quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Divagações sobre fala, escrita e imagens, saber e comunicar

As técnicas de fixação e reprodução de imagens e som (fotografia, gravação sonora, cinema, televisão, etc.) conduziram a mudanças culturais muito fortes, sobretudo ao longo do Século XX. Hoje, que estamos a viver uma nova revolução tecnológica e cultural neste domínio, com a difusão de máquinas ligeiras e pessoais de integração destas técnicas com muito maior capacidade e versatilidade do que no passado (com o computador, a webcam, a câmara fotográfica digital, os tablets, os smartphones, etc.), pode ser interessante fazer o exercício de recuar no tempo e recordar o efeito avassalador do progresso das imagens sobre o uso do texto escrito, em apenas pouco mais de meio-século.
Na minha infância de classe média lisboeta, a fotografia fazia já parte do quotidiano urbano. Os jornais ilustravam frequentemente a sua “página um” com uma foto de actualidade feita por repórter da casa ou cedida por agência noticiosa, em vez da zincogravura artística que, não raro, ornamentava as folhas de imprensa do tempo dos meus avós. E todos podíamos ver o presidente Eisenhower a descer do avião em visita a Paris ou a imagem de destruição provocada na véspera pelo terramoto de Agadir.
Desde a juventude de meu pai que os burgueses tinham acesso a belas revistas ilustradas, estrangeiras e nacionais, muitas vezes em papel couché, onde desfilavam fotografias da Grande Guerra ou dos novos heróis urbanos do sport, alguma pose das reais famílias da Europa coroada, galerias onde se alinhavam risonhas faces femininas do estrelato da época ou instantâneos dos acontecimento recentes da vida política e social. Joshua Benoliel fez o seu nome de reputado fotógrafo nacional nas páginas semanais da Ilustração Portuguesa e foi através delas que pessoas como eu forjaram muitas das suas percepções sobre essa época, completando o que se lia naquela e em outras fontes escritas e com as transmissões orais que recebíamos da família e de outros “mais velhos”.
Como acontecera desde tempos imemoriais, a oralidade transportava então a palavra indiscutível do pai, do padre, do mestre ou do chefe (este, já um pouco menos…), mas também e vivacidade e o contraditório da discussão entre iguais, com mentiras e estratégias de afirmação pessoal, afirmações erróneas ou argumentações falaciosas, além de algumas velhas convicções sociais sedimentadas através de sucessivas gerações: os “saberes populares” e os preconceitos fundamente enraizados (acerca da origem e do destino humanos, das “raças”, da pátria, etc.). Porém, havia a rádio, meio comunicativo de massas e unidireccional, ao serviço dos poderes políticos (Hitler e os outros) e de alguns poucos profissionais desta técnica, que nos fascinava também pelo encantamento do teatro falado (as vozes ímpares de Álvaro Benamor e Manuel Lereno, entre outros), pelos relatos de pugnas desportivas “em directo” ou pela popularização gratuita das canções da moda (“uma torneira… a deitar música”, diria o António Silva), ao mesmo tempo que unia e uniformizava comportamentos e gostos estéticos, numa escala e com uma rapidez até então desconhecidas.
No campo das imagens fixas, fotográficas, desde a geração dos nossos pais que nas grandes praças urbanas ou nas praias de veraneio vagueavam fotógrafos à la minute em busca de quem lhes comprasse uma “chapa” e as famílias da classe média não apenas guardavam retratos dos seus maiores, mas produziam, elas mesmas, as suas fotos em quantidade, armazenadas em álbuns, em envelopes próprios das casas que as “revelavam” ou em caixas-de-sapatos. “Eles” tinham as Kodak e sonhavam com as Leica ou as Roleyflex; “nós” já manejávamos as Yachika e as projecções em slide. Em todo o caso, eram imagens que só podiam fixar um instante da “realidade”, parecida com a forma como o olho do fotógrafo as vira no momento. Mas a sua “verdade” era indiscutível, igual àquela que o repórter fotográfico colhia para ilustrar ou completar o artigo do jornal ou do magazine com um “boneco”. Sob o controlo – absolutamente decisivo – do editor da publicação, texto e imagem combinavam-se perfeitamente tornando ainda mais convincente o conteúdo da mensagem que ele queria transmitir.  
A contrario, a ausência de imagens constituía em muitos casos uma limitação à compreensão do texto mas também abria outros voos à imaginação de cada um, às vezes com saídas curiosas. Por exemplo, por alguma razão que não sou capaz de explicar, durante anos eu imaginava o escritor e crítico João Gaspar Simões como um senhor gordo e eventualmente calvo. Quando um dia vi a sua fotografia, ela era a de um homem magro, de bigode, bem longe da figura congeminada. Mas que importava este “realismo”, se eram as ideias e os argumentos aquilo que verdadeiramente interessava discutir? É certo que as “histórias aos quadradinhos” eram, frequentemente, um encanto para crianças e adolescentes. Mas, passada essa idade menor, todos apreciavam profundamente passar à leitura de textos longos, de novelas e romances, onde justamente a nossa imaginação podia prolongar e projectar mais além o fio de cada narrativa. 
Se passarmos às imagens em movimento, a geração dos anos 20 e 30 descobriu o cinema, o sonoro e a cor, sobrando para o segundo pós-guerra o scope, as “grandes produções” e a massificação do star system americano, cujo mais alto símbolo terá sido a loura Maryleen. Mas, no plano dos conteúdos, assiste-se a algumas mudanças fundamentais a partir da década de 60. Até então, a “moral da história” de praticamente todas as obras de ficção cinematográfica era límpida e positiva, mesmo no género da comédia: o bem devia finalmente vencer o mal; e os heróis eram os cow-boys, os soldados “aliados”, as figuras históricas consagradas ou os humilhados-e-ofendidos da Terra (que um dia chegariam ao seu prometido “Céu”). Porém, depois de algumas explorações de vanguardismo estético (alemão, por exemplo), começa a afirmar-se na Europa, sobretudo em França, um cinema de ruptura, crítico e mesmo niilista, onde os vilões passam a heróis, o crime compensa ou o no sens substitui o happy end. Por exemplo, nos anos 70/80 o filme-de-guerra que domina, mesmo no cinema americano, já não é o do soldado-herói; é o do soldado drogado e suicida de O Caçador ou outras películas semelhantes. Em geral, passou-se do elogio da guerra justa à crítica de todo o fenómeno bélico. Este novo género artístico rapidamente conquistou o favor das elites culturais da época e Hollywood encarregou-se de lhe dar projecção mundial. Mas, poucas décadas depois, chegaram os filmes mais infantilizados que exploram a violência espectacular (Rambo e companhias), bem como o intimismo sádico e perverso, em “séries” e filmes de grande sucesso. Não é de estranhar que as novas gerações lidem com à-vontade com tais cenas e fenómenos, tal como as anteriores achavam natural (e desejavam) o beijo cinéfilo que prometia uma felicidade definitiva. Ou que as crianças de agora julguem que os robocop ressuscitam, enquanto nós chorávamos com as aflições do bambi perdido de sua mãe.
Quanto às reportagens filmadas, no cinema mas sobretudo já na televisão, a sua força probatória foi esmagadora sobre populações culturalmente desarmadas para receber criticamente esta nova “verdade” – a dos acontecimentos “vistos por nós próprios” –, sem se aperceberem dos truques da montagem, onde só um descuido profissional ou um “directo que derrapa” deixam passar para o espectador alguma coisa que a realização não deseje.  
E não esqueçamos também que, há meio-século atrás, as palavras na boca de certos actores de cinema tinham uma força própria, que muitos decoravam, e que hoje perderam completamente; tal como a letra de algumas canções, sobretudo francesas – quando agora temos uma música mais marcada pelo ritmo do que pela melodia, mais “africanizada” e que amiúde nos transporta para as nossas raízes mais profundas. Não será por acaso que o último filme de Jean-Luc Godard tem por título Adieu au Langage.
Encaremos agora uma outra questão, com estas relacionadas mas passível de consideração autónoma: a recordação e o conhecimento.
A experiência directa (sensorial, psicológica e inteligível) dos humanos é uma fonte fundamental da sua relação com o mundo, com os outros, bem como da sua própria reflexividade e condição de um pensamento elaborado. No entanto, só por si, está longe de ser conhecimento, no sentido que a aventura humana lhe atribuiu há muito: primeiro, como conhecimento revelado (por uma fonte transcendental e omnisciente, de natureza não-humana); muito mais tarde, de há uns dois séculos para cá, através do conhecimento científico, experimental e investigativo, que aproveitou o que de melhor lhe havia legado a filosofia, através de uma secular corrente de grandes pensadores especulativos. Na ausência de uma acumulação sedimentada e ordenada de informação acerca de factos e de ideias, e de algum tipo de “metodologia do pensar”, a experiência pessoal, mesmo reflectida com detença pelo sujeito, desemboca quase necessariamente na confusão e no subjectivismo. É o que acontece, por exemplo, com as pessoas à-beira-da-patologia-mental. E é também por isso que a escolarização – mesmo elementar e às vezes canhestra –, o ensino sistematizado e a universidade são tão importantes, para nos transmitirem, em condensado, uma súmula útil do saber humano e nos impedir de tombar no caos do imediatismo.
Hoje, com a ênfase cultural posta no “império dos sentidos” e alguma crise de credibilidade da ciência – cujos agentes “se põem a jeito” com frequência –, assiste-se a um certo recuo nestas convicções, mercê dos efeitos de torvelinho do relativismo ontológico, que vai de par com o relativismo ético e a perda da referência de alguns fortes valores estruturantes dos comportamentos sociais.
Na verdade, o simbólico tem mais importância do que de ordinário se lhe reconhece. Nas sociedades contemporâneas vigora o primado do objecto material (quase sempre tomado como “a realidade”) e do valor mercantil (decorrente da troca, ou da fixação unilateral de um preço, mas sempre regidos a distância por uma situação de mercado mais ampla), a ponto de quase nos esquecermos que talvez nunca como hoje se dê azo à exibição das subjectividades individuais, dos gostos e dos afectos que, por definição, se inscrevem fora da órbita da economia e mais vizinhos do mundo dos símbolos. 
No entanto, continuam a esperar-se da ciência enormes progressos – sobretudo por efeito das aplicações tecnológicas úteis, menos pelo aprofundamento do conhecimento –, o que não tem sentido nem é possível no seio de populações culturalmente anãs. Por isso, mantém-se decisiva a chave da ruptura epistemológica existente entre experiência (pessoal, de cada sujeito) e conhecimento (organizado por sucessivas gerações de pensadores, múltiplas divisões de especialização, acumulação de resultados de pesquisa, discussão intracomunitária universalizante, saltos paradigmáticos e geniais visões inovadoras – e transmitido depois aos profanos através do ensino e de diversos meios de divulgação).
Sabe-se que as teorias psicológicas (ou, talvez melhor, bio-psíquicas) contemporâneas tendem a enfatizar a “comunicabilidade” entre as esferas cognitiva, emocional e afectiva do ser humano; e que outras neuro-ciências realçam os efeitos da genética e dos processos bioquímicos no funcionamento cerebral, do pensamento e do comportamento humanos.
Tendo em conta o essencial destas aquisições recentes, vale talvez a pena equacionar o efeito do tempo vivido da experiência humana para melhor procurar entender a particular compreensão que cada sujeito elabora acerca da sua própria “memória histórica”, conceito hoje muito em voga em alguns domínios das ciências sociais e já com aplicações no campo político (políticas do simbólico, museologia, preservação de marcas patrimoniais, edição, etc.).
