americanas, numa antecipação do que se percebe agora ser também um conflito de natureza religiosa (entre xiitas e sunitas). Mantiveram-se aliados do Ocidente os governos do Egipto, da Jordânia, dos ricos mini-estados do Golfo e a ultra-conservadora Arábia Saudita, com os americanos a forneceram armas aos guerrilheiros afegãos para combaterem os ocupantes russos. O regime laico da Síria namorava mais frequentemente com Moscovo e países como a Somália (dirigida com mão de ferro por Siad Barre), o Sudão, o Iémen ou mesmo o Paquistão mostraram sempre instabilidade ou abrigaram forças políticas radicais. Em resumo, persistiu a polarização da questão palestiniana, reforçou-se o sentimento popular anti-ocidental (mas com escasso proveito para a URSS), verificou-se instabilidade em largas zonas e abriram-se conflitos entre facções muçulmanas. Mas o canal de Suez voltou a funcionar e o petróleo da região continuou a ser um elemento de grande importância económica e política para o mundo industrializado ocidental. E, num parêntesis, relembre-se que em 1985 Portugal entrou definitivamente na rota das democracias europeias com a eleição de Mário Soares para Belém e a assinatura da entrada na CEE: do seu “africanismo” restava agora apenas a nostalgia do império e ideias diferentes quanto ao relacionamento com os PALOP.
O que se seguiu nas três décadas subsequentes a 1986 foi a consequência directa destes processos, que se consumaram nas rupturas e dinâmicas que produziram o nosso mundo actual: a implosão da URSS e do Bloco de Leste; a explosão do terrorismo jihadista islâmico, que desencadeou respostas de força dos Estados Unidos e do Ocidente que se mostraram desajustadas e contraproducentes; o fantástico desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação; a ascensão da China a actor determinante da economia mundial (concorrendo agora em todas as áreas: indústria, comércio, finança, espaço, TIC e outras tecnologias avançadas, etc.); os abalos político-religiosos no mundo árabe que repercutiram directamente sobre a Europa, questionando a sua identidade; e a actual crise que afecta de uma maneira particular a União Europeia, simultaneamente financeira e económica, de projecto próprio e de redefinição do seu posicionamento face ao mundo, onde subsiste uma Rússia com “vontade imperial” e onde novas potências regionais tentam afirmar-se (a Índia, a África do Sul ou o Brasil, que porém rapidamente “gripou”).
JF / 22.Nov. 2016 

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