Tomemos o tempo de vida médio de um Humano moderno. Com uma esperança-de-vida demográfica de 70 e poucos anos, cada indivíduo passa por um primeiro período de perto de 20 anos ao longo do qual sofre o seu processo de desenvolvimento em direcção à autonomia e, em média, gera os seus filhos cerca dos 33 anos de idade, o que significa que, ainda em média global, será avô por volta dos 66 anos. Temos, portanto, que cada pessoa tem oportunidade de conviver prolongada e intensamente com duas gerações posteriores à sua e com outras duas gerações que lhe são anteriores. Como estamos a tratar de memória e de impressão do passado na experiência da cada sujeito, são as duas gerações anteriores aquelas que nos interessam. 
Ora, até há poucas décadas atrás, a socialização e educação infantil faziam-se essencialmente no quadro da família nuclear, e mesmo a aprendizagem escolar era seguida de perto pela presença vigilante e obedecida da mãe e do pai da criança; apenas o grupo etário de convívio próximo (primos, vizinhança, bairro, colégio interno ou gang marginal) escapavam a este controlo. E por detrás dos pais funcionava também geralmente o respeito e a obediência devida aos avós, aliás muitas vezes moderada por uma maior tolerância e compreensão destes perante as irrequietudes juvenis. De uns e de outros, recebiam os jovens doses maciças de informação, narrativas ilustrativas do passado (recente), fronteiras sobre o lícito e o ilícito, motivações (positivas ou negativas) para a sua vida futura. 
Actualmente, nos países ocidentais e mais desenvolvidos do planeta, a instituição escolar tem vindo a substituir cada vez mais esta inserção familiar, com vantagens nuns aspectos e inconvenientes em outros. A transmissão dos conhecimentos objectivos e filtrados pela ciência (aqui servidos da forma mais ou menos adequada à idade dos alunos) tornou-se mais rigorosa, precoce, alargada e socialmente integradora de um maior número de crianças e jovens pertencentes à mesma coorte etária. Mas a transmissão dos valores e normas de comportamento social foi brutalmente afectada. Deixou de ser dominantemente conservadora (com as inerentes resistências, revoltas e desvios de indivíduos e grupos minoritários) para ficar desarticulada e à mercê de movimentos, interesses e forças contingentes que se exprimem na sociedade dos adultos: tendências educacionais, modas comerciais, expressionismos culturais e comunicacionais, lóbis de influência, novas religiosidades e ritualismos, etc.   
Voltemos então ao tema que vínhamos explorando. A (minha) geração dos urbanos de classe média nascida na década de 40 terá sido socializada através de uma composição aproximadamente equilibrada entre várias “fontes-de-saber”: a leitura (desde os livros escolares até à literatura romanesca, dos jornais às obras de história); a observação de imagens fotográficas e do fascinante cinema (onde, antes de cada “filme” – muitos de carácter histórico, antiga ou recente – passava sempre um “documentário de actualidades”); e a velha conversação interpessoal onde esclarecíamos ideias e conhecimentos, confrontávamos diferenças de apreciação e aprendíamos com quem sabia mais do que nós (e eram muitos, talvez quase todos). É certo que também assistimos ao surgimento da televisão, mas essa é uma outra história, que iria começar ali mas já pertence aos tempos culturais de hoje. Por meados do século XX, o meio tecnológico de informação mais “maciço” e avançado era indubitavelmente a rádio. Até porque, ao lado da ligeireza da publicidade comercial e do entretenimento, os serviços de “noticiário” se revestiam de alguma solenidade, com a voz cava e o tom oficioso dos locutores, bebidos talvez no profissionalismo da BBC, mesclado com os receios da censura do regime do doutor Salazar.
O acaso deste equilíbrio de fontes informativas (sempre muito relativo, claro) parece-me agora interessante, quer quanto ao que pode estar ausente na actual formação dos jovens, quer do ponto de vista do caldeamento entre diversos recursos do saber. Não obviamente para repetir as mesmas receitas do passado, mas para procurar uma paleta informativa bastante diversificada que deixe ao sujeito individual a última palavra sobre as representações que se podem ter acerca da realidade que nos cerca.  
Hoje, as imagens – quer as fixas, quer as móveis (sobretudo na televisão e outros suportes vídeo) – são sobretudo usadas na comunicação social como um “material” apto a ser manipulado, combinado criativamente e rearranjado ad infinitum com vista à produção de determinados efeitos sensoriais, emocionais e mentais no indivíduo receptor. A imagem publicitária foi talvez o “ferro-de-lança” experimental deste novo espaço de expansão do imaginário humano. Mas o computador multimédia, a Internet e as “redes sociais” estão a permitir pôr ao alcance de cada um, por relativamente pouco dinheiro, este “universo de fantasia”.
Em tudo isto, o texto inteligível e racional, organizado segundo regras próprias de sintaxe e apoiado em significados lexicais relativamente precisos, tem vindo a perder terreno. É ver como a telenovela substituiu o livro de ficção enquanto entretenimento cultural de muita gente! E dado que, depois da poesia bem formalizada, a escrita romanesca sofreu nas últimas décadas um processo de anarquização, entregando-se cada vez mais ao seu próprio jogo e à subjectividade de autores e leitores; restam os espaços da escrita ensaística e técnico-científica como últimos redutos do “escrever bem, claro e preciso”, já que no texto jornalístico ou do cronista o autor se permite cada vez maiores liberdades literárias (geralmente em prejuízo da comunicação), os escritos comerciais e oficiais mantêm o formalismo de sempre e na correspondência interpessoal as doçuras e agruras das cartas passionais são cada vez menos frequentes, em proveito da mensagem abreviada, sincopada e meramente alusiva que circula entre telemóveis.
Na realidade, no mundo de hoje escreve-se menos do que no passado (no sentido de uma escrita pensada e discursiva, poética ainda menos e só rarissimamente cartas de amor), embora haja felizmente muito mais pessoas a escrever do que há meio-século atrás. Mas, sobretudo, escreve-se de forma cada vez mais próxima da verbalização ouvida no quotidiano. É certo que em todas as épocas a oralidade veiculou estribilhos e expressões que depois se reproduziam mimeticamente. Por exemplo: “Fulano é um destravado” (ou Beltrana é uma “desaustinada”) apareciam frequentemente na fala de nossos pais para caracterizar alguém menos bem comportado; além do “pá” (que ninguém já reconhecia ser uma abreviatura de “rapaz”, como o “gar” francês o era de “garçon” – não é verdade, dr. Jorge Sampaio?), os da nossa geração tinham sempre pronta a sair a interjeição “a nível de…”; e com os revolucionarismos de 74 chegou o uso errado e a destempo do “despoletou…”; para quando os mesmos se tornaram democratas bem-alinhados passarem a comentar que “não é despiciendo…” isto ou aquilo.
De facto, todos os meios sociais e épocas geracionais reorganizam uma forma própria de usar a sua língua materna, alterando-o temporária ou mais estruturalmente, tal como o fazem e acrescentam os diversos linguajares técnicos e profissionais. Os homens do mar têm uma linguagem muito rica e conservadora de termos antigos mas simultaneamente bastante internacionalizada. Porém, não tanto quanto a dos engenheiros, tecnólogos ou aviadores, todos mais tributários das modernas ciências mecânicas que só existem de há dois séculos para cá. Entre os militares, além do respectivo jargão, há mesmo uma colocação de voz que lhes é típica, devido à habituação das transmissões de ordens orais, que devem ser seguidas de execução imediata e sincrónica por grande número de seguidores. Chega mesmo a ser cómico observar como um oficial em férias, em convívio com paisanos, vai progressivamente perdendo esse tom gutural de voz-de-comando, que tem rapidamente de readquirir logo que regressa ao quartel…Mas a expressão oral hoje mais corrente deve ser a do “economês” (que, apesar de tudo, nos tornou muito mais conhecedores de uma dimensão importante da realidade social do que alguma vez o fomos) e a antipática mas inevitável profusão de siglas pelas quais designamos e reconhecemos de modo imediato centenas ou milhares de instituições.
É claro que a linguagem que os mass media veiculam sobre certos temas também têm muita influência sobre a nossa maneira de pensar, através de estereótipos. Umas vezes são esses profissionais da comunicação que apenas procuram captar a atenção do maior número possível de pessoas, apoiados nas premissas que alguns psicólogos lhes ditam; outras vezes são, pura e simplesmente, preconceitos de que os próprios se não dão conta, de tal forma estão convencidos da sua certeza. São exemplos disto as frequentes referências que ouvimos fazer: aos “lucros fabulosos” da banca (mas que agora também sabemos poderem abrir falências, fraudulentas ou não); à suposta apetência dominadora dos Estados Unidos, seja económica ou militar (quando aquele não é hoje capaz de sustentar com sucesso um envolvimento militar distante e tem a sua própria economia sob ameaça); aos direitos dos indivíduos, dos grupos e dos povos (sem cuidar dos correspondentes deveres e das incompatibilidades entre alguns desses direitos); ao vanguardismo e inovação na arte, na ciência e nos comportamentos (quando geralmente esses avanços têm efeitos ambivalentes); à “naturalidade” de toda a gente querer sempre mais bem-estar; ao desejo irreprimível de “sol e tempo quente”; à “bondade” da Natureza, apenas interrompida por algum evento catastrófico; etc. São ideias-feitas que, depois, cada um de nós acaba por incorporar nos seus hábitos lexicais e reproduzir sem mais reflexão.
Os órgãos de comunicação social também são responsáveis por muita da “fulanização” da vida pública. Não é que as personalidades de indivíduos que ocupam lugares de enorme destaque e responsabilidade não tenham importância. Têm, e muita! E é mesmo por isso se justifica alguma luz sobre o seu passado ou sobre as suas características pessoais. Mas a sistemática substituição da apresentação e discussão das questões (sociais, políticas, económicas, culturais, etc.) pelo vasculhar das vidas e das relações entre “figuras públicas”, não só distrai os telespectadores para minudências afectivas, como lhes oculta uma compreensão mais vasta dos problemas que os afectam. Um exemplo disso passou-se no último congresso da CGTP em que, para as televisões, tudo girou à volta do fim do mandato do secretário-geral Carvalho da Silva e da sua eventual carreira política futura, ou da “afinação de voz” do novo líder sindicalista Arménio Carlos, obscurecendo qualquer significado acerca da eventual evolução da orientação da Intersindical e da sua relação com os partidos e o sistema político.
Pode talvez pensar-se que a forma da oralidade corrente e em moda entre a juventude de hoje (do género “é assim…”, ou “tipo… cena… bué…”) corresponde em grande medida aos efeitos produzidos pelas imagens-discurso mediáticas, sendo, como elas, marcada pelo sincretismo e simplicidade das frases, sua temporalização no presente e redução importante do léxico de significados empregues, conduzindo a uma espécie de “americanização” da linguagem. É claro que a língua inglesa – a de Shakespeare, mas igualmente o cockney “das docas” – também facilita a coisa, pela sua estrutura simples e mais lógica. Também por isso se tem tornado na língua-veículo universal. O Homem culto e literato é hoje um pouco como o homem já próximo do seu fim-de-linha. Não é ainda o enforcado que se esvazia, mas não anda muito longe disso. E não é por acaso que haja já quem defenda que, em dissertações de doutoramento universitárias, certas partes do texto possam ser ocupadas por imagens (e sons?), não como ilustração ou suporte do escrito, mas como seu substituto.
E se é verdade que a linguagem falada constitui o exercício principal de desenvolvimento pessoal (e social) da cognição, do conhecimento e da cultura, não deixa de ser preocupante a eventualidade de que esta “crónica mal-humorada” possa corresponder a um diagnóstico – se não certeiro, pelo menos aproximado – das tendências em curso na vida social deste nosso tempo.
JF / 15.Ago.2014

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Para onde vão as relações internacionais?

Os últimos episódios de violência e acção militar divulgados têm vindo a desencadear-se em zonas próximas da Europa e estão com esta relacionadas, pelo menos em parte. O teatro geoestratégico do Extremo-Oriente encontra-se numa evolução surda, que pode vir a romper-se em conflitos graves, mas só daqui a uns anos. O da África “negra” somente de forma esporádica se dilacera em violência, quase sempre localizada ou apenas com impacto regional. E o da América latina parece relativamente estabilizado. Juntamente com o subcontinente hindustânico e o sueste asiático, todas estas regiões estão agora integradas na mesma ordem internacional, quer em termos económicos, quer em termos de relações políticas entre estados. Com fronteiras minimamente consensuais (salvo excepções, derivadas da história) e governos legitimados – uns pelos princípios democráticos oficialmente vigentes, outros pela real politics; uns reconhecidos pelas suas populações, outros nem tanto –, a sua grande preocupação reside agora, efectivamente, na aceleração de um desenvolvimento económico que tire da tradicional pobreza e das misérias modernamente geradas os muitos milhões de seres humanos que ainda padecem dessas situações. Até porque temem a sua revolta – a qual, nada resolvendo, derrubaria contudo o pedestal em que se sentam as suas classes dirigentes.
Este desenvolvimento projectado à escala mundial tem-se revelado uma tarefa ciclópica, cremos que por quatro factores principais: em primeiro lugar, por razões internas ao próprio sistema económico dominante, com todas as suas virtudes e defeitos (dinamismo do mercado, relações entre produção-circulação-consumo-investimento, desigualdades, desajustamentos entre a parte financeira e a economia real, etc.); segundo, devido à fragmentação dos poderes políticos nacionais (cerca de 200) e à inexistência de verdadeiros impérios ou de um mirífico “governo mundial”; em terceiro lugar, temos em grande número de países uma “obstrução” exercida pela classe dirigente (política e económica, às vezes também cultural), a qual se apropria de uma fatia desproporcionada da riqueza disponível, marcando os limites da “classe média” e condenando à indigência ou à miséria uma fracção significativa da população, se não mesmo a sua maioria; finalmente, existe o interesse próprio da elite económico-financeira que no último meio-século tomou o controlo das decisões das grandes empresas e das oportunidades de ganhos especulativos proporcionadas pela “globalização”, reforçando as tendências para uma distribuição de rendimentos muito inigualitária.
Neste quadro global, dois fenómenos surgem com algum potencial de ameaça para a Europa e para o Ocidente: o revigoramento do orgulho nacional russo; e os conflitos que agitam o mundo árabe-muçulmano no Médio-Oriente, mas que realmente se vão estendendo desde a África tropical até às fronteiras da Índia, bordejando toda a bacia mediterrânica. De alguma maneira, é a paz internacional que também está em jogo.   
Ora, nada parece estar a ser feito – nem ser fácil de imaginar – para conseguir travar tais fenómenos. A reforma da ONU e do seu Conselho de Segurança está parada há vários anos e a organização mostra-se impotente para resolver efectivamente os conflitos e problemas que põem em causa a paz, a segurança, o entendimento e a prosperidade internacionais, limitando-se a pagar para minimizar os seus efeitos (refugiados, infância, alimentação, etc.), aliás muitas vezes com escassa eficácia. As grandes organizações inter-estaduais continentais (OEA, UA, UE, etc.), tal como as “especializadas” do universo ONU (OIT, FAO, UNESCO, OMS, OMC, etc.) e outras mais restritas (a Commonwealth britânica, a ASEAN, o Mercosul ou até a CPLP, agora tão rebaixada com a adesão de um país não-lusófono de péssima reputação e um acordo ortográfico que não agrada a ninguém), são úteis enquanto espaços de encontro, negociação e lobbying, e por vezes também como reguladores e impulsionadores de políticas conjuntas, que questões como as da protecção do meio ambiente cada vez mais exigem. Contudo, o modo de tomada de decisões e o peso dos interesses das principais potências e coligações levam geralmente a que estes se sobreponham ao “interesse geral” da comunidade mundial, de resto tantas vezes difícil de discernir face à complexidade dos problemas e à divisão de opiniões patente entre cientistas e especialistas.
A imagem blasé e displicente que o presidente Obama transmite hoje quando se pronuncia sobre os casos agudos que vão surgindo na cena mundial é bem ilustrativa da incapacidade em que se encontram os Estados Unidos para pesar decisivamente sobre estes acontecimentos, a despeito de continuarem a ser a mais forte economia do planeta e a dispor de um potencial bélico incomparável, porém quase inútil nestas circunstâncias. Aí está mais um exemplo concreto de que a popularidade, a inteligência e o fascínio pessoal de um number one desta envergadura não chegam minimamente para marcar o destino de uma estrutura social, alterando-a ainda que só em modesta parcela, quer falemos do sistema internacional – em que a sua administração só será lembrada pela retirada militar do Iraque e do Afeganistão e pela “quase não-intervenção” nas mudanças ocorridas no espaço árabe-mediterrânico –, quer falemos em termos domésticos, onde a sua interessante vontade de alargar a protecção social aos mais carenciados acabou por provocar uma radicalização política à direita, que vem perturbando o funcionamento do sistema político e lhe inviabilizou até um melhor controlo da proliferação de armas entre a população, com a desejada redução da criminalidade mais chocante.
Mas vejamos alguns dos problemas implícitos nos processos de violência político-militar mais recentes, com o escasso detalhe que aqui nos é permitido: a Rússia, em primeiro lugar.
Sob a liderança forte de Putin, que dirige o país desde 1999 por via de manobras formalmente democráticas, a Federação Russa tem vindo a sair da fase psicológica depressiva que se seguiu ao colapso da URSS para assumir hoje um papel em muitos aspectos determinante do que se passa no mundo. A desestatização da economia fez-se, pelo que toca aos sectores fundamentais, sem perda dos benefícios da concentração e da escala, com a constituição de uma nova classe de grandes capitalistas que não eram outros se não os anteriores apparatchik soviéticos; e apenas as migalhas foram deixadas ao desleixo e à concorrência selvagem entre os “pequenos”. Apesar de muito descontrolo, cortes e descaminhos, o aparelho militar “pesado” e de alcance inter-continental manteve-se unido e serve como argumento político nos confrontos político-económicos entre grandes potências. Por outro lado, a dependência energética europeia do gás russo, criada a partir da Ost-politk e do “desanuviamento” dos anos 70, colocou nas mãos do Kremlin um trunfo importante para ser jogado em termos de retaliação ou de pressão para a obtenção de determinados objectivos no espaço euro-asiático. Ao que se veio juntar o entrecruzamento de interesses económico-financeiros neste mesmo espaço, que tanto podem favorecer ou prejudicar qualquer das duas partes, consoante as circunstâncias.
A Rússia de hoje sente-se bastante segura no Extremo-Oriente, onde pode dialogar com a China, as duas Coreias, o Japão, os Estados Unidos (além da Mongólia, no flanco siberiano) para assegurar os seus interesses na região, que passarão essencialmente pela saída marítima para o Pacífico e pelo controlo da “passagem de nordeste”, quase sempre gelada mas onde quer reservar “todos os seus direitos” à exploração energética e mineral dos fundos árticos. Num parêntesis, ocorreria perguntar como se posicionam realmente hoje os que continuam agarrados ao credo marxista-leninista, dada a abstenção a que se atêm face a qualquer comentário sobre as políticas vigentes na Rússia e na China.
Quanto ao “arco islâmico” e à região caucasiana – importantes pelos recursos energéticos e pela sensibilidade das populações –, o Kremlin tem seguido uma política cautelosa, intervindo militarmente quando julga necessário (Tchechenia, Geórgia) mas sem nunca se meter em aventuras, parecendo ter guardado memória da desastrosa campanha do Afeganistão nos anos 80. Do mesmo modo se pode interpretar o relacionamento mantido com o regime teocrático islâmico de Teherão e com a Turquia (de Estado laico mas população muçulmana), duas potências regionais da sua vizinhança que lhe exigem certamente grande tacto diplomático. 
Finalmente, num mundo que já não é bi-polar nem tri-polar (do tempo de um “Sul” a assistir às disputas das super-potências), a Rússia soube juntar-se aos grandes países “emergentes” que são o Brasil, a Índia e a África do Sul (os “BRICS”, juntamente com a China) para contrariar a potência económica do Ocidente (isto é: de americanos, europeus e mais alguns “aliados naturais”) e lograr uma partilha da riqueza económica mais vantajosa para os seus respectivos “blocos regionais”, que cada um deles, de certa maneira, lidera. É positiva esta ascensão económica de países até agora periféricos e o Ocidente deve acomodar-se a essa realidade e facilitar um maior equilíbrio mundial, mas não num clima de confronto ou de vindicta por “culpas” históricas já reconhecidas. Ora, não será porque a recente “cimeira” dos “BRICS” no Brasil caiu em má altura que esta coligação internacional irá enfraquecer, apesar da ausência de qualquer afinidade de ordem ideológica ou sócio-cultural entre estes países, justamente porque ela é baseada em exclusivo na conjugação de interesses próprios (na forma como são interpretados pelos seus dirigentes), que é hoje o universo mental dominante nas relações oficiais, internas e externas, dos estados nacionais.    
Neste quadro, com o desarmamento relativo dos países da União Europeia e sobretudo o esbatimento de qualquer vontade de sacrifício combatente por parte das suas populações, apenas alguns países do Leste europeu (Polónia e outros), que experimentaram a expensas próprias os resultados práticos das concepções do poder dos comunistas russos, se têm mostrado interessados em opor uma “barreira de segurança” eficaz contra qualquer retorno do domínio de Moscovo, atitude esta que, naturalmente, foi explorada por aquele tipo de “falcões” (da escola Bush Jr.) que ainda pesam nos aparelhos governamentais do Ocidente.
Acreditamos que, em grande medida, terão sido estas razões de fundo que estão por trás e explicam, em última análise, os acontecimentos nos últimos tempos na Ucrânia, com o derrube “pela rua” do governo legal que agradava a Moscovo, ao que se seguiu a “desanexação” da Crimeia e a dissensão das regiões russófilas do leste do país, com estes episódios de violência militar não-oficial e de baixa intensidade (mas implicando a completa suspensão de uma vida civil e democrática normais), a que o incidente do derrube de um avião cheio de passageiros ocidentais veio trazer uma dramatização inesperada e incómoda para muitos.
Vários comentadores fizeram logo a associação destes factos com o assassinato de Sarajevo precisamente há um século, que desencadeou o horror da 1ª Guerra Mundial. É um alerta e um facto histórico que deve ser recordado. Mas não cremos estar, de todo, à beira de uma nova guerra. Porém, existem múltiplos ingredientes que, a partir daqui, podem fazer agravar as relações internacionais, polarizando as ambições da Rússia (e, em alguma medida, dos restantes “BRICS”) face aos interesses instalados no Ocidente. Os conflitos violentos localizados nesta região de fronteira que vai do Báltico aos Balcãs e daqui até ao Cáspio, podem multiplicar-se. E se interferirem com o outro tema de conflitualidade estrutural que hoje opõe o Ocidente ao mundo islâmico, aí as coisas podem tornar-se num cenário já altamente perigoso e imprevisível. Em todo o caso, o regresso de tempos de tensão estrutural entre blocos prejudicará fortemente a cooperação internacional e o crescimento económico mundial. Todos perderão com isso.
Passemos agora ao que parece estar a desenrolar-se nos países muçulmanos do Norte de África, do Próximo e Médio-Oriente.
Pese embora as críticas a que tem sido sujeita a análise de Samuel Huntington (O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, ed. orig. 1996), julgamos existir, de facto, uma oposição “sistémica” do mundo árabe-muçulmano contra o Ocidente, fundada em ressentimentos vários ligados a memórias históricas antigas, à exploração das suas riquezas minerais pelos ocidentais, ao domínio político destes no último século-e-meio, e às profundas diferenças dos modos-de-vida e mundivisões. Essa oposição manteve-se de maneira latente durante a segunda metade do século XX, enquanto durou a “guerra fria”, embora os nacionalismos árabes, a causa anti-israelita, a crise do petróleo dos anos 70 com a emergência da OPEP, bem como os actos de terrorismo perpetrados aqui e ali por militantes radicais islâmicos fossem sinais anunciadores do que estava a germinar. Entretanto, o poder económico dos países árabes produtores de petróleo fortaleceu-se enormemente e começou a pesar na economia mundial, também servindo para financiar alguns estados árabes ou movimentos jihadistas, para edificar cidades espectaculares à beira do Golfo, ter voz nos mass media mundiais (com a Al-Jazeera e mais meios) e para promover grandes eventos internacionais, desportivos ou outros. Mas, depois da queda do socialismo de Leste, passou-se dos “sinais” para as acções e as ameaças mais fortes, como as representadas pela tentativa de dinamitagem do World Trade Center de Nova Iorque em 1993 e a consumação da sua destruição em 2001, a imposição da sharia no Sudão e o domínio do Afeganistão pelos Taliban entre 1996 e 2001, o arrasamento bombista da embaixada americana em Nairobi em 1998, o ataque a um navio de guerra yanquee no Iémen em 2000 e os mortíferos atentados urbanos de Bali (2002), Madrid (2004) e Londres (2005) – justificados com um discurso político virulentamente anti-ocidental, que não poupava os governos dos países muçulmanos que aceitavam colaborar com os Estados Unidos, como a Arábia Saudita, o Paquistão, o Egipto ou a Turquia.
Porém, parece hoje patente que uma segunda clivagem forte atravessa toda esta região de cultura islâmica que vai, à mesma latitude, desde o Magrebe até aos Himalaias: uma conflitualidade política fundada em diferenças religiosas ou por elas justificadas – de sunitas contra xiitas –, que porém parece instável aos olhos do observador externo, pois que a mesma se desdobra por vezes em sub-antagonismos entre extremistas e realistas, entre fundamentalistas e moderados, integristas ou traidores (vendidos ao Ocidente), sendo que a traição e as reviravoltas súbitas parecem fazer parte do habitual das lutas pelo poder nessas sociedades. Ao que há que juntar as rivalidades entre estados nacionais; melhor dito, entre as suas elites dirigentes (militares, burocratas, etc.), que entretanto consolidaram interesses particulares, muito menos presentes nas grandes massas populares (comerciantes, trabalhadores e gente pobre ou desvalida) que, com facilidade, emigram ou aceitam mudar de bandeira.
A propósito disto, faz-se frequentemente referência histórica às guerras religiosas entre cristãos que nos séculos XVI e XVII assolaram e contrapuseram os reinos da Europa. O historiador Ernst Nolte interpretou a primeira metade do século XX como tendo sido uma prolongada guerra civil europeia. De certa maneira, é talvez a isso que também estamos agora a assistir – sem compreender muito bem os seus contornos e alcance – no referido teatro geoestratégico que, tal como o da fronteira leste com a Rússia, diz muito directamente respeito à Europa. Os Estados Unidos serão o “grande Satã”, mas estão geograficamente mais longe e defendidos por dois mares imensos. A Europa será sempre mais vulnerável perante estas ameaças, não apenas pela geografia, mas igualmente pela história, pela demografia contemporânea e pela composição social das suas nações, para já não referir as suas divisões internas e a relativa fragilidade dos seus mecanismos políticos. O que fez a sua força moral e civilizacional – e levou o mundo mais para diante – faz também a sua fraqueza perante poderes e interesses que se regem por valores radicalmente diferentes. E os “podres” que igualmente constam do seu currículo histórico – da “industrialização” da escravatura à imposição do seu modelo de sociedade e à desregulação dos equilíbrios naturais – são-lhes lançados à cara pelos descendentes dos humilhados-e-ofendidos desses tempos, mas que aproveitam agora dos benefícios também recebidos.
É tendo em conta este fenómeno de dupla luta política protagonizada pelos intérpretes mais aguerridos do Islão – contra o Ocidente (e ocasionalmente, por intolerância religiosa, contra minorias cristãs); e contra os islâmicos mansos e pacíficos, que constituem a sua maioria – que devemos equacionar as acções de luta, propaganda e guerra que frequentemente enchem os noticiários e as páginas dos nossos jornais.
Começando pelo extremo ocidental deste teatro geoestratégico, registe-se que o sul do deserto do Saara tem sido nos últimos anos palco de acções de guerrilheiros islâmicos possivelmente associados à Al-Qaeda, tendo sido reportadas diversas violências no norte do Mali, no sul da Argélia e nas zonas meridionais da Nigéria, pelo menos. Mas parece que o Senegal, a Mauritânia e o Saara Ocidental (reivindicado pela Frente Polisário) têm sido poupados, sendo um pouco estranho que tal aconteça, apesar do papel dominante de Marrocos na zona, cujo reino tem agido sempre com mão-de-ferro mas também tem feito esforços para desenvolver economicamente o país, com bem maior sucesso do que a sua vizinha Argélia, igualmente governado com dureza, aqui herdada do nacionalismo anti-colonial. Não será de estranhar que laços possam existir ou estejam a ser tecidos entre aqueles jihadistas e os bandos armados que por vezes actuam no Níger e no Chade, sobretudo depois que muitos seguidores de Kadafi passaram a fronteira da Líbia para sul, mas também não são de excluir conexões com o regime islâmico do Sudão-Norte, que parece comportar-se como foco irradiador do seu fundamentalismo social e político para sul, ao longo da costa oriental de África, tendo como principal campo de manobras a Somália mas actuando também com actos terroristas no Quénia ou na Tanzânia.     
Na orla mediterrânica, a Tunísia – país onde se iniciou a “Primavera árabe” que tanto entusiasmou os ocidentais – tem-se conseguido manter minimamente estabilizada na sua experiência de emancipação das tutelas paternalistas-autoritárias dos seus anteriores presidentes. Mas a Líbia continua a constituir um problema, pelas intensas lutas entre clãs e facções religiosas ou políticas que se digladiam entre si com recurso às armas, mas não perdendo qualquer oportunidade que se lhes depare para fustigar símbolos ou interesses ocidentais. 
O Egipto parece finalmente ter encontrado um pouco de ordem nas ruas, mas isso só aconteceu mediante um regresso em força do exército ao exercício do poder político, como acontecera nos longos consulados de Nasser, Sadat e Mubarak. A economia do país e o turismo internacional agradecem; o mesmo dirão as classes médias urbanas e talvez a maioria do povo – mas o rancor deverá estar a revoltar o espírito de muitos milhares de seguidores da Irmandade Muçulmana, cujos militantes foram brutalmente esmagados pela repressão militar e sancionados duramente por tribunais sem credibilidade, como se têm queixado a Amnistia Internacional ou a Human Rights Watch, perante o embaraço dos governos europeus e americano. Com efeito, depois da “compreensão” por eles manifestada em 1992 para com o golpe-de-Estado que impediu a chegada ao poder na Argélia da Frente Islâmica de Salvação através de uma vitória eleitoral (empurrando-os mais para as acções violentas), é agora o derrube de um outro islamista radical eleito para presidente que lhes suscita um inconfessável suspiro de alívio por essa solução, apesar dos meios atrabiliários usados. É que, os princípios (neste caso de convicção democrática) são apenas princípios, isto é, linhas de orientação abstractas, que às vazes se tornam impossíveis de cumprir, sob pena de males maiores. Necessário é que isso possa ser considerado apenas rara e excepcionalmente; caso contrário, desacreditam-se, não apenas os seus autores, mas o próprio valor moral do princípio afirmado.
E assim o Egipto parece ter retornado ao seu papel de aliado supostamente fiel (mas bem pago) do Ocidente, constituindo um tampão aos radicalismos vindo do sul (do Sudão e alhures) e podendo colaborar minimamente com Israel na “digestão” do problema de Gaza, nas mãos dos palestinianos radicais do Hamas. Mas a isto voltaremos já adiante.
Tomemos agora o caminho do mesmo Mediterrâneo oriental, mas no sentido leste-oeste, a partir da região do Médio-Oriente onde se situam o Paquistão e o Afeganistão. É certo que a “cintura islâmica”, como religião e como cultura, se estende muito mais além, nomeadamente para o Bangladesh, a Indonésia e as Filipinas. Mas, em termos geopolíticos, a Índia e o hinduísmo, protegidos pela cordilheira himalaia e pelo mar, constituem uma barreira formidável à expansão islâmica, a qual historicamente terá ultrapassado esse obstáculo sobretudo por via das migrações e do comércio marítimo, ainda antes dos portugueses lá terem chegado.   
No Paquistão e no Afeganistão, registaram os orgulhosos britânicos algumas das suas maiores derrotas militares-coloniais no século XIX. O terreno montanhoso e a experiência antiga de salteadores vivendo do saque das caravanas provenientes da China forjaram nestes territórios, sobretudo entre os afegãos, uma cultura popular de resistência e de ataque, inteligente e mortífero, ao estrangeiro. Parece que Alexandre o Grande também foi por aqui que teve de fazer meia-volta. Ainda com Bill Clinton no poder, em 1998, a aviação americana fez operações de bombardeamento no Afeganistão, então nas mãos dos fundamentalistas Taliban, para responder aos atentados da Al-Qaeda às suas embaixadas em Nairobi e Dar-es-Salam. E na sequência do ataque às torres gémeas de 11 de Setembro de 2001, Bush-filho envolveu a NATO numa campanha militar prolongada naquele país, de que não saiu vencedora e que abre as mais sérias preocupações sobre o seu futuro logo que as tropas ocidentais abandonem o terreno.
Enquanto isto, o vizinho Paquistão – que exibe ainda algumas boas marcas deixadas pela colonização inglesa – tem continuado a ser terreno propício para a difusão de ideias e recrutamento de combatentes extremistas, ao mesmo tempo que cenário frequente de devastadores atentados bombistas, uns talvez derivados de intolerâncias religiosas, outros mais suspeitos de manobras de provocação ou puro terrorismo, que só revelam a extrema complexidade sócio-política que afecta esta população. O seu nacionalismo tem sobretudo como suporte a animosidade contra a União Indiana e a sempre adiada questão da Caxemira, e como “válvula de retenção” o armamento nuclear que ambos os países possuem. Mas este espaço geopolítico tem estreita ligação e interdependência com o que se passa no Golfo Pérsico com os riquíssimos pequenos países produtores de petróleo, com a não menos rica, conservadora e influente Arábia Saudita (sunita), com o “barril de pólvora” que tem sido sempre o Iémen e com a poderosa potência regional que é o Irão, vivendo em regime fundamentalista islâmico (xiita) desde há mais de trinta anos.
A mal-sucedida campanha militar ocidental no Iraque, que depôs Sadam Hussein, não trouxe um mínimo de segurança, estabilidade e coerência a este país, também produtor de petróleo mas cujas fronteiras haviam sido traçadas a-régua-e-esquadro pelos ingleses no final da 1ª Guerra Mundial, ou seja: com um fraco suporte de sentimento nacional. Ainda por cima, é um país dividido fundamentalmente por duas tendências religiosas de desigual dimensão (xiitas a sul, sunitas no centro) e uma identidade nacional-comunitária, a curda (a norte), que nunca conseguiu constituir-se como estado independente. Ao predomínio dos minoritários sunitas mas melhor inseridos nas estruturas do partido laico Baas (intérprete de um suposto “socialismo árabe”, mas fundamentalmente nacionalista), o qual desapareceu com Sadam, sucedeu em Bagdad um governo formalmente tripartido mas na realidade liderado por xiitas que, contudo, nunca foi capaz de baixar o nível de violência política, com frequentes atentados bombistas que destroem toda a confiança e capacidade de vida colectiva urbana. O Ocidente e os Estados Unidos pagaram caro esta solução. E agora, no meio do caos em que se transformou a Síria nos últimos dois anos de insurreição e guerra civil de todos contra Bashar-el-Assad (sunita halauita), mas também de forma surda entre várias facções e tendências destes oposicionistas, eis que surge um anunciado Estado Islâmico do Iraque e do Levante, arquitectando um novo Califado pela acção de milícias armadas essencialmente sunitas e próximas dos jihadistas da Al-Qaeda, que já conseguem actualmente controlar uma boa parte dos territórios do norte do Iraque e do leste da Síria, chegando mesmo até à cidade curda de Kirkuk e quase às portas de Bagdad.
Como por encanto, quase deixou de se falar dos enfrentamentos armados na Síria, que continuam, bloqueados externamente pelo “não-intervencionismo” da Rússia e da China e pelos receios do envolvimento ocidental. E tem sido até agora evitado o risco de contágio da violência para o Líbano, um país de frágeis equilíbrios sociais e religiosos que a Síria já tutelou e onde o radicalismo islâmico do Hezbollah (xiita próximo dos iranianos) já mostrou várias vezes a sua agressividade, como os israelitas bem conhecem. O que sobra é a destruição de zonas urbanas de Damasco, Aleppo, Deraa, Homs, Dar-Raqqah, etc., com muitos milhares de mortos e feridos, talvez o fim da pequena tolerância religiosa que existia no país, e a enorme torrente de refugiados que têm saído para os países vizinhos, sobretudo a Turquia, e daí (os que podem) para destinos europeus.
Iremos ver estes estados – Síria, Iraque, quem sabe se amanhã a pequena Jordânia (sunita hachemita), até agora poupada mas terra de refúgio de muitos expatriados e com a memória de um “Setembro negro” na sua história recente –, estes estados, dizíamos, “modernos” mas em grande medida artificiais, desintegrarem-se para dar lugar a novos poderes assentes nas armas e fronteiras definidas segundo clivagens político-confessionais?  
O que vemos por agora é os americanos a dar ajudas ao governo iraquiano, receosos do que possa vir, tal como também o estará fazendo o Irão, por solidariedade xiita para com esses seus vizinhos. Será que ainda veremos mais uma surpreendente reviravolta em que o xiismo fundamentalista do Irão se aproxime do Ocidente, ao mesmo tempo que dele se afaste o sunismo waabita da Arábia (fundamentalista de outro modo) ou de algum dos estados do Golfo?
A estas evoluções também não poderá ficar indiferente a República da Turquia – com o Egipto, a outra grande potência desta região –, atenta no plano externo e decerto preocupada com o eventual ressurgimento do nacionalismo curdo, mas também com processos de mudança interna de que é ainda difícil entender os sentidos e prever os seus desfechos a médio-prazo. Uma coisa parece certa: o laicismo musculado e unitarista de quase um século de “kemalismo” já não existirá e o regime estremece entre as exigências de modernização e adesão à Europa de parte das classes médias urbanas, os corporativismos de juízes e militares (de costas apoiadas na NATO e senhores de um potencial bélico assinalável) e o confessionalismo islâmico que, pouco a pouco, tem vindo a penetrar a sociedade e a ocupar importantes centros de poder.   
Ao lado disto tudo, Israel embrenhou-se nas últimas semanas numa nova “guerra limitada” na faixa de Gaza, que é dominada pelos militantes palestinianos do Hamas (sunita radical, com ligações à Irmandade Muçulmana), que foi vencedor eleitoral em 2006 da Fatah (dos presidentes Arafat e Mahmoud Abbas) mas afastado e expulso da Cisjordânia no ano seguinte, ficando apenas Gaza sob o seu controlo absoluto. Mais uma vez, em espaços urbanos densamente povoados, as principais vítimas dos bombardeamentos estão a ser as populações civis que, ainda por cima, não têm fronteiras por onde possam fugir para o exterior, já que o Egipto, agora controlado pelos militares, não lhes franqueará essa passagem.
Como habitualmente, a comunicação, a propaganda e as simpatias escondidas distorcem grande parte do que se passa no terreno. Mesmo na nossa imprensa e espaços de informação audiovisual, especialistas defendem com clareza as posições das duas partes em conflito, de maneira mais inteligente nuns casos, ou apenas repetindo os argumentos de sempre. De facto, Israel tem razão em querer garantir a segurança do seu território e das suas populações (contra os rockets, incursões armadas, infiltrações subterrâneas, “intifadas”, etc., mandados pelo Hamas e outros radicais islâmicos), tal como os palestinianos de Gaza (principalmente) têm razões de queixa pelo isolamento e boicote fronteiriço de que têm vindo a ser alvo desde há anos.
Mas, se os dirigentes da Autoridade Palestiniana em Ramallah têm tido a moderação suficiente para, discretamente, manterem algumas pontes negociais com Israel em direcção à solução dos “dois Estados, em condições de segurança”, a sua anunciada reconciliação política com o Hamas veio dificultar de novo um “caminho para a paz” em que ninguém já acredita e que encoraja os extremistas de ambos os lados; um Hamas com quem em 2007 teve confrontos armados, que recebe auxílios financeiros de países árabes mal identificados mas domina uma população e um território que, nem por nada, o Egipto quereria receber de volta.
Além disto, o Hamas usa procedimentos inqualificáveis de exposição de civis aos tiros israelitas, para depois bradar que se trata de crimes de guerra. Porém, os dirigentes de Israel persistem na sua política de instalação de novos colonatos que, tal como os “muros de separação”, ofende os palestinianos (quando têm o deserto do Neguev, que bem poderiam fazer frutificar) e, sobretudo, praticam pela enésima vez este tipo de acção de punição militar – dez adversários mortos, por cada um dos nossos que cai – que só faz enraizar nas populações árabes sentimentos de ódio para mais umas décadas. Assim como o Holocausto e a construção política de Israel forjou a consciência aguda da sua nação, também o último meio-século de luta e sacrifícios acabou por dar aos palestinianos uma identidade nacional.    
São, por tudo isto, sombrias, as perspectivas internacionais em aberto no Próximo-Oriente. E se isto é verdade em relação às forças e conflitos políticos, também podemos constatar como, nos planos social e cultural, a União Europeia continua a mostrar-se incapaz de dar uma resposta convincente aos fluxos de emigrantes que afluem em condições dramáticas à sua fronteira sul, e de integrar adequadamente os milhões que já nela residem. 
JF /31.Jul.2014
(Desculpas ao meu amigo André Bandeira por aqui só me referir à aparência superficial da política mundial.)

domingo, 13 de julho de 2014

Uma ideia exagerada da política

O teórico italiano Giampetro Berti, apaixonado pela história política, definiu um dia apropriadamente o anarquismo como sendo “uma ideia exagerada de liberdade”. Eu aproveito o mote para me referir à situação por que está passando o Partido Socialista português.
O PS – de modo bem diferente do PPD/PSD mas, como ele, um partido aberto e sociologicamente muito representativo da sociedade e da cultura portuguesas – tem vivido de tempos a tempos crises internas mais ou menos tempestuosas, desde o congresso do confronto com Manuel Serra, às saídas dos “reformadores” e da UEDS, das desavenças Soares-(Eanes)-Zenha às tricas pós-soaristas entre Constâncio, Sampaio e Guterres, às sonoras e grandiloquentes ameaças de Alegre, e dos constrangimentos provocados pela liderança “determinada” de José Sócrates até à chegada de António José Seguro que foi encarado por toda a gente como um líder-de-transição. Mas raramente se terá visto um espectáculo de “rivalidade democrática” tão mediatizado e rico de “faits divers” como o que actualmente decorre.  
Tudo o que na política há de menos nobre e interessante – duelos orais em que só se procura o efeito, vantagens prometidas, manobras legais, insinuações torpes, lavagens-de-mãos como Pilatos, arregimentação de apoiantes, empurrões e apupos, parece até que agressões – tem tido ali as suas representações, em concentrado e pouco tempo, com a ampliação feita pelos media, sobretudo depois que o nacional-futebolismo esgotou precocemente o seu filão. Porém, todos os tenores juram que só querem debater “o que interessa para o país”, sejam os “aspectos concretos” (e lá sai a última listagem de críticas e de propostas alternativas, dos tribunais que já não fecham à inevitável “política do mar” ou o apoio às PME), seja “uma estratégia nacional para sair da crise” ou para “em definitivo” garantir a permanência do Estado social. Dizem uma coisa ao mesmo tempo que a negam na prática, o que é quase inevitável nos períodos e no tipo de campanha eleitoral a que fomos habituados. É de sublinhar a opinião emitida há dias por um respeitado historiador: «considero inadmissível que o partido que sem dúvida vai ocupar o poder em próximas eleições se afirme desta forma pouco demonstrativa da política como cidadania e sim como forma de conquista do poder, aquela que afinal se tem identificado com o que há de negativo na vida dos partidos» (Luís Reis Torgal, “As duas políticas”, Público, 8.Jul.2014). Se queriam ganhar balanço para uma corrida em passo acelerado em direcção ao próximo governo, os socialistas enganaram-se na receita e arriscam-se a perder a embalagem que traziam, que era exclusivamente devida à natural reacção das pessoas pelo pioramento do seu nível de vida!
Entendamo-nos! Eu não sou socialista mas também não sou anti-socialista. A maior parte dos meus amigos situa-se nessa área, votando ou aí actuando organizadamente. Em 1974, alguns velhos anarco-sindicalistas entraram mesmo para o PS para tentarem nele constituir uma “corrente libertária e federalista”. E se a maioria desses sobreviventes da antiga CGT o não fizeram, quase todos não deixaram de ir às urnas e aí apor a sua cruz “na mãozinha”, por muito que não acreditassem na bondade intrínseca dessa forma de exercer a cidadania. O PS (e o realismo de Mário Soares, antes de mais) constituiu então a barreira fundamental que travou a eventualidade de uma aventura esquerdista/terceiro-mundista que só poderia acabar mal. Mas, desde então, o partido instalou-se e partilhou alternadamente com o PSD (com pequenos contributos do CDS) o essencial da governação do país. Muito se progrediu e mudou ao longo destes 40 anos. Mas as dificuldades por que os portugueses estão agora a passar também lhes são principalmente imputáveis.
É verdade que o eleitorado tem sido de uma enorme fidelidade aos partidos que emergiram com o restabelecimento da democracia, o que, se é uma virtude que bloqueou qualquer eventual ameaça de constituição de uma direita revanchista e radical, também é um prémio ao anacrónico “tribunismo” do PCP e ao rotativista dos dois principais alternantes no poder, com espaço e tempo suficientes para forjarem e manterem os seus laços de interesses económicos e clientelares, e se refazerem nos períodos de pousio da má imagem que deixaram da última passagem pelo governo. Com a fraca experiência do PRD patrocinado por Eanes, do (apresar de tudo, interessante) PSN e do radicalismo inconsequente do Bloco de Esquerda (agora parece que em vias de desagregação), mais o aferrolhamento do actual sistema político por interesse directo dos que lá estão, só tem restado a uma boa parte do povo português, desgostoso e crítico deste estado-de-coisas, a fuga para a abstenção e a descrença no actual modelo de representação e governação.
Desta vez, porém, a crise do PS pode levar a consequências novas. Com aquilo a que já se assistiu publicamente e o que pode vir ainda a suceder até Outubro, é quase certo que muitos dos que poderiam votar PS nas próximas legislativas para castigar o actual governo deixem de o fazer, desencorajados com o espectáculo. Com António José Seguro a candidato, a vitória será sempre “curtinha” (e até dará esperanças à actual maioria); mas se António Costa partiu para esta aventura com ideias de chegar aos 116 deputados, já deve ter percebido que tal não irá acontecer, restando-lhe o trunfo de uma eventual aliança à esquerda, de um pacto de médio-prazo com o PSD ou de mais uma coligação com o CDS, uma vez removidas as actuais lideranças destes partidos. Não é provável que alguém queira e possa governar em minoria no parlamento.
Com tais perspectivas, como vão os socialistas agora alinhados com Seguro “reentrar na fila” para os cargos e as prebendas de um próximo governo chefiado por Costa? E quem acredita que, se forem vencidos, os apoiantes deste último fiquem de mãos-nos-bolsos com uma nova composição parlamentar e uma solução governamental indecisas? O risco de uma cisão não se põe ainda, enquanto Mário Soares puder intervir e o PCP não mostrar uma nova disposição, para a qual, aliás, já dispõe de uma geração de quadros políticos formados no “pós-fascismo”. Mas ela vai provavelmente passar a estar presente, como espada de Dâmocles, nos debates internos do PS (e dos outros partidos, eventualmente beneficiários ou prejudicados pela operação), sobretudo segmentados segundo linhas de fractura sobre como resolver o défice orçamental e o peso da dívida (pública e externa) a médio/longo prazo, e quanto à nossa posição marginal no concerto europeu, perante o contínuo definhamento dos padrões de vida nacionais. Pode ser até que daqui se precipite finalmente uma fragmentação e recomposição da nossa tradicional representação partidária: o que ninguém saberá é em que sentido ela se dará.
Tudo isto é curioso de observar e interessante de estudar mas, realmente, é sobretudo da vida e dos interesses dos políticos aquilo de que se trata, sobre as costas dos cidadãos. Também aqui há “excesso de política”. E défice de cidadania.
Pacheco Pereira, que tem averbado no seu currículo alguns bons combates – como contra o mainstream jornalístico, a liberdade de criticar o seu próprio campo político e agora contra a “partidocracia” que se exibe esplendorosamente no país –, enfrenta hoje o fantasma do cansaço-de-si-próprio e da sua “institucionalização”. Daí a dificuldade crescente de, no meio de uma argumentação oral, terminar frases esboçadas ou de explicitar para um público amplo e diverso o que já mil vezes lhe passou pelo cérebro e que os seus interlocutores também antecipam. (Um comunicador público tem obrigação de rever criticamente as gravações daquilo que vai destilando para o éter.) Daí também a “manipulação” com que, noutros registos, trata dados, imagens e ideias e se refere a assuntos que não conhece e abomina (a economia, o desporto, o direito ou mesmo a sociologia empírica), tudo canalizando para o domínio da política onde, de facto, tem uma enorme capacidade de análise (sobretudo dos factores subjectivos) mas onde também, não tendo sucesso como actor (honra lhe seja, nos termos em que aquela se faz), ele se compraz no seu refúgio aristocrático de comentador ou analista requestado e certamente bem-pago. Pacheco Pereira, que neste aspecto faz também “uma ideia exagerada da política”, tem-se perdido um pouco ao não resistir aos apelos interiores do opinion maker e de – legitimamente, como cidadão inteligente e empenhado – por essa via procurar “levar a água ao seu moinho”, seja no apoio à gestão autárquica de Rui Rio, na defesa da liderança partidária de Manuela Ferreira Leite ou no frentismo-de-esquerda contra o governo de Passos Coelho-Portas. Porém, tem toda a razão ao descortinar que, na actual crise do PS, é também o conjunto do sistema partidário português que, de modo mais exposto, mostra a situação comatosa a que chegou. 

Há muitas e justificadas razões de queixa contra o mandarinato que Alberto João Jardim e os seus apaniguados têm exercido na Madeira ao longo de todo este período democrático. Reconhecendo obviamente o esforço feito para o desenvolvimento económico da região, nenhuma simpatia ou condescendência nos merece a personagem e o seu modo de governação populista. Dito isto, até o Diabo tem razão em certos momentos, como aconteceu agora com a iniciativa de deputados do PSD ilhéu em avançarem com uma proposta de alteração constitucional que reduzisse o papel político de quem exerce a fiscalização da constitucionalidade das leis, neste caso o Tribunal Constitucional. É claro que este passo se insere, como mais uma “jogada”, na tensão política que se tem gerado entre esta alta-corte-de-justiça e o actual governo. Mas o mesmo se diga de todas as forças (políticas e sociais) que a este se opõem quando constantemente incensam os juízes do palácio Ratton como a “ultima trincheira de defesa dos cidadãos contra um governo fora-da-lei”. No meio de tudo isto, aqueles juízes são ainda os que “menos política têm feito”, embora sobre eles possam recair pesadas críticas, porém de outra natureza, quanto ao entendimento que têm vindo a fazer da sua função fiscalizadora e jurisdicional. 
A tremideira a que agora se assiste do grupo financeiro Espírito Santo, visível no espaço público, é bem reveladora de tudo o que a generalidade dos cidadãos ignora acerca destes negócios. O assunto é já, em si mesmo, complexo e inextricável para a maioria das pessoas, mas essa complexidade deveria ser rodeada por um “cordão sanitário” de credibilidade a-toda-a-prova, até para cortar cerce a fácil especulação que a tal propósito se pode fazer. A confiança é um dado volátil mas fundamental nestas questões. Porém, além da inevitável mobilidade de capitais que a globalização proporcionou, multiplicando-a, é aqui sobretudo perceptível o tipo de relações promíscuas que estes grandes interesses financeiros mantêm com titulares do poder político, com benefícios para ambas as partes, e frequentemente também com personalidades bem colocadas na comunicação social e na justiça, duas esferas que podem encobrir ou ajudar a descobrir jogos menos lícitos ou mesmo ilegais, como pode ter sido o caso do ex-presidente francês Sarkozy, que agora se encontra sob acusação judicial. Banqueiros, grandes empresários, governantes, juízes e jornalistas deveriam estar constrangidos por normas mais rigorosas que delimitassem os seus respectivos campos de actuação. E idênticas medidas cautelares deveriam ser tomadas contra países cujos dirigentes e formas de governo autocrático os tem tornado justificadamente suspeitos de “negócios escuros”. Há qui excesso de política, mas também abuso de poder económico privado.
Até que enfim! André Freire, um colega e especialista com amplo acesso a várias plataformas da comunicação social, usou há dias essa posição para denunciar com veemência o exagero disparatado com que as televisões – incluindo a RTP1 – nos têm vindo a servir o espectáculo futebolístico (Público, 2.Jul.2014). Tirando algumas adjectivações mais próprias do combate político do que da análise sociológica (“totalitalismo”, “alienação”, etc.), é de saudar esta pedrada-no-charco contra o mainstream dominante. Parece até que o Papa Francisco teve de prometer à presidente brasileira Dilma (em campanha) que se manteria neutro perante as disputas do “mundial”! (o qual, diga-se de passagem, foi fértil em bons jogos, surpresas e frustrações colectivas).   
Já agora, não esqueçamos no dia de hoje o lema republicano divulgado pela Revolução Francesa: Liberdade – Igualdade – Fraternidade. E parabéns pela canção recente “Não me façam pagar / Por aquilo que eu não fiz…” do cantor Tiago Bettencourt, que parece ser um autêntico hino de cidadania.    

JF / 14.Jul.2014

sábado, 28 de junho de 2014

Frente ribeirinha, museus nacionais e património histórico em Lisboa

(Para que algumas ideias não fiquem definitivamente esquecidas nalgum arquivo burocrático, adaptei, actualizei, encurtei e divulgo o essencial de um texto produzido há já meia-dúzia de anos e que então não foi acolhido por uma publicação cultural.)

Estão já integradas na paisagem e a funcionar as edificações nascidas no Cais do Sodré para abrigar umas organizações internacionais pouco reconhecíveis do público. Também já terminaram as obras principais de arranjo estético, circulação viária e mudança de funcionalidades do Terreiro do Paço. Entre ambos, situa-se a linha marginal do que foi em tempos a Ribeira das Naus e que há um século ainda era ocupada pela industriosa actividade do Arsenal de Marinha, com o acanhado espaço então pejado de oficinas, carreiras de construção, resfolegantes guindastes a vapor, a conspícua “cábrea” na ponte de atracação para os navios em fabricos ou acabamentos e a “caldeirinha” – pequena doca situada junto à “casa da balança” – sempre cruzada pelos “gasolinas” que asseguravam a ligação com os navios da esquadra amarrados no “quadro”.
Cerca de 1960, o almirante Jorge Ramos Pereira publicou um interessante trabalho contendo um plano de reordenamento patrimonial destes espaços que incluíam o desaterro do “dique” em pedra do arsenal (como posteriormente veio a ser feito, em parte) e a colocação, nele, de modo definitivo, da fragata de vela D. Fernando II e Glória, que ainda não havia sofrido o lastimável incêndio que quase a consumiu, para aí figurar como objecto simbólico representativo do antigo poder naval português.  
Agora, é um projecto do arquitecto Manuel Tainha que está em execução e vai marcar decisivamente aquela zona. Mas talvez não esteja ainda concluída e irremediável a forma de arranjar e organizar a “linha de água” que se prolonga até ao Cais das Colunas e o envolve. Sabe-se que o assunto interessa ao Município, à APL, ao Metropolitano de Lisboa, à Marinha e certamente aos organismos especializados da Cultura. Preparam-se formas de animação dessa frente ribeirinha privilegiada e espera-se que elas acautelem da melhor maneira os modos de lidar com a circulação e o estacionamento automóvel mais correntes, mas que podem ser prejudiciais para aquela zona. (Nesse aspecto, um túnel ligando a Avenida 24 de Julho à Avenida Infante D. Henrique, previsto ao tempo do autarca João Soares, retiraria o principal tráfico rodoviário da superfície daqueles lugares, não fossem as prováveis dificuldades técnicas e financeiras levantadas pelo projecto.) É talvez ainda o momento de lembrar aos decisores a riquíssima carga histórica representada por esse lugar, onde simultaneamente residiu o Paço Real e se construíram e armaram boa parte dos navios das Descobertas e do nosso imperial Século XVI, mais sonhado e efémero do que propriamente acabado e produtivo. E de apoiar a sugestão, já pronunciada por alguém, de ali criar um espaço de atracação permanente de quatro ou cinco navios-museus representativos da nossa específica cultura marítima – com certeza a referida D. Fernando devidamente cuidada, a caravela Boa Esperança, alguma fragata ou falua do Tejo mais imponente e, desejavelmente também, algum navio de pesca tradicional – a que se juntariam do lado de fora, quando em estação, o navio-escola Sagres e o lugre Creoula, constituindo assim um núcleo de embarcações à vela de intrínseco valor cultural e atractividade turística garantida, ao mesmo tempo que sinais eloquentes da memória daquele lugar.     
Com efeito, a frente fluvial do Terreiro do Paço merece ser tratada de forma particularmente cuidada e exigente, sem que isto deva significar um qualquer prémio ao imobilismo ou ao adiamento indefinido de decisões. Para além da excelência do lugar e do seu património edificado – como muito bem escreveu há anos Paulo Varela Gomes, «Lisboa não pertence aos lisboetas. Nem sequer aos portugueses. Lisboa é o único património genuinamente mundial existente em Portugal» (Público, 10.Maio.2007) – aquele sítio deve ser preservado e organizado para a fruição cultural dos seus utentes e visitantes, não porém numa qualquer forma de novo-riquismo, populismo ou vanguardismo, tão em moda, mas antes no respeito do significado histórico do passado, que só foi grande porque foi decididamente aberto para o futuro.
Nestes termos, quaisquer que sejam as ocupações funcionais concretas a atribuir àqueles diversos espaços e edifícios, parece que algumas ideias-âncora deveriam ser sempre acauteladas, nomeadamente as seguintes:
- A despeito do plano simétrico da Praça do Comércio, o torreão Poente será sempre a evocação do antigo Paço Real, sede do poder político que dominou Portugal desde o Século XV, e que foi tragicamente destroçado em 1755. Ocupado pelo Exército desde há muito e agora sem préstimo especial, é talvez tempo de nele instalar um espaço museológico dedicado a este poder estatal, que formou no imaginário popular a noção, centralista e distante, da “governação do Terreiro do Paço”;
- À sua ilharga, a Marinha ocupa desde a origem a maior parte das instalações da edificação pombalina do mesmo lado Poente da praça. Entre as excepções conta-se o Tribunal da Relação de Lisboa que o almirante Ramos Pereira, no seu referido trabalho, reivindicava dever ser restituído à Marinha, por nele haver funcionado em tempo o circunspecto Conselho do Almirantado. É de todo adequada esta localização, desde que compatível com as funcionalidades exigidas pelo alto-comando e pelos principais serviços da instituição naval, como parece ser o caso. O Mar foi um braço armado decisivo da história da nacionalidade e da sua incrível expansão pelo mundo, a partir do Século XV; e o estaleiro onde principalmente se construíram os navios dessa gesta fica ali bem assinalado pela sede da Marinha, sobretudo se puder contar com o já aludido cais de atracação de grandes veleiros;
- No lado Nascente da praça, a localização do ministério das Finanças não podia ser mais evocativa. Para aquelas bandas existiram a Casa da Índia e os armazéns das especiarias que vinham do Oriente: era o Comércio, que constituiu o segundo braço do poderio da casa real portuguesa e da própria nação, e que acabou por dar o nome àquela emblemática praça da cidade, aberta ao mar e à aventura. Por isso se afigura tão inamovível a presença das Finanças Públicas naquele vasto casario, como o da Marinha no lado oposto. E o torreão nascente poderia decerto abrigar, de forma definitiva, um espaço museológico adequado a essa evocação.
Para montante do Terreiro do Paço a margem do rio está agora praticamente limpa das cargas comerciais que até há alguns anos atrás animavam o porto de Lisboa, mas também o enegreciam e empachavam impedindo o acesso do cidadão comum ao usufruto da vista sobre essa fantástica “frente estuarina”. Foi, é claro, à custa do desaparecimento de uma humilde e árdua população “marítima” – a dos estivadores, carregadores e descarregadores, gruístas, conferentes e despachantes – que se acrescentavam aos numerosos tripulantes de rebocadores, catraieiros e outras embarcações que serviam a movimentação portuária, residentes em grande número na vizinha encosta de Alfama. Por contraste, as actividades “terciárias” que agora ocupam alguns dos velhos barracões de ferro e tijolo são certamente mais correspondentes à cultura “de mãos cuidadas” dos jovens trabalhadores escolarizados que as frequentam, porém como consumidores, já que a maior parte dos serviços de restauração ou vendas turísticas (e das indispensáveis limpezas) é ocupada por imigrantes mais pobres vindos de paragens distantes.  
A estação fluvial de Sul-e-Sueste e a contígua Doca da Marinha parecem aguardar alguma reabilitação ou novos destinos funcionais – porventura como base de operação de embarcações ligeiras com fins turísticos (tipo bateaux-mouches) –, desejavelmente condizentes com uma redignificação do Campo das Cebolas, hoje desperdiçado com incrível e prolongado espaço de estacionamento de veículos, apesar da presença da magnífica Casa dos Bicos. A doca do Jardim do Tabaco foi atulhada, desapareceu, e os longos metros de cais que se alinham até às bandas de Santa Apolónia constituem agora bons locais de atracação de grandes paquetes em viagens de cruzeiro turístico (servidos por Metro), depois das dragagens que sofreram e da evacuação mais para montante e para outros lugares dos serviços de cargas mais incómodas, constituindo uma boa alternativa às muralhas da Rocha do Conde de Óbidos e recuperando urbanisticamente uma zona de Lisboa que, durante mais de um século, foi de grande utilidade económica mas simultaneamente se bloqueou como património social e cultural da cidade.
Ora, indiscutivelmente, a zona de Santa Apolónia dispõe de alguns excelentes atributos simbólicos e patrimoniais ligados, por um lado, à dimensão castrense do Estado – e concretamente ao Exército – e, por outro lado, à nossa tardia industrialização oitocentista. Com efeito, o antigo Arsenal do Exército (onde se fabricaram centenas de bombardas de “alma branca” que atroaram os ares, do Brasil ao Oriente), posteriormente convertido em Museu de Artilharia e hoje Museu Militar, pela sua traça, função, espólio e localização, tem todas as condições para constituir a referência central da zona, em diálogo com o edifício da estação ferroviária – símbolo do desenvolvimentismo oitocentista – que agora tem condições de lhe fornecer fluxos consideráveis de população, não apenas passante, mas também passeante, a acrescentar aos “cruzeiristas” marítimos e outros turistas interessados pelo “tipicismo” do Fado e do bairro de Alfama.
Em torno desses dois edifícios adensa-se, de facto, uma rede de outras construções públicas da mesma natureza: o antigo convento das clarissas que o Liberalismo converteu em aquartelamento e o Século XX em Oficinas Gerais de Fardamento (vulgo “Casão”); outras edificações fabris do Exército (para os arreios, o calçado, etc.); a Messe de Oficiais; o altivo Tribunal Militar (ex-palácio dos marqueses do Lavradio e actual sede da Direcção de História e Cultura Militar); e o Hospital da Marinha, construído expressamente para tal fim na primeira metade do Século XIX. Para já não referir o Panteão Nacional e, por banda da arqueologia industrial, a interessante estação elevatória de águas da Calçada dos Barbadinhos e o prenúncio, em direcção a Xabregas e Marvila, de grandes fábricas que ocuparam centenas e milhares de trabalhadores, entremeadas com casas senhoriais, quintas, conventos e casebres. O percurso turístico e cultural “A caminho do Oriente”, pensado há alguns anos atrás, poderia ser melhor potenciado a partir desta base.
O Estado-Maior do Exército que está sediado em instalações indignas, por cima do Museu Militar, mereceria outro tipo de sede. Parece que razões funcionais apontam para que este alto-comando venha a ser instalado nos arredores de Lisboa, possivelmente nos terrenos já possuídos pelo Estado e pelo Exército na Amadora. Assim sendo, abre-se a possibilidade das suas instalações actuais virem a servir para concentrar naquela zona a maior parte do património documental e iconográfico da instituição (biblioteca, arquivo-geral, etc.), onde de resto já se encontram o bem organizado Arquivo Histórico-Militar e os moldes de numerosa estatuária ali fundida em bronze no Século XVIII. E certamente que algo de semelhante poderá ser feito em relação ao Hospital da Marinha, agora que está em curso um processo de concentração dos serviços de saúde militares.
Um simbolismo idêntico àquele que liga a Marinha ao lugar da Ribeira das Naus poderia, assim, fixar melhor a memória histórica do Exército ao sítio de Santa Apolónia e da antiga fundição de canhões.
Para poente: do “aterro” a Alcântara. Toda esta vasta zona está, desde já há vários anos, em profunda transformação, por iniciativa da Administração do Porto de Lisboa e apetência do Município da capital. Tendencialmente, foram desaparecendo as funcionalidades da armazenagem portuária, da fiscalização aduaneira, da construção naval, da descarga de pescado, e surgindo alguns ajardinamentos e possibilidades de acesso dos peões à muralha marginal, várias concentrações de estabelecimentos de restauração e diversão nocturna e algumas instalações de empresas e instituições modernas, por reaproveitamento de estruturas pré-existentes, de que o museu da Fundação Oriente (no edifício dos antigos armazéns frigoríficos da Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau) é certamente o exemplo mais imponente e emblemático.
O uso marítimo deste segmento ribeirinho é agora partilhado, no essencial, entre a náutica de recreio que ocupa várias das docas existentes, e o terminal de contentores da Rocha/Alcântara-Mar, obra caríssima e quiçá uma infeliz escolha estratégica em lugar privilegiado da desejada reapropriação do rio pela cidade, que deixou ali encravado um núcleo de actividade económica inamistosa (porque volumosa, perigosa e impeditiva do acesso pedonal – e que implica circulações rodoviárias e ferroviárias pesadas no interior da cidade –, mas não com os efeitos poluidores de várias das antigas cargas marítimas, sendo porém pequeno o volume de mão-de-obra criado, em comparação com o trabalho braçal de antigamente). Dado que também a existência de uma boa ligação ferroviária para as cargas deste terminal portuário através do vale de Alcântara e da “linha de cintura” – certamente em articulação com a tão falada conexão ferroviária (para passageiros) entre esta última e a “linha de Cascais” – ficou remetida para as calendas, há talvez a possibilidade de que uma nova “grande obra” coloque em outro lugar do estuário esse indispensável ponto de descarga para navios porta-contentores e possa reservar aquela muralha para um outro cais de atracação de “cruzeiros” turísticos.
Espera-se que este processo de requalificação da margem ribeirinha prossiga, em diálogo visual e funcional com a renovação do tecido construído em zonas vizinhas sensíveis como são “o aterro” da Boavista-Santos (onde a EDP está a levantar um grande edifício sobre areias preservadoras de antiga arqueologia naval) ou a “operação Alcântara”, para a qual a imprensa tem falado, esparsamente, de projectos arquitectónicos arrojados, em altura, e, às vezes, em posteriores decisões políticas ou administrativas que os não consentem ou talvez venham a limitar.
A zona de Belém. Para jusante de Alcântara, abre-se a outra zona nobre e monumental de Lisboa que é Belém e que inclui os Jerónimos, a Torre, “o Palácio”, a Ajuda e agora inevitavelmente o Centro Cultural, para além de tantos outros sítios e museus de consagração internacional.
Mas a referência histórica que, acima de tudo, marca este lugar é a evocação da saída das armadas dos Descobrimentos, das naus da “carreira da Índia” ou da despedida da Família Real para o Brasil que anunciava, a prazo, a revolução da Liberdade. Este nosso local mítico de partida – e de regresso – foi reconstituído simbolicamente no Século XX, pelas comemorações nacionalistas do Centenário e pela bênção dos pescadores bacalhoeiros que anualmente largavam para o Noroeste do Atlântico; agora, é-o ocasionalmente, em encontros festivos de tall ships ou de regatas de vela desportiva, apesar da falhada operação da America’s Cup que desalojou a funcionalidade da Docapesca e agora é quase “terra-de-ninguém”.
Permanecem em aberto algumas escolhas decisivas para o futuro desta zona privilegiada, onde se concentram as principais imagens de Portugal no mundo. Por exemplo, uma opção técnica importante, já muito discutida (por ser cara), seria a de enterrar a linha férrea, tal como se fez na cidade de Espinho, eliminando uma barreira quase insuperável à apropriação da largueza daqueles espaços ribeirinhos pelos cidadãos.
O Museu da Electricidade reabilitou de maneira feliz aquele vestígio da nossa indústria novecentista, que é um contraponto moderno às jóias renascentistas que por ali subsistem; mas é também um bom exemplo de reconversão e recuperação patrimonial cujas linhas-mestras podem inspirar outros casos.
Falemos do edifício da Cordoaria (sobre o qual Rui Ortigão Neves publicou em 1998 nos Anais do Clube Militar Naval um interessante texto e aproveitáveis sugestões). Magnífico exemplar da arquitectura industrial de finais do Século XVIII, está desactivado como unidade produtiva desde há alguns anos e tem sido, em parte, utilizado como espaço de cultura para algumas exposições temporárias. É muito pouco – e nada expressivo – para a excelência do lugar e para as próprias qualidades do edifício. Com efeito, a sua alastrada planta térrea e as instalações agora disponibilizadas pelo encerramento do Instituto Superior Naval de Guerra (antigo Depósito de Tropas do Ultramar) tornam este espaço especialmente apropriado para abrigar um bom e digno espaço museológico ligado à memória da marinha e do ultramar – quiçá do espaço cultural da lusofonia – fazendo, de certa maneira, um contraponto ao Museu de Marinha, em relação ao enquadramento e à centralidade do Palácio da Belém, sede da Presidência da República.
Numa área de inter-conexão entre este palácio, o fronteiro jardim Afonso de Albuquerque, a antiga “central Tejo” e mesmo dialogando com a Cordoaria (numa ligação física que conviria pensar melhor e, em todo o caso, facilitar e melhorar – vide os restos de um baluarte de defesa ali existente e a elucidativa toponímia local: Rua do Cais da Alfândega Velha, Travessas dos Algarves, dos Escaleres, das Galeotas, etc.) situa-se agora o novo Museu dos Coches, com data de abertura ainda incerta. Era o local das desactivadas Oficinas Gerais de Material de Engenharia, anteriormente o nosso primeiro Parque Automóvel Militar. O seu reaproveitamento para fins culturais foi de todo justificado. Mas, sem tecer apreciações valorativas acerca do projecto arquitectónico, devem assinalar-se dois ou três pontos de dúvida, perplexidade ou discordância com aquilo que já se adivinha: um primeiro diz respeito à colecção que ali será exibida, havendo dúvidas de que, para além de parte substancial do acervo do actual museu, ela integre pelo menos as peças mais importantes das viaturas de tiro da derradeira Casa Real que se encontram na Tapada de Mafra e em Vila Viçosa; um segundo ponto refere-se à futura articulação entre o antigo museu e o novo edifício, não apenas em termos de ligação física (um túnel?) mas, sobretudo, se seria possível reverter o antigo Picadeiro Real à sua primitiva função, servindo como magnífico cenário (real ou figurado) para exibições equestres de “alta escola” e das mais esplendorosas carruagens daquela referida colecção; e um terceiro ponto questiona a falta de entendimento entre várias entidades, públicas e privadas, para que fosse possível instalar naquele lugar a sede da “escola de cavalaria portuguesa”. Parece que as pinturas e ornamentos interiores do belo edifício hípico setecentista dificilmente suportariam os efeitos do esforço das bestas. Se isso fosse confirmado pelos especialistas, naturalmente que as exibições equestres deveriam realizar-se “do outro lado da rua”. Mas seria aliciante que a Escola Portuguesa de Arte Equestre (decerto a melhor intérprete dessa tradição, dado o apagamento do ensino da equitação militar em Mafra), provavelmente de concerto com a Guarda Nacional Republicana, as entidades públicas veterinárias, a Federação Equestre Portuguesa, etc., viessem a viabilizar esse pólo de dinamização equestre-cultural, evocando também as condições (o terramoto de 1755) que levaram a Corte e as instituições do Poder de Estado a virem instalar-se em Belém, desenvolvendo a partir daí uma ocupação régia em toda aquela zona ao longo do Século XIX (jardins e quartéis de guarnição), incluindo uma articulação simbólica à Memória (do “despotismo esclarecido” de Sebastião José) e ao inacabado projecto da Ajuda.
À beira-rio, todos estes espaços são sítios da cidade merecedores de especial atenção, onde a Armada já esteve longamente implantada, com a base dos submarinos na doca de Belém, de que não existe hoje qualquer sinal, e a aviação naval e a defesa marítima do porto na doca do Bom Sucesso, de que já nem resta o monumento que assinalava a viagem aérea inaugural de Sacadura e Coutinho ao Brasil em 1922 (mas apenas o do voo ao Funchal que a antecedeu), uma “cábrea” que só os entendidos reconhecem e um antigo edifício hoje ocupado pela unidade costeira da GNR. Convinha talvez nele preservar a memória do local (ou no da corporação dos pilotos da barra, já esvaziado) com um pequeno espaço de descrição histórica, para melhor compreensão dessas antigas ocupações, à atenção de turistas estrangeiros e nacionais e das populações escolares em visitas de estudo. E com o que resta da arquitectura modernista da Exposição do Mundo Português de 1940 – com o último pavilhão hoje utilizado pela Associação Naval de Lisboa, o Padrão dos Descobrimentos e o antigo Museu de Arte Popular – justificar-se-ia porventura que nalgum desses espaços se desse conta do significado estético e político dessas iniciativas do Estado autoritário de Salazar.
A jusante da Torre de Belém e do forte do Bom Sucesso – onde estão dignamente homenageados os nomes dos que caíram nas últimas guerras do império – abre-se agora o vazio, em termos urbanísticos, o que pode constituir uma tentação para a próxima vaga de especulação imobiliária. Espera-se que o sentido de responsabilidade dos decisores políticos e a vigilância dos cidadãos consigam impedir tal destino. E que, sem recusar obras arquitectonicamente arrojadas – como já o foi a interessante torre (inclinada) de controlo da navegação no Tejo e a concessão feita à Fundação Champalimaud –, dali e da linha de costa que se prolonga pelas antigas praias de Algés, do Dafundo e da Cruz Quebrada se venham a configurar espaços e actividades de cunho marcadamente cultural e de intensa relação entre o Homem e o meio natural, de que foi exemplo o projecto de “estádio náutico Infante D. Henrique” dos anos 50, ou o poderão vir a ser as “marinas” de navegação de recreio que agora tanto atraem os investidores, o complexo proposto pelo empresário João Lagos para o seu “Estoril open” de ténis internacional ou mesmo a realização ali junto à ribeira do Jamor de um Museu do Desporto, projecto a que o falecido esgrimista Orlando Azinhais emprestou durante tantos anos todo o seu entusiasmo e saber.
É este um acervo de ideias e visões, de um mero cidadão, embora sem o necessário suporte técnico e financeiro. Aos especialistas e responsáveis institucionais competirá, evidentemente, o estudo aprofundado para qualquer concretização e decisão deste tipo. Mas também é verdade que, como escrevia no já citado texto Paulo Varela Gomes, «Lisboa é um assunto demasiado sério para ser deixado à elite lisboeta». E o mesmo reforçava: «Os lisboetas não são donos de Lisboa. São, quando muito, os seus locatários presentes. Têm como responsabilidade cuidar da cidade e passá-la em bom estado às gerações futuras». O que é uma asserção que, no fundo, ultrapassa em muito a gestão pública desta cidade.


JF / 28.Jun.2014

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sim e não

Eis-nos então chegados às datas tão anunciadas deste mês de Maio, com o fim do “programa de ajustamento” financeiro que condicionou decisivamente a economia portuguesa nestes últimos três anos e com a realização das eleições para o Parlamento Europeu, vistas com podendo exprimir mudanças políticas importantes (e perigosas) nas opiniões públicas europeias.
Sim – As medidas impostas pela troika de prestamistas internacionais foram violentas e mal calculadas, e atiraram mais de um milhão de pessoas para o desemprego, a falência, a aceitação de um trabalho mais precário e mal pago, a emigração e, para muitos, o desespero. Porém, ao fim de três décadas, foi só com tais medidas que os portugueses começaram a encarar a nossa economia face à sua realidade, no quadro europeu e mundial em que vivemos. Depois da perda do “império” e das breves tentações de um novo fechamento em autarcia (realmente comandado por outras razões supranacionais, mas de natureza mais política), a nossa entrada na CEE, e depois no Euro, foi em grande medida magnificamente desperdiçada, em favor de certos lóbis económicos e de um ilusório aumento de bem-estar da população, embora alguma infraestrutura vá permanecer durante umas décadas. Quando chegámos a 2005, vimo-nos desarmados perante a concorrência industrial do Oriente, com um sector público inchado e bastante ineficaz, sem crescimento e sem termos sido capazes de construir um modelo económico adaptado às novas condições externas. A “bancarrota” não foi uma falsa ameaça.
Não – Sendo real a inexistência de qualquer alternativa ao programa da troika (salvo a catastrófica saída “soberanista” do Euro), também é certo que nestes três últimos anos de sacrifícios pouco mais se fez do que algumas “privatizações” (que produziram receitas extraordinárias momentâneas), os cortes na despesa e aumentos de impostos, aliás com pouquíssimos efeitos na redução do défice orçamental e da dívida pública. Em saldo, ficou a evaporação de quase vinte por cento do PIB, provavelmente ainda aquém do “enriquecimento ilusório” em que vivíamos (graças ao crédito) e dos 30% que em tempos o economista Krugman dizia que “estavam a mais”. Isto talvez tenha sido suficiente para sossegar os mercados de capitais e os seus erráticos movimentos. Mas não se avançou muito no sentido de efectivas mudanças na economia, na sociedade e no Estado. E a Europa também não foi muito mais lesta nas reformas necessárias no âmbito financeiro, orçamental ou fiscal, o que até se compreende, dada a delicadeza e morosidade dos seus processos políticos (e ninguém quer ver afirmar-se um “directório”). Sobretudo, do ponto de vista moral e psicológico, não houve em Portugal coragem para atingir significativamente os interesses e os proventos da “classe política”, mais os seus conluios com o “poder económico” (tanto o grande como o pequeno) – como, por exemplo, em certa medida, fizeram os cidadãos islandeses. Isto nada resolveria no plano económico, mas muito contribuiria para reconciliar um pouco os cidadãos com a tomada de decisões políticas responsáveis, das quais eles estão hoje divorciados e descrentes. 
Sim – Os próximos tempos serão forçosamente de prolongamento da “austeridade” orçamental – mesmo que venha a haver alguma forma de reestruturação ou reescalonamento da dívida, para aliviar o seu peso estrangulador nas disponibilidades orçamentais, como propôs o “manifesto dos 74”. Dizem alguns que o risco principal vem mesmo do jogo partidário e do seu desejo de quererem seduzir os eleitores, o que acaba já de ter uma amostra na campanha eleitoral para as “europeias” com as meias-verdades do costume, as questiúnculas e as promessas demagógicas. (Uma pergunta nossa, de pormenor: não é ilícito o uso de símbolos nacionais que a “Aliança Portugal” fez nesta campanha eleitoral?) Mas, em todo o caso, foram estéreis e apenas para entreter a galeria as discussões dos últimos meses sobre “novo resgate”, “programa cautelar” ou “saída limpa”. Como foram de mero cálculo partidário os apelos do governo ao PS para prepararem em conjunto o “pós-troika” e as recusas deste até que fosse dada “a palavra ao povo”. Neste aspecto, só a proposta de “compromisso de salvação nacional” do Presidente se alçou um bocadinho acima dos interesses partidários, sendo curioso ver agora o que ele fará enquanto dispuser da prerrogativa de dissolver a assembleia e como reagirão então os partidos a uma sua eventual iniciativa. As acusações cruzadas dos dois alternantes no poder de que estão a “governar por uma cartilha ideológica” ou para “resolver os erros do passado” já a poucos convencem. Mas foi também evidente que, à medida que a legislatura foi correndo, os socialistas se iam “limpando” das suas responsabilidades passadas e a coligação governamental, sem precisar dos seus votos, ia tentando passar à prática algumas das suas orientações programáticas. E ninguém aqui quer entender que o povo está fartíssimo destes actores políticos – o que só pode aproveitar de imediato à extrema-esquerda – e que há mesmo uma parte dele que já não acredita nos mecanismos democráticos e que daria facilmente o seu apoio a uma qualquer solução política que lhe prometesse decisão, rigor e probidade. O que nos salva de uma corrida populista “à direita” é ainda a vacina que levámos do salazarismo.
Não – A composição política do novo Parlamento Europeu não deu a reviravolta que alguns temiam, graças também ao modo de escrutínio, à “distância” a que esse centro de poder se encontra dos eleitores e à conjuntura particular de cada país (que acaba por influir grandemente nestes resultados, tal como acontece com as consultas referendárias). Mas os scores da abstenção (57% no total, com 66% em Portugal) e do agrupamento dos ultra-nacionalistas e eurocépticos (com vitórias em França e no Reino Unido e expressivos resultados em outros países) são um aviso de que, se continuarem os falhanços políticos mais a crise económica e as desilusões, o projecto de “construção europeia” pode soçobrar no prazo de alguns anos. A maioria parlamentar e o equilíbrio entre o Partido Popular Europeu (PPE, centro-direita) e o campo social-democrata (PSE, centro-esquerda) manteve-se, com cerca de 400 em 750 lugares, o que é uma boa coisa se ambos subscreverem plataformas de consenso, alargado a liberais e verdes, quanto a alguns grandes princípios; porém, numa trajectória de perda na aceitação dos eleitorados e subida dos extremos, podem ambos remeter-se a uma defesa patética dos seus respectivos patrimónios, sem qualquer benefício para os povos da Europa.     
Sim – O resultado do referendo de Fevereiro na Suíça que irá limitar a imigração neste país e a circulação de pessoas na Europa foi uma vitória política de forças quase-xenófobas e, nesse aspecto, mais um sinal preocupante para o futuro de todos. Mas temos de convir que a política das esquerdas em matéria de movimentos migratórios dos países pobres em direcção à Europa tem sido sempre muito irrealista e ineficaz, ao defender à outrance o direito à imigração e limitar-se a acusar a extrema-direita de instrumentalizar o espantalho da “invasão”. É sabido que é a desigualdade económica que desencadeia estas atracções e que só uma canalização do investimento externo, juntando-se a outras condições locais favoráveis, poderá promover o desenvolvimento nesses países mais pobres susceptível de estancar tais fluxos humanos, sobretudo na forma dramática que estão actualmente a assumir para essas populações provenientes do centro de África. É verdade que não são, enquanto tais, as forças políticas de esquerda as mais bem colocadas para o fazer. Mas, enquanto detentoras de poderes estatais significativos desde há mais de meio-século, não parece que os tenham sabido usar neste sentido. Em todo o caso, a questão do afluxo de imigrantes à Europa não pode ser tratada no imediato nos termos antitéticos em que tem sido discutida: entre, de um lado, a “terra de acolhimento” para todos; e, do outro, uma “fortaleza Europa”. Uma cuidadosa política comum de imigração de extra-comunitários deveria combinar o acolhimento humanitário para todos os verdadeiros refugiados de situações pavorosas com a responsabilização política dos governos dos países de onde são originários, um esforço acrescido na ajuda ao seu desenvolvimento económico e social e, enfim, as conveniências demográficas e económicas da própria Europa. Como já tenho afirmado, a entrada maciça de imigrantes nos países europeus transforma-se sempre numa detestável “divisão-étnica-do-trabalho”. E a liberdade de movimentos no espaço europeu deveria porventura ser acompanhada de um maior controlo nacional (até por razões de segurança) e simultaneamente por maior número de regras comuns a todos os países, nomeadamente nos planos fiscal e judiciário.  
Não – Não é aceitável; mas deve ser compreensível. Das revoltas populares na Ucrânia e dos comportamentos do Kremlin já falámos há semanas atrás: e a situação só tem piorado. Mas o mundo está cheio de heranças envenenadas do passado (as “políticas de população” de estados autoritários, por exemplo), razões históricas que parecem ou se tornaram anacronismos aos olhos de hoje (casos de Ceuta e Melilla, e Gibraltar, nos dois bordos do Estreito), interesses estratégicos ou oportunísticos (os DOM/TOM franceses ou o destino da Cachemira), as fronteiras sempre incertas de uma Polónia entalada entre os colossos germânico e russo (caso agora recordado pela morte de Jaruzelski), etc. Naturalmente, o uso da violência deve ser evitado, por razões civilizacionais. Mas quando ocorrem acções de força – sejam revoluções, guerrilhas ou combates regulares –, seria bom que comentadores apresentassem retratos amplos e compreensivos da situação, quer no plano histórico, quer dos motivos, dos interesses e das forças em presença. Às pessoas, de ajuizar e tomar partido, se for o caso. Mas, na realidade, o espaço de informação pública transforma-se quase sempre – e não é de hoje – num campo de propaganda (quando não de manipulação) em favor de tal ou tal dos contendores.
Sim – O turismo em Portugal está em alta e ajuda a equilibrar as contas externas, os navios de cruzeiro vêm cada vez mais ao porto de Lisboa e a final da taça dos clubes campeões europeus de futebol foi um sucesso. Mas, por favor, depois de termos recusado ser a Cuba da Europa, não pensem agora em transformar o país na Miami da União Europeia. É interessante que haja capacidade para os cidadãos viajarem e alargarem os seus horizontes de contactos humanos e culturais. Mas é detestável que certos países, por necessidade, se tornem dependentes e especializados em proporcionar um destino temporário exótico aos ricos do mundo. A economia portuguesa só deve realmente afirmar-se internacionalmente pelas mercadorias aqui produzidas e pelos serviços qualificados que seja capaz de vender fora, de forma sustentada, sem truques monetários (desvalorização externa) ou manobras financeiras (como mirífico paraíso fiscal ou praça bolsista), e não também por ser um mero exportador de mão-de-obra. Até porque, além do problema da sazonalidade, o turismo é extremamente sensível a qualquer perturbação de natureza psicológica que afecte a confiança ou a segurança das pessoas (cataclismos, acidentes, crimes, violência política, etc.). Que o digam países como o Egipto ou outros da sua área que tanto haviam apostado neste tipo de negócio e agora suportam mais essa decisiva quebra de rendimento económico!
Não – O Médio Oriente não deve continuar indefinidamente com guerras civis na Síria e no Afeganistão, o bombismo no Iraque ou no Paquistão e o conflito israelo-palestiniano sempre latente. Têm fracassado todas as intervenções armadas ocidentais, as várias conferências internacionais ou os “processos-de-paz” negociais. A ONU também parece bloqueada ou impotente para dar qualquer passo positivo nesta matéria. Por isso, apesar de não ser propriamente um neutro na região, foi bem-vinda a iniciativa do Papa Francisco de se deslocar àqueles lugares e de convidar os seus responsáveis políticos a um maior empenho pela paz e pela dignidade dos povos. A eficácia do gesto pode ser nula mas, ao menos, a responsabilidade pessoal desses dirigentes poderá ficar um pouco mais agravada.      
Sim e não – quanto às passadas celebrações dos 40 anos do 25 de Abril. No conjunto, pode dizer-se que foram = 25% de boas memórias; 25% de revivalismo; 25% de luta política; e 25% de “como apresentar uma revolução em plástico para uso das gerações jovens”.
JF / 26.Mai.2014

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